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Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

(235) A intencionalidade das formigas

Tempo estimado de leitura: 6 minutos.

 

Será que toda a nossa vida consciente não passa de uma simulação produzida pela estimulação do nosso cérebro? Hilary Putnam.

 

As coincidências felizes da vida são exatamente isso: coincidências felizes. E as coincidências infelizes, ou seja, os acidentes, também não são coincidências.

 

No tempo em que vivemos, substituímos o discurso de Deus pelos das máquinas que nos parecem inteligentes porque instalámos nelas a nossa lógica.

 

Talvez que o sentido da nossa vida espiritual não passe de uma fuga do medo primário ao sem sentido das coisas.

 

 

 

 

 

Quando em 1999 as irmãs Lilly e Lana Wachowski realizaram a primeira parte da trilogia The Matrix, começam por nos apresentar os protagonistas a viverem numa realidade ilusória, numa simulação, tal como se tratasse de um jogo-vídeo programado de forma realista. A esta realidade ilusória vão chamá-la de “Matrix”.

O protagonista principal de Matrix é Neo (Keanu Reeves), um hacker dentro da Matrix. Por razões totalmente incompreensíveis, algumas pessoas tinham conseguido defender-se das máquinas (que abusavam das pessoas utilizando-as como plantas geradoras de energia; para manter vivos os organismos humanos, as máquinas estimulavam os cérebros das pessoas mediante a criação de uma realidade onírica que às pessoas parece completamente real, uma simulação muito perfeita, ou seja, conseguindo através de uma estimulação cerebral criar uma simulação perfeita).

Chefiados por Morfeo (Laurence Fishburne), entram no programa da consciência de Neo e libertam-no da simulação, para que ele conseguisse iniciar uma guerra contra as máquinas que controlavam a realidade básica.

 

Este enredo provém de um capítulo do livro do filósofo e matemático americano Hilary Putnam (1926-2016), Reason, Truth, and History, Cambridge: Cambridge University Press, 1981.

Nesse capítulo, Putnam aborda a questão de se saber se toda a nossa vida consciente seja apenas uma simulação produzida pela estimulação do nosso cérebro, que inclusivamente poderia não se encontrar no planeta Terra, mas num outro lugar numa cuba, e ligado através de tecnologia avançada para produzir alucinações.

Eis como começa o capítulo:

 

Uma formiga arrasta-se lentamente sobre a areia. Conforma avança, vai traçando na areia uma linha. Por puro azar, a linha desvia-se e volta à posição anterior, por tal forma que acaba por traçar aquilo que parece ser uma reconhecida caricatura de Winston Churchill. Terá a formiga traçado um retrato de Winston Churchill, um desenho que represente Winston Churchill?”

 

Será possível que a formiga tenha mesmo desenhado a caricatura de Churchill?

Da mesma forma podemos perguntar se será possível que exista o desenho de uma cara na Lua? Se será possível que existam as constelações em forma de pessoas, de animais, de objetos correntes? E as formas das nuvens?

 

Se vemos uma caricatura de Churchill é porque nós conhecemos Churchill. Acreditamos ver um escorpião no céu porque nós conhecemos o que é um escorpião. Mas, a formiga não conhece Churchill, e, portanto, não pode fazer uma caricatura dele, do mesmo modo que o céu não conhece nenhum escorpião, e não o pode representar. Aliás, o céu não conhece nada.

Segundo Putnam, as formigas poderiam produzir uma caricatura de Churchill apenas de forma acidental, se considerássemos a possibilidade do que chama de teoria mágica da referência. Só por milagre se poderia explicar.

 

Ponto assente é que as formigas não podem refletir sobre Churchill. Se acreditarmos que estamos a ver uma caricatura de Churchill criada de forma acidental por uma formiga, então o que estamos a fazer é projetar a nossa intencionalidade à linha traçada pela formiga (tese da projeção). Estamos a conferir à realidade um significado que não teria se não dispuséssemos da nossa boa-vontade particular.

Esta tese aparece pela primeira vez, ainda que não explicitada, no século VI a. C. com o pré-socrático Xenofonte, quando escreve:

 

“Os etíopes dizem que os seus deuses são chatos e negros, e os trácios dizem que os seus deuses têm olhos azuis e cabelo claro, […] Se os bois, os cavalos ou os leões tivessem mãos e fossem capazes de pintar com elas e de fazer figuras como os homens, ao cavalos desenhariam imagens de deuses semelhantes à dos cavalos e os bois semelhantes às dos bois e fariam os seus corpos tal como cada um tem o seu”.

 

Já em 1841, Ludwig Feuerbach, no seu livro A essência do cristianismo, vai explicitamente fazer notar que o cristianismo projeta as qualidades humanas para o céu, daí o Deus cristão compartir muitas das suas características com o ser humano. Ao desenhá-lo à nossa imagem vamos acabar por o projetar para o mundo exterior. Ou seja, Deus foi criado à nossa imagem e não nós à imagem dele.

 

Seguindo esta linha que considera o ser humano o ser de maior pensamento, todos os outros animais passam a serem considerados num plano inferior. O que não deve significar que tenhamos direito a matá-los. Da mesma forma que não matamos as crianças por não terem um pensamento tão desenvolvido como nós, os adultos.

 Os seres vivos não devem de ser moralmente respeitados pela inteligência que possam ter, mas pelo facto de terem a capacidade de poderem sofrer.

É por isso que temos obrigações morais para com os animais, mas já as não temos relativamente aos telefones inteligentes. Os telefones inteligentes têm maior capacidade matemática do que todos os animais e crianças, e, contudo, nada nos impede de destruir um telemóvel, já o mesmo não sucedendo relativamente às crianças.

 

Curiosamente, também transferimos atributos humanos para a nossa tecnologia. Da mesma forma que a humanidade durante milénios dotou o universo de um significado (que não tem) ao qual nos adaptássemos, atualmente consideramos o progresso tecnológico como uma força superior que não podemos controlar. Nos tempos em que vivemos, substituímos o discurso de Deus pelos das máquinas que nos parecem inteligentes porque instalámos nelas a nossa lógica.

 

Mas atenção: nem tudo o que nos parece um pensamento ou um fenómeno mental é, na realidade, um pensamento ou um fenómeno mental. E isto porque inclusivamente projetamos também os nossos próprios processos de pensamento no nosso entorno natural e social.

Por exemplo: imagine-se que após muitos anos de não ver um amigo, nos encontremos com ele numa cidade em que estamos de passagem, exatamente no momento em que estamos a pensar nele.

Isto não significa que o nosso amigo se encontre propositadamente nessa cidade para que nos voltássemos a encontrar. Aliás, seria estranhíssimo que ele tivesse conseguido programar esse encontro casual precisamente para uma altura em que eu estivesse a pensar nele. Igualmente estranho seria se um ser superior, um Deus, dirigisse os destinos de tal maneira que se encontre com um amigo, e que antes disso, se lhe dê um pequeno indício da feliz coincidência que iria acontecer.

As coincidências felizes da vida são exatamente isso: coincidências felizes. E as coincidências infelizes, ou seja, os acidentes, também não são coincidências.

 

Devido à combinação de um número praticamente infinito de fatores, estão sempre a acontecer coisas que não são de nenhuma maneira deliberadas. A nossa civilização não foi desenhada a régua e esquadro, não permitindo por isso uma planificação totalmente racional. Daí que a melhoria das condições de vida das pessoas dependa de uma série de circunstâncias que não são previsíveis.

O que significa que vivemos, fomos largados, num ambiente onde as coisas existem sem que ninguém o tenha antecipadamente planeado. Todas as produções tecnológicas e culturais humanas visaram sempre o tentar atenuar ou controlar esse ambiente que nos rodeia e que nos pressiona, criando cada vez mais estruturas que mantenham afastada o mais possível essa natureza perigosa e imprevisível.

 

Mas como nós mesmos, como seres vivos, somos naturalmente imprevisíveis, isto põe-nos um problema que, nos tempos atuais está a tentado ser ultrapassado através da superação (tecnológica) do nosso corpo biológico.

 

Com a expansão da informatização generalizada, acabamos atualmente por passar mais tempo no mundo da informação que no mundo da natureza. Por exemplo, ao passo que anteriormente numa viagem nos guiávamos por mapas impressos, onde teríamos a possibilidade de uma experiência original de caminhos  que nos pusessem em contacto com uma natureza alheia ao humano,  tudo o que agora experimentamos nessa mesma viagem é o que nos vem dado através dos telemóveis, com as fotografias ou vídeos dos locais a percorrer, ou seja, uma  viagem que será feita pelos caminhos mentais que previamente marcámos.

 

E evitamos esse contacto por uma boa razão: é que a natureza que é alheia ao humano, não é nem nossa amiga nem nossa inimiga. É uma simples presença de materiais e “leis” da natureza, em cuja elaboração as nossas espectativas de sentido não têm nenhuma intervenção.

 

Perante esta ausência de sentido da realidade que nos rodeia, os seres vivos pensantes como nós, acabam por criar nichos de intencionalidade, a criação de uma "infoesfera", de uma nossa própria atmosfera espiritual. Pelo que o sentido da nossa vida espiritual talvez não passe de uma fuga do medo primário ao sem sentido das coisas.

 

Ouçamos o que nos diz Luciano Floridi, The Philosophy of Information:

 

“A vida espiritual é, portanto, o resultado de uma reação de triunfo ante um horror vacui semantici primário: o caos sem sentido (no sentido não existencialista de «ainda carente de significado») ameaça com desgarrar o nosso ser [..] Este terror primário ante a aniquilação urge o nosso ser a preencher continuamente qualquer espaço semanticamente vazio com um qualquer significado que possa encontrar; em resumo, urge a fazê-lo com o maior sucesso que lhe seja permitido pelo conjunto de restrições contextuais, as possibilidades e o desenvolvimento da cultura.”

 

Para preencherem os seus dias, as formigas, substituem a intencionalidade pelo trabalho 24 horas por dia. Pelo menos, as chinesas, pelo que dizem. Todas as outras se lhes seguirão.

 

 

 

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