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Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

(245) Que tipos de humanos serão escolhidos?

Tempo estimado de leitura: 6 minutos.

 

 

Protesto, é quando eu digo que não estou de acordo com isto ou aquilo. Resistência, é quando asseguro que aquilo com que não estou de acordo não volta a acontecer, Ulrike Meinhoff.

 

Como sabemos, os japoneses durante a 2ª Guerra Mundial, usaram o afogamento por água (water boarding), e nos julgamentos que patrocinámos, condenámos à morte os que o fizeram, Scott Burns.

 

Porque o nome de “tortura” não cairia bem, foi substituído em todos os documentos oficiais por “técnicas intensivas de interrogação” (enhanced interrogation techniques).

 

Podemos fazer coisas más, mas não passam de acidentes, não passam de erros, Robert Scheer.

 

 

 

Não desistem aqueles que pretendem “aperfeiçoar” a humanidade substituindo-a por coisas sensitivas e pensantes de idêntico formato, mas “melhores”. Se a substituição pretendida for só para a produção de modelos adaptados a vários desempenhos específicos, como os já previstos no Blade Runner, então bastará uma simples enumeração de funções a desempenhar (faz isto e aquilo, desta maneira e não de outra) para ser conseguida.

O problema surge quando a pretensão for a de formatar a tomada de decisão a nível mais elevado, ou seja, quando ela implicar escolhas em alternativa passíveis de alterarem o comportamento humano e o futuro da sociedade. Que caminho tomar? Porque este e não aquele?

Porque aí vão-se deparar com o problema da ambiguidade do ser humano, da construção da visão do mundo de cada um, da “bondade” e da “maldade” existente em cada um, e que por vezes até se verifica simultaneamente. Como escolher matematicamente qual dos seres humanos devemos “escolher” para modelo? Quais as ações que deverão ser mais valorizadas dentro do mesmo humano?

 

 

Na Pérsia, o governo eleito (1951-1967) do primeiro ministro Mohammad Mosaddegh, após ter nacionalizado a exploração de petróleo acabou por ser derrubado por um golpe de estado orquestrado pela CIA (1) e pelo MI6, passando o rei “amigo do Ocidente”, o Xá da Pérsia, Reza Palhevi,  a figura dominante.

A preparação da visita do Xá à Alemanha em junho de 1967, foi precedida pela habitual campanha de várias “informações” sobre sua alteza e família, com especial destaque para a distinção e elegância, vestidos, adornos e penteados da nova imperatriz, Farah Diba (a anterior tinha sido repudiada por ser infértil e não poder assegurar a dinastia), a revista alemã Die Newe Revue, publicou uma entrevista com a imperatriz em que, falando da sua vida, dizia que “o Verão no Irão era muito quente e ela e a família, tal como a maior parte dos persas, iam para a Riviera persa do mar Cáspio”.

De imediato, a jornalista Ulrike Meinhof (1934-1976), escreve na revista Koncret, uma carta aberta a Farah Diba, onde diz:

 

“«Como a maior parte dos persas…». Não está a exagerar? A maior parte dos persas são camponeses com um rendimento anual de menos de 100 dólares. A maior parte das mulheres persas veem cada novo filho – 50 em cada 100 – morrer de fome, pobreza e doença. E sabe que a maioria destas crianças trabalha 14 horas por dia a fazer tapetes? Também vão no Verão para a Riviera persa no mar Cáspio? Não queremos insultá-la, mas também não queremos ver o público alemão insultado por artigos como o seu na Newe Revue. Com cumprimentos, Ulrike Meinhof”.

 

Ainda nesse ano de 1967, Ulrike deixa outra citação:

Protesto, é quando eu digo que não estou de acordo com isto ou aquilo. Resistência, é quando asseguro que aquilo com que não estou de acordo não volta a acontecer”.

 

E, quando na visita à Alemanha do vice-presidente dos EUA, Hubert Humphrey, foi alvejado com sacos de pudim, o que levou à prisão dos atacantes como terroristas, ela escreveu:

 

Despejar napalm sobre mulheres, crianças e velhos não é crime, mas protestar contra isso é […] É considerado pouco polido atingir políticos com pudim e papa de aveia, mas desenrolar a passadeira vermelha a políticos que bombardeiam aldeias e destroem cidades não é […] Napalm, sim; pudim, não.

 

Lateralmente, e só para nos situarmos, Ulrike Meinhof, era uma jornalista revolucionária alemã, que formou com Andreas Baader e outros, o bem-mal conhecido grupo da luta armada, Baader-Meinhof, acusado em 1975 de quatro homicídios, 54 tentativas de homicídio e de organização criminosa.

Condenados a prisão perpétua, três dos principais dirigentes, incluindo Baader, foram encontrados mortos nas suas celas: suicídios em prisões alemães de alta segurança em celas de isolamento. Acontece com certa frequência, até ainda hoje nos EUA mesmo a multibilionários bem entrosados, caso recente de Jeffrey Epstein. Azares, coincidências, genéticas.

Também Ulrike,foi encontrada em 1976 morta na sua cela: novo suicídio. Mas esta com uma outra variante: sem conhecimento da família, e antes do enterro, os patologistas retiraram-lhe o cérebro, que foi conservado em formol para estudos num hospital de Magdeburgo. Só 26 anos depois, em 2002, após uma ação contra o Estado, movida pela sua filha Bettina Rohl, é que o cérebro foi enterrado na sepultura junto aos restos de Ulrike.

 

 

Após os ataques terroristas do 11 de setembro, aquela velha máxima de que “depois de casa roubada, trancas à porta”, foi aplicada com a máxima urgência, o que corresponde a um ato normal de resposta. Aproveitando essa pressa em obter informações que levassem a uma retaliação forte, instalou-se nos dirigentes dos órgãos do governo encarregados (a CIA) a ideia, de que o melhor método para obter informações seria através da tortura.

Porque o nome de tortura não cairia bem a grande parte dos americanos, substituíram-no em todos os documentos oficiais por “técnicas intensivas de interrogação” (enhanced interrogation techniques).

 

O principal problema da utilização da tortura é de, sob o ponto de vista humano, ser eticamente injustificável. Daí que, tal como a escravatura e outros, seja banido internacionalmente. 

O segundo problema, é que a informação produzida terá de ser verificada por outras fontes independentes, por não poder, só por si, ser considerada fidedigna.

O terceiro problema, é que ao utilizar tais meios, o Estado está a autorizar que os seus cidadãos possam também virem a ser torturados por outros Estados.

 

Diz Scott Burns, realizador dos filmes “The Bourne Ultimatum”, “The Laundromat”, e do documentário sobre os Panama Papers, que durante as suas pesquisas para um seu novo filme, deparou-se com os seguintes factos:

 

O melhor interrogador nazi chamava-se Hanns Scharff. Scharf entrevistou 500 aviadores, e utilizando apenas conversas tidas durante o chá, por vezes scotch, e conhecimentos sobre basebol americano, obteve sucesso em 480 dos casos […] Após a guerra, contratámos Hanns Scharff para vir dar lições aqui nos EUA. E, portanto, o melhor dos nazis não usava estas técnicas (de tortura), e vem a CIA agora colocar-nos nesta posição”.

 

“[…] devemos reconhecer que já outros países usaram técnicas de tortura como a do afogamento por água (water board) e que nós os vilipendiámos por isso. E, contudo, foi o que nós fizemos e estamos convencidos que podemos prosseguir com impunidade. Como sabemos, os japoneses durante a 2ª Guerra Mundial, usaram o afogamento por água, e nos julgamentos que patrocinámos, condenámos à morte os que o fizeram. Esta hipocrisia espanta-me.

 

Segundo Burns, uma das primeiras vezes que a CIA utilizou o afogamento por água foi com Abu Zubaydah, que “era considerado pela CIA como sendo o número três ou quatro na hierarquia da al-Qaeda. Na realidade, ele nem pertencia à al-Qaeda; estava associado com eles, mas nem sequer pertencia a qualquer estrutura de comando. […] Inicialmente disseram que precisavam de o torturar porque julgavam que ele tinha informações que não estava a querer dar. […] E quando finalmente desistiram do afogamento, vieram dizer que o afogamento resultara porque agora sabiam que ele afinal não sabia nada.

E refere ainda que:

“[…] os psicólogos que geriam programa de afogamento por água, receberam 80 milhões de dólares para fazerem este trabalho que resultou em nada […] fora as indemnizações concedidas às vítimas

 

Peter Jan Honigsberg, professor de direito da Universidade de San Francisco, publicou em 2019, A Place Outside The Law, Forgotten Voices from Guantánamo, onde nos diz que dos 760 detidos em Guantánamo, 90% não tiveram qualquer ligação significativa com a al-Qaeda, ou mesmo até nenhuma ligação. O governo americano pagava 5.000 a 30.000 dólares por cada um deles capturado às polícias e exércitos do Paquistão e Afeganistão.

Dos cinquenta e seis dos que foram entrevistados por Honigsberg, vinte andavam a combater contra o governo da China e os campos de reeducação para muçulmanos, e acabaram por ir parar a Guantánamo.

 

Robert Scheer, conhecido jornalista americano, para demonstrar a diferença de abordagem do problema da tortura dentro de organizações americanas, vai referir dois exemplos de filmes americanos.

No filme de 2012, “Zero Dark Thirty” (00:30 Hora negra) de Kathryn Bigelow, sobre a captura e morte de Bin Laden, está refletida a “propaganda da CIA segundo a qual a tortura é necessária […]” e consi era-o “[…] o mais importante produto de Hollywood relativo à tortura, porém um filme baseado numa mentira.”

Já num outro filme de 1998, “feito antes do 11 set, “The Siege” (Estado de Sítio), de Edward Zwick, em que Denzel Washington fazia de agente do FBI, e Annette Bening de agente da CIA […] a posição representada pelo FBI era a de que a tortura não resultava. Não só era contra os nossos valores, como era contraprodutiva.”

 

 

Após seis anos de utilização de tortura como forma privilegiada de obter informação, a própria CIA, pressionada pelos escândalos e pelo Senado, acabou por reconhecer que não tinha sido um programa bem sucedido, uma vez que tudo o que se conseguiu através dessa técnica já se sabia ou poderia saber através de outras fontes, de outros governos.

O Senado americano produziu um relatório sobre a tortura realizada pela CIA (Senate Intelligence Committee report on CIA torture) (3) com 6.700 páginas que muito poucas pessoas tiveram a possibilidade de ler na integra, para além das 500 páginas da introdução. Do relatório completo restam apenas três cópias (uma na biblioteca presidencial de Barack Obama, e outras duas em Guantánamo), uma vez que todas as outras cópias foram recolhidas e destruídas.

Os próprios vídeos dos interrogatórios da CIA foram também destruídos por ordem do diretor da CIA, Gina Haspel. Não é a primeira vez, nem será a última, que a história é destruída.

 

Muitas são as pessoas e organizações que continuam a defender o uso da tortura como meio para se conseguirem informações. Por outro lado, para que tudo isto se viesse a saber, muitas outras pessoas e organizações resistiram.

E este é o principal problema com que se defrontarão aqueles que defendem o “aperfeiçoamento” da humanidade ao ponto de a desejarem substituir por coisas sensitivas e pensantes de idêntico formato. Qual dos tipos de humanos serão “escolhidos” como modelo “melhor”?

Quem os escolherá já sabemos: os donos das grandes corporações privadas ou os governos e Estados ao serviço das grandes corporações. Dos EUA, China, Rússia, Grã (ou pequena) Bretanha, Alemanha, Turquia, etc.

 

 

 

Notas:

  • O National Security Archive dos EUA desclassificou os documentos com detalhes relativamente ao envolvimento da CIA no golpe de 1953 que depôs Mossadegh, publicando-os no Livro Electrónico Nº435, de 19 de agosto de 2013 ( https://nsarchive2.gwu.edu/NSAEBB/NSAEBB435/  )
  • Entrevista a Scott Burns conduzida por Robert Scheer sobre os segredos mais negros da América

(https://www.truthdig.com/articles/americas-darkest-secrets-are-laid-bare-in-the-report/).

(3)Como os segredos mais negros da tortura da CIA foram expostos e            encobertos (https://www.truthdig.com/articles/how-the-cias-darkest-torture-secrets-were-exposed-and-covered-up/)

 

 

 

 

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