Somos uma cultura definida pela guerra. Gostaria que antes nos pudéssemos diferenciar por outras coisas, Kathryn Bigelow.
Em 243 anos, de 1776 a 2019, os Estados Unidos realizaram 392 intervenções militares, Toft e Kushi.
E o ritmo dessas intervenções tem vindo a acelerarao longo do tempo.
E os conflitos atuais não são acidentes geopolíticos, mas o resultado direto de uma longa história em que Washington procurou impor a sua vontade pela força.
Embora nos custe a aceitar, é muito bem possível que o “instinto bélico” tenha feito sempre parte dos seres humanos, isto se não quisermos recuar um pouco mais até ao ser vivo primordial, aquela celulazinha que para se alimentar e na ausência de melhor comia outras celulazinhas, parecidas ou não.
Quando elas se juntaram em organismos e depois em vizinhos similares, rapidamente se transformaram em bandos que se defendiam e atacavam, escolhendo por vários processos os que melhores resultados alcançassem. Foram assim surgindo os “senhores da guerra”.
Os senhores da guerra existiram ao longo de grande parte da história, embora numa variedade de diferentes capacidades dentro da estrutura política, económica e social dos estados ou territórios não governados.
Segundo a definição abrangente do Merriam Webster Unabridged Dictionary (2000): "1: um líder militar supremo; 2: um comandante militar que exerce poder civil tomado ou mantido pela força, geralmente puramente por interesse próprio e geralmente sobre uma região limitada, com ou sem reconhecimento de um governo central, por vezes tendo controlo efetivo sobre o governo ou administração central e, por vezes, obtendo reconhecimento de facto ou de direito de potências estrangeiras."
Com o aparecimento e desenvolvimento das Nações e dos Estados e dos Impérios, estas caraterísticas bélicas foram sendo internalizadas e assumidas.
Além disso, verificaram também que o ritmo dessa intervenção tem vindo a acelerar ao longo do tempo. Entre 1776 e 1945, Washington interveio aproximadamente uma a uma vez e meia por ano. Durante a Guerra Fria, este número subiu para quase 2,5 intervenções anuais. Após a Guerra Fria, aumentou para 4,6 por ano e, desde 2001, tem-se mantido bastante elevado, com 3,6 intervenções anuais.
A exceção foi o ano de 1974, último ano em que os Estados Unidos não fizeram sequer uma nova intervenção militar. Antes disso, a única outra pausa verificada foi em 1952. Daí Toft e Kushi poderem concluir que a guerra constante tornou-se o padrão americano. O que aliás não se afasta muito da perceção dos norte-americanos: recentemente, a realizadora Kathryn Bigelow (The Hurt Locker, Zero Dark Thirty, A House of Dynamite) expressou numa entrevista que “Nós somos uma cultura definida pela guerra. Gostaria que antes nos pudéssemos diferenciar por outras coisas”.
Um dos factos estatísticos mais interessantes revelados por Toft e Kushi é que os principais adversários dos Estados Unidos de hoje são os próprios países em que o país interveio com mais frequência ao longo da sua história. Os sete principais são: China, Rússia, México, Coreia do Norte, Cuba, Irão e Nicarágua.
O que emerge é um quadro preocupante: os conflitos atuais não são acidentes geopolíticos, mas o resultado direto de uma longa história em que Washington procurou impor a sua vontade pela força.
Por outras palavras, os inimigos mais duradouros dos Estados Unidos são, em grande medida, aqueles que ajudaram a criar. E, crucialmente, as intervenções militares, a interferência, as sanções económicas e as constantes ameaças dos EUA nestes países, longe de construir estabilidade, deixaram antes legados de ressentimento, desconfiança e resistência. Não só enraizaram ciclos de hostilidade, como quase certamente contribuíram para a sua falta de democracia, liberalismo e prosperidade – os regimes autoritários que Washington agora demoniza são, em grande parte, o produto das suas próprias agressões.
Quando as pessoas vivem sob o cerco de uma grande potência, quando as suas sociedades são marcadas pela violência, pela pobreza e pela erosão da educação e das oportunidades, não se tornam mais democráticas ou liberais. Em vez disso, o medo, as dificuldades e a insegurança criam um terreno fértil para o governo autoritário – e as agressões de Washington têm contribuído repetidamente para isso mesmo. Em termos mais claros, os Estados Unidos fabricam os seus próprios inimigos e depois condenam-nos pelas mesmas condições que ajudaram a criar.
Mas talvez a descoberta mais chocante do livro venha da comparação dos níveis de hostilidade dos EUA com os dos seus inimigos. Durante a Guerra Fria, os níveis de hostilidade eram aproximadamente simétricos. Mas em todos os períodos anteriores e posteriores, os Estados Unidos demonstraram níveis de hostilidade mais elevados do que os dos seus adversários – muitas vezes significativamente mais elevados.
Isto sugere fortemente que a maioria das guerras americanas ao longo da sua história não foram guerras defensivas, mas guerras imperiais por opção, nas quais Washington foi o principal impulsionador. Além disso, desde 1776 até ao fim da Guerra Fria, mais de 75% de todas as intervenções americanas foram unilaterais. Desde 1990, esta percentagem desceu para 57,7%. O que significa que Washington nunca se preocupou muito com a opinião global ou com o direito internacional.
Este padrão de intervenção mostra que as guerras dos Estados Unidos raramente foram guerras de sobrevivência. Foram, na sua esmagadora maioria, guerras de escolha, impulsionadas por ambições expansionistas, comerciais e imperiais.
Todo o choque de civilizações é na realidade o choque entre as barbáries que lhes estão subjacentes, Walter Benjamin.
Toda a nossa vida assenta em mundos subterrâneos, por vezes muito escuros, que necessitam ser revolvidos.
Não permitiremos que os indivíduos que apoiam o terrorismo vivam confortavelmente. Enfrentarão todas as consequências das suas ações, Ben-Gvir.
“Nunca aconteceu”, o secretismo daquilo que o poder faz sem nunca o reconhecer.
É Freud que nos seus estudos sobre os sonhos os vai relacionar intimamente com as nossas regiões interiores que precisavam de ser agitadas e perturbadas. Mas, se virmos bem, não serão apenas os sonhos: toda a nossa vida quotidiana, os nossos costumes, assentam em mundos subterrâneos, por vezes muito escuros, que necessitam ser revolvidos.
Sabemos que pertencer a uma sociedade trás consigo momentos em que nos é ordenado que aceitemos livremente (obviamente fazendo a ‘nossa’ escolha), aquilo que de outra maneira nos é imposto.
E que para se poder viver numa sociedade temos de seguir um certo número de regras que nos aparecem como costumes. Os costumes são um conjunto complexo e intrincado de regras informais que nos permitem saber lidar com as normas explícitas da sociedade em que vivemos, para que as saibamos aplicar e aceitar, mesmo quando essa aceitação implique um jogo de desrespeito mutuamente consentido.
São usos e costumes as nossas ideias sobre o mal e o bem, sobre o que é agradável e desagradável, o que é divertido e sério, o que é belo e feio, bem como o sentido de honra, os modos à mesa, o modo de falar, o sotaque, o vestuário, o cheiro. Tudo isto são ideias da classe média em que estamos inseridos e que nos definem como seres sociais, muitas vezes contrastando com a perceção que temos de nós próprios.
Mas os usos e costumes não se restringem só a esta parte leve e séria acima exposta. Há também aquela parte subterrânea pesada e obscena, extremamente difícil de transformar, que constitui o inconsciente dos costumes. São casos recorrentes como, por exemplo, os da pedofilia na Igreja Católica (não só), os das praxes militares e os das torturas infligidas.
Em “Mover as regiões infernais” socorri-me de uma citação de Walter Benjamin em que ele diz que “todo o choque de civilizações é na realidade o choque entre as barbáries que lhes estão subjacentes”, para me referir ao então acontecido na prisão de Abu Ghraib, Iraque, onde soldados americanos tiraram fotografias torturando e humilhando presos iraquianos.
Zizek vai, contudo, chamar-nos também a atenção para o facto de o choque entre as civilizações árabe e americana não ser um choque entre a barbárie e o respeito pela dignidade humana, mas antes “um choque entre a tortura brutal e anónima (como a de Saddam e outros, iminentemente física e escondida) e a tortura como espetáculo mediático no qual os corpos das vítimas servem de pano de fundo anónimo ao sorriso dos ‘rostos americanos inocentes’ dos próprios torcionários.”
Atente-se ainda num outro problema que aparece focado no filme A Few Good Men (Uma Questão de Honra) de Bob Reiner, com Jack Nicholson, Tom Cruise e Demi Moore. Fuzileiros americanos acusados de espancarem um seu camarada e de lhe provocarem a morte fazem-no a coberto de uma regra não-escrita (o Código Vermelho) que autoriza essa atuação quando um soldado tenha infringido as obrigações éticas dos Marines. Apesar de ilegal, esse código verbal é suposto servir para a coesão do grupo e é do total conhecimento e aprovação dos superiores.
Tal como com o Código Vermelho, também aqui a norma é o secretismo daquilo que o poder faz sem nunca o reconhecer. As torturas reveladas nas fotografias de Abu Ghraib embora não diretamente ordenadas caem nesta região da legitimação superior obscena sem a qual os soldados nunca se atreveriam a fazê-las. As tais “regiões infernais” a mover.
Mais sofisticadamente, provavelmente até por milenar inserção histórica, os representantes do Estado de Israel, através do seu Ministro da Segurança Nacional, Itamar Ben-Gvir, começam logo abertamente por dizer o que irá acontecer. Assim, afirmou no mês passado que os ativistas da Flotilha Global Sumud deviam ser tratados como terroristas para "criar uma clara advertência " a futuros ativismos de outras flotilhas, declarando que "qualquer pessoa que opte por colaborar com o Hamas e apoiar o terrorismo encontrará uma resposta firme e inflexível de Israel".
"Não permitiremos que os indivíduos que apoiam o terrorismo vivam confortavelmente. Enfrentarão todas as consequências das suas ações".
Numa entrevista ao jornal sueco Aftonbladet, Greta Thunberg corroborou relatos anteriores de testemunhas oculares de que ela e os seus colegas ativistas da Flotilha Global Sumud foram sujeitos a abusos por parte das autoridades israelitas depois de terem sido sequestrados dos seus barcos em que transportavam ajuda humanitária para os palestinianos em Gaza.
Eis alguns excertos da entrevista:
“Agarraram-me, atiraram-me para o chão e atiraram uma bandeira israelita por cima de mim.”
“Arrastaram-me para o lado oposto onde os outros estavam sentados, e eu fiquei com a bandeira à minha volta o tempo todo. Bateram-me e pontapearam-me.”
“Levaram-me com muita brutalidade para um canto para onde estava virada. ‘Um lugar especial para uma senhora especial’, disseram. E depois repetiam o tempo todo ‘Lilla hora’ (Puta vagabunda) e ‘Hora Greta’ (Puta Greta) em sueco que aprenderam.”
No canto onde Greta estava sentada, a polícia colocou uma bandeira. "A bandeira foi colocada por forma a tocar-me. Quando tremulava e me tocava, gritavam 'Não toques na bandeira' e pontapeavam-me desse lado. Passado um bocado, as minhas mãos foram amarradas com braçadeiras, muito apertadas. Um bando de guardas fez fila para tirar selfies comigo enquanto eu estava sentada daquela maneira."
"Foram atirados para o chão e espancados. Mas eu só conseguia ver com o canto do olho, porque cada vez que levantava a cabeça do chão, era pontapeada pelo guarda que estava ao meu lado."
Greta foi então levada para um edifício para ser revistada e despida. "Os guardas não têm empatia nem humanidade e continuam a tirar selfies comigo. Há muita coisa de que não me lembro. Acontece tanta coisa ao mesmo tempo. Fica-se em choque. Sente-se dor, mas entra-se num estado de tentar manter a calma."
Lá fora, foi obrigada novamente a tirar a roupa, e conta. "Foi uma troça, um tratamento rude, e tudo foi filmado. Tudo o que fazem é extremamente violento."
"Estava tão quente, tipo 40 graus. Implorávamos o tempo todo: Podemos ter água? Podemos ter água? No final, gritávamos. Os guardas andavam em frente às grades o tempo todo, rindo e segurando as suas garrafas de água. Atiravam as garrafas com água para os contentores do lixo à nossa frente."
"Quando as pessoas desmaiavam, batíamos nas jaulas e pedíamos um médico. Depois vinham os guardas e diziam: 'Vamos matar-vos com gás'. Era comum dizerem isso."
"Isto mostra que, se Israel, com o mundo inteiro a assistir, pode tratar desta forma uma pessoa branca e conhecida, com passaporte sueco, imagine-se o que fazem aos palestinianos à porta fechada."
Após o rapto dos ativistas da flotilha pelas Forças de Defesa de Israel (IDF), Ben-Gvir filmou-se a provocá-los e a chamar-lhes "terroristas" e disse que "estava orgulhoso por tratarmos os 'ativistas da flotilha' como apoiantes do terrorismo".
As autoridades israelitas negaram as alegações de Greta, com o ministro dos Negócios Estrangeiros a afirmar numa declaração ao Telegraph: “Todos os seus direitos legais foram plenamente respeitados. Curiosamente, a própria Greta recusou-se a acelerar a sua deportação e insistiu em prolongar a sua permanência sob custódia. Também nunca apresentou qualquer queixa às autoridades israelitas sobre estas alegações ridículas e infundadas – porque simplesmente nunca aconteceram”.
Já no Apocalipse Now, a missão dada a Willard (Martin Sheen) para matar Kurtz (Marlon Brando), não fica registada. Conforme diz o general que transmite as instruções a Willard: “Nunca aconteceu”.
Cortar economicamente ao meio o continente europeu foi um ato de loucura suicida.
Estabelecer como horizonte social a ideia de que um homem pode realmente tornar-se mulher e uma mulher homem é afirmar algo biologicamente impossível, é negar a realidade do mundo, é afirmar o falso, E. Todd.
Uma descida à distopia, a um mundo negativo onde se misturam poder, fragmentação, hierarquia, violência, pobreza e perversidade
Em 1976, o antropólogo e historiador francês Emmanuel Todd previu em La chute finale: Essai sur la décomposition de la sphère Soviétique, a queda da União Soviética. Em 2001, com Après l’Empire : Essai sur la décomposition du système américain, previu o declínio (relativo) dos Estados Unidos.
Em 2024, no seu último livro, La Défaite de l’Occident, lamenta a condição em que o ocidente se colocou devido à incapacidade para distinguir os factos dos desejos. Basicamente assenta essa conclusão naquilo que declara ter vindo a infestar o pensamento ocidental: o niilismo, a falta de valores e a falta de aceitação da realidade.
É para Todd clara essa incapacidade assim que a Europa deixou de se ver integrada num espaço natural geográfico do qual a Rússia também fizesse parte (do que aliás sempre fez parte), autoamputando-se da possibilidade de ser considerada como polo mundial.
E sem querer ser moralista, vai atribuir isso à “fixação das classes médias ocidentais em questões de ultraminoritários […] como a ideologia trans […] o que levanta uma questão sociológica e histórica.” Embora os indivíduos trans devam ser protegidos, “estabelecer como horizonte social a ideia de que um homem pode realmente tornar-se mulher e uma mulher homem é afirmar algo biologicamente impossível, é negar a realidade do mundo, é afirmar o falso”.
É o mesmo que utilizar como “uma das bandeiras deste niilismo que define agora o Ocidente, este impulso para destruir não só as coisas e as pessoas, mas a realidade” o que o Unabomber proclamava no seu manifesto:
“Devemos estar preparados para defender a ideia de que, em princípio, todos devem ter acesso a cuidados médicos de mudança de sexo, independentemente da idade, identidade de género, ambiente social ou antecedentes psiquiátricos.”
A pedido da editora eslovena, Todd escreveu agora um novo prefácio para La Défaite de l’Occident, que acabou de publicar debaixo do título “The dislocation of the West: what threatens us”, e que aqui reproduzo/traduzo parcialmente:
“Menos de dois anos após a publicação francesa de La Défaite de l’Occident, em janeiro de 2024, as principais previsões do livro concretizaram-se. A Rússia resistiu à tempestade militar e economicamente. A indústria militar americana está exausta. As economias e sociedades europeias estão à beira da implosão. O exército ucraniano ainda não entrou em colapso, mas o estágio de desagregação do Ocidente já foi atingido.
Sempre fui hostil às políticas russofóbicas dos Estados Unidos e da Europa, mas, como ocidental comprometido com a democracia liberal, francês formado em investigação em Inglaterra, filho de uma mãe refugiada nos Estados Unidos durante a Segunda Guerra Mundial, estou devastado pelas consequências para nós, ocidentais, da guerra travada sem inteligência contra a Rússia.
Estamos apenas no início da catástrofe. Aproxima-se um ponto de viragem, para além do qual se desenrolarão as consequências finais da derrota.
…
Temo agora que os nossos meios de comunicação social exacerbem a nossa cegueira por serem incapazes de imaginar o renovado prestígio da Rússia no resto do mundo, que tem sido explorada economicamente e tratada com arrogância pelo Ocidente durante séculos. Os russos ousaram. Desafiaram o Império e venceram.
A ironia da história é que os russos, um povo europeu e branco que fala uma língua eslava, tornaram-se no escudo militar do resto do mundo porque o Ocidente se recusou a integrá-los após a queda do comunismo.
…
Posso esboçar aqui um modelo da desarticulação do Ocidente, apesar das incoerências das políticas de Donald Trump, o presidente americano derrotado. Estas incoerências não resultam, creio, de uma personalidade instável e indubitavelmente perversa, mas de um dilema insolúvel para os Estados Unidos. Por um lado, os seus líderes, tanto no Pentágono como na Casa Branca, sabem que a guerra está perdida e que a Ucrânia terá de ser abandonada. O bom senso leva-os, portanto, a querer sair da guerra. Mas, por outro lado, o mesmo bom senso fá-los perceber que a retirada da Ucrânia terá consequências dramáticas para o Império que as do Vietname, do Iraque ou do Afeganistão não tiveram. Esta é, aliás, a primeira derrota estratégica americana à escala global, num contexto de desindustrialização maciça nos Estados Unidos e de difícil reindustrialização.
…
A desdolarização da economia global começou. Trump e os seus conselheiros não podem aceitar isto porque significaria o fim do Império. No entanto, uma era pós-imperial deveria ser o objetivo do projeto MAGA (Make America Great Again), que procura o regresso ao Estado-nação americano. Mas para uma América cuja capacidade produtiva em bens reais é hoje muito baixa … é impossível abdicar de viver a crédito, como acontece com a produção de dólares. Tal retirada imperial-monetária significaria uma queda acentuada do seu nível de vida, incluindo para os eleitores populares de Trump. O primeiro orçamento do segundo mandato de Trump, o "One Big Beautiful Bill Act", permanece, portanto, imperial, apesar das proteções tarifárias que personificam o projeto ou sonho protecionista. O OBBBA aumenta as despesas militares e o défice. Um défice orçamental nos Estados Unidos significa inevitavelmente produção de dólares e défice comercial.
A dinâmica imperial, ou melhor, a inércia imperial, continua a minar o sonho de um regresso ao Estado-nação produtivo.
Na Europa, a derrota militar [na Ucrânia] continua a ser mal compreendida pelos líderes. Não dirigiram as operações. Foi o Pentágono que desenvolveu os planos para a contraofensiva ucraniana no Verão de 2023 (durante o qual escrevi "A Derrota do Ocidente"). Os militares americanos, embora tivessem o seu representante ucraniano a combater na guerra, sabiam que tinham sido derrotados pela defesa russa – porque não conseguiam produzir armas suficientes e porque os militares russos foram mais inteligentes do que eles. Os líderes europeus apenas forneceram sistemas de armas, e não os mais importantes.
Desconhecendo a extensão da derrota militar, sabem, no entanto, que as suas próprias economias foram paralisadas pela política de sanções, especialmente pela interrupção do fornecimento de energia russa barata. Cortar o continente europeu ao meio economicamente foi um ato de loucura suicida. A economia alemã está estagnada. A pobreza e a desigualdade estão a aumentar em todo o Ocidente. O Reino Unido está à beira do colapso. A França não está muito atrás. As sociedades e os sistemas políticos estão paralisados.
Uma dinâmica económica e social negativa já existia antes da guerra e pressionava o Ocidente. Era visível, em diferentes graus, em toda a Europa Ocidental. O comércio livre está a minar a base industrial. A imigração está a desenvolver uma síndrome de identidade, particularmente entre as classes trabalhadoras, privadas de empregos seguros e bem remunerados.
Mais profundamente, a dinâmica negativa da fragmentação é cultural: o ensino superior em massa cria sociedades estratificadas nas quais os altamente instruídos – 20%, 30%, 40% da população – começam a viver entre si, a considerar-se superiores, a desprezar as classes trabalhadoras e a rejeitar o trabalho manual e a indústria. A educação primária para todos (alfabetização universal) alimentou a democracia, criando uma sociedade homogénea com um subconsciente igualitário. O ensino superior deu origem a oligarquias e, por vezes, a plutocracias, sociedades estratificadas invadidas por um subconsciente desigual. O paradoxo final: o desenvolvimento do ensino superior acabou por produzir um declínio nos padrões intelectuais destas oligarquias ou plutocracias!
…
A guerra elevou as tensões europeias a um nível ainda mais elevado. Está a empobrecer o continente. Mas, acima de tudo, como um grande fracasso estratégico, está a deslegitimar líderes incapazes de conduzir os seus países à vitória. O desenvolvimento dos movimentos populares conservadores (geralmente designados pelas elites jornalísticas por "populistas", "extrema-direita" ou "nacionalistas") está a acelerar. Reform UK no Reino Unido, AfD na Alemanha, Rassemblement National em França.... Ironicamente, as sanções económicas que a NATO esperava que provocassem uma "mudança de regime" na Rússia estão prestes a desencadear uma cascata de "mudanças de regime" na Europa Ocidental.
…
Uma das características interessantes dos Estados Unidos de hoje é que os seus líderes têm cada vez mais dificuldade em distinguir entre questões internas e externas, apesar da tentativa do MAGA de impedir a imigração do Sul com um muro. O exército dispara sobre barcos que saem da Venezuela, bombardeia o Irão, entra no centro de cidades democratas nos Estados Unidos e patrocina a força aérea israelita para um ataque ao Qatar, onde existe uma enorme base americana. Qualquer leitor de ficção científica reconhecerá nesta lista perturbadora o início de uma descida à distopia, isto é, um mundo negativo onde se misturam poder, fragmentação, hierarquia, violência, pobreza e perversidade.
Portanto, continuemos a ser nós próprios, fora da América. Mantenhamos a nossa perceção do interior e do exterior, o nosso sentido de proporção, o nosso contacto com a realidade, a nossa conceção do que é certo e belo. Não nos deixemos arrastar para uma corrida precipitada para a guerra pelos nossos próprios líderes europeus, esses indivíduos privilegiados perdidos na história, desesperados por terem sido derrotados, aterrorizados com a ideia de um dia serem julgados pelos seus povos. E, sobretudo, acima de tudo, continuemos a refletir sobre o sentido das coisas.
Para se defender, qualquer Estado se vê obrigado a legislar/atuar contra quem o pretenda desapossar.
O que é acção contrarrevolucionária segundo o Artigo 58 de 1927 da URSS.
O que prevê o Código Penal de 1997 da China para qualquer pessoa que utilize boatos, calúnias ou outros meios para encorajar a subversão do poder político do Estado ou para derrubar o sistema socialista.
Os casos extremos da Alemanha nazi que exatamente por isso se tornam paradigmáticos na medida em que nos indicam a par e passo o caminho a percorrer.
A 25 de setembro de 2025, o Presidente Donald J. Trump assinou o importante NSPM-7, relativo ao “Combate ao Terrorismo Doméstico e à Violência”.
‘Conservador’ é todo aquele que gosta de conservar aquilo que foi conseguindo ao longo da vida, definição que em si faz de quase todos nós conservadores. Nada de mal. Só que tudo isso começa a ser problemático quando se passa do individual para o campo do Estado na medida em que para se defender (o Estado é sempre resultado de um poder conquistado, legalmente ou não) se vê obrigado a legislar/atuar contra quem o pretenda desapossar.
Mesmo os Estados considerados como os mais democráticos se defendem, por exemplo, contra a publicação de segredos do governo, como o Defense Secrets Act de 1911 dos EUA, ou pela criminalização de atos de interferência nas relações exteriores e do comércio, a punição da espionagem e outras leis criminais, como o Espionage Act de 1917, ou ainda o Official Secrets Act 1889 do Parlamento do UK. Escusado dizer que estas peças legislativas têm sempre vindo a ser atualizadas.
Outros regimes, digamos que ainda não tão estabilizados ou provenientes de alterações político-sociais então recentes, legislam no mesmo sentido para manterem o poder, como é o caso do Artigo 58 de 1927 da URSS, visando suspender as atividades contrarrevolucionárias.
O seu 58-1 começa pela definição:
“Uma acção contrarrevolucionária é qualquer acção que vise derrubar, minar ou enfraquecer o poder dos sovietes de operários e camponeses… e dos governos da URSS e das repúblicas soviéticas e autónomas, ou minar ou enfraquecer a segurança externa da URSS e as principais conquistas económicas, políticas e nacionais da revolução proletária.”
Nomeia depois alguns exemplos de crimes e penas a aplicar:
58-2. Insurreição armada ou intervenção com o objetivo de tomar o poder: pode ir até à morte com confisco, incluindo o reconhecimento formal como "inimigo dos trabalhadores".
58-9. Danos em transportes, comunicações, abastecimento de água, armazéns e outros edifícios ou bens estatais e comunais com fins contrarrevolucionários: o mesmo que 58-2.
58-10. Propaganda e agitação antissoviética e contrarrevolucionária: pelo menos 6 meses de prisão. Em condições de agitação ou de guerra: o mesmo que 58-2.
Ou ainda o caso do Artigo 105.º, Parágrafo 2, do Código Penal de 1997 da República Popular da China:
"Qualquer pessoa que utilize boatos, calúnias ou outros meios para encorajar a subversão do poder político do Estado ou para derrubar o sistema socialista será condenada a uma pena de prisão até cinco anos. No entanto, os dirigentes e qualquer pessoa cujo crime seja monstruoso serão condenados a uma pena de prisão nunca inferior a cinco anos."
E há depois aqueles casos extremos (Alemanha nazi) que exatamente por isso se tornam paradigmáticos na medida em que nos indicam a par e passo o caminho a percorrer:
Após ter sido nomeado Chanceler (Primeiro Ministro) a 30 de janeiro de1933, Hitler enfrentava grandes dificuldades para governar. O Partido Nazi detinha apenas um terço de todos os lugares no Reichstag (Câmara Baixa do Parlamento), carecendo, por isso, de uma maioria. Assim, os nazis procuraram por todas as formas obter esse apoio que lhe faltava, acabando por serem convocadas novas eleições para 5 de março de 1933.
Entretanto, Hermann Göring fora nomeado Ministro do Interior e procurou formas de aumentar o apoio nazi através de negociações com industriais, que apoiaram os nazis fornecendo-lhes 3 milhões de Reichsmarks. Contudo, o principal esforço de Göring era o dirigido ao ataque à polícia estadual alemã. Rapidamente começou a despedir polícias seniores substituindo-os por apoiantes nazis. Paralelamente, infiltrou a força policial com 50.000 membros da SA (‘camisas castanhas’) para trabalharem como Polícia Auxiliar (mais tarde conhecida por Gestapo, polícia secreta).
A 27 de fevereiro de 1933 dá-se o incêndio do Reichstag, pretexto perfeito para os nazis lançarem um ataque contra os seus maiores rivais, os comunistas e os outros partidos de esquerda. Com a publicação do decreto subsequente, "Decreto do Presidente do Reich para a Proteção do Povo e do Estado" (também conhecido como Decreto de Emergência), os comunistas e os socialistas são impedidos de participarem na campanha eleitoral, procedendo-se às detenções em massa de líderes desses partidos e ao encerramento de jornais partidários.
Cerca de 10.000 comunistas e socialistas foram presos em março e abril. Em junho, o número de pessoas sob ‘custódia protetora’ – a maioria trabalhadores – tinha duplicado. Um bom número foi vítima de denúncias por parte de vizinhos ou colegas de trabalho.
A 21 de março de 1933, a Lei das Práticas Maliciosas (Verordnung zur Abwehr heimtückischer Diskreditierung der nationalen Regierung) foi aprovada, com o intuito claro de erradicar "opressores" e "inimigos" do Estado alemão.
Segundo esta nova legislação, o Estado nazi tornava ilegal falar mal ou criticar o regime e os seus dirigentes. Estas duas orientações principais eram contempladas debaixo da Prisão Protetiva e da Prisão Preventiva.
A Prisão Preventiva visava os indesejáveis na sociedade, como, por exemplo, os indigentes, os homossexuais e os judeus. Aqueles que tivessem o azar de se enquadrar nesta categoria poderiam ser presos mesmo que não tivessem cometido um crime. Note-se que a homossexualidade era já considerada crime no regime anterior (de Weimar).
A prisão preventiva, no entanto, visava especialmente os opositores políticos do regime, em particular os de esquerda, como os comunistas e os sociais-democratas. O Estado deixou claro que aqueles que não cumprissem a ideologia e a política nazis poderiam ser presos para a "proteção do Estado".
A intenção de todas estas coincidências do primeiro trimestre de 1933 era a de eliminar outros partidos políticos da política alemã e erradicar a sua presença de forma permanente. Atente-se, por exemplo, em alguns desenvolvimentos futuros próximos:
A 15 de setembro de 1935, a quando do comício anual do partido e numa sessão especial do Parlamento, são introduzidas as Leis de Nuremberga, que não são mais que duas leis com vista a eliminar qualquer presença judaica. Em primeiro lugar, foi aprovada a Lei para a Proteção do Sangue e da Honra Alemã, que proibia o casamento e as relações extraconjugais entre judeus e alemães. Em segundo lugar, foi aprovada a Lei da Cidadania do Reich, que retirava a cidadania aos judeus.
Um decreto suplementar emitido a 14 de novembro de 1935 definiu quem era legalmente considerado judeu e pôs em vigor a Lei da Cidadania do Reich. A 26 de novembro, novos regulamentos alargaram as medidas aos ciganos e aos afro-alemães, classificando-os, juntamente com os judeus, como "inimigos do Estado racial".
De referir ainda, por nos transportar para tempos em que vivemos, o exemplo de uma circular do Ministro do Interior do Reich e da Prússia, emitida a 14 de dezembro de 1937:
"...são considerados como antissociais as pessoas que demonstrem, através de comportamentos em relação à comunidade, mesmo que não sejam criminosos em si, que não se adaptarão à comunidade.
"Consideram-se como exemplos antissociais:
"As pessoas que, através de infrações menores, mas repetidas, à lei, demonstram que não se adaptarão ao estado socialista, por exemplo, mendigos, vagabundos, prostitutas, alcoólicos com doenças contagiosas, especialmente doenças transmissíveis, que se esquivam às medidas tomadas pelas autoridades de saúde pública."
Contemporaneamente, os Estados das sociedades tecnologicamente mais avançadas, com as possibilidades de poderem vigiar quase que individualmente cada um dos seus cidadãos (e se hegemónicas, os cidadãos das outras sociedades), veem-se forçados pela sua própria rápida evolução a atualizarem constantemente os seus procedimentos de segurança para tentarem evitar o risco/certeza da perda de poder.
O exemplo mais recente é o fornecido pelo memorando de política nacional de segurança NSPM-7 (national security policy memorandum) assinado pelo Presidente Donald J. Trump a 25 de setembro de 2025, relativo ao “Combate ao Terrorismo Doméstico e à Violência”. Eis o que ele nos diz:
Na Secção 1, começa por fazer o ponto da situação relativamente aos “assassinatos hediondos e outros atos de violência política” que nos Estados Unidos têm vindo a aumentar drasticamente nos últimos anos. E explica:
“Esta violência política não é uma série de incidentes isolados e não surge de forma orgânica. Em vez disso, é o culminar de campanhas sofisticadas e organizadas de intimidação, radicalização, ameaças e violência direcionadas, concebidas para silenciar o discurso da oposição, limitar a atividade política, alterar ou direcionar os resultados das políticas e impedir o funcionamento de uma sociedade democrática. É necessária uma nova estratégia de aplicação da lei que investigue todos os participantes nestas conspirações criminosas e terroristas — incluindo as estruturas organizadas, redes, entidades, organizações, fontes de financiamento e ações subjacentes por detrás das mesmas.
Estas campanhas começam geralmente por isolar e desumanizar alvos específicos para justificar assassinatos ou outras ações violentas contra eles. Fazem-no através de uma variedade de fóruns, incluindo fóruns de chat anónimos, reuniões presenciais, redes sociais e até instituições de ensino. Estas campanhas evoluem então para o doxing organizado, onde informações privadas ou de identificação dos seus alvos (como moradas residenciais, números de telefone ou outras informações pessoais) são expostas ao público com a intenção explícita de encorajar outros a assediá-los, intimidá-los ou agredi-los violentamente. Tal como no caso de vários agentes do ICE em Los Angeles serem doxados, o objetivo destas campanhas pode ser obstruir as operações do Governo Federal, bem como auxiliar e incentivar atividades criminosas que o Governo Federal esteja legalmente a prosseguir. Estas campanhas são coordenadas e perpetradas por intervenientes que desenvolveram uma estratégia abrangente para atingir objetivos políticos específicos através da radicalização e da intimidação violenta.
Existem motivações e indícios comuns recorrentes que unem este padrão de atividades violentas e terroristas sob a égide do autodenominado "antifascismo". Estes movimentos retratam princípios americanos fundamentais (por exemplo, apoio à aplicação da lei e ao controlo das fronteiras) como "fascistas" para justificar e encorajar atos de revolução violenta. Esta mentira "antifascista" tornou-se o grito de guerra utilizado pelos terroristas domésticos para travar um ataque violento contra as instituições democráticas, os direitos constitucionais e as liberdades americanas fundamentais. Os fios condutores comuns que animam esta conduta violenta incluem o antiamericanismo, o anticapitalismo e o anticristianismo; apoio à deposição do governo dos Estados Unidos; extremismo em relação à migração, raça e género; e hostilidade contra aqueles que defendem as visões americanas tradicionais sobre a família, a religião e a moralidade. Conforme descrito na Ordem de 22 de setembro de 2025 (Designando a Antifa como uma Organização Terrorista Doméstica), os grupos e entidades que perpetuam este extremismo criaram um movimento que abraça e eleva a violência para alcançar resultados políticos, incluindo a justificação de assassinatos adicionais. Por exemplo, o alegado assassino de Charlie Kirk marcou as balas usadas no assassinato com a retórica dita "antifascista".
Os Estados Unidos exigem uma estratégia nacional para investigar e desmantelar redes, entidades e organizações que fomentam a violência política, para que as autoridades policiais possam intervir em conspirações criminosas antes que resultem em atos políticos violentos. Através desta estratégia abrangente, as autoridades policiais irão desmantelar e erradicar redes, entidades e organizações que promovem a violência organizada, a intimidação violenta, as conspirações contra os direitos e outros esforços para perturbar o funcionamento de uma sociedade democrática.
Secção 2. Investigação de Organizações Terroristas Domésticas.
(a) A Força-Tarefa Nacional Conjunta contra o Terrorismo e os seus gabinetes locais (coletivamente, “JTTFs”) coordenarão e supervisionarão uma estratégia nacional abrangente para investigar, processar e desmantelar entidades e indivíduos envolvidos em atos de violência política e intimidação, destinados a suprimir atividades políticas lícitas ou obstruir o Estado de direito. Esta estratégia incluirá as medidas investigativas e processuais estabelecidas nesta secção.
(b) As JTTF investigarão potenciais crimes federais relacionados com atos de recrutamento ou radicalização de pessoas com a finalidade de:
(i) violência política, terrorismo ou conspiração contra direitos; ou
(ii) privação violenta dos direitos de qualquer cidadão.
(c) As JTTFs irão também investigar:
(i) financiadores institucionais e individuais, e diretores e funcionários de organizações que sejam responsáveis, patrocinem ou de outra forma auxiliem e incitem os principais atores envolvidos na conduta criminosa descrita nas subsecções (a) e (b) da presente secção; e
(ii) organizações não governamentais e cidadãos americanos residentes no estrangeiro ou com laços estreitos com governos, agentes, cidadãos, fundações ou redes de influência estrangeiros envolvidos em violações da Lei de Registo de Agentes Estrangeiros (22 U.S.C. 611 e segs.) ou branqueamento de capitais através do financiamento, criação ou apoio a entidades que se envolvam em atividades que apoiem ou incentivem o terrorismo doméstico.
(d) As JTTF consultarão e coordenarão com os departamentos executivos e agências (agências), conforme necessário, para determinar se tais agências podem aplicar as autoridades existentes ou exercer as suas próprias autoridades, conforme apropriado, para apoiar as investigações das JTTF e os processos relevantes de violência política.
(e) As JTTF poderão, na medida do permitido por lei, solicitar assistência operacional e coordenar-se com parceiros responsáveis pela aplicação da lei quando investigam terrorismo doméstico.
(f) A Força-Tarefa Conjunta Nacional contra o Terrorismo fornecerá atualizações regulares de progresso ao Presidente através do Assistente do Presidente e do Conselheiro de Segurança Interna.
(g) O Procurador-Geral encarregará o Departamento de Justiça de processar todos os crimes federais, na medida máxima permitida por lei, relacionados com as investigações descritas nas subsecções (a) a (c) da presente secção.
(h) O Procurador-Geral emitirá orientações específicas que garantam que as prioridades do terrorismo doméstico incluem atos terroristas com motivações políticas, tais como campanhas organizadas de doxing, ataques a pessoas, tumultos, pilhagens, invasões, agressões, destruição de propriedade, ameaças de violência e desordem civil. Estas orientações incluirão também a identificação de quaisquer comportamentos, padrões de factos, motivações recorrentes ou outros indícios comuns a organizações e entidades que coordenam estes atos, de forma a direcionar esforços para identificar e prevenir potenciais atividades violentas.
(i)O Secretário do Tesouro (Secretário), em coordenação com o Procurador-Geral, disponibilizará todos os recursos, na medida máxima permitida por lei, para identificar e desmantelar as redes financeiras que financiam o terrorismo interno e a violência política. O Secretário, atuando através do Gabinete de Inteligência Financeira e Terrorismo do Departamento do Tesouro, implementará ferramentas de investigação, examinará os fluxos financeiros e coordenará com as agências parceiras para rastrear os fluxos de financiamento ilícito. O Secretário orientará as instituições financeiras na elaboração de Relatórios de Atividades Suspeitas e na investigação de indícios de fluxos de financiamento ilícito, a fim de garantir que tais atividades são erradicadas na fonte e encaminhadas para medidas policiais, conforme apropriado.
(j) O Comissário dos Impostos (Comissário) tomará medidas para garantir que nenhuma entidade isenta de impostos está, direta ou indiretamente, a financiar a violência política ou o terrorismo doméstico. Além disso, quando aplicável, o Comissário assegurará que o IRS remeta tais organizações, bem como os seus funcionários e diretores, para o Departamento de Justiça para investigação e possível processo.
(k) Todas as agências federais de aplicação da lei com autoridade de investigação questionarão e interrogarão, dentro de todas as autoridades legais, os indivíduos envolvidos em violência política ou ilegalidade em relação à entidade ou indivíduo que organiza tais ações e qualquer patrocínio financeiro relacionado com essas ações, antes da adjudicação ou início de um acordo judicial. As investigações devem priorizar crimes como os seguintes: agressão a agentes ou funcionários federais ou envolvimento em conduta proibida pelo 18 U.S.C. 111; conspiração contra direitos, nos termos do 18 U.S.C. 241; conspiração para cometer um crime, nos termos do 18 U.S.C. 371; pedido para cometer um crime de violência, nos termos do artigo 18.º do Código dos Estados Unidos, Secção 373; branqueamento de capitais, nos termos do artigo 18.º do Código dos Estados Unidos, Secção 1956; financiamento de atos terroristas ou facilitação do terrorismo, nos termos do artigo 18.º do Código dos Estados Unidos, Secção 2339, Secção 2339A, Secção 2339B, Secção 2339C e Secção 2339D; crimes de incêndio, nos termos do artigo 18.º do Código dos Estados Unidos, Secção 844; violações da Lei das Organizações Corruptas e Influenciadas por Extorsão (18 do Código dos Estados Unidos, Secção 1961 e seguintes); e fraude grave contra os Estados Unidos, nos termos do artigo 18.º do Código dos Estados Unidos, Secção 1031.
(l) Todas as agências federais de aplicação da lei com autoridade de investigação devem adotar estratégias semelhantes às utilizadas para combater os crimes violentos e o crime organizado, a fim de desmantelar e desmantelar redes inteiras de atividade criminosa.
Secção 3. Designação do Departamento de Justiça. No decurso e em resultado das investigações orientadas pela secção 2 do presente memorando, o Procurador-Geral poderá recomendar que qualquer grupo ou entidade cujos membros estejam envolvidos em atividades que se enquadrem na definição de “terrorismo doméstico” em 18 U.S.C. 2331(5) mereça a designação como “organização terrorista doméstica”. O Procurador-Geral submeterá uma lista de tais grupos ou entidades ao Presidente, através do Assistente do Presidente e do Conselheiro de Segurança Interna.
Secção 4. Terrorismo Doméstico como Área de Prioridade Nacional. O Procurador-Geral e o Secretário de Segurança Interna designarão o terrorismo doméstico como área de prioridade nacional e desenvolverão programas de subsídios apropriados para alocar recursos para que os parceiros responsáveis pela aplicação da lei detetem, previnam e protejam contra ameaças decorrentes dessa área.”
Cinco ias depois, a 30 de setembro de 2025, e perante 800 oficiais generais e almirantes americanos propositadamente reunidos na Base do Corpo de Fuzileiros Navais de Quantico, Virgínia, o Secretário da Defesa, Pete Hegseth, disse-lhes:
“Estamos a preparar-nos todos os dias. Temos de estar preparados para a guerra, não para a defesa. Estamos a treinar guerreiros, não defensores. Lutamos em guerras para vencer, não para defender. A defesa é algo que se faz a todo o momento. É inerentemente reacionária e pode levar a um uso excessivo, ao excesso de alcance e à expansão da missão. A guerra é algo que se faz com moderação, nos nossos próprios termos e com objetivos claros. Lutamos para vencer. ... Bem, hoje é mais um Dia da Libertação, a libertação dos guerreiros americanos...Vocês matam pessoas e partem coisas como forma de vida. Não é politicamente correto e não pertence necessariamente sempre à sociedade educada.”
Para finalizar essa mesma reunião, o Presidente Trump discursou durante algum tempo, para, entre outros, lhes comunicar o seguinte:
“Só nas últimas décadas é que os políticos, de alguma forma, passaram a acreditar que a nossa função é policiar os confins do Quénia e da Somália, enquanto os Estados Unidos estão sob invasão interna. Estamos sob invasão interna, não diferente de um inimigo estrangeiro, mas mais difícil em muitos aspetos, porque não usam fardas. Pelo menos quando estão fardados, pode eliminá-los. Essas pessoas não têm fardas. Mas estamos sob invasão interna e estamos a impedi-lo muito rapidamente. Depois de gastarmos triliões de dólares a defender as fronteiras dos países estrangeiros, com a vossa ajuda, estamos a defender as fronteiras do nosso país a partir de agora.”
Tudo agora parece uma guerra em que vale tudo. O que acontece é que parece que sempre tem sido assim, cá dentro e lá fora.
A história americana está repleta de exemplos de comportamentos presidenciais pouco sérios em relação à Constituição, Napolitano.
Deus voltou-se de costas e chorou, Zizek.
As máquinas mandam nas casas, nas fábricas, nos escritórios, nos seus escritórios, nas plantações agrícolas, nas minas e nas ruas das cidades, onde nós peões somos incómodos que perturbam o trânsito, Galeano.
Do futebol à política (não que sejam assim tão diferentes), temos vindo a assistir treinadores a utilizarem como incentivos para melhorar a atuação dos seus jogadores, expressões/conteúdos como “Força, vamo-nos a eles, vamos matá-los!”, a comentadores desportivos a relatarem “Que grande tiro!”, “Um autêntico míssil”, “Fuzilou a baliza”, a epítetos altamente injuriosos “!!!” dirigidos aos adversários/inimigos berrados pelas claques com seus filhos ao lado, talvez com a piedosa intenção para que a educação seja convenientemente passada à geração seguinte e que assim mantenha aquelas caraterísticas rácicas que tão bem nos definem tentando deste modo compensarem um esquecimento ou engano da Criação, aos inocentes e cada vez mais repetidos separadores televisivos com o hino nacional a ser cantado pelos desportistas mais reconhecidos “Contra os canhões, marchar, marchar!” transformando um simples jogo num combate que inevitavelmente conduzirá à morte, aos desvarios estudados dos políticos que não se coibindo alto e bom som querem mandar para a prisão todos os adversários que não gostam numa imitação provinciana e desajeitada do amigo americano, esse sim que pelo menos é presidente e tem forças armadas.
Tudo isto e muito mais faz com que haja quem pense que atualmente se vive num mundo muito violento, sem regras, muito “polarizado”, em que as pessoas se agridem e insultam umas às outras, sem qualquer respeito umas pelas outras.
Tudo agora parece uma guerra em que vale tudo. Acontece que parece que sempre tem sido assim, cá dentro e lá fora.
Atente-se, por exemplo, no que nos diz o juiz americano do Supremo Tribunal de New Jersey, Andrew Napolitano:
“Quando os monarcas britânicos se queriam ver livres de adversários inconvenientes, acusavam-nos frequentemente de crimes vagos, pois podiam definir o crime da forma que bem entendessem. São Tomás More, ex-Lorde Chanceler de Henrique VIII, foi executado pelo seu silêncio. O alvo do monarca recebia um julgamento rápido e, em seguida, frequentemente uma morte pública lenta e excruciante – para enviar uma mensagem.
Cientes dos impulsos tirânicos dos monarcas e familiarizados com a história britânica, e até mesmo pessoalmente conscientes de pessoas nas colónias acusadas de crimes em Londres – onde nunca tinham estado – e transportadas para lá para serem processadas, Thomas Jefferson e James Madison, os Pais Fundadores mais responsáveis por cristalizar o ethos americano dos direitos naturais e do devido processo legal, elaboraram documentos fundadores que articulavam condenações e proibições de tirania e comportamento tirânico nos Estados Unidos.
Assim, as palavras de Jefferson na Declaração de Independência caracterizam os direitos humanos como uma dádiva do Criador, que não pode ser retirada por decreto executivo ou promulgação legislativa – mas apenas por um veredicto do júri.
E as palavras de Madison na Quinta Emenda da Constituição declaram que "nenhuma pessoa será... privada da vida, da liberdade ou da propriedade sem o devido processo legal". O uso da palavra "pessoa" torna óbvio que o devido processo legal se aplica a todos os seres humanos.
O devido processo legal exige um julgamento justo por júri, com advogado e a oportunidade de confrontação de testemunhas e provas produzidas pelo governo. Exige também prova de culpa para além de qualquer dúvida razoável e com certeza moral perante um júri neutro, e não perante o acusador. E exige a condenação antes da imposição de uma pena prescrita por lei.
Isto era novo e radical em 1791, quando a Declaração dos Direitos foi ratificada, mas não é novo nem radical hoje. Hoje, o devido processo legal é a base do direito americano. É o que os advogados chamam a lei da letra preta: espera-se que aqueles que estão no governo a conheçam, a compreendam e a cumpram.”
E Napolitano continua:
“A história americana está repleta de exemplos de comportamentos presidenciais pouco sérios em relação à Constituição. John Adams processou pessoas pelos seus discursos. Abraham Lincoln prendeu os seus críticos sem julgamento. Woodrow Wilson processou estudantes por lerem a Declaração de Independência à porta dos gabinetes de recrutamento. Franklin Roosevelt encarcerou americanos com base na raça. George W. Bush iniciou a vigilância em massa sem mandado. Barack Obama assassinou americanos não violentos e sem acusação no Iémen.
Alguma coisa disto aumentou a liberdade pessoal ou a segurança pública? Claro que não. Mas aumentou o medo público de um tirano na Casa Branca.
O valor constitucional subjacente é que os indivíduos são soberanos e o governo é limitado. Esta é a presunção unânime dos Fundadores na criação da República Americana. Os indivíduos são livres de exercer direitos naturais, e o governo é limitado pelo consentimento dos governados e pela Constituição que o definiu e, seguindo Jefferson, o acorrentou.
E isto exige que aqueles em cujas mãos depositamos a Constituição para salvaguarda a leiam, a compreendam e a cumpram — e cumpram os seus juramentos de a preservar, proteger e defender.”
Atente-se também no que nos diz Slavoj Zizek, quando, de uma forma ligeira e divertida, nos vai chamar a atenção para o facto de as sociedades consideradas como as mais desenvolvidas da nossa época, serem muito idênticas no que se refere ao tipo e aos métodos de desenvolvimento que prosseguem. Todas elas seguem sistemas económicos capitalistas, cada vez mais assentes na vigilância e direção eletrónica consentida ou não dos seus cidadãos, numa construção totalitária devidamente articulada, em maior ou menor grau, entre empresas privadas e estado.
Conta-nos então uma anedota que corria nos tempos da guerra fria, passada entre Richard Nixon dos EUA, Leonid Brezhnev da URSS e Eric Honecker da RDA, quando resolveram interrogar Deus para saberem qual seria o futuro reservado para os seus respetivos países.
Em resposta, Deus disse a Nixon: “No ano 2050, os EUA serão comunistas.” Nixon voltou-se de costas e começou a chorar. A Brezhnev, Deus disse: “No ano 2050, a União Soviética será uma província da China.” Brezhnev voltou-se de costas e começou a chorar. E finalmente Honecker perguntou: “E o que acontecerá à minha amada RDA?” Deus voltou-se de costas e começou a chorar.
Zizek vai depois transportar esta anedota para a atualidade, agora com novos personagens, desta vez com Putin, o presidente chinês Xi Jinping e Donald Trump. Eis a resposta de Deus para Putin: “A Rússia estará controlada pela China”. Putin voltou-se de costas e chorou. Para Xi, Deus disse: “A China continental será dominada por Taiwan”. Xi voltou-se de costas e chorou. E quando Trump faz a mesma pergunta sobre os EUA, Deus voltou-se de costas e chorou.
E já agora, relembrar a “Brevíssima Síntese da História Contemporânea” de Galeano:
“Há já uns séculos que os súbditos se disfarçaram de cidadãos e que as monarquias se preferem chamar repúblicas.
As ditaduras locais, que se dizem democracias, abrem as portas à entrada avassaladora do mercado universal. Neste mundo, reino dos livres, somos todos um só. Mas somos um ou somos nenhum? Compradores ou comprados? Vendedores ou vendidos? Espiões ou espiados?
Vivemos presos entre garras invisíveis, atraiçoados pelas máquinas que simulam obediência e mentem, com cibernética impunidade, ao serviço dos seus patrões.
As máquinas mandam nas casas, nas fábricas, nos escritórios, nos seus escritórios, nas plantações agrícolas, nas minas e nas ruas das cidades, onde nós peões somos incómodos que perturbam o trânsito. E as máquinas mandam também nas guerras, onde matam tanto ou mais que os guerreiros fardados.”