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Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

(203) As razões que a razão desconhece

Tempo estimado de leitura: 6 minutos.

 

Todos os modelos estão errados, há é alguns que são úteis”, George Box.

 A correlação substitui a causalidade. O “é assim” substitui o “porque”.

 

Não sabemos quem somos ou como somos, não sabemos o que na realidade estamos a fazer e porque o estamos a fazer.

 

O coração tem razões que a razão desconhece, Pascal.

 

 

 

 

Perante uma realidade difícil de perceber e dominar, os primeiros homens acabaram por se verem na necessidade de “construirem um racional” que lhes permitisse entender e protegerem a si próprios e às suas comunidades. Surge assim uma das estruturas compreensivas face-a-face com a realidade, uma primeira forma do humano se confrontar com a realidade, que se veio posteriormente chamar de “mito”.

Muitos e variados são os estudos, interpretações, explicações e descrições sobre o mito (e os mitos) nessas sociedades primeiras.

George Gusdorf, diz-nos que “O mundo, que até então não tinha sentido, passa a ter um sentido” e que “A consciência mítica permite a constituição de uma envolvente protetora no interior da qual o homem encontra o seu lugar no universo”.

Mircea Elíade, diz-nos que “um mito é uma história verdadeira que se passou no começo dos tempos e que serve de modelo aos comportamentos humanos”.

Eduardo de Soveral, intenta mesmo defini-lo como sendo “Narrativa, conto, história, ao princípio , oral, como a saga, e, como a saga, elaborada por sucessivas gerações, mercê de vários e afins mitologemas que já de si são fruto ou projeção na realidade de uma estrutura cognoscente que em especial vigora em faces primitivas ou primitivo-barbáricas, onde mais se vive tecnicamente despojado e onde, no âmbito do que na Vida é substantivo, mais se sofrem e advertem os impasses e limitações – a trágica condição – a que o homem se encontra submetido, mesmo que dela distraído (qual hoje ocorre …)”.

 

Independentemente de toda essa vária explicação e compreensão que acompanha o mito, é importante perceber que ele funciona sempre através daquilo que chamamos ser pensamento por correlação.

Exemplificando: Se durante a noite em que uma mulher grávida está para dar à luz, um lobo uivar e logo de seguida ela tiver uma criança saudável, então forma-se o mito de que sempre que um lobo uivar na noite em que uma mulher grávida estiver para dar à luz, tal é bom para a criança. Ou seja, apesar de não haver qualquer ligação entre as duas ocorrências, conclui-se pela sua relação.

 

A partir do momento em que a humanidade encontrou um método (a escrita) para transmitir, de geração em geração, séries de observações feitas, passando a ser possível classificá-las e coordená-las para daí tirar conclusões e induções, então a chamada filosofia natural (ciência) vai começar a substituir a mitologia. O mito é substituído pela hipótese, pela teoria científica. Causas e consequências, lógica. Um pensamento racional, com que temos vivido os últimos 2.700 anos, e que começa a ser atacado por desnecessário e obstruir o “progresso”.

 

 

Em 2008, Chris Anderson, escreveu um artigo muito interessante, “The end of theory: the data deluge makes the scientific method obsolete” (O fim da teoria: o dilúvio dos data torna obsoleto o método científico), que começa com uma citação do matemático George E. P. Box que diz que “Todos os modelos estão errados, há é alguns que são úteis”.

 

 Segundo Anderson, a teoria aparece como uma construção, um meio auxiliar para compensar a falta de dados. Se dispusermos de dados suficientes, a teoria passa a ser supérflua. Em vez da criação de modelos de teorias hipotéticas, podemos passar diretamente à análise matemática sem o estabelecimento de hipóteses sobre o que poderão significar, deixando para depois o estabelecimento do contexto.

 Podemos lançar números para as maiores constelações de computadores existentes e deixar que sejam os algoritmos estatísticos a encontrar os padrões que a ciência não consegue. A correlação passa a substituir a causalidade. O “é assim” substitui o “porque”.


Transcrevendo Anderson:


Empresas como a Google, que cresceram numa época de massas de dados enormemente grandes, hoje em dia não têm que decidir-se por modelos errados. Aliás, não têm mesmo que decidir-se em geral por nenhum modelo […] Quem pode dizer porque é que os homens fazem o que fazem? Fazem-no simplesmente, e podemos constatá-lo e medi-lo com uma exatidão sem precedentes. Se dispusermos de suficiente data, os números falam por si mesmos.”


Foi assim (não só) que a Google conquistou o mundo dos anunciantes, sem saber nada sobre a cultura e convenções de anúncios. Assumiu que tendo melhores dados e melhores ferramentas de análise, tal seria suficiente para ganhar. E foi.


Ela não sabe porque é que uma página é melhor do que outra: é suficiente que as estatísticas que lhe chegam dos enlaces, lhe digam que é melhor. Não é necessária qualquer análise semântica ou causal. É por isto que a Google pode traduzir linguagens sem as ‘conhecer’, e é por isso que pode adicionar anúncios a conteúdos sem conhecer nem os anúncios nem os conteúdos.


Deparámo-nos aqui com duas das mais importantes linhas de força que podem definir a presente e futura sociedade: a da vigilância digital, que permitindo o acesso ao inconsciente coletivo pode vir a influenciar o futuro comportamento social das massas, com o consequente controle por parte de grandes grupos, sejam eles empresas ou complexos militares-industriais, resultando numa crescente apatia ou militarização da sociedade; o desaparecimento da teoria que nos permitia pensar o mundo ou como o compreender de forma a poder-nos situar nele, quer fosse através da ontologia, da linguística, da sociologia ou de qualquer outra teoria sobre comportamento humano, e sua substituição por matemática aplicada à massificação de dados. “A quantificação do real na busca de dados expulsa o espírito do conhecimento” (ver o meu blog de 13 de janeiro de 2016,  https://otempoemquevivemosotempoemquevivemos.blogs.sapo.pt/big-data-big-shit-11046).

 

 

 

 

Daniel Kahneman, é um notável psicólogo e economista, Prémio Nobel de Economia em 2002, devido aos seus trabalhos em economia comportamental, “por ter integrado aspetos de investigação psicológica na ciência económica, nomeadamente no que concerne ao processo do julgamento humano e de tomada de decisão debaixo de condições de incerteza”.

As suas master-classes entre 2007 e 2008, “A  short course of thinking about thinking” (https://www.edge.org/event/edge-master-class-2007-daniel-kahneman-a-short-course-in-thinking-about-thinking) foram frequentadas por Jeff Bezos (Amazon), Larry Page (Google), Sergey Brin (Google), Nathan Myhrvold (Microsoft), Sean Parker (Facebook), Elon Musk (Space X, Tesla), Evan Williams (Twitter), Jimmy Wales (Wikipedia).

Em 2011, publica a obra que, de certa maneira, resume todas as suas teorias, Thinking, Fast and Slow (Pensamento, Rápido e Devagar), e que foi aclamada por todos os que veem na utilização da Big Data e afins, a resposta para os problemas da sociedade. Finalmente a obra teórica que justificava o que andavam a fazer.

Retiraram (apressadamente) do professor as conclusões que os raciocínios humanos, entregues a si próprios, conduzem a um certo número de falácias e de erros sistemáticos.

Contudo, já não tiveram tanta pressa e interesse em reproduzirem outras conclusões, como a de que o sucesso a nível financeiro tem mais a ver com o aleatório do que com o planeamento.

 

 

Muito resumidamente, o que diz Kahneman: que apreendemos o mundo por duas maneiras radicalmente opostas, a que vai chamar “Sistema 1” e “Sistema 2”.

O Sistema 1 é rápido, intuitivo, associativo, metafórico, automático, impressionístico, e não pode ser desligado. É o “autor secreto da grande maioria das escolhas e juízos que fazemos”.

O Sistema 2 é lento, cansa-se facilmente (“ego depletion”) e, quando em funcionamento, requer atenção. Contra vontade, passa a atuar quando as coisas se tornam difíceis.

Mas Kahneman avisa-nos do erro que cometeremos sempre que pretendermos sermos apenas nós próprios (o Eu) a decidir. E explica que não nos devemos identificar com o Sistema 2 porque somos também igualmente e profundamente Sistema 1. Compara o Sistema 2 a um ator secundário que acredita ser o ator principal, muitas vezes sem fazer ideia do que se passa.

Como o Sistema 1 é lento e se cansa facilmente, aceita normalmente o que o Sistema 1 lhe diz, o que até é bom, porquanto o Sistema 1 é na maior parte das vezes muito bom naquilo que faz, sendo muito sensitivo para pequenos indícios, sinais de perigo, e outros.

Contudo, ao ser rápido, o Sistema 1 tende a simplificar, baseando-se no que vê, mesmo em mexericos e boatos. Além disso, é francamente mau quanto ao pensamento estatístico, saltando rapidamente para conclusões influenciadas, sujeitas a efeitos de interferências (são descritas e exemplificadas várias delas, o efeito de halo, o efeito Florida, efeitos ancoragem, de enquadramento, de ilusão de focagem, etc.).

A enorme quantidade de exemplos dados da vida, desde influências nas decisões judiciais até às dos negócios, levam-nos a concluir que não sabemos quem somos ou como somos, não sabemos o que na realidade estamos a fazer e porque o estamos a fazer.

 

 

Kahneman, demonstra que nós não somos criaturas racionais, sendo antes instintivas, pelo que nos avisa que qualquer tentativa para nos pôr a atuar racionalmente tem de ter em consideração todos os preconceitos porque somos constituídos, pois, caso contrário, o falhanço será inevitável.

De certa maneira, já Pascal o dissera: “O coração tem razões que a razão desconhece”. Agora com uma nova versão mais elaborada: “O Sistema 1 tem razões que o Sistema 2 desconhece”.

 

Curioso que ao fim de milhares de anos, o pensamento de correlação do mito tenha conseguido permanecer, menosprezado e menorizado, e que acabe por ressuscitar, começando de novo a impor-se. Há quem defenda que estas formas de permanência são características do pensamento humano, uma característica da filosofia face ás ciências, na medida em que nas ciências, quaisquer inovações põem totalmente de lado a teoria antiga.

Se assim for, resta-nos esperar que o pensamento dito racional se prepare para a sua menorização e posterior ressurreição daqui a alguns milhares de anos. Sempre na medida em que os detentores do poder dele voltarem a ter necessidade para se conservarem no poder.

 

 

 

 

 

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