Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

(246) Como enganar o clima

Tempo estimado de leitura: 5 minutos.

 

“Será que a insignificante porção de gases do efeito de estufa derivados da queima de combustíveis fósseis tem assim um efeito tão grande no clima mundial? Ninguém sabe ao certo”, patrocinado pela ExxonMobil.

 

A indústria dos combustíveis fósseis tem vindo a conduzir uma campanha de desinformação e manipulação sobre a realidade e a severidade da alteração climática causada por humanos.

 

Há cerca de 40.000 crianças, algumas com quatro anos, a minerarem ilegalmente cobalto nas minas do Congo.

 

 “O legado será a morte, destruição, e um aquecimento global irreversível”.

 

 

 

 

 

A 24 de outubro de 2019, a Procuradoria Geral do Estado de Massachusetts pôs uma ação contra a Exxon Mobil Corporation, acusando-a de enganar os investidores e os consumidores do Estado.

 Apesar da intenção primária do Estado de Massachusetts incidir sobre os $1,6 biliões que considera terem sido perdidos pelos “investidores” devido às falsas afirmações da Exxon, são importantes as acusações aí feitas relativas às alterações climáticas que afetam todos nós, “os consumidores”. Zangam-se as comadres, dizem-se as verdades. Passo a transcrever algumas dessas acusações que constam da ação:

 

# A Exxon Mobil, desde os anos 70 tinha conhecimento científico das causas e consequências potencialmente catastróficas das alterações climáticas para a humanidade, e que a única resposta possível seria a redução do uso dos combustíveis fósseis.

 

# A Exxon Mobil, desenhou e implementou uma campanha nos moldes da utilizada pela indústria tabaqueira, por forma a semear a dúvida e gerar a confusão entre o público sobre a ciência do clima que a própria Exxon ajudou a desenvolver:

- A Exxon formulou o que chamou ser a “Posição da Exxon”: enfatizar a incerteza.

- A Exxon e os maiores grupos de interesses representando a indústria automóvel, do petróleo, e do carvão, formaram a Coligação para o Clima Global (Global Climate Coalition), com a finalidade de distorcer a ciência do clima e enganar o público e os consumidores.

- Contrariamente ao conhecimento interno que já tinham, a ExxonMobil montou um ataque público agressivo à ciência do clima, ao mesmo tempo que escamoteava o papel desempenhado pelos seus produtos, os combustíveis fósseis, como causa das alterações climáticas.

- Apesar do conhecimento que os efeitos adversos das alterações climáticas teriam para a saúde humana, a Exxon promoveu a instauração da dúvida e de falsos debates sobre os riscos para a saúde pública.

- A Exxon, juntamente com um veterano da campanha de falsidades da indústria tabaqueira, formou o Grupo para as Comunicações da Ciência do Clima Global (Global Climate Science Communications Team) para instilar no público a dúvida sobre se as alterações climáticas estavam mesmo a acontecer e se os humanos desempenhavam qualquer papel.

- A ExxonMobil gastou milhões numa campanha sem precedentes de “anúncios” no The New York Times em que punha em dúvida a ciência do clima, daí a necessidade de se protelar qualquer ação repentina sobre o clima, e menorizando as tecnologias alternativas.

 

# A ExxonMobil enganou os consumidores ao proclamar que os seus produtos de combustível fóssil reduziam as emissões de dióxido de carbono; falhou propositadamente ao expor nas informações do seus anúncios os perigos a que os consumidores se confrontavam ao usarem os seus produtos de combustível fóssil; enganou quando apresentou os seus produtos, tais como os biocombustíveis de algas, como sendo produtos de uma empresa inovadora e responsável de energia limpa, quando de facto, os produtos da ExxonMobil eram a primeira causa da alteração climática.  

 

Segue-se a explicação detalhada de cada um dos vários itens elencados, com a agregação de documentos que sustentam as acusações, como, por exemplo, a apresentação dum gráfico de 1982 da Exxon Vu, onde se prevê que  a concentração de dióxido de carbono atinja 415 ppm em 2019, se nada fosse feito para reduzir as emissões de gases do efeito de estufa. Aliás, já anteriormente em 1978, a Exxon confirmara que era cientificamente aceite ser a humanidade a principal causa da alteração climática devido à emissão de dióxido de carbono resultante dos gases dos combustíveis fósseis.

Como, por exemplo, relembrar artigos da Global Climate Science Communication onde se podia ler que “A vitória será alcançada quando a maior parte dos cidadãos perceber (reconhecer) as incertezas da ciência do clima […] o reconhecimento da incerteza será então parte da sabedoria popular”, e “Será que a insignificante porção de gases do efeito de estufa derivados da queima de combustíveis fósseis tem assim um efeito tão grande no clima mundial? Ninguém sabe ao certo”.

 

Muito mais se pode ler ao longo das 210 interessantíssimas páginas, aqui apresentadas na íntegra (1).

Entretanto, saiu já a decisão do tribunal não dando procedência à ação apresentada pelo procurador geral do estado, uma vez que a queixa sobre os danos sofridos pelos investidores deveria ter sido apresentada em separado e no tribunal especial existente para julgar esses casos. Como se a procuradoria geral não soubesse já disso…

 

 

Recomendo ainda um conciso estudo (2) da Harvard University, da University of Bristol e da George Mason University, de outubro de 2019, intitulado “Como a indústria de combustíveis fósseis enganou deliberadamente os americanos acerca as alterações climáticas”, que nos elucida bastante bem sobre o essencial da questão, onde se reconhece que “a indústria dos combustíveis fósseis tem vindo a conduzir uma campanha de desinformação e manipulação sobre a realidade e a severidade da alteração climática causada por humanos”, e em que a estratégia, táticas, infraestrutura e argumentos teóricos e técnicas usadas pelos interesses dos combustíveis fósseis para enfrentar a evidência científica da alteração do clima – incluindo o fixar-se em pormenores sem importância, o utilizar especialistas em falsidades, e em teorias de conspiração - foram diretamente tiradas do manual da indústria tabaqueira para atrasar o controle do tabaco.

E conclui:

 

A indústria tabaqueira gastou centenas de milhões de dólares desinformando o público acerca dos malefícios do tabaco para proteger os seus interesses. A OMS estima que em cada ano morram seis milhões de pessoas por doenças resultantes do consumo de tabaco. Seguindo o mesmo manual das tabaqueiras, a indústria dos combustíveis fósseis estão a proceder da mesma forma com as alterações climáticas: gastando milhões de dólares para confundir o público e atrasando as ações de salvamento. Só que neste caso, o legado será a morte, destruição, e um aquecimento global irreversível”.

 

Não é a primeira vez, nem será a última, que as grandes corporações põem os seus interesses (os lucros) lucros à frente dos interesses das populações.

 

 

Nos últimos meses têm-se sucedido roubos de paletes nos grandes portos de Roterdão e Antuérpia, daquilo a que se começou a chamar de “ouro azul”: o cobalto.

Entre 2016 e 2018 o preço do cobalto aumentou 250% (de 26.000 US$ para mais de 90.000), devido à procura dos fabricantes de carros elétricos como a Tesla, Volvo, Ford, Volkswagen, e dos produtores de telemóveis como a Apple. A previsão é que o preço continue a subir, porquanto estima-se que em 2030 se estejam a produzir 35 milhões de veículos elétricos por ano.

O cobalto não é um elemento que se encontre sozinho, pelo que a sua extração é feita a partir do cobre ou níquel, utilizando ácidos e calor. Inicialmente era usado para dar cor à cerâmica e ao vidro, o “azul cobalto”.

 Mas no século XX descobriu-se que combinado com outros metais tornava-os extremamente resistentes, estáveis a temperaturas altas e anticorrosivos, o que o tornou imprescindível nos motores de avião, foguetões, estações nucleares e instrumentos de corte.

Foi, no entanto, a sua qualidade única para evitar que as baterias de lítio dos telemóveis e dos carros elétricos sobreaquecessem e se incendiassem, que tornou desenfreada a sua procura. Os preços sobem, a exploração aumenta.

 

Acontece que 70% da produção mundial de cobalto tem origem na Républica Democrática do Congo, onde as condições de mineração são as habituais: horrendas, extração à mão, sem proteção, ventilação inadequada, doenças respiratórias incapacitantes, profundidades que chegam aos 100 metros, pagamentos miseráveis (1 euro ao dia). Melhor que nada, não é?

E grande parte dela feita por crianças. A Unicef estima que há cerca de 40.000 crianças, algumas com quatro anos, a minerarem ilegalmente cobalto nas minas do Congo (3).

 

 

Vamos, portanto, todos começar a andar de EV (Veículo Elétrico, as consoantes aparecem trocadas conforme o acordo estratégico para a uniformização das campanhas de anúncios), evidentemente mais caros, a gastarmos menos água nas sanitas, a transportarmos à mão as compras, a usarmos fraldas de tecido, etc. Cá por mim já reduzi o número de pastéis de nata semanais, como contribuição para diminuir o aquecimento global. EV tenho o comunitário Metro. A sanita só descarrego ao fim do dia. O banho só tomo uma vez por semana. As compras peço para as virem trazer cá a casa. É o máximo de socialismo que comporto.

Mas tenho verificado que isto do socialismo é bom: estou mais magro, embora mais porco, mas não se nota, tenho menos doenças porque não vou ao médico e sobra-me mais dinheiro para comprar um EV. O clima vai abrandar. Sinto-me bem a contribuir para estas campanhas mesmo sabendo que não vão resultar. Sinto-me mais humano.

E estou mesmo a pensar participar em 2040 naquela megamanifestação que vai exigir a nacionalização da empresa privada que produz água a partir da urina, fonte única do abastecimento público às cidades.

 

 

 

 

Notas:

 

  • Cook, J., Supran, G., Lewandowsky, S., Oreskes, N., & Maibach, E., (2019), America Misled: How the fossil fuel industry deliberately misled Americans about climate change, Fairfax, VA: George Mason University Center for Climate Change Communication.

(https://www.climatechangecommunication.org/wp-content/uploads/2019/10/America_Misled.pdf).

 

(https://www.theguardian.com/global-development/2019/dec/16/apple-and-google-named-in-us-lawsuit-over-congolese-child-cobalt-mining-deaths), e ainda (https://www.theguardian.com/global-development/commentisfree/2019/dec/16/i-saw-the-unbearable-grief-inflicted-on-families-by-cobalt-mining-i-pray-for-change

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2024
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2023
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2022
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2021
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2020
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2019
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2018
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2017
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2016
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2015
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
Em destaque no SAPO Blogs
pub