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Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

(248) Selvagens são os outros

Tempo estimado de leitura: 3 minutos.

 

Sobre os rios da Babilónia, / Ali nos sentámos e chorámos, / Quando nos lembrámos de Sião, salmo 136. Super flumina Babylonis.

 

Como sempre na Antiguidade, as mulheres que sobrevivem ao saque das cidades eram distribuídas como objetos (na Ilíada 23.705, uma mulher tem o valor de quatro bois) que passavam a pertencer aos homens vencedores.

 

O problema está na própria guerra e na noção de que a mulher não passa de objeto que pertence a um homem.

 

A força dos Salmos é que mostram a natureza humana como ela é; não como ela deveria ser.

 

 

 

 

Durante o acasalamento da cobra real, o macho, normalmente maior, enrola-se à volta da fêmea, procedendo ao ato. Acontece que por vezes, depois de completado o ato (só depois, comportamento que o homem parece ter conservado), o macho mata e come a fêmea (nada também que não aconteça ao revés em outras espécies). Só que neste caso, tal só acontece se a cobra macho verificar (sentir, apalpar, etc.) que a fêmea esteja já grávida de outro macho.  

A finalidade não é matar a fêmea, mas antes aniquilar os filhos que não sejam seus. Tal comportamento é por nós visto com uma certa indiferença, não só pela repulsa instintiva que normalmente nos causam as cobras, como por serem cobras, animais inferiores e que pouco nos dizem.

 

Mas vejamos o que acontece com uma espécie mais próxima de nós e muito em voga (enquanto existe) nos nossos documentários, fotografias, circos, estádios de futebol: os leões.

O novo leão pretendente a dominar a alcateia, após ter lutado e derrotado o macho chefe, expulsa-o, passando assim a poder acasalar em exclusividade com todas as fêmeas do grupo. Para garantir que todas as fêmeas se encontrem rapidamente à sua disposição, e uma vez que enquanto elas estiverem a amamentar não entram em cio, matam propositadamente todos os queridos pequenos leões filhos do macho derrotado. Chocante vermos aquelas cenas. Mas o que se deve esperar de irracionais senão um comportamento selvagem, não é?

 

Do livro dos Salmos, que faz parte d’Os Livros Sapienciais da Bíblia, e que contém a antiga poesia lírica de Israel (desde a grande antiguidade até, porventura, ao século II a.C.) sendo talvez o livro com que os cristãos estão mais familiarizados em virtude da sua leitura (e canto) fazer parte das diferentes liturgias dominicais nas igrejas cristãs do mundo, passo a transcrever o salmo 136. Super flumina Babylonis:

 

Sobre os rios da Babilónia,

Ali nos sentámos e chorámos,

Quando nos lembrámos de Sião.

Sobre os salgueiros no meio dela pendurámos os nossos instrumentos.

Porque ali os nossos captores nos pediram palavras de cantos;

E os que nos levavam pediam um hino:

«Cantai-nos um dos cantos do Sião!»

Como havemos de cantar um canto do Senhor em terra estrangeira?

Se eu me esquecer de ti, Jerusalém, que seja esquecida a minha dextra.

Cole-se a minha língua à minha garganta, se eu não te recordar;

Se eu não puser Jerusalém em início da minha alegria.

Lembra-te, Senhor, dos filhos de Edom em relação ao dia de Jerusalém;

Eles que disseram: «Esvaziai, esvaziai, até à pedra da fundação nela!»

Filha da Babilónia, a rebaixada!

Bem-aventurado aquele que te dará de volta a tua retribuição, a que nos deste a nós!

Bem-aventurado aquele que agarrará e atirará os teus bebés contra a rocha.

 

 

Na nota sobre a bem-aventurança final deste salmo, eis o que escreve Frederico Lourenço:

 

Como sempre na Antiguidade, as mulheres que sobrevivem ao saque das cidades eram distribuídas como objetos (na Ilíada 23.705, uma mulher tem o valor de quatro bois) que passavam a pertencer aos homens vencedores.

 Os bebés e as crianças pequenas que essas mulheres já tinham (dos maridos tombados na guerra) eram mortos pelos novos donos destas mães, já que, em primeiro lugar, não fazia parte do código de masculinidade patriarcal um homem dar alimento e sustento ao filho que uma mulher sua tivera de outro homem (tanto mais que essas mulheres passariam doravante a incubadoras dos novos escravos que nasceriam das violações a que seriam sujeitas por parte dos donos), e, em segundo lugar, a presença de bebés e crianças pequenas dificultaria a logística da deportação que se seguiria necessariamente ao saque da cidade.

Os israelitas que desejam este destino aos bebés dos outros foram eles próprios vítimas anteriores deste tipo de crime de guerra; é a sua desculpa.

O problema, claro, está na própria guerra e na noção de que a mulher não passa de objeto que pertence a um homem. Infelizmente, trata-se de uma noção que o Antigo Testamento legitima”.

 

Variadas são as questões que tais comportamentos nos podem pôr, a começar pela perplexidade de os vermos serem incluídos na Bíblia (e são muitos os comportamentos idênticos que nela figuram). A resposta a esta questão é nos dada por J. J. Collins, um dos grandes especialistas da Bíblia Hebraica:

 

A força dos Salmos é que mostram a natureza humana como ela é; não como ela deveria ser”.

 

Assunto resolvido. Os inocentes podem ser sacrificados.

 

 

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