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Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

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Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

(240) A meritocracia como instrumento

Tempo estimado de leitura: 4 minutos.

 

 

O sistema de progressão baseado em testes de inteligência não passa do mesmo sistema usado pelas mesmas classes que sempre detiveram poder, agora mascarado com novas roupagens.

 

Esta nova meritocracia conduziu a uma maior desigualdade do que a que se verificava com a antiga aristocracia, Michael Young.

 

As crianças das classes pobres ficariam sempre no fim da escala do ascensor social, servindo as suas baixas pontuações para justificar as suas situações sociais.

 

Hoje, as áreas de pobreza e riqueza não se encontram apenas divididas por riqueza, proventos ou acesso a serviços públicos, mas pelo DNA das pessoas que aí vivem.

 

 

 

 

Em 1958, o sociólogo inglês Michael Dunlop Young (1915-2002), publicou The Rise of the Meritocracy 1870-2033, (A ascensão da meritocracia 1870-2033), considerado na altura como uma distopia ofensiva para a sociedade britânica, pelo que foi rejeitado por 11 editoras e pela Sociedade Fabiana, até vir a ser finalmente aceite pela Thames and Hudson.

A “meritocracia” é um termo de filosofia política criado pelo próprio Michael Young, segundo o qual a influência política é essencialmente conseguida pelo talento intelectual medido por testes de inteligência e pelo sucesso individual.

No seu ensaio (tese de doutoramento) sobre o Reino Unido de 1870 a 2033, vê-o como uma sociedade na qual a inteligência e o mérito tinham vindo a substituir as divisões das classes sociais, por uma sociedade estratificada entre uma elite poderosa que o “merecera” ser e uma subclasse menosprezada de menos merecedores.

 

Muito em voga na então Grã-Bretanha do pós-guerra, o sistema de progressão baseado em testes de inteligência parecia vir a proporcionar a oportunidade para todos. Segundo Young, não passava do mesmo sistema usado pelas mesmas classes que sempre tinham tido poder, mascarado com novas roupagens.

Sem acesso às melhores escolas, as crianças das classes pobres obtinham rotineiramente as classificações mais baixas nos exames do ensino primário, o que lhes iria condicionar, determinar, o seu futuro profissional. Como explicava Young, elas ficariam sempre no fim da escala do ascensor social, servindo as suas baixas pontuações para justificar as suas situações sociais.

 

 

Que existiam certas regiões da Grã-Bretanha que eram mais pobres que outras, normalmente associadas a áreas de exploração de minas de carvão (País de Gales e o Norte), era um facto bastante conhecido. Daí resultou um agrupamento de pessoas pobres que residiam nos mesmos locais, vizinhas umas das outras.

Devido à limitada mobilidade (antes da introdução dos transportes públicos motorizados), a maior parte das pessoas casavam-se e tinham filhos com outras pessoas que moravam na vizinhança. Isto levou à criação de agrupamentos (clusters) genéticos relativamente similares.

Com o aumento da mobilidade, com o declínio da indústria do carvão, as pessoas começam a movimentarem-se para outras regiões, o que conduziu à tendência de as pessoas maior grau de instrução ou de maior talento irem abandonando as áreas pobres em favor das cidades e de áreas mais ricas, para virem a estar com outras pessoas como elas.

 

 

Num estudo recentemente publicado na Nature Human Behaviour, intitulado “Genetic correlates of social stratification in Great Britain” (https://www.nature.com/articles/s41562-019-0757-5), os autores pretendem demonstrar a existência de agrupamentos de vizinhança por nível de educação, possíveis de serem verificados a nível genético.

Vão utilizar resultados de testes poligénicos (predições dos traços de uma pessoa – seja a sua altura, índice de massa corporal, personalidade, possibilidade de terminar a universidade ou se é fumadora – criadas apenas a partir do DNA) obtidos, não a partir da influência de um só gene, mas pela acumulação de pequeníssimos efeitos de milhares ou milhões de genes, em que alguns dos quais já sabemos estarem ligados a certos traços.

 

Embora não sendo totalmente fiáveis, estes testes permitem, por exemplo, ao nível da educação, predizer os anos totais de escolaridade de uma pessoa. Na amostra do estudo em questão, das 10% das pessoas que obtiveram as mais altas classificações, quase metade tinham um grau universitário. Entre os 10% das pessoas com as classificações mais baixas, apenas menos de um quinto tinha grau universitário.

No estudo, verificou-se também que aqueles que obtiveram as mais altas classificações relativamente às metas educacionais, tendencionalmente viviam todos perto uns dos outros. Ou seja, este agrupamento genético faz com que pessoas geneticamente semelhantes vivam na vizinhança umas das outras.  

 

 

Voltemos a Michael Young. Tendo nascido em Manchester, a sua infância é passada na Austrália. Família pobre, o pai violinista e crítico de música, a mãe atriz e pintora, após a separação consideram mesmo entregar o filho para adoção. Essa memória do medo e impotência, talvez o tenha inspirado na sua luta pelos mais desfavorecidos.

Regressado a Inglaterra, é encaminhado para vir a ser um fruticultor. Mas acaba por ir para a London School of Economics. Em 1945, é escolhido para diretor de investigação do Partido Trabalhista, e escreve o célebre manifesto “Let Us Face the Future”, definindo a missão do Partido: construir “um país livre, democrático, eficiente, colocando os seus recursos materiais organizados ao serviço do povo britânico”.

Esta foi a plataforma que muito ajudou à vitória do Partido Trabalhista de Clement Attlee sobre os Conservadores de Winston Churchill.

 

Depois, Young trabalhou em várias reformas da educação, cuidados de saúde, habitação e direitos do consumidor. Fundou mais de uma dúzia de organizações de serviços sociais, incluindo a Associação de Consumidores, o Centro de Informação para a Educação, e a “Universidade do Ar”, modelo para a Open University.

 

Numa das suas últimas estadias no hospital, um mês antes de falecer, Young ocupava-se com o envio de cartas para os serviços oficiais, inquirindo sobre as condições de trabalho da emigrante que lhe trazia a comida no carrinho de serviço. Ganham eles o salário mínimo?, eEstá a ser feito algum esforço para que lhes seja ensinado o Inglês? Duvido”.

 

Para Young, esta nova meritocracia conduziu a uma maior desigualdade do que a que se verificava com a antiga aristocracia. Antes, a elite ocupava o topo apenas por pura sorte, por nascer na casta social certa.  Agora, a elite chegou, por fim, ao topo por mérito próprio. Eles merecem ser a elite, eles sabem disso, e passam essa vantagem aos seus descendentes.

O que acontece hoje é que as áreas de pobreza e riqueza não se encontram apenas divididas por riqueza, proventos ou acesso a serviços públicos, mas pelo DNA das pessoas que aí vivem.

 

Num breve pé de página, Young faz-nos saber que nem todos os da subclasse posta de parte, viam as coisas desta mesma maneira: assim, o suposto autor acabava morto numa manifestação em 2034.

Estamos lá quase.

 

 

 

Nota: sugiro como complemento a leitura do blog de 20 de julho de 2015, “Os intelectuais são sempre de direita” https://otempoemquevivemosotempoemquevivemos.blogs.sapo.pt/os-intelectuais-sao-sempre-de-direita-3138.

 

 

 

 

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