Os governos que desenvolvam e utilizem técnicas repressivas para controlar os territórios coloniais acabam eventualmente por aplicar domesticamente essas mesmas técnicas contra os seus próprios cidadãos.
Os Estados autoritários são construídos gradualmente. Nenhuma ditadura anuncia o seu plano de extinção das liberdades cívicas.
Durante o interregno entre os últimos suspiros de uma democracia e a ascensão de uma ditadura, a nação é manipulada.
Alexander Soljenítsin, no Arquipélago Gulag, observa que a consolidação da tirania soviética "prolongou-se por muitos anos porque era de importância primordial que fosse furtiva e despercebida". Chamou ao processo "um grandioso jogo silencioso de paciência, cujas regras eram totalmente incompreensíveis para os seus contemporâneos e cujos contornos só agora podemos apreciar ".
Já o historiador Robert Gellately, no seu livro Apoiando Hitler: Consentimento e Coerção na Alemanha Nazi, chama a atenção para o facto da utilização do terror de Estado na Alemanha nazi ter sido eficaz, não por causa da vigilância estatal omnipresente, mas por ter fomentado uma “cultura de denúncia”.
Os Estados autoritários são construídos gradualmente. Nenhuma ditadura anuncia o seu plano de extinção das liberdades cívicas. Ela presta homenagem à liberdade e à justiça da boca para fora, ao mesmo tempo que desmantela as instituições e as leis que tornam a liberdade e a justiça possíveis. Os opositores do regime, incluindo os que estão dentro do próprio regime, fazem tentativas esporádicas de resistência. Erguem bloqueios temporários, mas são logo eliminados.
O medo fabricado gera insegurança. Faz com que uma população — muitas vezes inconscientemente — se conforme exterior e interiormente. Condiciona os cidadãos a relacionarem-se com aqueles que os rodeiam com suspeita e desconfiança. Destrói a solidariedade vital para a organização, a comunidade e a dissidência.
Premonitoriamente, Aimé Césaire, o dramaturgo e político martinicano, no Discurso sobre o Colonialismo (1950), escreveu que as ferramentas brutais do imperialismo e do colonialismo acabam sempre por regressar à pátria;
“E então, num belo dia, a burguesia é despertada por um terrível efeito boomerang: a Gestapo está a postos, as prisões enchem-se, os torturadores à volta dos cavaletes inventam, refinam, discutem.
As pessoas surpreendem-se, indignam-se. Dizem: "Que estranho! Mas não interessa — é nazismo, vai passar!" E esperam, e têm esperança; e escondem de si a verdade: que é a barbárie, a suprema barbárie, a barbárie culminante que resume todas as barbaridades do dia-a-dia; que é nazismo, sim, mas que antes de serem suas vítimas, foram seus cúmplices; Que toleraram o nazismo antes de ele lhes ser infligido, que o absolveram, fecharam-lhe os olhos, legitimaram-no, porque, até então, só tinha sido aplicado a povos não europeus; que cultivaram este nazismo, que são responsáveis por ele e que, antes de engolir toda a estrutura da civilização ocidental cristã nas suas águas avermelhadas, escorre, verte e goteja por todas as fendas”.
É o que se conhece como “efeito boomerang imperial”, tese segundo a qual “os governos que desenvolvam e utilizem técnicas repressivas para controlar os territórios coloniais acabam eventualmente por aplicar domesticamente essas mesmas técnicas contra os seus próprios cidadãos.”
É assim que Césaire vai explicar as origens do fascismo na Europa. Para ele, os métodos empregues por Adolf Hitler e pelo Partido Nazi na Alemanha não eram historicamente únicos quando vistos de uma perspetiva global. Em vez disso, a violência exibida era uma extensão da lógica do colonialismo europeu existente, que resultara na morte de milhões de pessoas no Sul Global durante séculos.
O Holocausto e as atrocidades nazis foram apenas categorizados como sendo "excecionais" porque foram aplicadas a europeus dentro da Europa, e não a populações colonizadas em África, na Ásia ou nas Américas. Foram as mesmas técnicas de vigilância em massa, trabalho forçado e genocídio, anteriormente aperfeiçoadas nos territórios coloniais, que regressaram à Europa.
Na atualidade, começámos por ver a utilização dos drones em territórios estrangeiros para vigilância e destruição de alvos humanos com a invocação de assim se evitarem mortes dos “nossos” militares; a blindagem e o rearmamento das forças policiais porque assim se poupava dinheiro o utilizarem-se armamentos pertencentes aos militares, mas que já não eram usados; etc.; e agora acabámos por utilizar drones para nos vigiar (por enquanto) dentro dos nossos próprios países, a polícia militarizada em ações de policiamento comuns dentro dos nossos países, e o emprego de forças militares que deveriam ser apenas usadas contra inimigos no exterior contra os seus próprios cidadãos.
Durante o interregno entre os últimos suspiros de uma democracia e a ascensão de uma ditadura, a nação é manipulada. Dizem-lhe que o Estado de Direito é respeitado. Dizem-lhe que o regime democrático é inviolável. Estas mentiras apaziguam aqueles que são forçados à própria escravatura.
“A maioria permanece em silêncio e ousa ter esperança”, escreve Soljenítsin. “Já que não são culpados, como podem prendê-los? É um erro!”
Estamos a cometer os mesmos erros autodestrutivos da classe política britânica que supervisionou o declínio do Império Britânico e orquestrou a loucura suicida da Primeira Guerra Mundial.
Culpamos os pobres pelo seu próprio empobrecimento. Acreditamos na superioridade da raça branca sobre as outras raças, sufocando a miríade de vozes, culturas e experiências que criam uma sociedade dinâmica.
Procuramos combater as injustiças, juntamente com a desigualdade económica e social, com hipermasculinidade, militarismo e força, o que acelera a decadência interna e nos impele para uma guerra global desastrosa.
A História publicada, escrita, relatada, filmada, não deixa por isso de ser sempre a história por nós observada, imbuída de todos os nossos conceitos e preconceitos, sempre sujeitos aos tempos e modas, importantes para a formatação dos quadros que julgamos imprescindíveis para o desenvolvimento de uma nossa sanidade que dizemos ser a normal e que queremos normalizadora.
Um desses conceitos é que a história se repete (aquele apelativo conceito de “ciclo”), só que, para que não fique tudo na mesma, há que pô-la em patamares, em crescendo ou decrescendo, mas mesmo assim concorrendo sempre para um fim único dependendo da crença. Fundamental acreditar.
No caso aqui exposto, Chris Hedges, num seu artigo de 29 de dezembro de 2025, “Decline and Fall”, vai socorrer-se de acontecimentos dos fins do século XIX e princípios do XX, para daí tirar ensinamentos para a atualidade.
Eis o artigo:
No início do século XX, o Império Britânico, tal como o nosso, encontrava-se em declínio terminal. Sessenta por cento dos ingleses estavam fisicamente inaptos para o serviço militar, tal como 77% dos jovens americanos. O Partido Liberal, tal como o Partido Democrático, embora reconhecesse a necessidade de reformas, pouco fez para combater as desigualdades económicas e sociais que condenavam a classe trabalhadora a viver em habitações precárias, a respirar ar poluído, a ter-lhe negado saneamento básico e cuidados de saúde, e a ser forçada a trabalhar em empregos punitivos e mal remunerados.
Em resposta, o governo conservador formou uma Comissão Interdepartamental sobre a Deterioração Física para examinar a “deterioração de certas classes da população”, referindo-se, naturalmente, aos pobres das cidades. O relatório ficou conhecido como o relatório sobre “a degeneração da nossa raça”. As analogias foram rapidamente traçadas, com grande precisão, com a decadência e a degeneração do final do Império Romano.
Rudyard Kipling, que romantizou e mitificou o Império Britânico e as suas forças armadas, no seu poema de 1902, "Os Ilhéus", alertou os britânicos de que se tinham tornado complacentes e apáticos devido à arrogância, indolência e privilégio. Estavam impreparados para sustentar o Império. Desesperavam com a perda do espírito marcial dos "filhos da cidade protegida — inexperientes, impreparados, inadequados" e clamava pelo recrutamento obrigatório. Criticou duramente as forças armadas britânicas pela sua crescente dependência de mercenários e tropas coloniais, "os homens que sabiam disparar e cavalgar", tal como os mercenários e as milícias reforçavam cada vez mais as forças americanas no estrangeiro.
Kipling condenou o povo britânico pela sua preocupação com as "bugigangas" e os desportos para espectadores, incluindo "os tolos de flanela no críquete ou os imbecis enlameados nas balizas", atletas que, na sua opinião, deveriam estar a combater na guerra na África do Sul. Previu, na sucessão de desastres militares britânicos durante a Guerra dos Bóeres na África do Sul, que tinha terminado recentemente, a iminente perda da hegemonia global britânica, tal como as duas décadas de fracassos militares no Médio Oriente corroeram a hegemonia dos EUA.
A preocupação com o declínio físico, também interpretado como declínio moral, foi o que levou o Secretário da Guerra Pete Hegseth a criticar os "generais gordos" e a ordenar que as mulheres nas forças armadas atingissem os "mais altos padrões masculinos" de aptidão física. É o que está por detrás das suas "Tarefas de Ética Guerreira", planos para melhorar a aptidão física, os padrões de apresentação pessoal e a prontidão militar.
Vivemos num momento histórico assustadoramente semelhante. A Grã-Bretanha, em menos de 12 anos após o lamento de Kipling, mergulhou no suicídio coletivo da Primeira Guerra Mundial, um conflito que ceifou a vida a mais de um milhão de soldados britânicos e da Commonwealth e condenou o Império Britânico.
H.G. Wells, que antecipou a guerra de trincheiras, os tanques e as metralhadoras, foi um dos poucos a prever o rumo que a Grã-Bretanha iria tomar. Em 1908, escreveu "A Guerra no Ar". Nele, alertou que as guerras futuras não se limitariam a nações antagónicas, mas tornar-se-iam globais. Estas guerras, tal como ocorreu na invasão italiana da Etiópia em 1935, na Guerra Civil de Espanha e na Segunda Guerra Mundial, envolveriam o bombardeamento aéreo indiscriminado de civis. Previu ainda, em "O Mundo Libertado", o lançamento de bombas atómicas.
Quase um terço da população da Inglaterra Eduardina vivia em extrema pobreza. A causa, como observouSeebohm Rowntree no seu estudo sobre os bairros de lata, não era, como alegavam os conservadores, o alcoolismo, a preguiça, a falta de iniciativa ou de responsabilidade dos pobres, mas antes o facto de "os salários pagos pela mão-de-obra não qualificada em York serem insuficientes para fornecer alimentação, abrigo e vestuário adequados para sustentar uma família de tamanho moderado num estado de mera necessidade física".
Os Estados Unidos têm uma das mais elevadas taxas de pobreza entre as nações industrializadas ocidentais, estimada por muitos economistas num valor muito superior ao índice oficial de 10,6%. Em termos reais, cerca de 41% dos americanos são pobres ou têm baixos rendimentos, e 67% vivem de salário em salário.
Os eugenistas britânicos do Laboratório Galton para a Eugenia Nacional — financiado por Sir Francis Galton, que cunhou o termo "eugenia" — defendiam a "eugenia positiva", o "aperfeiçoamento" da raça incentivando aqueles considerados superiores — sempre membros brancos das classes média e alta — a terem famílias numerosas. A "eugenia negativa" era defendida para limitar o número de filhos nascidos daqueles considerados "inaptos". Isto seria conseguido através da esterilização e da separação de géneros.
Winston Churchill, que foi secretário do Interior no governo liberal de H.H. Asquith em 1910-11, apoiou a esterilização forçada de pessoas com "deficiência mental", chamando-lhes "perigo nacional e racial" e "a fonte a partir da qual se alimenta a loucura".
A Casa Branca de Trump, liderada por Stephen Miller, está determinada a realizar eliminação semelhante na sociedade norte-americana. Aqueles que são dotados de características hereditárias "negativas" — geralmente baseadas na raça — são condenados como contaminantes humanos que um exército de agentes mascarados da Imigração e Alfândega está a aterrorizar, encarcerar e expurgar da sociedade.
Miller, em e-mails de 2019, elogia o romance de 1973 "O Acampamento dos Santos", escrito por Jean Raspail. A obra narra a história de uma flotilha de pessoas do sul da Ásia que invade a França e destrói a civilização ocidental. Os imigrantes, que a administração Trump agora persegue, são descritos como "fantasmas de cabelo encaracolado, pele morena e há muito desprezados" e "formigas fervilhantes que trabalham para o conforto do homem branco". As multidões sul-asiáticas são "pequenos mendigos grotescos das ruas de Calcutá", liderados por um "gigantesco hindu" que come fezes, conhecido como "o comedor de bosta".
Esta é, na sua forma mais vil, a tese da teoria da "Grande Substituição", a crença de que as raças brancas na Europa e na América do Norte estão a ser "substituídas" por "raças inferiores da Terra".
Donald Trump gaba-se de que será o "presidente da fertilização". Os casais americanos — ou seja, os casais brancos — vão receber incentivos da administração Trump para terem mais filhos, visando combater a queda das taxas de natalidade. Na linguagem da direita, aqueles que promovem esta versão atualizada da “eugenia positiva” são conhecidos como “pró-natalistas”. A administração Trump vai também reduzir o número de refugiados admitidos nos Estados Unidos no próximo ano para o nível simbólico dos 7.500, sendo a maioria destas vagas preenchidas por sul-africanos brancos.
Os aliados de Trump nas grandes empresas tecnológicas estão ocupados a criar a infraestrutura de fertilidade para conceber crianças com características hereditárias “positivas”. Sam Altman, que conseguiu um contrato militar de um ano no valor de 200 milhões de dólares da administração Trump, investiu em tecnologia que permite aos pais editar geneticamente os seus filhos antes da conceção para produzir “bebés à medida”.
Peter Thiel, cofundador da Palantir, que está a facilitar os esforços de deportação em massa da administração Trump, apoiou uma empresa de rastreio de embriões chamada Orchid Health. A Orchid promete ajudar os pais a conceberem crianças “saudáveis” através de testes embrionários e tecnologia de seleção. Elon Musk, um fervoroso defensor da natalidade e adepto da teoria da Grande Substituição, é alegadamente cliente da startup. O objetivo é capacitar os pais para selecionarem embriões com base no QI e escolherem "a inteligência dos seus filhos antes do nascimento", como refere o Wall Street Journal.
Estamos a cometer os mesmos erros autodestrutivos da classe política britânica que supervisionou o declínio do Império Britânico e orquestrou a loucura suicida da Primeira Guerra Mundial. Culpamos os pobres pelo seu próprio empobrecimento. Acreditamos na superioridade da raça branca sobre as outras raças, sufocando a miríade de vozes, culturas e experiências que criam uma sociedade dinâmica. Procuramos combater as injustiças, juntamente com a desigualdade económica e social, com hipermasculinidade, militarismo e força, o que acelera a decadência interna e nos impele para uma guerra global desastrosa, talvez, no nosso caso, com a China.
Wells troçava da idiotice de uma classe dominante arrogante, incapaz de analisar ou lidar com os problemas sociais que ela própria tinha criado. Criticou duramente a elite política britânica pela sua ignorância e incompetência. Tinham vulgarizado a democracia, escreveu, com o seu racismo, hipernacionalismo e discurso público simplista e repleto de clichés, alimentado por uma imprensa sensacionalista e tabloide.
Quando surgisse uma crise, alertou Wells, estes mandarins, bem como os nossos, incendiariam a pira funerária do império.
Recomendação minha: a leitura de uma preciosidade de 489 páginas, dada aqui na sua versão integral (pdf), da obra de B. Seebohm Rowtree publicada em 1902, Poverty, A Study Of Town Life.
Uma canção enche o presente enquanto espera alcançar um ouvido atento em algum futuro distante, John Berger.
“Don’t wait too long,” cantava Frank Sinatra há sessenta anos, quando lutava contra o envelhecimento e a ideia de estar no fim da linha, de que o seu fim estava próximo, Edward Curtin.
Serão as canções a expressão sonora da natureza dual dos nossos anseios de Ano Novo por novidades no meio do Velho?
“Uma canção, ao contrário das formas que toma, não está fixada no tempo e no espaço. Uma canção narra uma experiência passada. Enquanto é cantada, enche o presente. As histórias fazem o mesmo. Mas as canções têm uma outra dimensão, que lhes é exclusivamente própria. Uma canção enche o presente enquanto espera alcançar um ouvido atento em algum futuro distante. Ela inclina-se para a frente, cada vez para mais longe. Sem a persistência dessa esperança, as canções não existiriam. As canções inclinam-se para a frente.”
O Ano Novo traz ao de cima o que todos sabemos: os anos vêm e vão, transformam-se, vamos ficando mais velhos; procuramos, em cada fase da vida, transformar-nos em novas pessoas – libertar-nos de alguma forma de algo, de algum fardo solitário inexprimível, daquela sensação de culpa de que o tempo nos devorará antes de nos podermos redimir. O desejo de transformação é universal. Assim como a consciência, muitas vezes ignorada, de que, tal como os anos que passam, também nós “passaremos” – para usar este eufemismo evasivo. Será que mais ninguém fracassa ou morre? Ou será que isto só acontece aos pobres e aos que não vemos, às vítimas desaparecidas da injustiça e da violência opressivas? Será que os conquistadores passam e os outros não?
“Don’t wait too long,” (Não esperes muito tempo) cantava Frank Sinatra há sessenta anos, quando lutava contra o envelhecimento e a ideia de estar no fim da linha, de que o seu fim estava próximo. “Porque é que os momentos têm de passar com tanta pressa? Não esperes muito tempo” (Why must the moments go by with such haste? Don’t wait too long).
[…] Diria que Frank Sinatra, e em particular o seu magnífico álbum "September of My Years", é audição obrigatória para todos os interessados em mudanças reais para o Ano Novo. Por entre a festa e o fogo de artifício, o ano velho e o novo, as resoluções e hesitações, o olhar para trás e para a frente – eis Sinatra a cantar sobre a essência mais profunda da passagem de ano: a solidão humana. E como, apesar dela, amar e conectar-se. Como abraçar a aparente contradição. Como mudar.
Nunca conheci Sinatra pessoalmente, mas ele foi o meu mentor neste processo, um processo que não tem fim. É um trabalho transformador. Efémero, porém, mais real do que a própria realidade. Especialmente numa época em que os meios digitais e a inteligência artificial baralharam a perceção da realidade do público.
Quando eu era jovem, ele ensinou-me a ser velho. Agora que sou velho, ensinou-me a ser jovem. Como? Ao ouvi-lo cantar, as palavras que brotam da sua boca provêm dos desejos do coração, da fome da alma. Penetram no âmago de todos os nossos anseios de mudança dentro da permanência. Não escreveu os versos, mas tinha um talento genial para os articular. Como disse Bob Dylan sobre Sinatra: "Desde o início que ele estava lá com a verdade das coisas na voz."
[…] Escutai, vós, mais velhos. “Quando o vento soprava forte no início da primavera…” (When the wind was green at the star of the spring) “Quando tinha dezassete anos…” (When I was seventeen) “Eu sei o que é ter asas nos pés…” (I know how it feels to have wings on your heels).
Jovens, escutai. “Quando se está sozinho, todos os filhos crescidos e, como estorninhos, a voar para longe, a solidão chega cedo, não é? A cada dia interminável” (When you’re all alone, all the children grown, and like starlings flown away, it gets lonely early, doesn’t it, every single endless day).
“Era uma vez…” [Once upon a time). Todos, ouçam. Liguem-se.
Talvez só as canções nos possam transformar. Os argumentos parecem cair em saco roto com frequência. Serão as canções a expressão sonora da natureza dual dos nossos anseios de Ano Novo por novidades no meio do Velho?
[…] Depois, incline-se para a frente e ouça. É um novo ano. Há esperança. Se mudarmos.
Talvez seja esta a melhor definição de hegemonia: se é chinês e está na China e sentiu qualquer vibração com esta canção do Sinatra, então as 800 bases militares americanas ultramarinas serviram para alguma coisa.