Cuidar dos necessitados é responsabilidade da igreja e dos serviços de caridade, e não do Estado.
Aimagem do pobre como submisso, bendito, sentado à porta da paróquia, mantem-se até ao século XIV.
A pobreza começa a aparecer como um ‘problema’ de ordem pública.
Pôr os pobres a trabalhar é um dever do homem para com Deus e a Natureza, Josiah Child.
O egoísmo de um indivíduo isolado não conduzirá fatalmente ao caos, podendo até estabilizar um sistema de vários indivíduos.
Os pobres devem simplesmente deixar de ser pobres ou morrer.
O princípio em que assenta o sistema político-económico dos EUA (e evidentemente não só), nação cristã orientada por princípios cristãos, com impostos baixos e sem assistência social, é que cuidar dos necessitados é responsabilidade da igreja e dos serviços de caridade, e não do Estado.
Foi, apesar de tudo, o que sobrou da Idade Média cristã que tinha em pé de igualdade ricos, poderosos e pobres. Embora respeitando os ricos, elogiava os pobres por estarem mais próximos do reino do Céu. A ética medieval, não só tolerava a mendicidade como ainda a glorificava, o que é bem patente na existência das ordens mendicantes (grupos de monges dedicados profissionalmente a serem pobres).
Os pobres (mendigos, doentes, órfãos e rameiras) eram considerados livres de qualquer responsabilidade social, servindo para que os demais pudessem exercer a virtude da caridade.
Esta imagem da época em que o pobre é apresentado como submisso, bendito, sentado à porta da paróquia, vai ser totalmente abalada pela peste negra do século XIV. Dois terços da população desaparecem, escasseia a mão-de-obra sobretudo nas cidades, dá-se a fuga dos campos e da submissão feudal, os súbditos transformam-se em pessoas que se deslocam.
A imagem é agora a do sobrevivente que vai de um lado para o outro, como lhe aprouver, trabalhando onde puder, descobrindo o valor dos seus braços.
A pobreza começa a aparecer como um ‘problema’ de ordem pública: os mandantes preocupavam-se não por eles serem pobres, mas por se poderem movimentar livremente, o que significava poderem reunir-se, pressionarem, revoltarem-se.
A pobreza passa a ser tema de assunto em livros e discussões. Surge o Tratado do socorro dos pobres de Luís Vives com a sua proposta de criação de ‘casas de Caridade’ para os acolher, ou seja, para os fixar, imobilizar e controlar.
Introduz dois conceitos que se vão revelar importantes: o da responsabilidade social da república para com os pobres, e o da obrigatoriedade do trabalho para todos os acolhidos nas casas de Caridade.
Ao mesmo tempo, os humanistas e os reformadores protestantes proclamam que o homem, ao ser dono do seu destino, passava a ser o único responsável por determinar como viria a ser a sua vida.
O pobre, ao ser pobre porque queria, porque não tinha vontade suficiente, só demonstrava ou a sua fraqueza interior, ou então que tal era o desejo de Deus para que a sua vida fosse de sofrimento.
O conteúdo da ideia da caridade até então predominante encontrava-se esvaziado.
Em 1601, Isabel I vai publicar a primeira das Leis dos Pobres, Poors Law, criando ao mesmo tempo as casas de trabalho, workhouse. Todo o pobre que fosse fisicamente útil teria de se acolher obrigatoriamente na workhouse da paróquia em que estivesse registado. Ali, eram obrigados a trabalhar a troco de um salário de subsistência.
Por toda a Europa surgiram idênticos lugares de trabalho, onde a troco de um salário mínimo se mantinham vivos os trabalhadores. Esta prática de estabelecimentos estatais de trabalho foram o embrião do aparecimento das grandes empresas privadas.
Os séculos XVII e XVIII prosseguem nesta procura incessante do método para controlar a sociedade, agora já sem ser através do chicote ou das amputações. Algumas pérolas destas ‘preocupações’:
“A fome domesticará os animais mais ferozes, ensinará aos mais perversos a decência, a obediência e a sujeição. No geral, só a fome poderá levar a ajoelhar (os pobres) e a obrigá-los a trabalhar”, Joseph Townsed, na Dissertation on the Poor Laws.
“Se se lhes fizer a vida impossível, o número de mendigos reduzir-se-á: um método ainda mais rápido é pela utilização de arsénico, que seria até uma forma mais suave se fosse permitido”, Thomas Carlyle.
“Pôr os pobres a trabalhar é um dever do homem para com Deus e a Natureza’’, segundo o bem-intencionado Josiah Child.
No século XX, o matemático John F. Nash (interpretado por Russell Crowe no filme Mentes Brilhantes), vai concluir, aplicando a ‘teoria dos jogos’, que qualquer ser humano convertido num jogador isolado do resto do mundo, ganharia sempre que se comportasse de uma forma totalmente egoísta, não se coibindo de trair toda a confiança em si depositada e a palavra dada.
Segundo Nash, num mundo de pessoas isoladas, egoístas e racionais, era perfeitamente possível criar um sistema que desse satisfação a todos os jogadores, utilizando apenas como único incentivo a ambição pessoal de cada um.
A conclusão mais geral que se retira do seu trabalho é que o egoísmo de um indivíduo isolado não conduzirá fatalmente ao caos, podendo até estabilizar um sistema de vários indivíduos. Este é o conhecido e famoso ‘equilíbrio de Nash’ (1950).
Ficou assim demonstrado que é possível, e até desejável, a existência de uma sociedade de indivíduos racionais e isolados, uma sociedade de indivíduos livres, mas controlados e regulados pelo seu próprio egoísmo, sem leis nem polícias.
No século XXI, em princípios de novembro de 2025, uma americana branca (Nikalie Monroe) vai fazer no TikTok uma experiência social em que, fingindo ser uma mãe desesperada por uma lata de leite em pó para o seu bebé com fome, liga para 42 igrejas nos Estados Unidos, documentando quais as respostas que foi obtendo, quais as igrejas que foram prestáveis e quais as que não foram. A grande maioria dos locais de culto que contactou recusou-se a ajudar.
Um dos poucos locais de culto a oferecer-se imediatamente para a ajudar foi uma mesquita na Carolina do Norte, que não só concordou em ajudá-la imediatamente, como também lhe perguntou qual o tipo específico de fórmula infantil de que necessitaria.
Quando a jornalista internacional australiana Caitlin Jonhstone publicou um post no X sobre o assunto, diz ela que recebeu “uma enxurrada de mensagens a dizer que não se deve esperar que a igreja simplesmente distribua esmolas aos necessitados, afirmando que qualquer pessoa que não consiga alimentar o seu próprio filho deve arranjar um emprego e alimentá-lo por conta própria”.
E que “Não acham que os pobres devam receber comida do governo. Não acham que os pobres devam receber comida da igreja. Se os pobres infringirem a lei para obter alimentos, querem que sejam presos durante anos. Acham mesmo que os pobres devem simplesmente deixar de ser pobres ou morrer.”
Definitivamente, o conteúdo da ideia de caridade deixou de existir.
As referências à década de 1930 multiplicam-se. No entanto, as sociedades ocidentais já não se parecem com o que eram então.
A eliminação do desemprego numa questão de meses por Hitler selou o destino do liberalismo.
Um povo pode controlar as suas fronteiras […], contudo, o nazismo, com os seus soldados posicionados do Atlântico ao Volga para escravizar ou exterminar outros povos, era algo completamente diferente.
Graças a Trump, o planeta inteiro está a tornar-se antissemita.
No seu interessante ensaio de 19 de outubro de 2025 (“Hitlerismo, Trumpismo, Netanyahuismo, Le Penismo, Macronismo”), Emmanuel Todd propõe-se comparar os vários "ismos" de tempos passados com os de agora. Do seu prefácio em que nos vai situar o tema, comecei por retirar:
“As referências à década de 1930 multiplicam-se.A degeneração da democracia americana parece remeter-nos para a da República de Weimar, na Alemanha. Trump, através do seu prazer com a violência e a mentira, através do seu exercício do mal, remete-nos irresistivelmente para Hitler. Na Europa, a ascensão de movimentos categorizados como de extrema-direita obriga-nos a olhar para trás, para a nossa história.
No entanto, as sociedades ocidentais já não se parecem com o que eram na década de 1930. Envelheceram, tornaram-se consumistas e orientadas para o serviço, as mulheres emanciparam-se e o desenvolvimento pessoal substituiu a fidelidade partidária. Como é que isto se compara com as sociedades dos anos 30: jovens, frugais, industriais, da classe trabalhadora, dominadas por homens, filiadas em partidos? Foi esta distância sócio histórica que me levou a considerar, a princípio, até agora, inválido o paralelo entre a "extrema-direita" do presente e a do passado. Mas as doutrinas políticas existem, hoje como ontem, e não podemos simplesmente postular a impossibilidade, por exemplo, de um nazismo dos idosos, de um franquismo consumista, de um fascismo das mulheres emancipadas ou de um LGBTismo da Cruz de Fogo […]”
Para explicação desta sua tese, começa por nos elucidar sobre a dimensão real do racismo e da xenofobia:
“A rejeição de um "outro" definido como externo à comunidade nacional, com graus de intensidade variáveis, é comum ao Hitlerismo, ao Trumpismo e ao Le Penismo. No caso do Hitlerismo e do Trumpismo, é a noção de racismo, explícita ou implícita, que é comum. Os nazis consideravam os judeus uma raça no sentido biológico. Os negros, esses alvos mal disfarçados do Partido Republicano trucidado, são também definidos biologicamente. O Le Penismo, por outro lado, só pode ser associado ao conceito de xenofobia. Os árabes e os muçulmanos são definidos pela sua cultura. Uma das características da obsessão francesa pela imigração continua a ser a sua fixação no Islão e a sua incapacidade de chegar aos negros, cuja chegada em massa é, no entanto, o novo elemento no processo migratório. A taxa de casamentos mistos entre mulheres negras é muito elevada em França, mas continua a ser insignificante nos Estados Unidos.
Uma característica comum dos "populismos" ocidentais é, naturalmente, a rejeição da imigração: o Reform UK, o Sverigedemokraterna (Democratas Suecos), a AfD, Viktor Orban na Hungria, o Lei e Justiça na Polónia, Giorgia Meloni em Itália, tal como Trump ou Le Pen, passam o teste deste denominador comum. Basta isso para os definir como extrema-direita, da mesma forma que o nazismo e o fascismo eram extrema-direita? Acho que não. Existe uma diferença crucial entre o populismo atual e a extrema-direita hitleriana ou mussoliniana: o nazismo e o fascismo eram expansionistas, com o objetivo de projetar o poder do povo alemão (ariano) ou italiano (romano) para o exterior. Eram agressivos, nacionalistas e conquistadores. Apoiavam-se em partidos de massas. É difícil imaginar os populistas de hoje a organizar desfiles ao estilo de Nuremberga. As festas com salame e vinho da Marinha Real são certamente antimuçulmanas, mas ainda menos impressionantes do que as cerimónias de guerra de Hitler. De Nuremberga a Hénin-Beaumont? Sério?
O único populismo ocidental que passaria hoje a 100% o teste expansionista seria o de Netanyahu. Assentamentos na Cisjordânia, genocídio em Gaza: estabelecer uma ligação entre o Hitlerismo e o Netanyahuismo é inevitável.
A xenofobia francesa, britânica, sueca, finlandesa, polaca, húngara e italiana, ao contrário do nazismo e do fascismo, é defensiva. Não estamos a lidar com povos que querem conquistar, mas sim com povos que querem permanecer senhores das suas próprias casas. É por isso que a dimensão cultural prevalece hoje na Europa sobre a noção racial e por isso só podemos falar aqui de xenofobia. Esta xenofobia é conservadora, enquanto o racismo de Hitler foi revolucionário porque perturbou a ordem social. A noção de nacionalismo não se aplica, portanto, ao populismo europeu atual, nem a noção de extrema-direita, ou então teríamos de introduzir oxímoros como "nacionalismo moderado" e "extrema-direita moderada". Prefiro falar de conservadorismo popular.
Pessoalmente a favor da imigração controlada, devo admitir a legitimidade desta xenofobia porque aceito o axioma de que um grupo humano portador de uma cultura, consciente de existir como comunidade, em suma, como povo, tem o direito de querer continuar a existir. Em termos concretos: um povo pode controlar as suas fronteiras. O nazismo, com os seus soldados posicionados do Atlântico ao Volga para escravizar ou exterminar outros povos, era algo completamente diferente.
O Trumpismo representa uma forma mista, pois combina um elemento central defensivo e anti-imigração com um forte potencial de agressão ao mundo exterior. Não é expansionismo no sentido estrito do termo. É a anterior expansão do aparelho militar americano e o papel do dólar na predação imperial que tornaram possíveis os atos violentos de Trump contra outros povos e nações: a Venezuela, o Irão, nós, os povos subjugados da Europa Ocidental e, claro, os árabes, com os palestinianos como principal alvo. A integração gradual de Israel no Império, iniciada em 1967, significa que, em 2025, será quase impossível distinguir o Trumpismo do Netanyahuismo. Mas Trump, para além das suas palhaçadas dignas de um Prémio Nobel, é de facto o principal culpado pelo genocídio em Gaza, através do seu antigo incentivo à violência israelita: este simples facto coloca o Trumpismo ao lado do Hitlerismo. Trump continua no comando: acelerações e travões americanos regulam a agressão genocida de Netanyahu. Tenho sorte: enquanto escrevo, Trump, assustado com a reação dos países árabes ao ataque israelita ao Qatar, e em particular com a aliança estratégica entre a Arábia Saudita e o Paquistão, está a recuar. Ordena a Netanyahu que peça desculpa pelo bombardeamento do Qatar, e Netanyahu obedece. Trump impõe um acordo com o Hamas a Israel, e Netanyahu assina. O que vem a seguir? Trump é um pervertido, impossível dizer.
O conceito de Trumpo-Netanyahuismo, algo feio, admito, permite-nos identificar a questão judaica como uma semelhança entre a crise americana dos anos 2000-2025 e a crise alemã dos anos 1920-1945.
Na minha opinião, a postura radical pró-Israel do Trumpismo mascara um antissemitismo visceral e cruel: a identificação de todos os judeus com o Netanyahuismo, um fenómeno histórico verdadeiramente monstruoso e um cancro na história judaica, servirá apenas para renovar a conceção nazi de um povo judeu monstruoso. Falo aqui do antissemitismo 2.0.
[…] Graças a Trump, o planeta inteiro está a tornar-se antissemita. Os judeus americanos, cuja maioria rejeita a linha de Netanyahu, estão mais sábios e justos. Mas os judeus hostis a Netanyahu, académicos ou não, já são suspeitos pelas autoridades de serem antissemitas. A perversidade reina. O trumpismo reina.
]…} Na verdade, o mero regresso da obsessão judaica ao coração do Ocidente valida a hipótese de uma continuidade ameaçadora entre o passado e o presente.
Protestantismo e nazismo zombies, protestantismo zero e trumpismo.
A crise económica de 1929 foi um fator determinante bem conhecido na hitlerização da Alemanha. Seis milhões de desempregados fizeram com que a sociedade alemã escapasse a qualquer recuo ideológico. A eliminação do desemprego por Hitler numa questão de meses selou o destino do liberalismo.
O contexto religioso da ascensão do nazismo, igualmente importante, é menos familiar: entre 1870 e 1930, a fé protestante desapareceu na Alemanha, primeiro entre a classe operária, depois entre as classes média e alta. As regiões católicas resistiram. Em 1932 e 1933, o mapa eleitoral nazi espelhava o do luteranismo com uma precisão fascinante. O protestantismo não acreditava na igualdade dos homens. Havia os eleitos, designados como tal pelo Senhor ainda antes do seu nascimento, e os condenados. Uma vez desaparecida a crença metafísica protestante, o que ficou foi a histeria provocada pelo medo do vazio deixado pelo seu conteúdo desigual, com judeus, eslavos e tantos outros como condenados. Nos Estados Unidos, o protestantismo de origem calvinista tinha como alvo os negros. O povo calvinista, fixado na Bíblia, identificava-se com os hebreus, o que limitava o antissemitismo americano na década de 1930 e protegia os judeus. Ora, protegia-os até ao recente surgimento da fixação evangélica no Estado de Israel.
Na França católica (particularmente na Bacia de Paris e na costa do Mediterrâneo), o colapso da fé e da prática religiosa a partir de 1730 transformou a igualdade de oportunidades de acesso ao paraíso (obtida pelo batismo, que lava o pecado original) em igualdade entre os cidadãos e na emancipação dos judeus. A ideia republicana do homem universal substituiu a do cristão católico universal (katholikos significa universal em grego). Este foi um programa muito diferente do nazismo, mas representou, muito antes do nazismo, a primeira substituição massiva de uma religião por uma ideologia. Na França revolucionária, assim como na Alemanha nazi, contudo, o potencial de orientação social e moral proporcionado pela religião sobreviveu à crença: os indivíduos permaneceram membros da sua nação e da sua classe, mantendo uma ética de trabalho e um sentido de obrigação para com os membros do seu grupo. A capacidade de ação coletiva era forte, talvez dez vezes superior. É o que chamo de estágio zombie da religião. O nazismo correspondeu a este estádio zombie, daí, infelizmente, a sua eficácia económica e militar.
Poderia complementar esta explicação religiosa da ideologia com uma explicação da própria religião, influenciada pelas estruturas familiares subjacentes, que eram desiguais na Alemanha e igualitárias na Bacia de Paris. Mas aqui podemos contentar-nos com uma continuidade do protestantismo ao nazismo e do catolicismo à Revolução Francesa.
Encontramos o protestantismo no Trumpismo. Encontramos então a desigualdade associada à negrofobia. No entanto, já não estamos no estágio zombie da religião, mas sim no seu estágio zero. A moral comum desapareceu. A eficiência social desapareceu. O indivíduo flutua, particularmente nesta América de estrutura familiar nuclear absoluta, individualista e sem regras de herança bem definidas. Devemos, portanto, esperar algo diferente da ideologia trumpista: a desigualdade habitual, mas menos estabilidade no delírio, oscilações brutais que não têm origem fundamentalmente no cérebro de um presidente vulgar e cruel, mas na própria sociedade. Felizmente para nós, a capacidade de ação coletiva, económica e militar é bastante reduzida.
No caso do Trumpismo, devemos notar o aparecimento de formas niilistas pseudo-religiosas que incluem uma reinterpretação obscena da Bíblia, como a glorificação dos ricos. Significativamente mais fraco do que o nazismo em termos de racismo, o Trumpismo vai mais além na sua imoralidade económica.
O nazismo era simples e explicitamente anticristão. O Trumpismo diz-se religioso, mas à maneira de um culto satânico, através da inversão de valores. O mal é o bem, a injustiça é a justiça. Hitler era apenas o Führer, o guia do povo alemão para o seu martírio; Trump não é Satanás, mas suspeito que, para os seus fãs satanistas, o seu boné vermelho é o do Anticristo.
No caso do Le Penismo, não existe uma herança protestante desigual. Este é o verdadeiro mistério do Rali Nacional: xenófobo, nasceu em território católico. Pior ainda, os seus primeiros redutos, na costa mediterrânica e na bacia de Paris, foram os da Revolução: igualitários em termos de vida familiar e descristianizados desde o século XVIII. Então? O Rali Nacional é desigual? Igualitário? Um mistério para nós, o Rali Nacional é provavelmente também um mistério para si próprio. A sua rejeição do outro decorre de um igualitarismo perverso que exige a rápida assimilação dos imigrantes, em vez de os perceber como fundamentalmente diferentes. Acima de tudo, o RN, fortemente determinado pela sua rejeição dos imigrantes e até dos seus filhos, é constantemente recordado da tradição igualitária francesa, pois os seus eleitores odeiam os ultrarricos, os poderosos, em suma, as nossas elites estúpidas, e não apenas os imigrantes. É por isso que a união da direita luta para ter sucesso em França. De uma forma ou de outra, a união dos oligarcas e do povo (branco) contra os estrangeiros não representa problemas nos Estados Unidos, no Reino Unido ou na Escandinávia, onde as forças populares conservadoras e as forças da direita clássica concordam facilmente. Em França, a coligação dos ricos e dos pobres contra os estrangeiros é ilusória.
No entanto, não devemos subestimar a potencial violência de uma forma universalista de xenofobia. Ela pode facilmente transformar-se em racismo. Se um homem acredita a priori que todos os homens são iguais em toda a parte e se vê confrontado com homens com costumes diferentes, pode muito bem concluir que não são homens.
A RN é o produto do catolicismo zero, tal como a Revolução foi o produto do catolicismo zombie. É por isso que ela não dará origem a nenhum projeto coletivo. Deixarei um exame detalhado da RN e da sua relação com o futuro para um texto futuro […] que dedicarei inteiramente à lógica e à dinâmica internas do caos francês.
Psiquiatria das classes médias altas.
Chego agora a uma diferença crucial, que deveria ser óbvia para todos e apontada pelos comentadores políticos que nos remetem constantemente para 1930 com o seu vocabulário. Compreender a dimensão religiosa, ou pós-religiosa, do Hitlerismo, do Trumpismo ou do Le Penismo pressupõe um conhecimento histórico que não se pode esperar dos comentadores políticos na televisão. Por outro lado, podemos esperar que sejam capazes de situar socialmente as ideologias do passado e do presente, que agrupam implacavelmente sob o termo "extrema-direita". A diferença entre o passado e o presente é aqui muito clara.
O nazismo e os movimentos de extrema-direita do período pré-guerra encontraram o seu epicentro social nas classes médias, particularmente nas classes médias altas, que se sentiam ameaçadas pelos movimentos operário, social-democrata e comunista. Estas classes médias estavam febris, ocupadas em prender as suas mulheres e perseguir os homossexuais. Hoje, pelo contrário, os chamados movimentos de extrema-direita encontram o seu epicentro nos círculos da classe operária, particularmente num mundo operário empobrecido, abalado ou destruído pela globalização económica e ameaçado pela imigração. As classes médias atuais, amplamente definidas pelo ensino superior, são menos ou mesmo ligeiramente afetadas pela "extrema-direita". As classes médias altas, que combinam o ensino superior e os rendimentos elevados, são particularmente imunes.
É por isso que prefiro falar de conservadorismo popular em vez de extrema-direita. As suas raízes no grupo dominado explicam a natureza defensiva do conservadorismo popular. Os seus eleitores não conseguem imaginar conquistar a Europa ou o mundo se encararem as suas próprias vidas como uma questão de sobrevivência.
O verdadeiro erro intelectual seria ficar por aí. Continuemos a avançar, invertendo até o problema da associação entre ideologia e classe. Comparamos as ideologias do presente com as do passado; agora, comparemos as classes do presente com as do passado.
Algumas classes médias europeias entre guerras enlouqueceram. A classe operária era mais sensata. Mas será que as classes médias de hoje, particularmente as classes médias altas, são sensatas? São pacíficas? Quais são os seus sonhos?
São loucas. A construção de uma Europa pós-nacional é um projeto delirante, considerando a diversidade do continente. Levou à expansão da União Europeia, remendada e instável, para o antigo espaço soviético. A UE é agora russofóbica e belicista, com a sua agressividade renovada pela derrota económica às mãos da Rússia. A UE está a tentar arrastar os britânicos, franceses, alemães e muitos outros povos para uma guerra a sério. Mas que guerra estranha seria, em que as elites ocidentais adotariam o sonho de Hitler de destruir a Rússia!
A comparação por classe social permite-nos, pois, um grande avanço intelectual. O Europeísmo, e, portanto, o Macronismo, inscrevem-se, pela sua agressividade externa, ao lado do nacionalismo, ao lado da extrema-direita pré-guerra. Se a isto acrescentarmos as violações cada vez mais massivas e sistemáticas da liberdade de informação e do sufrágio popular no seio da UE, aproximamo-nos ainda mais da noção de extrema-direita. Fundada como uma associação de democracias liberais, a Europa está a transformar-se num espaço de extrema-direita. Sim, a comparação com a década de 1930 é útil, até indispensável.
No grandioso projeto europeísta, encontramos uma dimensão psicopatológica já observável no hitlerismo: a paranoia. A paranoia europeísta centra-se na Rússia. A paranoia nazi fez da ameaça judaica uma prioridade, sem, contudo, descurar o bolchevismo russo (conhecido como judaico-bolchevismo).
Hoje, como ontem, podemos, pois, analisar a psicopatologia das classes dominantes europeias. A bizarra sequência de acontecimentos que começou com a eleição de Trump, com o desejo instável do presidente de dialogar com Putin, permitiu-nos acompanhar em tempo real a perda de contacto dos nossos próprios líderes com a realidade. Resumamos o nosso processo delirante. Começou por volta de 2014, antes, durante e depois do Maidan, o golpe de Estado que desintegrou a Ucrânia, controlado remotamente por estrategas americanos e alemães.
[…] A transição dos governos europeus para uma realidade paralela começa em 202:
- “Tiremos da nossa derrota a ideia de que podemos finalmente impor a nossa vontade e instalar as nossas tropas na Ucrânia, para anexar o que resta dela à UE. Mas como não pensar em Hitler fechado no seu bunker em 1945, a dar ordens a exércitos que já não existem?”
Hoje, na Europa, lidamos com loucos, ou melhor, com uma loucura coletiva que se apoderou em massa de indivíduos das classes sociais dominantes. Só em França, milhares de jornalistas, políticos, académicos, líderes empresariais e altos funcionários públicos participam na alucinação coletiva de uma Rússia que desejaria conquistar a Europa (paranoia). Nenhum indivíduo pode ser responsabilizado pessoalmente. Estamos a lidar com uma dinâmica psicológica coletiva.
Estou convencido que a diminuição do indivíduo nascido do estado zero da religião explica o aparecimento destes cardumes de peixes russofóbicos.
Como expliquei em Les Luttes de classes en France au XXIème siècle, o desaparecimento das crenças coletivas – crenças religiosas e, mais tarde, crenças ideológicas do Estado religioso zombie – levou ao colapso do superego humano. Ao contrário dos ativistas pela libertação do ego, não defino o superego como única ou principalmente repressivo. O superego, enquanto ideal do ego, ancora valores morais e sociais positivos na pessoa. As noções de honra, coragem, justiça e honestidade encontram a sua origem e força no superego. Se ele enfraquece, elas enfraquecem. Se ele desaparece, elas desaparecem. No final, portanto, a humanidade não foi libertada pelo fim da religião e das ideologias, mas sim diminuída. São homens e mulheres altamente educados, moral e intelectualmente atrofiados pela ausência de religião, que são, em massa, portadores da patologia russofóbica.
Os antissemitas nazis tinham uma constituição psicológica completamente diferente. A morte de Deus, para citar Nietzsche, lançou-os certamente em busca de um Führer, mas não careciam de superego e permaneciam capazes de ação coletiva. A trágica atuação do exército alemão durante a Segunda Guerra Mundial é disso testemunha. Quem ousaria hoje imaginar as nossas classes médias altas a correr para a morte, à frente dos seus povos, em direção a Kiev e Kharkov? A nossa guerra na Ucrânia é uma brincadeira, um produto da emancipação do eu, fruto do desenvolvimento pessoal. Só ucranianos e russos morrerão.
A não ser que...
As trocas termonucleares podem prescindir de heróis.
O Paraíso com que todos sonhávamos e que nos foi, tem sido e continua a ser anunciado como estando aí mesmo a chegar à porta.
“Todos, salvo os idiotas, sabem que se devem manter pobres as classes baixas, caso contrário nunca trabalhariam”.
Entrámos oficialmente na era das Fábricas às Escuras — instalações de produção altamente avançadas e totalmente automatizadas que operam sem trabalhadores ou sem necessidade de iluminação, que garantem uma operação contínua 24 horas por dia, 7 dias por semana, com um consumo mínimo de energia.
O Paraíso chegou.
O Paraíso com que todos sonhávamos e que nos foi, tem sido e continua a ser anunciado como estando aí mesmo a chegar à porta, para além das diversas interpretações socio-religiosas que o têm acompanhado, vem quase sempre ligado ao aparecimento de um perturbador salto tecnológico.
Foi assim, por exemplo, com a introdução da máquina a vapor nas fábricas (1), apresentada como propiciadora para a libertação do trabalho humano, mas que devido ao ritmo que imprimia, ‘obrigou’ ao nascimento do sistema fabril em grande escala (organização eficiente e correspondente divisão de trabalho), com o consequente aumento de produção. As máquinas, que poderiam ter tornado mais leve o trabalho, fizeram-no pior.
Os proprietários sabiam que tinham de tirar tudo da máquina o mais depressa possível (também a máquina seria explorada ao máximo), porque com as novas invenções elas podiam tornar-se logo obsoletas. O que fazia que os operários tivessem de acompanhar o ritmo das máquinas.
Os dias de trabalho eram de 16 horas. Quando os trabalhadores conseguiram o direito de trabalhar em dois turnos de 12 horas, a satisfação foi imensa.
Mas, mais do que o tempo de trabalho (nas suas vidas estavam habituados a trabalharem o mesmo), a maior dificuldade que os trabalhadores tiveram foi a de se adaptarem à disciplina da fábrica: entrarem a horas certas nuns dias e a outras horas noutros, manter o ritmo de movimento das máquinas sob as ordens e supervisão de um capataz.
Os salários eram os menores possíveis. E como as mulheres e crianças podiam cuidar das máquinas, ganhando menos que um homem, estes acabaram por ficar em casa sem trabalho. No princípio os donos das fábricas iam buscar as crianças pobres aos orfanatos. Mais tarde, como os salários do pai e da mãe já não eram suficientes para manter a família, as crianças que tinham casa viram-se obrigadas a trabalhar nas fábricas e minas.
Até se chegar aos tempos de hoje em que encaramos como normal quase tudo o que “temos”, todo este processo foi de uma violência extraordinária, mas finalmente estamos quase a conseguir o Paraíso. Desses tempos de luta, perdura emblematicamente apenas a observação de Arthur Young (1741- 1820):
“Todos, salvo os idiotas, sabem que se devem manter pobres as classes baixas, caso contrário nunca trabalhariam”.
E assim foi, até agora, em que oficialmente entrámos na era das Fábricas às Escuras (Dark Factories) — instalações de produção altamente avançadas e totalmente automatizadas que operam sem trabalhadores ou sem necessidade de iluminação, que garantem uma operação contínua 24 horas por dia, 7 dias por semana, com um consumo mínimo de energia.
Durante as operações normais, estas fábricas não requerem intervenção humana e funcionam sem luzes, pois os robôs e as máquinas com inteligência artificial não necessitam de orientação visual.
Os sistemas robotizados com inteligência artificial gerem as linhas de produção de forma autónoma e a logística automatizada gere o stock, a cadeia de abastecimento e o transporte de produtos acabados sem intervenção humana.
São óbvias as vantagens para a produção: como as máquinas trabalham 24 horas por dia, 7 dias por semana, sem interrupções, reduzindo o tempo de inatividade, dá-se um aumento da eficiência da produção; como os trabalhadores não são humanos não se pagam salários, a que acresce um menor consumo de energia, logo custos operacionais reduzidos; como a monitorização é baseada em IA, garante um fabrico preciso e produtos sem defeitos, logo um controle de qualidade consistente; como operam a velocidades muito mais altas, garantem uma maior produção com custos reduzidos, permitindo ainda uma produção escalável, adaptando-se instantaneamente às flutuações da procura; como os robôs não precisam de pausas, sono ou trocas de turno, estas fábricas podem produzir bens continuamente, sem interrupções, maximizando a produção com uma operação 24/7.
Vantagens acrescidas para os trabalhadores (devido à expansão da automação serão despedidos deixando assim de enfrentarem milhões de deslocações para o emprego; serão ajudados pelos governos e empresas através de programas de requalificação profissional a fazerem a transição para novas funções; terão mais tempo disponível para dedicarem à família e ao lazer, uma vida mais estável; outras) e para a humanidade no geral (os sistemas automatizados de iluminação, aquecimento e arrefecimento otimizam a utilização de energia, reduzindo o impacto ambiental; a gestão de recursos baseada em IA garante o mínimo de desperdício e baixas emissões de carbono; as fábricas automatizadas otimizam a utilização de energia e a eficiência dos materiais, reduzindo o desperdício; a logística orientada pela IA minimiza os custos de transporte e a pegada de carbono; outros).
Desta vez, finalmente o Paraíso está mesmo aí! Aliás, sempre esteve aí, nunca aqui.
Explicação de Hitler sobre a sua posição geral relativamente à condução da guerra no Leste, como consta da Ata de 16 de julho de 1941.
Nunca mais deverá ser possível criar um poder militar a oeste dos Urais, A. Hitler.
Em 1957,77% dos funcionários com cargos de responsabilidade no Ministério da Justiça alemão (ou seja, três em cada quatro) eram antigos membros do partido nazi.
A política de ocupação alemã-nazi foi determinada por considerações raciais-ideológicas e económicas. Ao mesmo tempo que vários gabinetes do partido e do Estado elaboravam planos para uma reorganização milenar da Europa sob a hegemonia alemã, a maioria dos territórios estava a ser administrada por regimes de ocupação mais ou menos provisórios, que apoiavam os esforços de guerra da Alemanha através da exploração económica das suas respetivas regiões. O método de subjugação escolhido e a severidade com que era aplicado dependiam diretamente da valorização racial que os nazis atribuíam à população residente – facto que explica a política de ocupação especialmente brutal na Europa de Leste.
Há uma importante ata (1) de Martin Bormann de uma reunião no Quartel-General do Führer em 16 de julho de 1941 que inclui a explicação de Hitler sobre a sua posição geral em relação à condução da guerra no Leste, que ajuda a entender o que se passava na altura e também muito do que se passa hoje:
Top Secret
Quartel-General do Führer, 16 de julho de 1941
Uma conferência com a presença do Reichsleiter Rosenberg, do Ministro do Reich Lammers, do Marechal de Campo Keitel, do Reichsmarschall [Göring] e de mim foi realizada hoje por ordem do Führer às 15h nos seus aposentos. A conferência começou às 15h00 e, incluindo uma pausa para café, durou até aproximadamente às 20h.
A título de introdução, o Führer sublinhou que desejava, antes de mais, fazer algumas declarações básicas. Diversas medidas eram agora necessárias; isto foi confirmado, entre outros acontecimentos, por uma afirmação feita num insolente jornal de Vichy de que a guerra contra a União Soviética era a guerra da Europa e que, por isso, deveria ser conduzida para o bem da Europa no seu todo. Aparentemente, o jornal de Vichy pretendia com estas insinuações dizer que não deveriam ser apenas os alemães que beneficiariam desta guerra, mas que todos os estados europeus deveriam beneficiar dela.
Era essencial que não proclamássemos os nossos objetivos perante o mundo inteiro; além de que isso não era necessário, porque o principal era que nós próprios soubéssemos o que queríamos. Em nenhum caso o nosso próprio caminho deveria ser dificultado por afirmações supérfluas. Tais declarações eram supérfluas porque podíamos fazer tudo onde tivéssemos o poder, e o que estivesse para além do nosso poder de qualquer forma não seríamos capazes de o fazer.
O que dissemos ao mundo sobre os motivos das nossas medidas deve ser condicionado, por isso, por razões táticas. Devemos proceder aqui exatamente da mesma forma que procedemos nos casos da Noruega, Dinamarca, Holanda e Bélgica. Nestes casos também não dissemos nada sobre os nossos objetivos, e se fôssemos inteligentes, continuaríamos da mesma maneira.
Enfatizaremos, então, novamente, que fomos obrigados a ocupar, administrar e assegurar uma determinada área; era do interesse dos habitantes que providenciássemos ordem, alimentos, tráfego, etc., daí as nossas medidas. Não se deve perceber que, com isto, um acordo final esteja a ser iniciado! Podemos, no entanto, tomar todas as medidas necessárias — fuzilamentos, realojamentos, etc. — e tomá-las-emos.
Mas não queremos transformar nenhum povo num inimigo prematura e desnecessariamente. Portanto, agiremos como se apenas quiséssemos exercer um mandato. Deve ficar-nos claro, porém, que nunca nos retiraremos destas áreas.
Assim, devemos agir:
1.º Não fazer nada que possa obstruir a resolução final, mas prepararmo-nos para ela apenas em segredo;
2.º Enfatizar que somos libertadores.
Em particular:
A Crimeia deve ser evacuada por todos os estrangeiros e povoada apenas por alemães.
Da mesma forma, a antiga parte austríaca da Galícia tornar-se-á território do Reich.
As nossas relações com a Roménia são boas atualmente, mas não se sabe como serão no futuro. Devemos considerar isto e traçar as nossas fronteiras de acordo com isso. Não devemos depender da boa vontade dos outros povos; devemos organizar as nossas relações com a Roménia de acordo com este princípio.
Em princípio, temos agora de enfrentar a tarefa de dividir o bolo gigante de acordo com as nossas necessidades, para sermos capazes de: primeiro, dominá-lo; segundo, administrá-lo; e terceiro, explorá-lo.
Os russos deram agora ordem para a guerra de guerrilha atrás da nossa frente. Esta guerra de guerrilha novamente traz-nos alguma vantagem; permite-nos exterminar todos os que se opõem a nós.
Princípios:
Nunca mais deverá ser possível criar um poder militar a oeste dos Urais, mesmo que tenhamos de travar uma guerra durante cem anos para atingir esse objetivo. Todos os sucessores do Führer devem saber: a segurança do Reich só existe se não existirem forças militares estrangeiras a oeste dos Urais; é a Alemanha que assume a proteção desta zona contra todos os perigos possíveis. O nosso princípio inabalável deve ser e permanecer:
Nunca devemos permitir que ninguém, além dos alemães, possa andar armado!
Isto é especialmente importante; mesmo quando parece mais fácil, a princípio, obter o apoio armado de nações estrangeiras subjugadas, é errado fazê-lo. Isso revelar-se-á, algum dia, absoluta e inevitavelmente, em nosso desfavor. Só o alemão pode andar armado, não o eslavo, nem o checo, nem o cossaco, nem o ucraniano!
Em caso algum devemos aplicar uma política vacilante como a que foi adotada na Alsácia antes de 1918. O que distingue o inglês é a sua constante e consistente adesão a uma linha e a um objetivo. Nesse aspeto, devemos aprender absolutamente com ele. Por isso, nunca devemos basear as nossas ações em personalidades contemporâneas individuais; aqui, mais uma vez, a conduta dos britânicos na Índia em relação aos príncipes indianos, etc., deve servir de exemplo: É sempre o soldado que tem de consolidar o regime!
Temos de criar um Jardim do Éden nos territórios orientais recém-conquistados; são de vital importância para nós; em comparação com eles, as colónias desempenham um papel totalmente subordinado.
Mesmo que dividamos determinadas áreas de uma só vez, procederemos sempre no papel de protetores da lei e da população. Os termos necessários neste momento devem ser escolhidos de conformidade com este princípio: Não falaremos de novo território do Reich, mas da tarefa que se tornou necessária por causa da guerra.
[ . . . ] O Führer sublinha que toda a área do Báltico deve tornar-se território do Reich.
Da mesma forma, a Crimeia, incluindo um hinterland considerável (a área a norte da Crimeia), deve tornar-se território do Reich; o hinterland deve ser o maior possível.
[. . .] O Führer sublinha ainda que a colónia do Volga terá também de se tornar território do Reich, assim como o distrito em redor de Baku; este último terá de se tornar uma concessão alemã (colónia militar).
[…] A anexação da Finlândia como Estado federado deve ser preparada com muita cautela. A área em redor de Leninegrado é desejada pelos finlandeses; o Führer mandará arrasar Leninegrado para a entregar aos finlandeses.
[. . . ] O Reichsmarschall, contudo, enfatizou os critérios mais importantes que, por ora, deveriam ser exclusivamente decisivos para nós: garantir o abastecimento de alimentos e, na medida do necessário, da economia; garantir a segurança das estradas, etc.
[ . . . ] O Reichsleiter Rosenberg abordou, de seguida, a questão de garantir a segurança da administração.
[ . . . ] O Marechal de Campo Keitel enfatizou que os próprios habitantes deveriam ser responsabilizados pelos seus assuntos, pois era, obviamente, impossível colocar uma sentinela em frente de cada barracão ou estação ferroviária. Os habitantes precisavam de compreender que qualquer pessoa que não cumprisse os seus deveres adequadamente seria fuzilada e que seria responsabilizada por cada delito.
[…] Após o intervalo, o Führer enfatizou que precisávamos de compreender que a Europa de hoje não passava de um termo geográfico; na realidade, a Ásia estendia-se até às nossas fronteiras.
No blog de 27 de setembro de 2017, “Os ovos da serpente”, além de explicar esse conceito, recordei outros elementos, como o facto de em 1939 os nazis contarem com mais de duzentos mil seguidores e simpatizantes nos EUA, que a revista Time escolheu Hitler para figurar na sua capa, como “homem do ano 1938” entendendo que devia ser o candidato ao Prémio Nobel da Paz, e que entre os seus admiradores se encontravam o magnate automobilístico Henry Ford e o aviador Charles Lindbergh.
E que na Grã-Bretanha, a abdicação em 1936 do rei Eduardo VIII, Duque de Windsor, ficara certamente mais a dever-se às suas simpatias para com Hitler e o regime nazi do que com o facto de pretender casar-se com uma divorciada americana. Eram notórias as simpatias da classe alta e dos aristocratas britânicos para com o regime nazi, o que talvez tenha levado Hitler a cometer o erro estratégico de acreditar que a implantação do seu regime na Grã-Bretanha seria relativamente fácil, não se preocupando muito em dificultar a retirada do exército britânico de Dunquerque.
E que, na destruição e na confusão que se seguiu após o fim da II Guerra, a necessidade de se manter a funcionar um mínimo de administração pública nos países derrotados, e até a dificuldade de separar nazis de não nazis fez com que, intencionalmente ou não, muitos deles passassem despercebidos, pelo que apenas 6650 ex-nazis foram condenados, o que só por si era uma pequena parte do total dos membros do partido.
Mais: Um recente estudo denominado “Projeto Rosemburg” apresentado publicamente por Heiko Maas, atual ministro da Justiça alemão, veio confirmar que em 1957, 77% dos funcionários com cargos de responsabilidade no Ministério da Justiça alemão (ou seja, três em cada quatro) eram antigos membros do partido nazi. O que não deixa de ser até curioso, porquanto essa percentagem em 1957 era mais alta do que durante o Terceiro Reich (http://www.dn.pt/mundo/interior/sistema-de-justica-alemao-do-pos-guerra-estava-dominado-por-ex-nazis-5434041.html).
Aliás, ainda hoje, passados mais de 75 anos da Segunda Guerra, a Alemanha continua a pagar pensões mensais aos colaboradores do regime nazi em países como o Reino Unido e a Bélgica, conforme um decreto de Adolf Hitler que estipulava a garantia de cidadania germânica aos estrangeiros que tivessem jurado “fidelidade, lealdade e obediência” ao Führer.
E a Suécia, Noruega, Finlândia e Dinamarca, mesmo depois da derrota do nazismo, continuaram a praticar a eugenia durante várias décadas. Entre 1935 e 1976, 63.000 suecas, 57.000 finlandesas, 40.000 norueguesas e 6.000 dinamarquesas foram esterilizadas, primeiro em nome da preservação da “pureza nórdica” face aos ciganos tatera, e mais tarde em obediência a critérios económicos do trabalhismo.
Recentemente, o esperado/enaltecido e não seguido relatório Draghi destacou os elevados custos energéticos como uma das principais razões para a perda de competitividade da UE. Em comparação com as suas congéneres americanas, os preços da energia continuam "2 a 3 vezes mais elevados" para a eletricidade e "4 a 5 vezes mais elevados" para o gás natural.
Como resultado, grandes partes da Europa Ocidental foram empurradas para a recessão e até para uma desindustrialização. Dir-se-á por exemplo que a Alemanha, tal como outros países, estava a lutar contra desafios preexistentes, em parte enraizados na arquitetura estrutural da UE e em parte autoimpostos como o investimento insuficiente em infraestruturas, a excessiva dependência dos setores transformadores tradicionais em detrimento das indústrias de alta tecnologia e uma estratégia de transição energética falhada. É, no entanto, evidente que a subida dos preços da energia se tornou o principal fator que prejudica a competitividade das empresas alemãs, levando muitas a transferir a produção para o exterior.
Contudo, o que Draghi não referiu é que tal foi uma consequência direta da decisão política da UE, após a invasão da Ucrânia pela Rússia, de se desvincular do gás russo, que antes da guerra representava quase metade da procura do bloco, e de recorrer ao gás natural liquefeito (GNL) muito mais caro do Qatar e, especialmente, dos Estados Unidos.
Notas:
(1) Fonte da tradução para inglês: Unsigned Memorandum (16 de julho de 1941), in United States Department of State, Documents on German Foreign Policy, 1918-1945: From the Archives of the German Foreign Ministry. Washington, DC: United States Government Printing Office, 1964. Série D (1937-1945), The War Years, Volume 13: 23 de junho a 11 de dezembro de 1941. Documento Número 114 (Nuremberg Document 221-L), pp. 149-56.
Fonte do texto original em alemão: Aktenvermerk vom 16. Juli 1941, no Der Prozess gegen die Hauptkriegsverbrecher vor dem Internationalen Militärgerichtshof. Nuremberga, 14 de novembro de 1945 – 1 de outubro de 1946. Volume XXXVIII, Amtlicher Text – Deutsche Ausgabe, Urkunden undanderes Beweismaterial. Nuremberga 1949. Reimpressão: Munique, Delphin Verlag, 1989. Documento 221-L, pp. 86-94.