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Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

(247) Regresso às cavernas

Tempo estimado de leitura: 5 minutos.

 

A revolução Neolítica foi o pior erro da história da raça humana, Jared Diamond.

 

A marcha do progresso nas cidades-estado Sumérias e dos impérios Assírios e da Babilónia, foi acompanhada da deterioração progressiva do estatuto social e económico das mulheres.

 

O narcisismo democratizou-se e está agora ao alcance de qualquer um.

 

Nesse mundo dominado por animais que era o Paleolítico, a solidariedade humana como sobrevivência sobrepunha-se ao reconhecimento individual.

 

 

 

 

Conta-se que na época historicamente considerada como colonialista, se encontraram um branco e um preto a pescarem num ancoradouro algures em África. Conversa do branco para o preto:

- Então onde trabalhas?

- Não trabalho. Trabalhar para quê?

- Para poderes ganhares dinheiro para comprar comida. Como é que comes?

- Com o que planto ali – e apontou para um terreno ao pé da praia.

- Então para poderes comprar uma casa. Onde vives?

- Ali – e apontou para uma palhota à beira mar.

- Para poderes sustentar mulher e filhos. Tens mulher?

- Ali – e apontou para a mulher e dois filhos.

- Para poderes comprar um carro. Tens carro?

- Não preciso. Vivo ali.

Desesperado, o branco tenta um último argumento:

- Para poderes teres férias. Tens férias?

- Não. O que é isso?

- É não trabalhares, comeres quando te apetece, passeares pelo cais à vontade, pescares ao fim da tarde.

- Ah! Isso é o que eu faço!

 

 

Há cerca de 12.000 anos, toda aquela cultura do Paleolítico que desenhava animais e mãos humanas nas paredes das caves, que estava constantemente em migração, chegou ao fim, sendo progressivamente substituída pelo sedentarismo da revolução Neolítica.

 Os humanos inventaram a agricultura, aprenderam a domesticar animais selvagens, a fiar, a fermentar cerveja, a extrair metais e a fabricar lâminas cada vez mais afiadas. Acolheram-se em vilas, muralharam cidades.

Mas esse conforto do sedentarismo pagou-se com o aparecimento da propriedade, na forma de celeiros e de rebanhos, com a segmentação da sociedade em classes – que os antropologistas chamam de “estratificação social” – e com a sedução pela guerra como atividade coletiva organizada.

A guerra conduziu à instituição da escravatura, mormente para as mulheres dos vencidos (os vencidos homens eram normalmente mortos), o que levou à estigmatização das mulheres como concubinas ou servas domésticas. Já para os homens do lado dos vencedores, a melhoria poderia até ser notável, com alguns dos intrépidos comandantes serem elevados a reis e até a imperadores.

Em todos os lugares em que a agricultura e o sedentarismo triunfaram, a coerção pelos poderosos substituiu a cooperação entre iguais. Daí, Jared Diamond, o historiador e antropologista americano premiado com o Pulitzer pela sua obra de 1997, Guns, Germs, and Steel, considerar a revolução Neolítica como “o pior erro na história da raça humana”.

 

Há, contudo, uma outra característica da cultura paleolítica digna de nota e que tem que ver com as pinturas rupestres que nos deixaram nas caves: o facto de todas elas retratarem só animais. Nelas não aparecem humanos, a não ser em alguns desenhos muito esquemáticos das suas figuras, ou em impressões das suas mãos. Sendo capazes de representar tão fielmente animais, não se encontra uma figura humana convincente, nem um rosto.

 

O mesmo já não acontece no Neolítico, onde a representação do rosto humano acompanha a proliferação de reis e heróis da Idade do Bronze. Reis e consortes são os primeiros a assim afirmarem a sua superioridade pessoal, a que se juntam as coroas, joias, os numerosos escravos, e toda a demais arrogância narcisística que acompanha esse estatuto.

Narcisismo que vai acabar por se estender à burguesia, que no século XVII começa a escrever as suas memórias e a encomendar os seus retratos. Hoje em dia, todos aqueles que possuem um telemóvel (inteligente ou esperto) podem reproduzir e propalar a sua própria imagem, ou os seus próprios pensamentos, nos meios de comunicação social. O narcisismo democratizou-se e está ao alcance de qualquer um (Donald Trump decorou as paredes dos seus clubes de golf com portadas falsas da revista Time com o seu retrato).

 

Não havendo, pois, esta necessidade de reproduzir o nosso rosto e as nossas façanhas, porque estão o super-ricos a tentarem regressar às cavernas, ao comprarem silos nucleares abandonados, convertendo-os em autênticos bunkers com capacidade para uma dúzia de famílias mais os criados e guardas, com piscinas, ginásios, carreiras de tiro, cafés “ao ar livre”, decorados com preciosas obras de arte e com ecrãs de parede (ou paredes de ecrãs) onde se vai vendo o que os seus canais de televisão mostram o que se está a passar no mundo exterior?

Certamente não é a motivação por qualquer tipo de aprendizagem com os povos do Paleolítico.

Como classe superior que vive num sistema que tem como adquirido o valor do crescimento como crescimento (a religião do PIB), o crescimento como progresso, o progresso como o elemento diferenciador das civilizações, acredita firmemente que os povos modernos vivem melhor e são mais felizes que os medievais, os medievais mais felizes que os pré-históricos, etc.

 

O filósofo e historiador israelita, Yuval Noah Harari, na sua obra, Sapiens: A Brief History of Humankind, vem lembrar-nos que o aparecimento da agricultura, apesar de aumentar em muito o poder da coletividade, pouco fez em favor do indivíduo. Durante milhões de anos, os humanos adaptaram-se a correr atrás de gazelas, subir às árvores para apanhar fruta, cheirar aqui e acolá à procura de cogumelos. Com a agricultura, passaram a cavar, plantar, colher e carregar baldes de água do rio, vida pesada e sedentária com reflexos nas costas, joelhos e articulações, para além do adormecimento do espírito humano.

Os camponeses tinham uma dieta pior que a dos caçadores-recolectores, sofriam de mais nutrição e fome, e os seus locais de alojamento sobrelotados eram incubadores de novas doenças infeciosas, grande parte com origem no gado.

 

Também a marcha do progresso nas cidades-estado Sumérias e dos impérios Assírios e da Babilónia, foi acompanhada da deterioração progressiva do estatuto social e económico das mulheres. Na Europa, o período do Renascimento, apesar das descobertas e invenções maravilhosas, poucas foram as pessoas que delas beneficiaram para além do círculo das elites do poder. Os posteriores impérios europeus, originaram a troca de tecnologias, ideias e produtos, o que, contudo, não constituiu uma boa notícia para os índios americanos, para os africanos e aborígenes australianos.

 

A era moderna tem vindo a conseguir enormes avanços no poder da coletividade, e de alguns avanços em favor do indivíduo, nomeadamente no campo da saúde e da educação. Não podemos, contudo, deixar de ver que grande parte deles foram conseguidos através da destruição do meio que nos rodeia, desde a extinção de espécies vegetais e animais, à mortandade e maus tratos de biliões de animais e de outros seres humanos. E que nos conduziu à possibilidade de pela primeira vez o planeta se vir a poder tornar inabitável.

É bom lembrar aos defensores acérrimos do progresso a todo o custo  (novos modelos de carros todos os anos, novas modas de vestuário, de computadores, de novos sabores de sorvete, de novas músicas, de novos “amigos” virtuais, de novas app, novas guerras, novos presidentes, etc.) que, mesmo na escala do tempo humano,  cinquenta anos de “progresso ininterrupto” (que é ao que se referem) é muito pouco tempo para se poder concluir da sua validade.

 

A razão pela qual não eram necessários rostos nas pinturas rupestres nesse mundo dominado por animais que era o Paleolítico, é que a solidariedade humana como sobrevivência sobrepunha-se ao reconhecimento individual.

As cavernas, as caves, eram lugares de esforço coletivo onde todos se ajudavam e participavam solidariamente. Todas aquelas pinturas eram obras coletivas, desde as pessoas que as percorriam para verificarem as suas rachas e protuberâncias possíveis de representarem a fauna existente, pessoas que recolhiam troncos para construírem os andaimes a partir dos quais os artistas trabalhavam, as pessoas que misturavam as tintas, as pessoas que providenciavam a alimentação, fossem eles adultos, crianças, homens ou mulheres. Esforço de cooperação, de autossacrifício, que eram essencias para as caçadas coletivas e para a defesa coletiva.

 E é exatamente por não perceberem isto, que os novos poderes bem-pensantes e podres de ricos, julgam virem a encontrar refúgio nas novas cavernas que os protegerão do futuro que criaram.

 

 

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