(250) O nazismo nada tem de banal
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Fazer o mal não é universal ou necessário: é fruto, e apenas, da ação humana.
Nada há de banal em Eichmann ou nos seus burocráticos camaradas nacional-socialistas (o camarada Heidegger era tudo menos banal e deu a sua contribuição), uma vez que todos eles desempenharam conscientemente os seus papéis de assassinos, dado que a finalidade de eliminar os indesejados era já patente, pública e inscrita na obra Mein Kampf, desde meados dos anos vinte.
O mal é a aniquilação de um bem possível e realizável que não foi realizado. O que os nazis aniquilavam não era a vida já vivida, mas a vida por viver.
Estamos, portanto, perante o «mal radical», que é o que resulta da eliminação do possível.
Após Hannah Arendt (1) ter introduzido, nos seus escritos efetuados durante o julgamento de Eichmann em Jerusalém, o conceito de “banalidade do mal”, muitos têm tentado, abusiva e incorretamente, utilizar esse conceito como uma desculpa para considerarem que o nazismo, apesar de ideologia que promovia o mal, seria, apesar de tudo, uma expressão naturalmente humana, por isso banal.
É facto, que se criticarmos o nazismo apenas pelos meios usados (e é isso o que normalmente se faz), desde os utilíssimos campos de concentração aos normalíssimos fuzilamentos, aos simples e banais enforcamentos e gaseamentos industrialmente programados, teremos de reconhecer que nada de novo tais ações introduziram na história da humanidade.
E têm razão. Tudo isso se inscreve no trivial e banal da humanidade. Não é, contudo, por isso que o nazismo é abominável.
A enorme divulgação de Mein Kampf, quer externa quer internamente (além das compras individuais, o Estado nazi adquiriu milhões deles -- a título de curiosidade, Hitler recebia por cada livro uma certa percentagem, depositada diretamente na sua conta bancária pessoal --, que distribuía profusamente pelas suas chancelarias, bem como, a nível mais prosaico, oferecia a todos os noivos arianos como prenda de casamento), torna impossível de acreditar que nenhum entre os seus apoiantes se tenha apercebido do projeto de nazificação do mundo como não sendo um projeto banal.
Esta mesma estranheza é manifestada por Américo Pereira, professor de filosofia na Universidade Católica Portuguesa:
“nada há de banal em Eichmann ou nos seus burocráticos camaradas nacional-socialistas (o camarada Heidegger era tudo menos banal e deu a sua contribuição)”, uma vez que todos eles desempenharam conscientemente os seus papéis de assassinos, dado que a finalidade de eliminar os indesejados era já patente, pública e inscrita na obra Mein Kampf, desde meados dos anos vinte.
Após ter lido Mein Kampf, Winston Churchill, na sua obra, A Segunda Guerra Mundial (The Second World War, vol. II, Boston, Houghton Mifflin Company, s. d., pp. 50-51), resumiu da seguinte forma a teoria da ideologia nazi:
“A tese principal de Mein Kampf é simples. O homem é um animal lutador; assim sendo, a nação, sendo uma comunidade de lutadores, é uma unidade de combate. Qualquer organismo vivo que cesse de lutar pela sua existência está condenado à extinção. País ou nação que cessem de lutar estão igualmente condenados. A capacidade de luta de uma raça depende da sua pureza. Daqui a necessidade de a libertar de conspurcações vindas do exterior.
A raça judaica, devido à sua universalidade, é, por necessidade, pacifista e internacionalista. O pacifismo é o mais mortal dos pecados, pois significa a rendição da raça na luta pela existência.
O primeiro dever de qualquer país é, assim, o de nacionalizar as massas. A inteligência, no caso do indivíduo, não é de primeira importância; vontade e determinação são as qualidades principais. O indivíduo que nasceu para comandar é mais valioso do que os incontáveis milhares de naturezas subordinadas.
Apenas a força bruta pode assegurar a sobrevivência da raça; daqui a necessidade de uma matriz militar. A raça deve lutar; uma raça inativa deve enferrujar e perecer. Se a raça Alemã tivesse estado unida em devido tempo, já seria senhora do globo.
O novo Reich deve recolher no seu seio todos os elementos Alemães dispersos pela Europa. Uma raça que sofreu a derrota pode ser salva através da restauração da sua confiança em si própria. Acima de todas as coisas, o Exército deve ser ensinado a acreditar na sua mesma invencibilidade.
Para restaurar a nação Alemã, o povo deve estar convencido de que a recuperação da liberdade pela força das armas é possível. O princípio aristocrático é fundamentalmente correto. O intelectualismo é indesejável.
O fim último da educação consiste em produzir um Alemão que possa ser convertido, com um mínimo de treino, num soldado. As grandes sublevações na história teriam sido impensáveis não fora a força motriz das paixões fanáticas e histéricas. Nada poderia ter sido efetuado pelas virtudes burguesas de paz e ordem.
O mundo está presentemente a mover-se no sentido de uma tal sublevação, e o novo Estado Alemão deve proceder de modo a que a sua raça esteja pronta para as derradeiras e mais grandiosas decisões sobre esta terra. A política externa deve ser totalmente sem escrúpulos. Não é tarefa da diplomacia permitir que uma nação se afunde heroicamente, mas, antes, proporcionar que possa prosperar e sobreviver.
A Inglaterra e a Itália são os dois únicos aliados possíveis para a Alemanha. Nenhum país entra para uma aliança com um Estado cobardemente pacifista, dirigido por democratas e Marxistas. Se a Alemanha não esgrimir em seu próprio benefício, ninguém o fará por ela. As suas províncias perdidas não podem ser recuperadas por meio de solenes apelos ao Céu ou de piedosas esperanças postas na Liga das Nações, mas apenas através da força das armas.
A Alemanha não deve repetir o erro de lutar contra todos os seus inimigos ao mesmo tempo. Deve isolar o mais perigoso e ataca-lo com todas as suas forças. O mundo só deixará de ser antialemão quando a Alemanha recuperar a igualdade de direitos e retomar o seu lugar ao sol. Não deve haver qualquer sentimentalismo relativamente à política externa da Alemanha. Atacar a França por causa de razões puramente sentimentais seria uma tolice.
Do que a Alemanha precisa é de um aumento de território na Europa. A política colonial anterior à guerra foi um erro e deve ser abandonada. A Alemanha deve procurar expandir-se para a Rússia, especialmente para os Estados Bálticos. Nenhuma aliança com a Rússia pode ser tolerada. Travar guerra em conjunto com a Rússia contra o Ocidente seria criminoso, pois o objetivo dos Soviéticos é o triunfo do Judaísmo internacional. Tais eram os “pilares de granito” da sua política.” (2)
Foi este entendimento sobre o nazismo que permitiu a Churchill ver que o projeto de nazificação do mundo proposto por Hitler, nomeadamente no que se referia à eliminação dos indesejados, era uma abominação. Nada tinha de banal.
Perante o redutor e sempre omnipresente nada, só a prática de uma ação, qualquer ação, se lhe poderá opor. Sempre que se pratica uma ação, ocupa-se uma parte do nada. É este sentido de oposição ao nada que faz com que qualquer ação humana seja considerada ética, independentemente da sua correção ou não. Recordemos que a ética não é a ciência da bondade, mas sim a ciência da ação humana, boa ou má. É o estudo do fundamento da ação do ser humano.
É por isto que qualquer ato ético é em si um bem, e não pode por isso mesmo ser considerado mau ou bom; pode até ser um ato mau, mas, pelo simples facto de se opor ao nada, já é ético.
Daqui se infere que o ser humano só o é quando pratica uma ação, qualquer ação, pelo que o impedir o ser humano da possibilidade de a fazer ou de a praticar, é negar a condição mínima para se ser humano. “Se se eliminar toda a possibilidade, nada resta, em absoluto”.
E isto é o que intencionalmente o nazismo faz: coarta a possibilidade de se ser ser humano.
Foi exatamente isso que os nazis levaram eficazmente à prática com a sua prática política nos campos de concentração e fora. O estado de total indiferença e inércia a que psicologicamente conduziam os seus inimigos, os indesejados judeus, ciganos, negros, comunistas, sindicalistas, os incuráveis, doentes mentais, as crianças que não podiam trabalhar, etc., retirando-lhes qualquer veleidade e possibilidade de ação, era reduzi-los a um nada relativo. Era negar-lhes a possibilidade de serem humanos.
Entenda-se que a morte, a aniquilação de um bem (a vida), não é em si um mal. O mal é a aniquilação de um bem possível e realizável que não foi realizado. Era isso que os campos de concentração aniquilavam. O que os nazis aniquilavam não era a vida já vivida, mas a vida por viver.
Independentemente do que digam sobre as suas intenções-motivações, os nazis produziam efeitos sobre a realidade, para que ela fosse o que eles desejavam que deveria ser. Era a imposição da sua vontade sobre o mundo, recriando uma nova definição do que era ser humano, à sua maneira.
Sempre que a ação humana podendo realizar o bem, não o realiza, manifesta-se a presença do mal. Pior ainda, e foi o que aconteceu, é quando o mal mata o bem ainda como possível, eliminando a possibilidade de qualquer ação. Neste caso, estamos perante o mal radical, que é o que resulta da eliminação do possível.
Sigamos Américo Pereira quando conclui que “o mal é algo de trivial, não no sentido da banalidade do mal de Arendt […] mas no sentido em que o mal é humanamente transcendental quer porque toda a humanidade – cada um de nós – o pode realizar, quer porque, historicamente, toda a humanidade o tem realizado.” (3)
Poder fazer o mal é universal e necessário, fazer o mal não é universal ou necessário: é fruto, e apenas, da ação humana.
- Arendt, Hannah, Eichmann em Jerusalém, uma reportagem sobre a banalidade do mal. Sobre estes assuntos, ver blogs dos dias 09, 16, 23 e 30 de março de 2016, “Nazis nas escolas”, “Nazis fora das escolas”, “Vida como obediência”, “Autoridade pilar da sociedade”, ( https://otempoemquevivemosotempoemquevivemos.blogs.sapo.pt/2016/03/). E ainda, de 27 setembro2017, “Os ovos da serpente”, (https://otempoemquevivemosotempoemquevivemos.blogs.sapo.pt/2017/09/).
- Pereira, Américo, “(Se) Questo è un Uomo, Leitura ética, política e ontológica da obra de Primo Levi”, lusosofia.net, (http://www.lusosofia.net/textos/20140725-pereira_americo_2014_se_questo_e_un_uomo.pdf).
- Pereira, Américo, “Seven”, lusosofia.net, (http://www.lusosofia.net/textos/20170928-pereira_americo_2017_seven.pdf)