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Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

(263) O homem, lobo do homem

Tempo estimado de leitura: 10 minutos.

 

O homem “não é uma criatura terna e necessitada de amor, que só se defenderia se fosse atacado, mas antes pelo contrário, é um ser em cujos instintos se deve incluir uma grande dose de agressividade”, é “uma besta selvagem sem o menor respeito pelos seres da sua própria espécie”, com uma “inclinação inata para a maldade, a agressão, a destruição e também para a crueldade”, Freud.

 

Fontes de sofrimento que impedem o homem de ser feliz: o poder superior da natureza, a fragilidade do nosso corpo e a inadequação das regras que praticamos na nossa vida social, Freud.

 

O valor de liberdade individual não constitui a finalidade do desenvolvimento da civilização, Freud.

 

O destino da espécie humana será decidido pela circunstância de se – e até que ponto – o desenvolvimento cultural conseguirá fazer frente às perturbações da vida coletiva originadas pelo instinto de agressão e de autodestruição, Freud.

 

 

 

É no Capítulo III do Mal-Estar na Civilização, que Freud nos vai explicar as teses que defende sobre o que é a civilização, através de uma brilhante exposição, simultaneamente esclarecedora e ambivalente, em que nos revela a aplicação do conceito filogenético (segundo o qual o desenvolvimento de um organismo refletiria exatamente o desenvolvimento evolutivo da espécie) à origem de uma civilização repressiva em si, abordando ainda a possibilidade, ou não, da conciliação entre as necessidades do indivíduo e as da civilização.

 

Freud começa por analisar aquilo que considera serem as três fontes de sofrimento que impedem o homem de ser feliz: o poder superior da natureza, a fragilidade do nosso corpo e a inadequação das regras que praticamos na nossa vida social.

Quanto às duas primeiras, reconhece serem uma inevitabilidade facilmente aceite por todos. Já o mesmo não se passa relativamente à fonte social de sofrimento, em virtude de se tratar de algo que nós próprios criámos para vivermos melhor em sociedade. Chama-nos, contudo, a atenção para o facto de essa própria criação poder ser inevitável, devido à nossa constituição psíquica ser limitada.

Em qualquer dos casos, a nossa civilização seria a culpada da nossa infelicidade.

 

Mas, tal assunção poderá levar a que apressadamente se possa concluir que poderíamos ser mais felizes se abandonássemos a nossa civilização, regressando ao estado primitivo, onde a vida era simples, com poucas necessidades.

Tal conclusão teria por base as observações sobre a vida que os novos povos primitivos descobertos levavam, onde, aparentemente, a felicidade reinava, e sobre os casos recentes de pessoas neuróticas devido à sua inadequação em suportar a frustração imposta pelas normas da sociedade, e que certamente seriam felizes se estas normas fossem retiradas.

Ao que se poderia ainda acrescentar o facto de o enorme progresso técnico e científico que se tem verificado não nos ter trazido mais felicidade, apesar de todos os avanços e suas aplicações que contribuíram para o nosso bem-estar. E não nos devemos esquecer que todas as coisas que procurámos para nos proteger da nossa infelicidade, fomos e vamos busca-las a essa mesma civilização.

O que o leva a concluir que “o poder sobre a natureza não constitui a única precondição da felicidade humana, assim como não é o único objetivo do esforço cultural” . O que isso significa é que “não nos sentimos confortáveis na civilização atual”.

 

Mas como saberemos objetivamente se os homens de outros tempos eram mais felizes? Sendo a felicidade um conceito subjetivo, por mais que nos queiramos pôr no lugar deles, não poderemos nunca sentir o que eles sentiam. Pelo que esta via de raciocínio não nos conduzirá a nada.

 

 

Passa então a definir o que entende por cultura/civilização, palavra “que descreve a soma integral das realizações e regulamentos que distinguem as nossas vidas da dos nossos antepassados animais, e que servem dois intuitos, a saber: o de proteger os homens contra a natureza e o de ajustar os seus relacionamentos mútuos “.

 

 No respeitante à proteção dos homens contra a natureza, diz-nos que os primeiros atos de civilização foram a utilização de instrumentos, a construção de habitações e o controle sobre o fogo, sendo este último o mais importante. Com a ciência e a tecnologia que desenvolveu, o homem pensa que tudo pode, tornando-se uma espécie de “Deus de prótese”  e mesmo crendo nisso não se sente feliz neste seu papel semelhante a Deus.

Define uma civilização como sendo de alto nível quando, tudo o que puder ser útil para o homem (tudo o que o puder ajudar na exploração da natureza e na proteção contra as suas forças), estiver disponível para si e ao seu alcance.

Mas considera também como sinal de civilização, as preocupações dos homens para com aquilo que não tenha valor prático, que não dê lucro, ou seja, com a beleza.

O asseio e a ordem são outras das exigências que a civilização deve de comportar.

Contudo, aquilo que para ele mais identifica uma civilização é o seu grau de apreço pelas atividades mentais, as suas realizações intelectuais, científicas e artísticas, bem como o papel que as ideias desempenham, nomeadamente as que se encontram nos sistemas religiosos, na filosofia e nas ideias de perfeição e aperfeiçoamento do homem e da humanidade.

 

Quanto à segunda parte da sua definição de civilização, a que tem que ver com o modo como são regulados os relacionamentos entre os homens, começa por nos lembrar que a civilização aparece quando pela primeira vez se tentaram regular esses relacionamentos sociais, evitando assim ficar-se dependente da arbitrariedade e poder dos fisicamente mais fortes.

 O aparecimento do poder da comunidade em vez do poder de um indivíduo, é o passo decisivo para a civilização, mesmo que isso seja feito à custa de uma perca de parte da possibilidade de satisfação dos membros da comunidade.

 Daí a primeira exigência da civilização ser a justiça, a fim de garantir que uma lei uma vez criada, não seja violada a favor de um indivíduo. Esta perca de satisfação dos membros da comunidade é feita à custa de um sacrifício dos seus instintos.

Pelo que o valor de liberdade individual não constitui a finalidade do desenvolvimento da civilização, porquanto o máximo de liberdade individual pré-existe à civilização, que só a vai restringir.

 Daí que este impulso de liberdade apareça dirigido contra exigências específicas da civilização ou contra a civilização no geral: o homem defenderá sempre a sua liberdade individual contra a vontade do grupo.

 

Seja como for, o facto é que no caminho para a civilização, o guia para a alcançar é o sentimento comum. Ressalva, no entanto, que civilização não é sinónimo de aperfeiçoamento. Contudo, este caminho para a civilização pode levar a alterações de instintos dos seres humanos, o que, de certa forma, pode contrariar a ressalva acima feita.

Como exemplos apresenta o erotismo anal da criança, onde o seu interesse pela função excretória e seus produtos, se vai transformar ao longo do crescimento em parcimónia, ordem e limpeza, exatamente as mesmas exigências que foram consideras importantes para a civilização.

Freud impressiona-se por esta semelhança entre os processos da civilização e o desenvolvimento libidinal do indivíduo.

E apresenta ainda os casos em que se assiste à deslocação das condições de satisfação para outros caminhos, que é o que se passa com a sublimação dos instintos.

A sublimação desempenha um papel muito importante, pois é através dela que as atividades científicas, artísticas e ideológicas se tornam possíveis. Freud não tem dúvidas de que “a sublimação constitui uma vicissitude que foi imposta aos instintos de forma total pela civilização”.

Finalmente, ao considerar a civilização como sendo construída pela renúncia ao instinto, à não satisfação desses instintos, conclui que o campo dos relacionamentos sociais é dominado por esta “frustração cultural”, causa da hostilidade nas civilizações.

E conclui, opinando que “o desenvolvimento da civilização constitui um processo especial, comparável à maturação normal do indivíduo”.

 

A Ambivalência Esclarecedora como método

 

Através de exemplos sempre paralelos, em que a par de uma referência retirada da civilização, facto ou acontecimento histórico específico, apresenta um correspondente desenvolvimento humano, Freud vai sistematicamente carreando argumentos que nos conduzem até à conclusão apresentada no último parágrafo do capítulo, na qual nos diz que “o desenvolvimento da civilização constitui um processo especial, comparável à maturação normal do indivíduo” (8).

Ao atribuir à fonte social de sofrimento constituída principalmente pela nossa própria constituição psíquica uma das três formas de infelicidade, Freud não é suficientemente claro sobre a sua, ou não, inevitabilidade, mas responsabiliza-nos por ela.

E é esta ambivalência envolvente que ao longo do texto desenvolve: é assim que a civilização é por um lado a grande responsável pela nossa desgraça e simultaneamente a proteção da infelicidade; o progresso traz felicidade (vias de comunicação, contactos mais facilitados entre as pessoas, aumento de idade, e outros), mas de que adianta uma vida mais longa que só dará aso a mais tempo para desgraças?

É ao desenvolvimento da nossa cultura que ficamos a dever o que de melhor nós somos, mas também lhe ficamos a dever grande parte dos nossos sofrimentos. Estes sofrimentos, estes sentimentos de mal-estar, são o preço que temos de pagar para apreciarmos as imensas vantagens que tiramos da cultura. Não há, pois, cultura sem essa inquietação, não sendo possível existir civilização sem descontentamento.

 

Esta ambivalência utilizada por Freud como método expositivo, é muito mais do que isso: revela um autor que não nos pretende convencer escamoteando o conhecimento, que o expõe nas suas várias vertentes, aduzindo argumentos a favor de todos para logo nos apresentar uma outra possível alternativa, dentro de um sistema coeso em desenvolvimento.

 Talvez até seja fruto da sua postura de aprendizagem psicanalítica, onde todos os fatores teriam de ser contemplados, sem prévia preferência, ou mesmo da sua conceção de homem e da sociedade, sempre dependente e oscilante entre a busca do prazer e a agressividade.

 

Liberdade e felicidade, sentimento de culpa e agressividade

 

Freud vai interrogar-se sobre a compatibilidade entre as necessidades do indivíduo e as da civilização e se a acomodação portadora de felicidade, entre as reivindicações do indivíduo e as reivindicações culturais do grupo, “pode ser alcançada por meio de alguma forma específica de civilização ou se esse conflito é irreconciliável”.

Para Freud, a liberdade do indivíduo não constitui um dom da civilização. Aliás, é o próprio desenvolvimento da civilização que impõe restrições à liberdade e, por sua vez, a justiça (“primeira exigência da civilização”) vai impedir a fuga a essas restrições, ao garantir que o indivíduo não possa violar a lei em seu favor.

Apesar disto, a revolta de uma comunidade humana contra uma injustiça pode originar um progresso na civilização, sendo, portanto, compatível com a civilização, e por outro lado a revolta do indivíduo baseada nos “remanescentes de sua personalidade original” ainda não domada pela civilização, pode converter-se numa hostilidade contra a civilização em geral.

E segue explicando, que é sua intenção

              “Apresentar o sentimento de culpa como o problema capital do desenvolvimento da civilização e de nos fazer ver porque é que o progresso desta deve ser pago por uma perca de felicidade devido ao reforço desse sentimento” .

 Ou seja, Freud não tem dúvida em estabelecer uma relação entre o progresso da civilização e o crescimento do sentimento de culpa.

Há mesmo uma necessidade de reforçar o sentimento de culpa:

 

             “Como a civilização obedece a uma pulsão erótica interna com a finalidade de unir os homens numa massa mantida intimamente amalgamada, esse objetivo só poderá ser alcançado através de uma constante e progressiva acentuação do sentimento de culpa. O processo que começou pelo pai vai concluir-se com a massa. Se a civilização é a via indispensável para que se faça evolução da família para a humanidade, então este reforço está intimamente ligado a esse percurso, quer como consequência do conflito de ambivalência com o qual nascemos, quer devido à querela eterna entre o amor e o desejo da morte. E, talvez um dia, esta tensão do sentimento de culpa venha a atingir um nível tão alto que tal se torne difícil de ser suportado pelo indivíduo”.

 

Daqui se infere que a sociedade civilizada se encontra permanentemente ameaçada de desintegração, devido a uma hostilidade primordial dos homens, o que a leva a pôr barreiras para tentar dominar essas tendências agressivas.

 

O homem “não é uma criatura terna e necessitada de amor, que só se defenderia se fosse atacado, mas antes pelo contrário, é um ser em cujos instintos se deve incluir uma grande dose de agressividade”, é “uma besta selvagem sem o menor respeito pelos seres da sua própria espécie”, com uma “inclinação inata para a maldade, a agressão, a destruição e também para a crueldade”.

 

Lapidar é frase que Freud escolhe para descrever o homem na sua relação com o seu semelhante:

 

 “Homo homini lupus”.

 

 É esta tendência agressiva do homem, que Freud crê instintiva, inata e autónoma, que constitui o maior obstáculo à civilização. Sabendo isto, o que é que a civilização poderá fazer para controlar ou tornar inofensivos estes desejos agressivos?

 

Seguindo a história evolutiva do indivíduo, Freud vai dizer-nos que a agressão é internalizada, “devolvida ao sítio de proveniência, ao próprio ego, incorporando-se numa parte dele que na qualidade de superego se opõe à parte restante assumindo a função de consciência [moral], que vai tratar o ego com o mesmo grau de agressividade com que este, de bom grado, teria satisfeito essas mesmas pretensões. O sentimento de culpa que se manifesta sob a forma de necessidade de castigo, é o resultado da tensão criada entre o severo superego e o subordinado ego”.

 

Donde, a forma com que a civilização poderá dominar a agressividade individual será enfraquecendo-a, desarmando-a e pondo-a debaixo de vigilância por uma entidade alojada no seu interior.

 

Resumindo: os objetivos do desenvolvimento do indivíduo e o da civilização são diferentes. O indivíduo tem como primeiro objetivo alcançar a felicidade, mas para a civilização tal objetivo não consta entre os que lhe são atribuídos por Freud (limpeza, ordem, beleza, justiça), o que significa que a civilização lhe irá impor restrições para a sua realização.

 Estas restrições levarão a uma insatisfação crescente do indivíduo que tem de ser reprimida e sublimada (desvio da pulsão), o que leva à situação estranha de a civilização para progredir necessitar de reprimir as pulsões, mas ao fazê-lo irá aumentar a insatisfação dos seus membros.

 

Concluindo

 

Ao dizer que “a civilização foi conquistada devido à renúncia da satisfação dos instintos e exige de todo o novo indivíduo a repetição de tal renúncia”, Freud leva-nos a concluir que a civilização é fundada na repressão dos instintos. Não pode, pois, haver coincidência entre as necessidades do indivíduo e as necessidades da civilização.

 

Ao comparar o desenvolvimento da civilização à maturação normal de um indivíduo, uma vez que as experiências da infância de cada indivíduo ficam ligadas às experiências da espécie, e dado que essas experiências determinantes da infância são baseadas nas tendências instintivas, Freud vai fazer depender o destino da humanidade das tendências dos instintos.

E o controlo destes instintos não é nem efetivo, nem previsível, o que não permite programadamente impor modificações à nossa civilização de forma a alcançarmos uma felicidade.

 

Reconhece que “o homem civilizado tinha trocado uma parte da sua possível felicidade por segurança; não nos devemos, contudo, esquecer que na família primitiva só o chefe é que gozava da liberdade dos instintos, ao passo que os outros viviam oprimidos como se fossem escravos”.

 

E, contudo, embora o desígnio da felicidade seja irrealizável, reconhece também que “não se deve – nem se pode – abandonar os esforços para nos aproximarmos, seja como for, da sua realização”. E isto, não porque saiba qual vai ser o final desta luta da civilização, nem mesmo se esta tendência civilizacional ligada à restrição da vida sexual e à implantação dum ideal humanitário é mesmo uma lei inexorável da Natureza, mas pela contribuição da luta sempre constante e indecisa entre as forças da vida e as da morte.

O destino da espécie humana será decidido pela circunstância de se – e até que ponto – o desenvolvimento cultural conseguirá fazer frente às perturbações da vida coletiva originadas pelo instinto de agressão e de autodestruição”.

 

 

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