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Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

(239) A essência de ser europeu

Tempo estimado de leitura:4 minutos.

 

O ser humano é o único animal que renega a sua própria condição de animal.

 

O ser humano não pode determinar-se a si próprio se, ao mesmo tempo, fugir da realidade.

 

Todos somos diferentes, mas apenas porque nos diferenciámos uns dos outros.

 

O cristianismo é uma consequência de um movimento migratório espiritual e pessoal que não tem nada que ver com a essência da Europa. A Europa não tem essência.

 

 

 

 

 

Dizem os entendidos que a principal característica do ser humano é a de ser o animal que renega a sua própria condição de animal. O aparecimento dos movimentos pós-humanistas e trans-humanistas são disso o exemplo mais recente, porquanto vão no sentido da eliminação do ser humano e sua substituição por um ciborgue composto de elementos humanos, animais e tecnológicos.

Aliás, seguindo a linha do Superman e outros idênticos heróis tão propagandeados por Hollywood, que nos garantiam a possibilidade da transformação de simples mortais terrenos em imortais a viver num futuro melhor. Não é de admirar que a investigação e a tecnologia tenham progredido nesse sentido, acabando por emprestar o aval do seu peso “científico” ao associarem-se a essa fantasia de sermos capazes de superar a mortalidade na Terra.

 

Estamos perante uma fuga da realidade que só poderá ser resolvida com uma nova visão daquilo que é ser humano, de um “novo humanismo” que nos inclua a todos, a todos mesmo, sejam estrangeiros, nacionais, amigos, vizinhos, mulheres, homens, crianças, homossexuais, transsexuais, raças, cores, religiões.

É essencial fazer notar isto, porque o humanismo vigente e que nos tem acompanhado desde o renascimento apenas diz respeito aos homens brancos, europeus, adultos, politicamente relevantes e ricos.

 

Basta ver o que escreveu um dos mais notáveis teóricos da dignidade humana universal, Kant, para se entender da necessidade de um novo humanismo. Escrevia Kant, para justificar a introdução dos “negros” como escravos, em substituição dos “escravos vermelhos” (índios):

 

Os escravos vermelhos são demasiado débeis para trabalhar no campo, daí se necessitarem dos negros […] todos os negros cheiram a ácido fosfórico”, o que vai influenciar a cor negra da pele.

Certamente, o calor húmido favorece o forte crescimento dos animais, e rapidamente, origina o negro, que provavelmente se adapta bem ao clima, quer dizer, é forte, boa carnação, ágil, mas em consequência do manto protetor da sua mãe pátria, que o brinda com abundantes alimentos, é também preguiçoso, suave e mole”.

 

 

Outra característica do ser humano parece ser a de poder determinar-se a si próprio, ou seja, a capacidade que tem para descobrir valores morais para os quais consegue orientar as suas ações. Esta liberdade, pois é disso que se trata, contudo, não significa que as nossas ações sejam sempre morais (ou não seria liberdade). Significa apenas que podemos atuar de qualquer maneira, moral ou imoralmente.

No seu Systema Naturae, onde pela primeira vez aparece a expressão Homo sapiens, Carl von Linné (1707-1778), vai atribuir ao ser humano a sapiência socrática do “conhecer-se a si próprio”. Esta sapiência não passa da capacidade para se determinar a si próprio. O problema é que a sabedoria também não implica automaticamente que se atue de forma correta.

 

Nestes tempos em que vivemos, o aparecimento (a importância atribuída) dos factos alternativos, da idade pós-factual, das reprimendas aos meios de comunicação e até da supressão da liberdade de imprensa em muitos países, quando acompanhado com o aparecimento do novo realismo, faz com que o ser humano não possa determinar-se a si próprio se, ao mesmo tempo, fugir da realidade.

 

É isto que faz com que seja extremamente fácil semear a discórdia entre nós, como, por exemplo, quando se propala que todos somos diferentes devido à diferença da nossa natureza, tendo esta que ver com a cor da pele, o sexo, a religião, a cidadania ou a tradição cultural. Na realidade todos somos diferentes, mas apenas porque nos diferenciámos uns dos outros.

 

Por exemplo, pretender-se uma Europa, onde se defenda a exclusão de etnias inteiras, como a islâmica, cujos antepassados tiveram influência decisiva na civilização europeia através de grande número de eruditos e não só, é ir contra qualquer sentido comum humano universal. Defender-se que para se ser humano e disfrutar de direitos humanos na Europa, se torna necessário ter antepassados que tenham trazido algo com eles, significa que se está a medir a condição de ser humano pelo rendimento que se tem. E por aí fora.

 

Não há pessoas naturais, nunca houve. Não há europeus naturais. Não há identidades culturais claras e nunca as houve. Pelo que não se pode defender que a Europa tem um fundamento cristão, até porque esse mesmo cristianismo foi fundado no Próximo Oriente por um judeu que foi executado por esse mesmo império europeu, império esse que foi conquistado posteriormente pelo cristianismo. O cristianismo é uma consequência de um movimento migratório espiritual e pessoal que não tem nada que ver com a essência da Europa. A Europa não tem essência.

 

 

Se na realidade vivemos atualmente numa crise, provocada entre outros pelos processos globais relacionados com a revolução digital, as guerras, as ciberguerras, o aquecimento global, as alterações climáticas, o que nos mergulha numa grande incerteza, então é fundamental que nos interroguemos sobre quem somos realmente, e quem queremos vir a ser no futuro.

Mas, se o pensamento que temos sobre nós assentar em premissas falsas, defeituosas, então a saída da crise aparecerá deformada e com muita probabilidade de conduzir a um desastre. Pelo que se torna urgente saber afinal quem somos nós os europeus que habitamos este espaço geográfico, e quem queremos nós ser no futuro se quisermos continuar a habitar este espaço.

 

 

 

 

 

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