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Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

(237) “Um espetáculo acerca de nada”

Tempo estimado de leitura: 5 minutos.

 

A nossa ordem global passou a ser descrita como estando assente no marketing dos meios de comunicação social.

 

Atualmente é o mapa que precede o território, ou seja, é o mapa que cria o território, J. Baudrillard.

 

A política geral da companhia de não permitir a publicação de anúncios pagos com afirmações falsas, não se aplica aos políticos, Nick Clegg, executivo do Facebook.

 

A finalidade da ordem simbólica é a de persuadir os participantes do espetáculo de que tudo está em ordem mesmo apesar de as condições de funcionamento da ordem social, que frequentemente reproduzem, irem contra os seus próprios interesses, Guy Debord.

 

 

 

 

A senadora Elizabeth Warren, candidata à nomeação pelo partido Democrata para a eleição à presidência dos EUA, fez recentemente (11 de outubro de 2019) publicar nos meios de comunicação social este anúncio:

 

 “Últimas notícias: Mark Zuckerberg e o Facebook acabaram de dar o apoio à reeleição de Donald Trump.

Provavelmente devem estar chocados, pensando, “como é que é possível que isto seja verdade?”

Pois bem, não é verdade. (Desculpem). Mas o que Zuckerberg “fez” foi dar a oportunidade a Trump de poder mentir na sua plataforma – e depois pagar ao Facebook montes de dinheiro para que as suas mentiras chegassem aos votantes americanos.

Se Trump tentar mentir num anúncio para televisão, a maior parte das estações de televisão recusam-se a emitir tal anúncio. Já o Facebook limita-se a receber os cheques de Trump.

O Facebook já ajudou Donald Trump a ser eleito uma vez. Agora, deliberadamente permitem que um candidato possa intencionalmente mentir ao povo americano. É altura de responsabilizar Mark Zuckerberg. Acrescente o seu nome se concordar.”

 

Esse anúncio, em que Warren reconhece como lemos, que tanto Zuckerberg como o Facebook não deram o apoio explícito a Donald Trump, vem no seguimento do Facebook ter permitido a publicação de um anúncio de Trump previamente rejeitado pela CNN por conter afirmações falsas. Segundo o executivo do Facebook, Nick Clegg, “a política geral da companhia de não permitir a publicação de anúncios pagos com afirmações falsas, não se aplica aos políticos”.

 

Sobre o anúncio de Warren, um porta-voz do Facebook, Andy Stone, acrescentou ainda:

 

Se a senadora Warren quiser dizer coisas que ela sabe não serem verdadeiras, estamos certos que o Facebook não está em posição de censurar tal discurso”.

 

 

 

Se quisermos uma abordagem mais leve e popular para tentarmos entender aquilo que nos aparece com este e outros “espetáculos”, sem dúvida que a frase que Seinfeld utilizou para definir sobre o que era o seu programa, um  “Show about nothing”, é a mais adequada, até porque resume também o alargado momento que se vem vivendo: espetáculos acerca de nada.

Mais eruditamente, mas menos conhecida, há uma frase de Jean Baudrillard (Simulacres et simulation), que expressa o mesmo:

 

Hoje em dia a abstração já não é a do mapa, o duplo, o espelho ou o conceito. A simulação já não é a de um território, de um ser referencial, de uma substância. É a do aparecimento de uma realidade através de modelos que não têm nem origem nem realidade: a hiper-realidade. O território já não precede o mapa e nem tão pouco lhe sobrevive. Agora é o mapa que precede o território – o precursor do simulacro -, é o mapa que cria o território.”

 

Dito de outra forma: passámos a descrever a nossa ordem global assente no marketing dos meios de comunicação social. Como resultado, a realidade deixa de nos aparecer como é na realidade para nos aparecer apresentada no seu formato retocado. Os novos mitos.

É assim que a realidade do que se passa com os combustíveis fósseis, com o aço, a indústria automobilística, o fracking (fracturação hidráulica), as plataformas petrolíferas, o dieselgate, etc., começa a ser substituída pela “realidade feliz” da inevitabilidade do novo mundo digital.

 

Como a “realidade” mediática não consegue deter os processos da realidade social (é enorme a brecha existente entre a ilusão de que estamos muito próximos de conseguir uma digitalização da vida e da sociedade no seu conjunto, e a realidade social),vamos assistindo à tentativa de uma autorrepresentação do sistema social, ou seja, à tentativa de por na cena pública as ideias que os grupos dominantes têm sobre com funciona a sociedade no seu conjunto.

Esta autorrepresentação, a que Jacques Lacan chamou de ordem simbólica, não implica que seja verdadeira, representando antes um sintoma do antagonismo de uma sociedade.

Esta ordem simbólica pode ver-se em quase todas as cerimónias como os discursos do Ano Novo dos chefes de estado, os discursos da Rainha (a única que conta), nos espetáculos desportivos, nos debates televisivos entre candidatos políticos, nos seus anúncios de campanha eleitoral, nas tomadas de posse dos presidentes, nos Jogos Olímpicos, nos substratos das séries de televisão e filmes, nas redes sociais, etc. O tema comum é: “Estamos nisto todos juntos”. “Os nossos corações batem em uníssono”.

 

Segundo Guy Debord, no seu livro, A sociedade do espetáculo, (1967), a ordem simbólica toma a forma de um espetáculo cuja finalidade é a de persuadir os participantes do espetáculo de que tudo está em ordem, mesmo apesar de as condições de funcionamento da ordem social, que frequentemente reproduzem, irem contra os seus próprios interesses.

Daí que as chamadas bases eleitorais, perante as cortinas de fumo que lhes são lançadas, nem sequer se dão conta que estão a votar contra os seus próprios interesses.

É ver a excitação constante dos meios de comunicação e dos temas de conversa das pessoas sobre as últimas informações e comentários expendidos sobre membros dos governos. Com Trump atingiu-se o ponto mais alto: as bolas de gelados e os bolos de chocolate que Trump devora ou que serve aos seus convidados, os hambúrgueres que gosta de comer, as enormidades ditas e quebras de protocolo por ele feitas, os livros (e as revelações) que se escrevem sobre ele, tudo isso e muito mais que não tem qualquer importância e que só contribui para que simbolicamente já se esteja a reeleger Trump.

Tudo isso faz da presidência de Trump, a definição por excelência de um mandato de simulação, em que a distração da realidade se pratica com a finalidade da manipulação perfeita dos produtores e consumidores de bens.

 

Mas, atenção, não se deve ver esta estrutura do espetáculo como sendo uma conspiração intencional e exclusiva do mundo capitalista moderno. Basta recordarmos o “pão e circo” da antiga Roma. Talvez que a origem deste espetáculo tenha que ver com o processo de produção de bens: à medida que ele se foi desenvolvendo, a partir de certo ponto começamos a deixar de percebê-lo na sua particularidade, pelo que nos vimos forçados a contar-nos uma história que nos faça “entender” e fiar bem com o processo.

Dito de outra forma: a origem do espetáculo talvez esteja na divisão do trabalho, que, a partir de uma certa ordem de grandeza dos grupos sociais e de um certo desenvolvimento da troca de bens, se torna impossível de evitar.

 

Foi este contar de histórias que foi permitindo a coesão de grupos já com uma massa crítica. Sempre que um sistema social não se consegue entender através das suas condições de produção, conta histórias. Mitos.

O mesmo se passa hoje. Contam-se histórias. Sendo as condições de produção imensamente variadas, numa multiplicação quase infinita de ordens simbólicas, contam-se mais histórias.

 

 

 

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