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Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

(232) Das necessidades quotidianas

Tempo estimado de leitura: 4 minutos.

 

Todas as necessidades humanas são reais e legítimas, Ágnes Heller.

 

E isto contraria abertamente aquilo que nos têm andado a querer fazer crer:  que temos vivido acima das nossas possibilidades.

 

Quem tem o poder para decidir quais são ou não as necessidades reais de cada um?

 

Tão ditatorial é a sociedade de consumo como são os sermões moralistas do poder que invoca a austeridade atual, Marina Garcés.

 

 

 

 

A 19 de julho deste ano morreu uma pouco conhecida e muito importante filósofa húngara, Ágnes Heller, nascida a 12 de maio de 1929 em Budapeste.

Segundo ela, toda a sociedade tem uma vida quotidiana, e todo o homem, seja qual for o lugar que ocupe na divisão social do trabalho, tem uma vida quotidiana muito própria. Contudo, isto não significa que o conteúdo e a estrutura da vida quotidiana para toda a sociedade e para todas as pessoas sejam idênticos, até porque toda a reprodução do homem particular é a reprodução do homem concreto com uma vida quotidiana muito própria.

 

Para a reprodução de um escravo são necessárias atividades distintas das necessárias para um cidadão livre, para um pastor, para um operário ou para um comerciante. Na vida quotidiana de cada homem são muito poucas as atividades que são tidas em comum com os outros homens, e mais, mesmo as que são consideradas como idênticas só o são num plano muito abstrato.

 

Todos necessitam de dormir, mas nenhum dorme nas mesmas circunstâncias e pelo mesmo período de tempo; todos têm necessidade de se alimentar, mas não da mesma quantidade e do mesmo modo.

Todo o homem nasce no quotidiano, mas ao produzir reflexões teóricas, filosóficas, artísticas, políticas, estará numa dimensão não quotidiana, que, contudo, tem a sua origem no próprio quotidiano.

Independente de qualquer estágio de consciência histórica em que seja lançado no mundo, o homem nasce no quotidiano e aí se desenvolve”.

 

E daqui Heller parte para uma ideia muito importante: a de que todas as necessidades humanas são reais e legítimas.

O que contraria abertamente aquilo que nos têm andado a querer fazer crer:  que temos vivido acima das nossas possibilidades. Que as nossas necessidades não são assim tão reais.

 

O que nos dizem quando sentimos que necessitamos de casa, automóvel, eletrodomésticos, viagens de férias, comer fora em restaurantes, é que essas não são necessidades reais, são falsas necessidades. E com o aprofundar da crise vão aumentando as listas dessas nossas falsas necessidades: cuidados de saúde para todos, medicina de alto nível para todos, escola de qualidade para todas as classes sociais, universidades públicas que todos possam frequentar, etc.

E é assim que acabam por instalar em nós essa ideia de que vivemos acima das nossas possibilidades desnecessariamente, e que nos levam a criticar quem muda de telemóvel todos os anos, quem muda de carro regularmente, quem acumula tudo o que a sociedade de consumo nos oferece ás catadupas.

 

Mas quem tem o poder para decidir quais são ou não as necessidades reais de cada um?

E é aí que sobressai a radicalidade de Ágnes Heller ao afirmar que todas as necessidades humanas são reais e legítimas. Só partindo desse princípio é que poderemos evitar o aparecimento de ditaduras que se arrogam o poder de nos dizer o que necessitamos e o que não necessitamos.

Tão ditatorial é a sociedade de consumo como são os sermões moralistas do poder que invoca a austeridade atual”.

 

Mas Ágnes Heller dá mais um passo quando diz que embora todas as necessidades humanas sejam reais, nem todas são boas e nem todas se podem satisfazer.

A ética e a política vão ter que entrar em ação para que esta clarificação se dê. Sendo a ética a elaboração de valores concretos que nos permitirão decidir coletivamente sobre a bondade ou não de uma necessidade, e a política a tomada de decisões tendo por base a ética, temos aqui os pilares que deveríamos usar para a condução dos processos históricos que se desejam plurais, mesmo que conflituantes.

 

É por isto, que uma verdadeira política democrática que conte com a participação de todos os indivíduos na elaboração dos nossos sistemas de necessidades e sua satisfação, embora possa ser apresentada como radical e utópica pelos mesmos que determinam quais são as nossas necessidades, torna-se cada vez mais urgente neste mundo com quase 8.000 milhões de humanos que se guerreiam e esgotam os recursos do planeta.

 

 

 

 

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