(230) Os novos “filósofos” da Felicidade
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“Direito à Vida, à Liberdade e à procura da Felicidade”, Declaração da Independência dos Estados Unidos, 4 de julho de 1776.
Se o homem depender de elementos externos para ser feliz, então a felicidade não será alcançável.
A felicidade é uma mera construção sem base neurológica e, felizmente para nós, não pode ser encontrada no tecido cerebral.
As religiões foram-nos convencendo que existe uma razão moral por detrás da infelicidade que experimentamos.
Exista hoje uma indústria de dezenas de biliões de dólares/ano, baseada na promoção da fantasia da felicidade como objetivo realista.
Redutoramente, e tudo nos convida a isso, podemos sempre ver a humanidade como um grande campo de escravatura governado por alguns oligarcas ou por um qualquer tirano, servidos por sistemas de pensamento que nada mais fazem do que justificar essa ordem de coisas, ou alargadamente, e por enquanto tudo nos convida a isso, podemos sempre ver a humanidade como estando num muito lento e difícil caminho que tem vindo a conduzir no sentido da sua libertação de todas as formas de escravidão, mesmo das mais insidiosas delas que são as que se impõem sem recurso a manifestações abertas de violência física.
Mais, curiosamente ou não, toda esta longuíssima luta que tem permitido ao ser humano a perceção e eventual assunção da sua grandeza ontológica, levando a humanidade a transcender os limites culturais e civilizacionais do espaço geográfico em que se desenvolveu a ponto de se poder considerar o ser humano como sendo apenas de um só tipo, semelhante, na sua mesma diferença própria, em todas as partes e em todos os tempos, tem origem no pensamento antigo vindo de humanos suficientemente possidentes para não necessitarem de trabalhar (filósofos pré, pós, “grandes” e “pequenos” socráticos).
Atentemos, por exemplo, no conceito de felicidade. A primeira grande definição de felicidade é dada por Aristóteles (Retórica I 5):
“Seja, pois, a felicidade o viver bem combinado com a virtude, ou a autossuficiência na vida, ou a vida mais agradável com a segurança, ou a pujança de bens materiais e dos corpos juntamente com a faculdade de os conservar e usar; pois praticamente todos concordam que a felicidade é uma ou várias destas coisas.
Ora se tal é a natureza da felicidade, é necessário que as suas partes sejam a nobreza, muitos amigos, bons amigos, a riqueza, bons filhos, muitos filhos, uma boa velhice; também as virtudes do corpo como a saúde, a beleza, o vigor, a estatura, a força para a luta; a reputação, a honra, a boa sorte e a virtude. […] Com efeito, uma pessoa inteiramente autossuficiente se possuísse os bens internos e externos, pois fora destes não há outros. Os bens internos são os da alma e os do corpo; os externos são a nobreza, os amigos, o dinheiro e a honra. Cremos, contudo, que a estes se devem acrescentar certas capacidades e boa sorte, pois assim a vida será muito mais segura.”
Mais tarde na Ética a Nicómaco, Aristóteles vai completar este seu pensamento ao afirmar que apenas teremos a certeza de que alguém foi feliz no momento em que morrer, porque até lá pode sempre ser vítima de uma qualquer calamidade que o impeça de ser feliz.
Ou seja, apesar de toda a virtude interior necessária, a felicidade acaba por depender do acaso, da sorte.
Com o correr do tempo (deterioração das condições económicas, imprevisibilidade da conservação da riqueza e até da vida, instabilidade política e outros), esta dependência da felicidade relativamente a algo que é exterior ao sujeito começa a ser questionada.
Eis o que nos diz Séneca (Da vida feliz, §4):
“[…] o homem feliz […] pratica aquilo que é honesto e contenta-se com a virtude; os acidentes da sorte não podem nem exaltá-lo nem quebrá-lo, não conhece bem maior do que aquele que se pode dar a si próprio; o seu verdadeiro prazer está no desprezo dos prazeres.”
Ou seja, se o homem dependesse de elementos externos para ser feliz, então a felicidade não seria alcançável.
Este tema da felicidade começa a tornar-se importante para as várias escolas de pensamento, quase todas elas coincidindo no sentido que ser feliz, ser completo, é ser sábio, entendendo-se por sábio todo aquele que contempla a verdade das coisas e, de mente tranquila, age de acordo com essa mesma verdade.
Mas a partir daqui surgem divergências e convergências que ainda hoje se mantêm.
Por exemplo, para os Céticos, não pode haver conhecimento seguro acerca de coisa alguma, pelo que para sermos felizes, devemos desistir de procurar a verdade. Contudo, não afirmam que a verdade não existe. Aliás, nem afirmam nem negam; o que negam é a capacidade humana de poder conseguir comprovar alcançar a verdade.
Por isso, o verdadeiro sábio deve abster-se de emitir juízos (suspender o juízo) e libertar-se de todas as opiniões sem fundamento. Devemos viver sem falar acerca do que não sabemos nem podemos saber, o que se chama viver em afasia, ausência de discurso. Viver indiferentes àquilo que possa ser verdadeiro ou falso, bom ou mau.
Duas pequenas curiosidades: hoje diz-se que uma pessoa é cética quando não acredita com facilidade naquilo que lhe dizem (o oposto de crédulo), quando duvidam. Recordemos, no entanto, que a dúvida metódica de Descartes foi uma etapa para chegar à verdade evidente, ou seja, a dúvida aparece como ponto de partida. Já no ceticismo da Antiguidade, a dúvida é o ponto de chegada.
Segunda curiosidade: o facto de os céticos serem conhecidos por “académicos”, não pelas suas qualificações ou frequências de instituições de ensino, mas apenas por eles se terem apoderado do ensino na Academia platónica.
Para os Neoplatónicos, a vida humana só fará sentido se nos esforçarmos para regressar à nossa própria origem, origem de tudo quanto é. E esse retorno só se se consuma a quando da união mística com o Uno. Até lá, não passamos de pedaços soltos e diluídos de um Uno original de que emanamos, que temos como finalidade a fusão de regresso ao Uno. Só aí e então, alcançaremos a felicidade. Como tudo aspira a retornar ao Uno, esta é uma filosofia dominada pela nostalgia e pela saudade.
Para os Epicuristas, a felicidade do homem está na procura do prazer, sendo o prazer a ausência de dor na vida consciente do homem. Para o conseguir, advogam o viver tranquilo, uma vida pacata e frugal, entre amigos, longe da cidade e do seu reboliço, sem quaisquer excessos.
O seu ideal de vida é de ataraxia, ou seja, de imperturbabilidade. Para alcançar este estádio de indiferença face a tudo o que nos pode perturbar, o sábio epicurista deve procurar abster-se do prazer e da dor, reduzindo ao mínimo tudo o que lhe possa dar prazer. É de Epicuro a frase “o meu corpo treme-me de prazer quando vivo de pão e água”.
O conhecimento que temos de Epicuro vem de uma sua obra, De rerum natura, (Sobre a Natureza das Coisas), transcrita cerca de 250 anos depois pelo filósofo romano Lucrécio. Desaparecido no entretanto, o poema volta a aparecer no século XV.
Segundo os princípios aí expressos, o espaço e o tempo são infinitos, tudo é feito de partículas invisíveis, a natureza é uma experiência sem fim, a sociedade humana começou com uma luta pela sobrevivência, não há vida após a morte, as religiões são desilusões cruéis, e o universo não tem qualquer finalidade. Como se deve então viver? Racionalmente, sem quaisquer ilusões. As ideias falsas só nos trazem infelicidade. Se minimizarmos a dor que elas nos causam, maximizamos o nosso prazer.
Para os Estoicos, e seus representantes mais modernos, Cícero, Séneca, Epiteto e Marco Aurélio, a vida boa assenta numa filosofia de superior resignação e aceitação, em nome de uma integração livre na universal sinfonia das causas, através da sábia utilização do juízo moral cooperante com a ordem universal, o Cosmos.
O seu ideal de vida é a apatia, que para eles significa indiferença ao prazer e à dor, ausência de paixão. A felicidade provém do cumprimento do dever e não do gozo de qualquer natureza. É pela prática da virtude que se alcança essa felicidade.
Eis o que nos diz Séneca nas Cartas a Lucílio, carta 81, n.17:
“Tal como um bravo soldado, o sábio suportará as suas feridas e contará as suas cicatrizes; […] Recebamos com grandeza de alma tudo o que nos acontece devido à constituição do universo: prestamos juramento de suportar o destino dos mortais e não nos perturbarmos com aquilo que não está nas nossas mãos evitar. […]”
Mais tarde, em 524, Severino Boécio, reunindo as influências do cristianismo, do platonismo, do aristotelismo e do estoicismo, e depois de mais uma vez nos afirmar que a verdadeira felicidade se encontra dentro e não fora de nós, e que o homem feliz é aquele a quem nada falta e que, portanto, nada deseja, vai deixar-nos n’ A Consolação da Filosofia, (prosa 8), um elenco pormenorizado de tudo aquilo em que a felicidade não consiste:
“Tencionas esforçar-te por amealhar riquezas? Terás de as subtrair a quem a tem. Queres brilhar com honrarias? Suplicarás a quem tem o poder de as outorgar e tu, que desejas ultrapassar os outros homens, tornar-te-ás vil ao rebaixares-te a uma situação de pedinte. Desejas o poder? Sujeitar-te-ás a expor-te aos perigos próprios dos que estão sujeitos às intrigas. Procuras eventualmente a glória? Renuncias a estar tranquilo, arrastando-te por tribulações de todo o tipo. Levas uma vida de prazeres? Mas quem não há-de desprezar o escravo da mais vil e frágil das coisas, o corpo? Ora os que têm em grande conta os bens do corpo em que pobres e frágeis propriedades se apoiam! Porventura sereis capazes de superar os elefantes em mole, os touros em força, porventura ultrapassareis os tigres em agilidade?”
Ou seja, tudo o que fruímos é mutável, transitório e passageiro. Este é um pensamento, sentimento, que não é só de um tempo e de uma civilização.
Ouçamos o que Abderramão III, Emir de Córdova entre 912 e 929, Califa de Córdova de 929 a 961, considerado o príncipe mais poderoso da dinastia Omíada que governou a península ibérica no século X, escreve como conclusão da sua vida:
“Durante mais de cinquenta anos reinei com vitórias e paz; amado pelos meus súbditos, temido pelos meus inimigos, e respeitado pelos meus aliados. Tive à minha disposição riquezas, honras e prazeres, e bênçãos que poderiam ter contribuído para a minha felicidade. E, contudo, se contar diligentemente os dias que me proporcionaram uma pura e genuína felicidade, eles não chegarão a catorze. Homens! Não depositeis a vossa confiança neste mundo presente!”
Como qualquer outra criatura do mundo natural, o homem tem como função primeira assegurar a sua sobrevivência e reprodução. Até um simples estado de contentamento, ao baixar a sua guarda contra possíveis ameaças, poderia pôr em risco a sua sobrevivência.
Talvez por isso, não se consiga encontrar no cérebro uma área especificamente relacionada com a felicidade. Dito de outra forma, a felicidade é uma mera construção sem base neurológica e, felizmente para nós, não pode ser encontrada no tecido cerebral.
Mas isso não impediu que a procura da felicidade viesse até ser encarada como um dos direitos fundamentais da humanidade.
Segundo a Declaração da Independência dos Estados Unidos de 4 de julho de 1776, os três direitos fundamentais dados a todos nós pelo Criador, e que devem de ser protegidos pelos governos, são:
“Direito à Vida, à Liberdade e à procura da Felicidade”.
Sabemos que as religiões, ou as suas Igrejas, nos foram convencendo que existe uma razão moral por detrás da infelicidade que experimentamos: o nosso egoísmo, a nossa pequenez moral, o nosso materialismo, só tratável através de um equilíbrio psicológico virtuoso a ser conseguido pela renúncia e afastamento do desejo.
A grande importância deste conceito moral é a de nos convencer que existe um remédio para a nossa incapacidade de viver a vida consistentemente e que, através de um caminho de correção moral, poderemos corrigir a falha da nossa natureza.
Não é, pois, de admirar que exista hoje uma indústria de dezenas de biliões de dólares/ano, baseada na promoção da fantasia da felicidade como objetivo realista, quer seja através de produtos químicos [um sexto dos americanos tomam antidepressivos (https://jamanetwork.com/journals/jamainternalmedicine/fullarticle/2592697)] quer através de aconselhamentos de pensamentos positivos e outros.
Ultimamente têm começado a envidar “esforços” para a criação de uma pílula para combater a solidão que, juntamente com os novos domésticos operados por Inteligência Artificial, muito ajudarão os cada vez mais abundantes solitários da 2ª e 3ª idade (https://nationalpost.com/health/all-the-lonely-people).
Com o tempo, muito provavelmente, estas pílulas estender-se-ão à quase totalidade da população, o que acabará por fazer da solidão um luxo para alguns, que só virá a ser possível de obter com o recurso a uma outra pílula muito mais cara a comercializar proximamente.