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Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

(244) Manual para se ter razão, lícita ou ilicitamente

Tempo estimado de leitura:7 minutos.

 

Se hoje conseguimos expressar corretamente através da fala os pensamentos por forma a termos a possibilidade de distinguir a verdade da mentira, devemo-lo a Aristóteles.

 

Só que hoje já se não usa, dá pouca audiência e, segundo dizem “o povo, na sua infinita sabedoria, não tem paciência para ouvir”.

 

Aturdir, desconcertar o adversário mediante palavreado sem sentido. O disparate deve soar como “erudito ou profundo”.

 

  Se tudo falhar e se “perceber que o adversário é superior”, devemos passar ao insulto: “Pessoalize, seja ofensivo, grosseiro”.

 

Os frutos da paz pendem da árvore do silêncio, provérbio árabe.

 

 

 

 

Cada vez mais temos vindo a assistir ao preenchimento dos canais de comunicação com debates entre vários intervenientes convidados para discutirem o futebol, as eleições, o futebol, os casos do dia e da noite, o futebol, os casos do mês atual, anterior ou do que vem, do ano que está a terminar ou do que vai começar, enfim, tudo o que sirva para nos tornar “cultos e adultos”.

Infelizmente, ou melhor, contudo, tudo acaba quase sempre num atropelo de argumentos menores ou sem nexo, mais ou menos gritados, em que nada se conclui ou se se concluir também não para nada serve. Aliás, a finalidade é mesmo essa: ocupar espaço e apelar às posições mais básicas, que são as que dão mais audiência e das que dizem ser as que o povo, na sua infinita sabedoria, mais gosta.

  

É bom lembrar que, o problema destas discussões e debates, não é característico só dos nossos tempos, da televisão e da rádio. Vem de muito longe e tem sido uma constante das muitas reuniões e assembleias que, melhor ou pior, com mais ou menos frequência, sempre se vieram fazendo nas nossas sociedades.

 

Foi na Grécia Antiga que apareceram os chamados sofistas, professores e mestres na arte do discurso, que apenas tinham como finalidade ensinar a ganhar debates e discussões, através da utilização de um conjunto de argumentos que acabasse por confundir o interlocutor, levando-o a tirar conclusões falsas e absurdas.

Contra esta escola sofista se insurgiam Sócrates, Platão e Aristóteles, sustentando que a argumentação só devia ser usada para a descoberta da verdade e não para se ganhar uma discussão com base em meras opiniões.

 

Aristóteles (384 a.C.- 322 a.C.), é o que vai mais longe, ao escrever um conjunto de seis textos consagrados à lógica, Categorias, Da Interpretação, Analíticos Primeiros, Analíticos Segundos, Tópicos e Refutações Sofísticas (posteriormente recolhidos debaixo do título Órganon), onde estabelece as leis segundo as quais é possível, através da linguagem, investigar e alcançar a verdade.

 

Só para lembrar:

A lógica é a ciência que tem por objeto o estudo do pensamento e do discurso, preocupando-se com a sua correção, fornecendo os instrumentos que permitem verificar a validade e a verdade dos argumentos.

 É no Órganon que pela primeira vez aparece o célebre quadrado lógico das proposições, em que são analisadas todas as relações possíveis entre estas: universais afirmativas (A), universais negativas (E), particulares afirmativas (I) e particulares negativas (O); o caso das proposições contraditórias (A/O; E/I), o caso das contrárias (A/E), o das que foram depois de Aristóteles chamadas subcontrárias (I/O) e subalternas (A/I; E/O). O princípio da não-contradição (uma proposição não pode ser verdadeira e falsa ao mesmo tempo). O princípio do terceiro excluído (uma proposição ou é verdadeira ou é falsa). E, praticamente, quase tudo o que ainda hoje usamos para organizarmos correntemente os pensamentos, permitindo-nos discursos mais coerentes e inteligíveis de modo a não comprometermos aquilo que queremos comunicar.

 

 

Nos 8 livros que constituem os Tópicos, manual para debates de opiniões aceites pela sociedade, Aristóteles começa por definir o objetivo:

 

 “O objectivo desta exposição é encontrar um método que permita raciocinar, sobre todo e qualquer problema proposto, a partir de proposições geralmente aceites, e bem assim defender um argumento sem nada dizermos de contraditório.”

 

Faz-nos depois notar que:

 

Um argumento diz-se falso em quatro sentidos. Em primeiro lugar, quando aparenta chegar-se a uma conclusão sem de facto se concluir nada: a este chama-se um «raciocínio erístico». Em segundo lugar, quando se chega a uma conclusão, mas não àquela a que se propusera chegar (isto sucede sobretudo nas demonstrações pelo absurdo). Em terceiro lugar, quando a conclusão decorre do tema proposto, mas não foi obtida pelo método a ele adequado. Esta situação verifica-se quando o argumento parece ser de ordem médica sem ser médica, de ordem geométrica sem ser geométrica, de ordem dialéctica sem ser dialéctica, e isto independentemente de a conclusão ser falsa ou verdadeira. Um quarto sentido verifica-se quando se obtém uma conclusão através de premissas falsas. Neste caso a conclusão às vezes pode ser falsa, mas outras pode ser verdadeira; uma conclusão falsa decorre sempre do recurso a premissas falsas, mas pode obter-se uma conclusão verdadeira mesmo sem ser através de premissas verdadeiras”.

 

 

Passa depois a considerar as várias formas que o sofista pretende levar o adversário a um impasse ou a uma situação disparatada e, dos recursos de que é possível dispor para contrariar esses propósitos, quer a nível das perguntas quer a nível das respostas.

 

São ainda analisadas as diversas espécies de falsas argumentações (falácias – erro de raciocínio, um argumento aparentemente válido mas que na realidade não o é -  e sofismas – falácia provocada por um erro intencional no raciocínio) decorrentes quer de fatores linguísticos (por exemplo, os erros de raciocínio derivados da homonímia, ou ambiguidades da linguagem, da polissemia, ou de outros mais fatores), quer decorrentes de fatores extralinguísticos, ou, ainda que de ordem linguística, de carácter algo marginal.

 

E vai exaustivamente detalhar, tudo o que se relacione com o discurso, nada deixando de fora.  A título de exemplo, no § 56, Livro VIII, trata “A prática da dialéctica — regras para uso dos praticantes Cap. 1-3 — Regras a observar pelo interrogador.4-10 — Regras a observar pelo interrogando.4-11 — Erros na argumentação.4-12 — Falsidade na argumentação.4-13 — Petição de princípio e petição de contrários.4-14 — Regras práticas para a preparação do praticante da dialéctica.”

 

Não posso deixar de transmitir a delícia do seu raciocínio sobre o problema das frases declarativas com o verbo no futuro. Ou seja, o que se passa com uma proposição como «Amanhã ocorrerá uma batalha naval»?

Eis o que nos disse Aristóteles, há 2400 anos:

 

 «O que eu pretendo dizer é que necessariamente amanhã haverá, ou não haverá, uma batalha naval; mas, por outro lado, não é necessário nem que haja, nem que não haja amanhã uma batalha naval, e, no entanto, é necessário ou que haja ou que não haja (essa batalha).»

 

 

E, já no final dos Tópicos, deixa esta advertência:

 

Não se deve debater com toda a gente, não se deve exercitar a dialéctica com o primeiro que aparecer. Com certos indivíduos o debate será necessariamente vicioso: com um homem que procure de todo o modo possível fugir ao debate, é justo tentar por todas as formas conseguir finalizar o raciocínio, mas o resultado nunca será famoso. Por esta razão não devemos parar a dialogar sem hesitação com quem nos aparecer pela frente, pois isso redundará fatalmente numa conversa penosa; além disso, quem ainda está a praticar não é capaz de evitar que o diálogo se torne contencioso.”

 

 

 

 

 

Em resumo: se hoje conseguimos expressar corretamente através da fala os nossos pensamentos de forma a termos a possibilidade de distinguir a verdade da mentira, devemo-lo a Aristóteles.

  

Seria, contudo, estultícia da minha parte, pretender que todos os participantes e parlamentares convidados dos nossos meios de comunicação social, tivessem lido obrigatoriamente o Órganon, ou mesmo só os Tópicos, antes de se aprestarem a botar palavra. Até porque já se não usa, dão pouca audiência e, segundo dizem: “o povo, na sua infinita sabedoria, não tem paciência para ouvir”.

 

 

Perante isto, sugiro em sua substituição uma versão mais ligeira, mais acessível, e sobretudo mais de acordo com o espírito dominante. Refiro-me ao livro, Dialéctica erística ou a arte de ter razão, exposta em trinta y oito estratagemas (Eristische Dialektik: Die Kunst, Recht zu behalten), um pequeno tratado não concluído e publicado postumamente em 1864, de Arthur Schopenhauer, com a finalidade de se   “discutir […] de forma a que se tenha razão tanto lícita como ilicitamente”, ou seja, sem precisar de ter razão.

 

Baseando-se nos Tópicos de Aristóteles, vai mudar-lhes o sentido, pondo-os à disposição dos que apenas querem ganhar o debate. Aqui deixo um muito pequeno resumo de algumas dessas trinta e oito sugestões:

 

  1. Provocar o adversário por forma a que ele se irrite, pois “encolerizado, não está em condições de raciocinar de forma correta”. E se o adversário se enfadar com uma ideia, deve-se insistir nela. Significa que tocámos num ponto fraco.
  2. Se quisermos que o adversário aceite uma tese, “devemos apresentar-lhe o seu oposto” e fazê-lo eleger. Por exemplo, dar-lhe a escolher entre “estas medidas para reativar o emprego ou o desemprego”, como se não houvesse outras soluções.
  3. Encontrar contradições em qualquer coisa que ele tenha dito. Por exemplo, se ele defende o suicídio, “exclamar de imediato «porque não te enforcas tu?»”.
  4. Se o nosso interlocutor estiver a derrotar-nos, não devemos deixá-lo levar a sua argumentação até ao fim: “Devemos interrompê-lo, divagaremos, desviaremos o curso da discussão, levantando outras questões”.
  5. Dar-lhe a volta ao argumento. Por exemplo, se o adversário diz: “E uma criança, há que ter paciência”, deve-se responder:” Precisamente por ser uma criança é que se deve corrigi-la”.
  6. Recomenda que “em vez de razões, devem-se empregar autoridades”, pelo que se devem reproduzir incorretamente citações, falsificar e mesmo inventar. Isto porque “são muito poucos os que podem pensar, mas todos querem ter opiniões”.
  7. Utilizar sofismas, como por exemplo dizer-lhe: “Isso pode estar certo na teoria, mas na prática é falso”. Na realidade, diz Schopenhauer, “o que está certo na teoria também está certo na prática: se não estiver certo, então há uma falha na teoria”.
  8. Lançar suspeição sobre uma afirmação do adversário, “mesmo que o que se vier a dizer só se assemelhe vagamente, ou pouco tenha a ver com ela”. Exemplo: “isso é comunismo” ou “isso é fascismo”.
  9. Se o adversário não responder a uma pergunta ou a um argumento, deve-se insistir. Significa que “tocámos num ponto fraco”.
  10. Aturdir, desconcertar o adversário mediante palavreado sem sentido”. O disparate deve soar como “erudito ou profundo”.
  11. Se tudo falhar e se “percebe que o adversário é superior”, devemos passar ao insulto: “Pessoalize, seja ofensivo, grosseiro”.

 

 

 

Em abono de Schopenhauer, devo dizer que este seu texto já se encontrava escrito algum tempo antes da sua morte, e ele nunca o enviou para publicação.

 

Talvez essa sua hesitação se perceba melhor ao lermos o “estratagema final”, no qual vai concordar com a recomendação de Aristóteles sobre com quem se deve discutir:

 

“[…] não discutir com o primeiro que o queira fazer, mas apenas com os que conhecemos e que saibamos que possuem a inteligência suficiente para não se comportarem absurdamente […] que discutem com razões e não com demonstrações de força […] que sejam capazes de valorizar a verdade, de escutar de bom grado os argumentos […] e que possuam a equanimidade como para admitir que não têm razão quando a outra parte a tem. Disto se deduz, que de entre cem apenas há uma com quem mereça a pena discutir. Aos demais, deixa-se que digam o que quiserem, pois, todo o mundo tem direito à sua opinião”

 

E termina dizendo:

 

 “Pense-se no provérbio árabe: «Os frutos da paz pendem da árvore do silêncio»”.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Consultar:

  1. Aristóteles, Tópicos, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2007

(https://www.netmundi.org/home/wp-content/uploads/2017/09/Arist%C3%B3teles-Obras-Completas-Vol.-I-V-T%C3%B3picos.pdf).

 

  1. Schopenhauer, Arthur, Dialética Eristica o El Arte de Tener Razone Expuesta en 38 estratagemas (http://www.conoze.com/doc.php?doc=3904). Em português, pode-se encontrar com o título, A Arte de ter Razão – 38 Estratagemas para Vencer um Debate Sem Precisar Ter Razão, na Montecristo Editora.

 

 

 

 

 

 

 

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