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Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

(241) Encanar a perna à rã

Tempo estimado de leitura: 7 minutos.

 

É extremamente possível que a influência humana tenha sido a causa dominante do aquecimento global que se tem vindo a verificar desde meados do século XX, Administração Nacional para a Segurança Rodoviária das Autoestradas dos EUA.

 

Para 2100, o relatório conclui que a temperatura à superfície da Terra aumentará aproximadamente 3,48º centígrados, o que implicará que o nível médio da água do mar suba 76,34 centímetros.

 

A conclusão final é que, por mais que se faça, a mitigação dos resultados obtidos pouco irá alterar o panorama geral previsto para 2100. Ou seja, mais elétrico, menos elétrico, mais turbinas de vento, mais marés menos marés, no cômputo geral e global da energia consumida, vai tudo dar ao mesmo.

 

O consumir verde não passa de uma forma de convencer as pessoas que podem continuar a manter o seu padrão de vida de grande consumo sem necessidade de alterarem o seu estilo de vida para conseguirem reduzir a sua pegada de carbono.

 

 

 

 

Em julho de 2018, a National Highway Traffic Safety Administration (Administração Nacional para a Segurança Rodoviária das Autoestradas) dos EUA, juntamente com o Departamento de Energia e a Agência para a Proteção Ambiental, produziram um muito detalhado e extenso (500 páginas) relatório sobre as “Regras de Eficiência de Combustível a Aplicar aos Veículos para os Anos 2021-2026 por forma  a tornar o Impacto Ambiental mais Seguro e Comportável” (https://www.nhtsa.gov/sites/nhtsa.dot.gov/files/documents/ld_cafe_my2021-26_deis_0.pdf).

 

 

Para a execução do relatório em questão, foram minuciosamente e extensivamente tidos em consideração os impactos ambientais provenientes do uso da energia e combustível, qualidade do ar e alteração climática resultante do efeito de estufa, tendo sempre em vista o objetivo central dos EUA na conservação de energia.

Começa por explicar o efeito de estufa pela absorção que a Terra faz da energia calórica oriunda do Sol, que por reflexão na Terra é de novo enviada para o espaço como radiação infravermelha. O efeito de estufa que se verifica na baixa atmosfera (até aproximadamente 4 a 12 milhas acima da superfície) absorve esta energia calorífera refletida pela superfície da Terra e pela baixa atmosfera, reenviando-a de novo para a superfície da Terra, causando o seu reaquecimento.

É este processo que tem conseguido manter a temperatura da Terra dentro de limites que permitem que a vida se mantenha sustentável. Contudo, tem-se vindo a verificar um aumento da concentração dos gases do efeito de estufa (dióxido de carbono -CO2-, metano -CH4-, e nitrogénio -N2O) na atmosfera, que têm provocado alterações climáticas globais (tendências de longo-termo, períodos mais de uma década) na temperatura média global, precipitação, cobertura de gelo, nível do mar, nebulosidade, temperaturas do mar à superfície e correntes, pH dos oceanos e outras condições climáticas. Este aumento está a alterar o balanço energético da Terra.

 

As temperaturas médias à superfície da Terra têm vindo a aumentar desde a Revolução Industrial. De 1880 a 2016, subiram mais de 0,9 graus. O nível médio das águas tem subido de 1901 a 1990, um total de 11 a 14 centímetros. De 1990 a 2017, subiu 16 a 21 centímetros. Para o mesmo período de tempo, a concentração de CO2 aumentou 44,6%, o metano e o nitrogénio aumentaram respetivamente 150 e 20 por cento.

As atividades humanas que emitem gases que provocam este efeito de estufa incluem a produção e combustão de combustíveis fósseis, processos industriais e a utilização dos seus produtos, agricultura, florestação e outros usos da terra e a gestão dos lixos e desperdícios.

Estima-se que 98% destes gases são o resultado de enormes concentrações de CO2 provenientes da combustão de combustíveis fósseis (carvão, petróleo, e gás natural) utilizados para produzirem eletricidade, aquecerem edifícios, e do escape dos motores de veículos terrestres, marítimos e aeronáuticos.

Em 2016, o sector dos transportes nos EUA contribuiu com 34% para o total das emissões de CO2 nos EUA, das quais 59% têm origem nos veículos motorizados de transporte.

Segundo o relatório, devido ao “resultado de atividades humanas, particularmente da combustão de combustíveis fósseis”, é “extremamente possível que a influência humana tenha sido a causa dominante no observado aquecimento global que se tem vindo a verificar desde meados do século XX”.

 

Numa rigorosa e exaustiva projeção para 2100, o relatório conclui que a temperatura à superfície aumentará aproximadamente 3,48º centígrados, o que implicará que o nível médio da água do mar suba 76,34 centímetros e o pH baixe para 8,2719.

 

O relatório é extremamente detalhado e com um enorme conjunto de dados. Só a título de exemplo, vejam-se os pormenores das abordagens sobre a influência nos impactos dos ecossistemas de águas terrestres e marítimas, nas alterações dos padrões das migrações das espécies, nos seus ciclos de vida, na potencial extinção de espécies sensíveis que não conseguissem adaptar-se às alterações, ao aumento da ocorrência de fogos florestais e infestações; impactos nos sistemas oceanográficos, regiões costeiras, que podem incluir o desaparecimento de áreas costeiras devido a submersão ou erosão devido ao aumento do nível médio das águas ou do aumento de tempestades. Alterações em áreas-chave do ambiente (ex., aumento das temperaturas, diminuição do oxigénio, diminuição do pH dos oceanos, aumento da salinidade) ou redução dessas áreas (ex., recifes de coral) que podem afetar a distribuição, abundância, e a produtividade de muitas espécies marinhas; às migrações de espécies de peixes para águas mais frias ou mais profundas como resposta ao aumento da temperatura dos oceanos, e à diminuição global das capturas. Impactos na comida, incluindo nas colheitas, processamento, armazenamento e seu transporte, que podem por em risco os preços e a segurança global da comida.  

 

O relatório estuda também, evidentemente, o mercado global dos veículos elétricos, e sua comparação com outras alternativas quer sejam de motores híbridos, células de combustível e outros. Projeção no futuro.

Em todos os capítulos, após a exposição sobre o estado da questão, entra sempre em consideração com um conjunto de oito alternativas possíveis, passíveis, recomendáveis, incluindo a de não fazer nada.

 

A sua conclusão final é que, por mais que se faça, os resultados obtidos pouco irão alterar o panorama geral previsto para 2100. Ou seja, mais elétrico, menos elétrico, mais turbinas de vento, mais marés menos marés, no cômputo geral e global da energia consumida, vai tudo dar ao mesmo.

 

Daí que nas suas recomendações, se fiquem por sugestões de mitigação como a inclusão de novas medidas para regulamentar a emissão dos gases de escape dos automóveis e camiões ligeiros, incentivos para a aquisição de veículos mais eficientes, mecanismos para a redução da quilometragem dos veículos (como o aumento de transportes públicos ou incentivos económicos similares) e a criação de um fundo para providenciar a filtragem do ar em residências adjacentes às autoestradas.

 

A grande importância deste relatório que é governamental, é vir tornar público duas evidências:

 

Primeira: os governos e os fabricantes sabem que este aquecimento global é provocado pelas ações dos humanos.

Segunda: os governos e os fabricantes sabem que todas as propostas que apresentam não resolvem o problema.

 

 

Entretanto. Entretendo.

 

De acordo com um relatório da Comissão Global para a Economia e o Clima (https://newclimateeconomy.report/2018/), nos próximos 10 a 15 anos esperam-se investimentos na ordem dos 90 triliões de dólares para afastar a “maldição” climatérica. Evidentemente, os produtores de produtos de consumo estarão grandemente interessados, porquanto já sabem que evidentemente também, serão os consumidores a pagarem mais para obterem produtos sustentáveis e amigos do ambiente, para “salvarem o planeta”.

Evidentemente também, muitos desses produtos nem sustentáveis são, alguns mesmo sendo pior que os que vieram substituir.

 

Propagandeada como a grande salvadora, a cultura orgânica – cultivo de produtos comestíveis sem o recurso a pesticidas ou fertilizantes – , embora melhore a saúde do solo e da água, apresenta grandes problemas: por exemplo, o cultivo orgânico de feijões, batatas e cereais, cria mais emissões de gases (a agricultura é uma das grandes fontes de emissão de gases de estufa) do que o cultivo convencional ( https://www.nature.com/articles/s41467-019-12622-7).

Por outro lado, como o cultivo orgânico produz menos por hectare que o cultivo convencional, necessita de mais terra para a mesma colheita. Segundo o relatório da Nature, se a Inglaterra e o País de Gales se decidissem por cultivar apenas produtos orgânicos, necessitaria de cinco vezes mais de área que não tem, tendo de os ir produzir fora, o que acarretaria mais emissões de carvão devido aos transportes envolvidos.

Ou seja, tudo o que se ganharia com a proteção da biodiversidade – eliminando os pesticidas implicados na morte das abelhas – acabaria por se perder pela maior emissão de gases de estufa. A diminuição dos gases de estufa emitidos só seria possível com uma alteração da dieta.

 

Quase o mesmo se passa com algumas das energias renováveis, que irão “salvar” o planeta da dependência petroquímica. É assim que a energia solar, apesar de não libertar emissões de carbono, a produção dos seus painéis é feita a partir do metal pesado carcinogénico cádmio e com a utilização de biliões de litros de água para a sua manufatura e arrefecimento.

Os carros elétricos que nos querem convencer serem tão progressistas a ponto de as empresas que os produzem receberem subsídios dos governos, quando, a energia gasta na sua produção é maior que a gasta na produção de um carro a gás, sendo a pegada ecológica exatamente a mesma (https://www.greencarcongress.com/2011/06/lowcvp-20110608.html).

Enquanto são conduzidos, os carros elétricos não produzem emissões, mas são tão “verdes” quanto a eletricidade que é usada para os carregar. Pior: as baterias que usam contêm metais tóxicos, como o lítio, níquel, magnésio e cobalto.

Assim, quando vão para o lixo, podem ser inflamáveis e libertar esses químicos tóxicos para o ambiente. Além do mais, só a produção de um milhão de carros elétricos em 2017, implicou a produção de 250.000 toneladas métricas, meio milhão de metros cúbicos, de lixo proveniente das baterias.

 

Quanto à biomassa e aos biocombustíveis, vistas como amigas do ambiente, para produzirem a mesma quantidade de energia, expelem mais emissões de carbono que os combustíveis fósseis. Para além disso, podem encher a atmosfera com poluentes devido à queima de lixo indiscriminado (https://www.theguardian.com/environment/2015/jan/29/biofuels-are-not-the-green-alternative-to-fossil-fuels-they-are-sold-as).

 

Desenganem-se também os consumidores que julgam que vão salvar a Terra ao utilizarem sacos de papel para as suas compras, em vez dos sacos de plástico. Não que os sacos de plástico sejam melhores, mas porque os sacos de papel originam mais poluição do ar e da água, são também de difícil reciclagem e, devido ao maior volume que ocupam, necessitam de mais combustível para serem transportados. Há um estudo interessante sobre o assunto, comparando o impacto dos sacos de papel, plástico e de pano (http://www.niassembly.gov.uk/globalassets/documents/raise/publications/2011/environment/3611.pdf).

 

 

O aparecimento de todo este espírito de consumir verde não passa de uma forma de assegurar ás pessoas que podem continuar a manter o seu padrão de vida de grande consumo sem necessidade de alterarem o seu estilo de vida para conseguirem reduzir a sua pegada de carbono.

Explorando a ingenuidade e bondade da natureza humana em quere salvar o planeta, as empresas induzem e cavalgam esta moda do consumo verde.

 

Faz parte da tendência humana, quando está em jogo um assunto complicado como a alteração climática ou o salvar as florestas, acreditar que se se fizer uma coisa, simples, talvez se consiga resolver o problema. Além do mais, dá-nos a sensação de participarmos na resolução dum problema comum. A sensação de fazermos a diferença.

E é isto que as empresas fazem: permitir as pessoas participarem sem terem de sacrificar nada.

 

Na realidade, a única maneira de resolver o problema é consumir menos. Consumir menos é melhor que consumir “verde”. O problema é que não há qualquer forma de fazer crescer a economia montada consumindo-se menos, sem se gastar dinheiro. Mesmo o chamado “capitalismo compassivo” não é capaz de reduzir o impacto ambiental da humanidade.

 

Subjacente a tudo isto, permanece aquela caraterística que tem feito progredir o sistema económico no qual nos movimentamos: chutar para a frente.

Exemplos evidentes: bombas atómicas e fábricas de energia nuclear, sem ter resolvido o problema do seu lixo; utilização dos combustíveis fósseis,    sem ter resolvido o problema dos seus resíduos; utilização de sacos de plástico e outros, sem ter resolvido o problema do seu lixo; fabricação e venda de carros elétricos, sem ter resolvido o problema das baterias descarregadas; utilização da internet, sem qualquer mecanismo que permitisse controlá-la; os cigarros que não produziam cancro; etc., etc.

 

Por tudo isto, o extenso relatório da Divisão de Trânsito dos EUA não pode permitir-se mais do que apresentar propostas apenas para a mitigação dos efeitos que sabem vir aí. Só uma mudança radical de atitude política e económica poderá evitar o futuro que se avizinha. Já não chega desligar os interrutores da luz. E eles sabem isso. É ver o afã (dinheiro e tempo) que põem nas corridas para a Lua e Marte.

 

 

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