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Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

(251) A mensagem imperial

Tempo estimado de leitura: 3 minutos.

 

Bordões a que nos agarramos.

 

Justamente só a ti, o Imperador enviou uma mensagem do seu leito de morte.

 

Quão fúteis são os seus esforços.

 

Mas tu sentas-te à janela, a sonhar com o que seria a mensagem, enquanto cai a noite.

 

 

 

Para além das novelas mais comummente conhecidas de Franz Kafka, contam-se um sem número de deliciosas pequenas histórias e parábolas, algumas das quais permanecerão para sempre profundamente atuais por representarem maneiras de estar, sentir e interpretar a realidade que perduram quase como de mitos se tratassem. Fazemos, dizemos, sentimos coisas sem saber bem porque o fazemos, dizemos e sentimos. Bordões a que nos agarramos. Na realidade, quase 300.000 anos de constatações que, melhor ou pior, verdadeiras ou falsas, nos foram permitindo sobreviver. Até agora.

É o caso desta parábola “Uma Mensagem do Imperador”, escrita em 1917, publicada separadamente em 1919 (originalmente estava incluído numa história maior, “A Grande Muralha da China”, só aparecida postumamente em 1930).

 

 

                                       Uma Mensagem do Imperador

 

 

O Imperador, assim diz uma parábola, enviou-te a ti, o mais humilde, o mais insignificante dos seus súbditos, a sombra que fugiu para a distância mais distante, microscópica perante o sol imperial; justamente só a ti, o Imperador enviou uma mensagem do seu leito de morte.

Fez ajoelhar o mensageiro ao lado da cama e sussurrou-lhe ao ouvido a mensagem; tão importante lhe pareceu a mensagem, que lhe pediu para repetir. Assentindo com a cabeça, o Imperador confirmou a exatidão da repetição.

 E diante dos espectadores reunidos para contemplar a sua morte - todas as paredes que impediam a visibilidade tinham sido derrubadas, e na ampla e larga curva da grande escadaria os grandes do Império formavam um círculo -, diante de todos, ordenou ao mensageiro que partisse.

O mensageiro saiu imediatamente; um homem robusto e incansável; empurrando primeiro com o braço direito, depois o esquerdo, abre caminho através da multidão; quando encontra um obstáculo, aponta para o sinal do símbolo solar que traz ao peito; avança assim muito mais facilmente do que qualquer outro.

 Mas as multidões são enormes; em números sem fim. Se diante dele tivesse campo livre, como ele voaria, e como em muito pouco tempo ouvirias o som glorioso de seus punhos a bater à tua porta.

Mas, em vez disso, quão fúteis são os seus esforços; ainda está agora a abrir caminho através das câmaras do interior do palácio; nunca conseguirá chegar ao fim delas; e mesmo que terminasse, não teria avançado muito; ele ainda teria que esforçar-se para descer as escadas; e se o conseguisse, não teria avançado muito; teria ainda que atravessar os pátios; e depois dos pátios, o segundo palácio circundante; e novamente as escadas e os pátios; e novamente um palácio; e assim por milhares de anos; e quando ele finalmente atravessa-se a última porta - mas isso nunca iria acontecer - ainda teria de atravessar a capital, o centro do mundo, onde os que pertenciam à sua classe se acumulavam prodigiosamente.

Ninguém poderia passar por ela, muito menos com a mensagem de um homem morto. Mas tu sentas-te à janela, a sonhar com o que seria a mensagem, enquanto cai a noite.

 

 

 

 

Notas:

  1.  

Kafka, Franz, The Complete Stories by Franz Kafka, Schoken Books Inc., New York, 1978 (https://www.vanderbilt.edu/olli/class-materials/Franz_Kafka.pdf).

  1.  

Ver blog de 5 de julho de 2017, “As Josefinas cantoras” (https://otempoemquevivemosotempoemquevivemos.blogs.sapo.pt/118-as-josefinas-cantoras-31842), sobre outra curta história de Kafka, “Josefina, a Cantora, ou o Povo dos Ratos”.

  

 

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