Quando os invasores marcianos foram derrotados pelas bactérias, segundo H G Wells.
Muitos dos agentes patogénicos que mais tememos não passam de meros turistas no corpo humano.
Os antibióticos são, na verdade, armas que as bactérias usam umas contra as outras há eras.
As partes mais importantes do mundo de um micróbio são os outros micróbios.
Conta-se que em 2008, Bruce Levin, o microbiólogo da Emory University, para explicar o conceito da hipótese da evolução por coincidência segundo a qual as bactérias, fungos e outros patogénicos causadores de doenças em humanos, são adaptações que evoluíram dos seus nichos ecológicos muitas das vezes sem ser para provocarem infeções, utilizou a expressão popular “Shit happens”, querendo com isso dizer que coisas más (segundo a perspetiva humana) podem acontecer devido a acontecimentos naturais aleatórios ou não relacionáveis, e não devido a ataques intencionais de um micróbio.
Ed Yong, num muito interessante artigo intitulado “Coincidental killers”, começa por nos lembrar A Guerra dos Mundos (1898) de H G Wells, em que os invasores marcianos depois de nos dominarem acabam por serem mortos, não pelas nossas armas, mas pelas “nossas” humildes bactérias que temos vindo a estar expostos desde o início, mas a que os marcianos, apesar da sua superioridade tecnológica, não puderam resistir:
“There are no bacteria in Mars […] and directly these invaders arrived, directly they drank and fed, our microscopic allies began to work their overthrow”.
No livro, as bactérias não evoluíram para incapacitar os alienígenas. Evoluíram para atacar humanos e outros animais. Os invasores, inesperadamente, entraram em contacto com elas e sucumbiram. O mesmo pode acontecer connosco.
Muitas das bactérias e fungos que nos afligem com doenças graves não nos estão a atacar diretamente. Em vez disso, evoluíram para prosperar em ambientes hostis ou para se defenderem de outros micróbios (da mesma forma que nós tememos e lutamos contra ursos, leões, tigres, elas têm de lutar contra vermes nemátodos, amibas predatórias e outros vírus). Acontece que essas mesmas adaptações por elas utilizadas, permitem-lhes prosperar no nosso corpo ou resistir ao nosso sistema imunitário.
Na realidade, muitos dos agentes patogénicos que mais tememos não passam de meros turistas no corpo humano. As suas verdadeiras “casas” são os oceanos, cavernas ou solos. E é aí que eles competem contra outros micróbios e outros predadores esfomeados.
A sua virulência – a sua capacidade para provocar doença – não é uma adaptação contra o hospedeiro. É um efeito colateral, como que um reflexo. O provocar a morte é uma coincidência.
Até ao século XIX os micróbios foram praticamente desconhecidos, e só com Louis Pasteur e Robert Koch é que se passou a admitir que afinal eles até podiam estar por detrás de doenças importantes.
Tomamos particularmente consciência da sua existência apenas quando ameaçam as nossas vidas e, durante grande parte da nossa história, essa ameaça foi substancial. Epidemias de varíola, cólera, tuberculose e peste traumatizaram a humanidade, e o medo destas doenças contaminou toda a nossa cultura, desde os nossos ritos religiosos até aos filmes de Hollywood como Contágio (2012) ou O Surto (1995).
Acontece que quando os micróbios não nos estão a matar, não damos por eles: estamos em grande parte alheados. Assim, como bons humanos que somos, construímos narrativas à volta de hospedeiros e patógenos, heróis e vilões, nós e eles.
Os que causam doenças existem para se reproduzirem às nossas custas e precisamos de novas formas de lhes resistir. E assim estudamos como eles evoluem para superar o nosso sistema imunológico ou para se espalharem mais facilmente de uma pessoa para outra. Identificamos genes que lhes permitem causar doenças e rotulamos esses genes como “fatores de virulência”. E vamo-nos colocar no centro do mundo deles. Tudo é sobre nós.
Mas um número crescente de estudos mostra que a nossa visão antropocêntrica é, por vezes, injustificada. É que as adaptações que permitem que bactérias, fungos e outros agentes patogénicos nos causem danos podem facilmente evoluir para fora do contexto de doenças humanas. Fazem parte de uma narrativa microbiana que nos afeta e pode até matar-nos, mas que não nos diz respeito. Este conceito é conhecido como a hipótese da evolução coincidente, segundo a qual pelo menos algumas doenças humanas não têm nada a ver connosco.
A hipótese da evolução coincidente explica algumas outras descobertas recentes sobre os micróbios. Cientistas encontraram genes de resistência a antibióticos em bactérias congeladas há 30 mil anos ou isoladas em grutas com milhões de anos (não esquecer que as bactérias habitam o planeta há milhares de milhões de ano). Podemos pensar nos antibióticos como invenções modernas, mas são, na verdade, armas que as bactérias usam umas contra as outras há eras, ou pelo menos muito antes de Alexander Fleming reparar num estranho fungo numa placa de Petri em 1928. Os genes de resistência aos antibióticos evoluíram como parte desta guerra ancestral, mas também ajudam os micróbios atuais a lidar com os medicamentos que produzimos em massa.
Daí que uma das cientistas, Casadevall, tenha inclusivamente afirmado que a virulência pode surgir por acaso, “num processo que não tem explicação, a não ser pelo facto de ter acontecido”. De acordo com esta perspetiva, não somos atores centrais nos dramas que afetam as nossas vidas. Não somos sequer figurantes. Somos apenas transeuntes, a caminhar à porta do teatro e a ser atingidos por adereços voadores.
Afinal, as partes mais importantes do mundo de um micróbio são os outros micróbios. Têm interagido entre si há milhares de milhões de anos antes de surgirmos. Quando entramos no fogo cruzado desta guerra ancestral, corremos o risco de nos tornarmos danos colaterais. Tal como os marcianos de Wells, também nós podemos ser abatidos apenas por coincidência.
As bruscas e drásticas alterações que vemos, cada uma delas trazendo novas formas de vida mais avançadas, resultantes de algo que se passou no mesmo local num futuro passado anterior.
Por volta do ano 5.000 a. C., uma onda de brutalidade em massa acompanhou o colapso da primeira cultura pan-europeia.
O que levou ao desaparecimento integral de uma cultura?
É num filme de ficção científica de 2005, “A Sound of Thunder”, que a visualização do conceito de “ondas de tempo” é mais bem conseguida, através das bruscas e drásticas alterações que vemos a cidade de Chicago passar, cada uma delas trazendo novas formas de vida mais avançadas, resultantes de algo que se passou naquele local num futuro passado anterior.
Apesar de não ter tido grande êxito, o filme tem por base o conto do mesmo nome do notável Ray Bradbury (1920-2012), que escreveu três grandes novelas e trezentas grandes histórias, entre elas Fahrenheit 451 (1953), The Martian Chronicles (1950), The Illustrated Man (1951).
É dele a frase: “As pessoas pedem-me para predizer o Futuro, quando tudo o que quero é preveni-lo”.
E a definição de ficção científica como sendo “a arte do possível”:
“Em primeiro lugar, não escrevo ficção científica. Só escrevi um livro de ficção científica, Fahrenheit 451, baseado em factos verídicos. A ficção científica é uma representação do real. A fantasia é uma representação do irreal […]”
E ainda este olhar sobre a realidade:
“Ao escrever a pequena novela Fahrenheit 451, pensei que estava a descrever um mundo que poderia evoluir em quatro ou cinco décadas. Mas, há apenas algumas semanas, em Beverly Hills, numa certa noite, um casal passou por mim a passear o cão. Fiquei a olhar para eles, absolutamente estupefacto. A mulher segurava numa das mãos um pequeno rádio do tamanho de um maço de cigarros, cuja antena tremia. Dele saíam minúsculos fios de cobre que terminavam num delicado cone ligado à sua orelha direita. Ali estava ela, alheia ao homem e ao cão, ouvindo ventos distantes, sussurros e gritos de novela, sonâmbula, a ser ajudada a subir e descer calçadas por um marido que podia muito bem não estar ali. Isto não era ficção.”
Mas voltemos às “ondas de tempo”:
Na revista Science de 20 de novembro de 2025, aparece um muito interessante artigo de Andrew Curry, “A Headless Mystery […]” (Um Mistério Sem-Cabeça, Os arqueólogos encontram evidências de que uma onda de brutalidade em massa acompanhou o colapso da primeira cultura pan-europeia), que põe uma pergunta crucial que se prende com o desaparecimento integral de uma cultura.
Numa vala escavada à beira de uma povoação com mais de 7000 anos, arqueólogos trabalhando num campo de trigo eslovaco descobriram em 2017 quatro esqueletos sem cabeça. Os enterrados pertenciam a uma das primeiras comunidades agrícolas da Europa. Enterrar pessoas dentro ou perto de assentamentos não era incomum na época – mas enterrá-las sem cabeça era.
Ano após ano, os investigadores voltaram a encontrar cada vez mais esqueletos sem cabeça nos arredores de Vráble, uma pequena aldeia 100 quilómetros a leste de Bratislava. "Onde quer que começássemos a cavar, encontrávamos ossos. Onde quer que estivéssemos, sentados ou em pé, havia ossos", diz Katharina Fuchs, antropóloga biológica da Universidade de Kiel (KU) que escava em Vráble todos os verões desde 2021.
No verão de 2022, ela e colegas da KU e da Universidade Constantine, o Filósofo, em Nitra, recuperaram os restos mortais de 34 pessoas, empilhados uns sobre os outros, por cima de dois ou três mais fundos, num espaço do tamanho de um local de estacionamento auto. Com exceção de uma criança, nenhum deles tinha cabeça.
Todos os anos esperam encontrar o limite da sepultura, mas estão sempre a encontrar novos corpos. A camada dos esqueletos estende-se já por 45 metros de comprimento.
Conhecidos como pertencentes à Cultura da Cerâmica Linear (ou LBK, devido ao seu nome alemão, Linearbandkeramik), esses primeiros agricultores eram descendentes diretos dos povos que começaram a domesticar plantas e animais nas colinas da Anatólia por volta de 9.000 a.C. Pelos 5.500 a.C., tinham chegado à atual Hungria. Depois espalharam-se para oeste, mais para dentro da Europa. Os agricultores do LBK floresceram durante mais de 400 anos, acabando por ocuparem uma faixa de 1.500 quilómetros de terras férteis que se estendia até ao oeste da Bacia de Paris.
Então, algo correu terrivelmente mal. As valas comuns de Vráble e outras espalhadas pela Europa, mostram-nos uma onda de brutalidade por volta de 5000 a.C., quase na mesma altura em que centenas de povoações da Cultura da Cerâmica Linear (LBK) desapareceram abruptamente por todo o continente.
Após este período, partes do continente permaneceram desertas durante séculos. Outros povoados transformaram-se pacificamente em algo diferente, com pessoas a viverem no mesmo local e a continuarem a cultivar a terra, mas a construírem casas e a decorarem as suas cerâmicas de uma forma diferente.
"Os LBK foram os primeiros agricultores, a primeira grande cultura pan-europeia e a primeira vez que vimos estes repetidos achados de violência", afirma Christian Meyer, um osteoarqueólogo que estudou restos humanos de diversas valas comuns da LBK.
Estes achados em Vráble e noutros locais da LBK vêm contrariar aquela noção estabelecida que a pré-história fora mais ou menos pacífica, apenas quebrada com casos esporádicos de violência interpessoal, sem outros conflitos em grande escala ou guerras. Para além de tudo, vêm levantar uma das mais interessantes perguntas da história: “O que levou ao desaparecimento integral de uma cultura?”
Não há forma de interpretar o que os nossos semelhantes da Cultura da Cerâmica Linear estavam a pensar quando enchiam valas com cadáveres decapitados, mas isto faz-nos pensar que possivelmente o ser humano teve desde sempre a capacidade para brutalizar outros. Inexplicável ou difícil de explicar, sim. Mas não tão invulgar, mesmo para os "padrões" modernos.
A repetição, muitas vezes sobrevalorizada por se acreditar na capacidade inferior das massas para a perceber e recordar, é, contudo, importante porque as convence da consistência ao longo do tempo, H. Arendt.
O termo “lavagem de cérebro”, apesar de carecer de qualquer fundamentação científica validada, entrou para o imaginário da nossa sociedade como um conjunto de técnicas científicas.
O nosso problema é que as pessoas são obedientes quando as prisões estão cheias de pequenos ladrões enquanto os grandes ladrões comandam o país, H. Zinn.
Não é por acaso que nos EUA (não só) a chamada e assumida Direita Cristã tem vindo a impor que o criacionismo, ou o “desígnio inteligente” faça parte dos programas escolares, a ser ensinado em pé de igualdade científica com o evolucionismo. Ela sabe que o descrédito das disciplinas racionais, pilares do Iluminismo, é fundamental para destruir a indagação intelectual honesta e desapaixonada. A partir daí, os factos passam a poder ser intermutáveis com as opiniões.
O conhecimento da realidade não necessita já de ter por base a colheita elaborada de factos e evidências. Só por si, a ideologia é a verdade. Os factos que se interponham no caminho da ideologia podem ser mudados. As mentiras passam a ser verdades.
Mais abrangente, Hannah Arendt, explica-nos nas Origens do Totalitarismo, o comportamento de aceitação das massas:
“Aquilo que convence as massas não são os factos, nem mesmo os inventados, mas apenas a consistência do sistema de que eles presumidamente fazem parte. A repetição, muitas vezes sobrevalorizada por se acreditar na capacidade inferior das massas para a perceber e recordar, é, contudo, importante porque as convence da consistência ao longo do tempo.”
É a 24 de setembro de 1950 que o Miami News publica um artigo do jornalista americano Edward Hunter em que pela primeira vez aparece o termo “lavagem de cérebro” (brain washing), que apesar de carecer de qualquer fundamentação científica validada, vai entrar para o imaginário da nossa sociedade como o conjunto de técnicas psicológicas que manipulam ações ou pensamentos contra a vontade, o desejo ou o conhecimento de uma pessoa, reduzindo-lhe a capacidade de pensar criticamente ou de forma independente, permitindo a introdução de novos pensamentos e ideias indesejáveis na sua mente.
Segundo Hunter, combinando a teoria Pavloviana com a tecnologia moderna, os psicólogos chineses e russos conseguiram desenvolver técnicas poderosas de manipulação do cérebro das pessoas. Hunter cunhou o termo após entrevistar ex-prisioneiros chineses que foram submetidos a um processo de "reeducação”, bem como às técnicas de interrogatório que o KGB utilizava durante as purgas para extrair confissões de prisioneiros inocentes e, a partir daí, conseguiram variações - controlo da mente, alteração da mente, modificação do comportamento e outras.
Um ano depois, Hunter publica a sua obra base, Brain-Washing in Red China: The calculated Destruction of Men’s Minds, (Internet Archive, pdf), como alerta para o que entendia ser um vasto sistema maoísta de "reeducação" ideológica. A nova terminologia encontrou o seu caminho de aceitação maioritária na nossa sociedade como provam o mais vendido romance O Candidato da Manchúria e os filmes com o mesmo nome de 1962 (de John Franenheimer, com Frank Sinatra) e de 2004 (de Jonathan Demme, com Denzel Washington e Meryl Streep).
Talvez seja importante notar que Hunter fez parte de várias organizações de propaganda da CIA, e durante uma sua deposição perante o Comité de Atividades Antiamericanas da Câmara dos Representantes dos EUA, afirmou que os EUA e a NATO perderam a Guerra Fria devido à vantagem dos comunistas na propaganda e na manipulação psicológica, e que o Ocidente perdera a Guerra da Coreia por não estar disposto a usar a sua vantagem em bombas atómicas. Não via qualquer diferença entre os vários países comunistas e advertiu que tanto a Jugoslávia como a China estavam tão empenhadas na dominação mundial comunista quanto a União Soviética.
Estava criado o ambiente social e político para que a partir do início da década de 1950, a Agência Central de Inteligência (CIA) e o Departamento de Defesa dos EUA realizassem pesquisas secretas, incluindo o Projeto MKUltra, para o desenvolvimento de procedimentos e identificação de drogas que pudessem ser usadas para alterarem o comportamento humano. Estas experiências incluíram "desde a terapia de eletrochoques, hipnose, privação sensorial, isolamento, abuso verbal e sexual a altas doses de LSD e outras formas de tortura, tendo como base experiências em humanos anteriormente efetuadas pelos nazis.
À frente do projeto (que incluía mais de 30 instituições e universidades envolvidas no programa de experimentação de drogas em cidadãos "de todos os níveis sociais, altos e baixos, nativos americanos e estrangeiros" sem o seu conhecimento, e em ainda mais de mil militares voluntários e empregados da CIA, e outros fora dos EUA nos black sites), Sidney Gottlieb e a sua equipa conseguiram "destruir a mente existente" de um ser humano utilizando técnicas de tortura; no entanto, o conseguir a reprogramação, em termos de encontrar "uma forma de inserir uma nova mente neste vazio resultante", não foi alcançada.
Em 1979, John D. Marks escrevia no seu livro "The Search for the Manchurian Candidate" que, até ao encerramento efetivo do programa MKUltra em 1963, os investigadores da agência não tinham encontrado uma forma fiável de fazer uma lavagem cerebral a outra pessoa, uma vez que todas as experiências terminaram sempre em amnésia ou catatonia, tornando impossível qualquer utilização operacional.
Mas algo se aproveitou: um relatório bipartidário do Comité de Serviços Armados do Senado, divulgado parcialmente em dezembro de 2008 e na íntegra em abril de 2009, relatou que os instrutores militares dos EUA que estiveram em Guantánamo em dezembro de 2002, basearam um curso de interrogatório num gráfico copiado de um estudo da Força Aérea de 1957 sobre técnicas de lavagem cerebral "comunistas chinesas" utilizadas para obter falsas confissões de prisioneiros de guerra americanos durante a Guerra da Coreia. O relatório mostrou ainda como a autorização do Secretário da Defesa, em 2002, para a utilização destas técnicas agressivas em Guantánamo, levou à sua utilização no Afeganistão e no Iraque, incluindo em Abu Ghraib.
E tão bem foram estas operações realizadas (servindo apenas para criar a tal “perceção da realidade”), que hoje acabamos a viver num mundo desejado estranhamente obediente. Eis o que Howard Zinn conclui:
“Sempre que dizemos que o problema é a desobediência civil, estamos a dizer que o nosso problema é a desobediência civil. Esse não é o nosso problema… O nosso problema é a obediência civil. O nosso problema é o número de pessoas em todo o mundo que obedeceram às ordens dos líderes dos seus governos e foram para a guerra, e milhões foram mortos por causa dessa obediência. E o nosso problema é aquela cena em ‘Nada de Novo na Frente Ocidental’, onde os alunos marcham obedientemente em fila para a guerra. O nosso problema é que as pessoas são obedientes em todo o mundo, apesar da pobreza, da fome, da estupidez, da guerra e da crueldade. O nosso problema é que as pessoas são obedientes quando as prisões estão cheias de pequenos ladrões enquanto os grandes ladrões comandam o país. Esse é o nosso problema.”
O direito, de acordo com o que se passa no mundo, apenas se discute entre os que são igualmente poderosos, porquanto os mais fortes fazem o que podem e os fracos sofrem o que têm de sofrer, Tucídides.
Quando em 1945 os Estados Unidos ocuparam o Japão,não se preocuparam especialmente em desenraizar a cultura do militarismo.
Diversos altosfuncionários presos por crimes de guerra, retomaram discretamente os seus cargos no Estado japonês.
Na Alemanha, negar o Holocausto é crime. No Japão, é política de governo.
A revista Time escolheu Hitler para figurar na sua capa, como “homem do ano 1938”, entendendo que devia ser o candidato ao Prémio Nobel da Paz.
Quando apenas um mês depois de ter sido eleita como a 104ª primeira-ministra do Japão (21 de outubro de 2025), Sanae Takaichi, presidente do Partido Liberal Democrático (PLD), logo no seu primeiro discurso no parlamento ter afirmado que o Japão poderia envolver-se militarmente num conflito entre a China e Taiwan (“an attack on Taiwan could trigger the deployment of her country’s self-defence forces if the conflict posed an existential threat to Japan”), alterando radicalmente toda a política externa seguida até então pelo Japão, tal não fez mais que confirmar as tendências militaristas presentes não só no Japão mas que se têm vindo a apoderar das nossas sociedades.
Uma das várias explicações para a emergência destas tendências, tem que ver com o que se passou na Segunda Guerra, particularmente com a forma como o pós-guerra que se lhe seguiu foi resolvido.
Quando em 1945 os Estados Unidos ocuparam o Japão, não se preocuparam especialmente em desenraizar a cultura do militarismo. Washington debateu se deveria destituir o imperador, figura central do projeto imperial, mas, seguindo o conselho da antropóloga Ruth Benedict, optou por manter o imperador e outros símbolos do militarismo. Isto incluía o Santuário Yasukuni, dedicado aos mortos de guerra, fundado em 1869 e que ainda hoje alberga os restos mortais de mais de mil criminosos de guerra condenados.
Diversos altos funcionários presos por crimes de guerra, mas nunca julgados, retomaram discretamente os seus cargos no Estado japonês. Entre eles estavam Yoshida Shigeru, diplomata de alto nível durante a guerra e primeiro-ministro do Japão durante a maior parte do período entre 1946 e 1954; Nobusuke Kishi, burocrata no nordeste da China durante a ocupação, ministro no gabinete de guerra e, mais tarde, primeiro-ministro de 1957 a 1960; Shigemitsu Mamoru, ministro dos Negócios Estrangeiros no gabinete de guerra, julgado como criminoso de guerra de Classe A pelo seu papel na Coreia e preso, e mais tarde ministro dos Negócios Estrangeiros na década de 1950; Okazaki Katsuo, diplomata durante os anos da guerra e mais tarde ministro dos Negócios Estrangeiros de 1952 a 1954; Ikeda Hayato, funcionário do Ministério das Finanças durante os anos da guerra e, mais tarde, primeiro-ministro de 1960 a 1964; e Sato Eisaku, funcionário do Ministério dos Transportes durante os anos da guerra e mais tarde primeiro-ministro de 1964 a 1972. Neste caso, todos eles fizeram parte da chamada "máfia manchu" que liderou a ocupação na China, manteve-se no poder.
Para que conste, Nobusuke Kishi foi o avô de Shinzo Abe, primeiro-ministro do Japão de 2006 a 2007 e novamente de 2012 a 2020. Muitas vezes é omitido o facto de Kishi ter sido o arquiteto da ocupação japonesa do nordeste da China e responsável pelo regime de trabalho forçado na China e na Coreia. Após a guerra, Kishi foi brevemente preso em Sugamo como suspeito de ser um criminoso de guerra de Classe A, sendo libertado sem julgamento em 1948. Esperou alguns anos antes de regressar à política com um objetivo fundamental: rever a Constituição de 1947 para remover o Artigo 9, que impunha restrições à militarização no Japão.
Em 1952, os EUA reabilitaram formalmente muitos oficiais japoneses que serviram durante a guerra, abrindo caminho para que homens como Kishi entrassem na política ativa e pavimentando o terreno para a formação do Partido Liberal Democrático (PLD) em 1955. Este partido é atualmente liderado por Sanae Takaichi, que nasceu em 1961 e que é a atual primeira-ministra do Japão.
Desde que entrou na política, Takaichi tem sido uma figura de destaque na direita chauvinista do Japão, tendo emergido por intermédio do seu mentor, Shinzo Abe. Tal como o avô de Abe, Kishi, Takaichi deseja rever a Constituição japonesa para que o Japão possa reconstruir as suas forças armadas. Em diversas ocasiões, demonstrou reverência pelo período anterior a 1945: visitou o Santuário Yasukuni, defende a conduta do Japão durante a guerra, questiona a natureza coerciva do sistema das "mulheres de conforto" e apoia a ideia de "restauração do orgulho" no passado imperialista. Afirmou que deseja que os manuais japoneses deixem de ser "autodepreciativos" e questionou a veracidade dos crimes de guerra cometidos em Nanquim. As opiniões de Takaichi, que nasceu após a guerra, ilustram que a ocupação americana não só falhou em erradicar a essência do fascismo da sociedade japonesa, como também lhe permitiu florescer.
Segundo o extenso artigo sobre “Os crimes de guerra do Japão”, antes e durante a Segunda Guerra Mundial, o Império do Japão cometeu inúmeros crimes de guerra e crimes contra a humanidade em diversas nações da Ásia-Pacífico, nomeadamente durante a Segunda Guerra Sino-Japonesa e a Guerra do Pacífico. Estes crimes ocorreram durante o reinado do Imperador Hirohito.
O Exército Imperial Japonês (IJA) e a Marinha Imperial Japonesa (IJN) foram responsáveis por crimes de guerra entre 1927 e 1945, que levaram a 19 milhões a 30 milhões de mortes, desde assassinatos em massa, terrorismo, limpeza étnica, genocídio, escravatura sexual, massacres, experimentação em humanos, tortura, fome e trabalho forçado.
A liderança política e militar japonesa tinha conhecimento dos crimes das suas forças armadas, mas continuou a permiti-los e até a apoiá-los, com a maioria das tropas japonesas estacionadas na Ásia a participar ou a apoiar os assassinatos.
Embora não seja claro se o Imperador Hirohito foi informado da extensão total desses crimes, o irmão mais novo do Imperador, o Príncipe Mikasa, serviu como oficial no Exército Imperial Japonês estacionado na China, escreveu nas suas memórias que os oficiais utilizavam prisioneiros de guerra chineses para o treino com baioneta, a fim de fortalecer a determinação dos soldados japoneses. Além disso, observou que os prisioneiros de guerra eram asfixiados e fuzilados em grande número.
O Serviço Aéreo do Exército Imperial Japonês participou em ataques químicos e biológicos contra civis durante a Segunda Guerra Sino-Japonesa e a Segunda Guerra Mundial, violando acordos internacionais que o Japão tinha assinado, incluindo as Convenções de Haia, que proibiam o uso de "veneno ou armas envenenadas" nas guerras.
Após a Guerra, foram emitidos inúmeros pedidos de desculpas pelos crimes de guerra por parte de altos funcionários do governo japonês. O Ministério dos Negócios Estrangeiros do Japão reconheceu o papel do país em causar "tremendos danos e sofrimento" antes e durante a Segunda Guerra Mundial, particularmente o massacre e violação de civis em Nanquim pelo Exército Imperial Japonês.
No entanto, a questão continua a estar pronta a ser reaberta, com alguns membros do governo japonês, incluindo os ex-primeiros-ministros Junichiro Koizumi e Shinzō Abe, a terem prestado homenagem no Santuário Yasukuni, que honra todos os mortos de guerra japoneses, incluindo criminosos de guerra de Classe A condenados.
Segundo Shinzö Abe, o Japão aceitou o Tribunal de Tóquio e os seus julgamentos como condição para acabar a guerra, mas as suas sentenças não têm qualquer relação com as leis do Japão: assim, os condenados em crimes de guerra não são criminosos segundo a lei japonesa.
Além disso, alguns manuais de história japoneses fornecem apenas breves referências aos crimes de guerra, e certos membros do Partido Liberal Democrático negaram algumas das atrocidades, como o envolvimento do governo no rapto de mulheres para servirem como "mulheres de conforto", um eufemismo para escravas sexuais.
Quanto a assassinatos em massa, o historiador britânico Mark Felton afirma que foram mortas até 30 milhões de pessoas, a maioria civis:
“Os japoneses assassinaram 30 milhões de civis enquanto "libertavam" do domínio colonial aquilo a que chamavam a Esfera de Coprosperidade da Grande Ásia Oriental. Cerca de 23 milhões destas pessoas eram de etnia chinesa. É um crime que, em números absolutos, é muito maior do que o Holocausto nazi. Na Alemanha, negar o Holocausto é crime. No Japão, é política de governo.”
Quanto a experimentação em humanos e guerra biológica, unidades militares especiais japonesas realizaram experiências em civis e prisioneiros de guerra na China. O objetivo da experimentação era desenvolver armas biológicas que pudessem ser utilizadas para a guerra. Agentes biológicos e gases desenvolvidos a partir destas experiências foram utilizados contra o Exército Chinês e a população civil. Isto incluiu a Unidade 731 sob o comando de Shirō Ishii. As vítimas foram submetidas a experiências que incluíram, entre outras, vivissecção, amputações sem anestesia, testes de armas biológicas, transfusões de sangue de cavalo e injeção de sangue animal nos seus cadáveres. A anestesia não era utilizada porque se acreditava que os anestésicos afetariam adversamente os resultados das experiências:
“Para determinar o tratamento da hipotermia, os prisioneiros eram levados para o exterior com um tempo gelado e deixados com os braços expostos, sendo periodicamente encharcados com água até congelarem completamente. O braço era posteriormente amputado; o médico repetia o processo na parte superior do braço da vítima até ao ombro. Depois de ambos os braços serem amputados, os médicos passavam para as pernas até que restassem apenas a cabeça e o tronco. A vítima era então utilizada para experiências com peste e agentes patogénicos”.
“[…] Ainda antes do fim da II Guerra já centenas de milhar de prisioneiros dos exércitos nazis capturados e para os quais não havia campos de internamento em quantidade suficiente, foram colocados nos navios de carga que regressavam vazios aos EUA depois de terem descarregado todo o material na Europa. E por lá ficaram.
É sempre bom recordar que em 1939 os nazis contavam com mais de duzentos mil seguidores e simpatizantes nos EUA, que a revista Time escolheu Hitler para figurar na sua capa, como “homem do ano 1938”, entendendo que devia ser o candidato ao Prémio Nobel da Paz, e que entre os seus admiradores se encontravam o magnate automobilístico Henry Ford e o aviador Charles Lindbergh.
E que na Grã-Bretanha, a abdicação em 1936 do rei Eduardo VIII, Duque de Windsor, ficou certamente mais a dever-se às suas simpatias para com Hitler e o regime nazi do que com o facto de se pretender casar com uma divorciada americana. Eram notórias as simpatias da classe alta e dos aristocratas britânicos para com o regime nazi, o que talvez tenha levado Hitler a cometer o erro estratégico de acreditar que a implantação do seu regime na Grã-Bretanha seria relativamente fácil, não se preocupando muito em dificultar a retirada do exército britânico de Dunquerque.
Na destruição e na confusão que se seguiu após o fim da II Guerra, a necessidade de se manter a funcionar um mínimo de administração pública nos países derrotados, e até na dificuldade de separar nazis de não nazis fez com que, intencionalmente ou não, muitos deles passassem despercebidos. Vamos acreditar que foram essas as razões e que não foi intencional.
Na realidade, os aliados que ocuparam a República Federal da Alemanha (Estados Unidos, Reino Unido e França) condenaram apenas 6650 ex-nazis, o que só por si era uma pequena parte do total dos membros do partido. E, as elites alemãs da época fizeram o resto.
Um recente estudo denominado “Projeto Rosemburg” apresentado publicamente por Heiko Maas, atual ministro da Justiça alemão, vem confirmar que em 1957, 77% dos funcionários com cargos de responsabilidade no Ministério da Justiça alemão (ou seja, três em cada quatro) eram antigos membros do partido nazi. O que não deixa de ser até curioso, porquanto essa percentagem em 1957 era mais alta do que durante o Terceiro Reich (http://www.dn.pt/mundo/interior/sistema-de-justica-alemao-do-pos-guerra-estava-dominado-por-ex-nazis-5434041.html) […]”.
E por lá estão.
E no blog de 1 de fevereiro de 2023, “Crimes de guerra e guerra sem crimes”, poderão ler sobre o Tribunal de Nuremberga e o Tribunal de Tóquio::
“[..]A primeira sessão, sob a presidência do representante soviético, Gen. I.T. Nikitchenko, realizou-se a 18 de outubro de 1945, em Berlim. Foram acusados 24 ex-líderes nazis por perpetuarem crimes de guerra, e ainda vários grupos (como a Gestapo, a polícia secreta nazi) acusados por terem carácter criminoso. A partir de 20 de novembro de 1945, todas as sessões do tribunal passaram a ser realizadas no Palácio da Justiça em Nuremberga.
Para além deste tribunal, foram ainda constituídos logo de seguida, entre dezembro de 1946 e abril de 1949, outros 12 subsequentes tribunais militares para julgar crimes de guerra cometidos por chefias do partido nazi, médicos, industriais, juízes, ministros e outros elementos de organizações nazis. Dos 3.887 casos, 3.400 foram abandonados, tendo sido presentes a tribunal 489, com 1.672 acusados, dos quais 1.416 foram condenados (200 foram executados, 279 condenados a prisão perpétua – embora em 1950 quase todos acabassem por serem soltos ao abrigo de uma amnistia).
Particular interesse tem também o caso do tribunal para julgar os crimes dos nazis japoneses (Tribunal de Tóquio) instaurado pelo General Douglas MacArthur, onde, devido ao encobrimento feito pelo próprio governo americano, os principais responsáveis pelos crimes horrendos da Unidade 731 (experiências com armas biológicas e químicas em humanos) não foram presentes à justiça, e onde devido aos então recentes bombardeamentos atómicos de Hiroxima e Nagasáqui se invocou que os pilotos japoneses não podiam ser punidos por bombardearem cidades dado os pilotos americanos terem feito o mesmo […]”
Na História da Guerra do Peloponeso, começada a escrever já lá vão 2.400 anos (431 a. C.), Tucídides pôs os poderosos Atenienses a explicar aos derrotados e impotentes melitanos, a razão para o genocídio que se lhe seguiu:
“o direito, de acordo com o que se passa no mundo, apenas se discute entre os que são igualmente poderosos, porquanto os mais fortes fazem o que podem e os fracos sofrem o que têm de sofrer”, (capítulo XVII, Décimo sexto Ano da Guerra, A Conferência Melitana, O Destino de Melos).
Estes ciclos biológicos há muito que são do conhecimento e prática dos nossos mandantes como forma de conservar o poder.
É preciso mudar alguma coisa para que tudo fique na mesma, C. Malaparte.
A Polícia de Cincinnati afirma que até ao final deste ano, 90% de todas as ocorrências serão primeiro atendidas por um drone.
Não nos vamos espantar quando virmos os novos drones para ambientes interiores a percorrer as nossas casas.
Em 1935, o médico, geógrafo e cientista social brasileiro Josué de Castro, publica O Ciclo do Caranguejo, onde descreve a vida de extrema pobreza de famílias que vivem num mangue da cidade do Recife, em que não tendo mais nada para comer que caranguejos aí apanhados que lhes provocam diarreia que acaba servindo para alimentar outros caranguejos que por sua vez vão servir para alimentar as famílias, num ciclo de interdependência que constitui o ecossistema do mangue.
Estes ciclos biológicos há muito que são do conhecimento e pratica dos nossos mandantes como forma de conservar o poder. Veja-se, por exemplo, o que se passa na educação, nos serviços de saúde, nas polícias, etc.: não se dão condições aos serviços para funcionarem, incentiva-se a insatisfação, propõe-se então a solução desejada, deixam de mostrar as manifestações de insatisfação, o sistema continua a funcionar.
Como variante, Estes ciclos biológicos há muito que são do conhecimento e pratica dos nossos mandantes como forma de conservar o poder.. Por exemplo, convencem-nos que é uma poupança económica dotar as forças de polícia com armamento do exército, e nós acreditamos, esquecendo que a utilização de novos armamentos e proteções implica sempre a adoção das táticas que lhes vêm associadas.
A Skydio é uma empresa americana fundada em 2014 que em poucos anos passou de uma relativa obscuridade para a maior fabricante de drones nos EUA. Os seus drones quadricópteros com IA, povoam hoje os céus das cidades americanas.
De acordo com uma pesquisa efetuada por Nate Bear, nos últimos 18 meses quase todas as grandes cidades americanas assinaram contratos com a Skydio, incluindo Boston, Chicago, Filadélfia, San Diego, Cleveland e Jacksonville. Atualmente, a empresa tem contratos com mais de 800 agências de segurança em todo o país.
Os seus drones têm estado a ser utilizados pelos departamentos de polícia municipais e outros organismos (como Universidades), para recolherem informações em protestos, ajuntamentos e outros.
Em Atlanta, a empresa fez uma parceria com a Fundação da Polícia para instalar uma estação permanente de drones dentro do Centro de Formação de Segurança Pública de Atlanta. Detroit, gastou recentemente quase 300 mil dólares na aquisição de catorze drones, de acordo com um relatório de compras da cidade. A Alfândega e Proteção de Fronteiras dos EUA também comprou trinta e três drones capazes de rastrearem e perseguirem automaticamente um alvo.
Um porta-voz da polícia de Nova Iorque, que foi uma das primeiras a adotar os drones Skydio, declarou recentemente a um site de notícias que o Departamento de Polícia de Nova Iorque (NYPD) realizou mais de 20.000 voos em menos de um ano com 41 drones, o que significa que os drones são lançados pela cidade 55 vezes por dia.
O sistema de IA por detrás destes drones é alimentado por chips da Nvidia que permitem a sua operação sem um operador humano. Possuem câmaras de imagem térmica e podem operar em locais onde o GPS não funciona. Também reconstroem edifícios e outras infraestruturas em 3D e podem voar a mais de 48 quilómetros por hora.
Antes de março deste ano, as regras da FAA determinavam que os drones só podiam ser utilizados pelas forças de segurança dos EUA se o operador mantivesse o drone à vista. Também não podiam ser usados sobre ruas movimentadas da cidade.
Mas, uma isenção da FAA emitida nesse mês, veio permitir que a polícia e as agências de segurança operassem drones para além da linha de visão e sobre grandes multidões. Sem a necessidade de ver o drone, e com os drones livres para sobrevoarem as ruas da cidade, a polícia está cada vez mais a enviar drones em vez de polícias para atender ocorrências e para fins de investigação mais abrangentes. Cincinnati, por exemplo, afirma que até ao final deste ano, 90% de todas as ocorrências serão atendidas primeiro por um drone.
Esta ampla cobertura é possível devido à plataforma de acoplamento da Skydio. Estas plataformas estão posicionadas em locais estratégicos da cidade, permitindo que os drones sejam carregados, lançados e aterrem remotamente a muitos quilómetros de distância das sedes da polícia. Após o lançamento, todas as informações recolhidas durante os voos são guardadas num cartão SD interno e enviadas automaticamente para um software específico configurado para uso policial.
Este software é desenvolvido pela Axon, um dos principais financiadores da Skydio, e permite, segundo um comunicado de imprensa da Axon, "o envio automático de fotografias e vídeos captados por drones para um sistema digital de gestão de provas".
Acontece que a Skydio é também um grande fornecedor do Departamento de Defesa, tendo assinado recentemente um contrato para fornecer drones de reconhecimento ao Exército dos EUA. Como fornecedor significativo tanto para as forças militares como para as forças de segurança civis, isto tem levantado algumas velhas questões (sempre atuais) sobre quais são ou serão as informações partilhadas entre os militares dos EUA e as agências de segurança interna através do sistema de gestão de provas digitais da Skydio-Axon.
Se nos lembrarmos que os conflitos são sempre os grandes laboratórios para o desenvolvimento das novas tecnologias de vigilância, onde elas são testadas, e se verificarmos que neste caso da Skydio ela captou centenas de milhões de dólares de capitalistas de risco israelo-americanos bem como de fundos de capital de risco com amplos investimentos em Israel, incluindo a empresa de Marc Andreessen, a Andreessen Horowitz, e que as Forças de Defesa de Israel (IDF) têm intensivamente usado os seus drones, não nos iremos espantar quando para o próximo ano virmos novos drones para ambientes interiores a percorrer as casas das cidades americanas (e não só).