(550) Eles têm um plano …
Tempo estimado de leitura: 11 minutos.
Todos estes bons rapazes, inteligentíssimos, querem ficar muito ricos e viver para sempre. E têm um plano: "...e se Deus não estiver do nosso lado, criaremos um que esteja."
A construção da Inteligência Artificial Geral aparece inicialmente como uma questão de utopia e não de lucro, embora o lucro se tenha tornado um impulsionador significativo.
Tecnologias avançadas permitirão à humanidade produzir abundância radical, tornarmo-nos imortais, colonizar o universo e criar uma civilização “pós-humana” em expansão entre as estrelas.
Enormes fundos secretos de dinheiro podem significar que o voto se tornou realmente ornamental.
Uma das formas que temos para nos conseguirmos situar nos tempos em que vivemos é tentarmos perceber, intuir, como é que os grandes grupos sócio-económicos-político-militares e seus detentores pensam e projetam a sua atuação.
Um desses grupos poderosos e seus detentores, é o constituído pelas empresas tecnológicas de Silicon Valley que, numa busca implacável pelo poder, dispondo de biliões e biliões de dólares para influenciar as políticas, têm vindo a controlar cada vez mais as nossas vidas.
Os seus diversos sistemas de pensamento (ideologias emergentes) têm vindo a espalhar-se e a serem aceites como se tratassem de verdadeiras filosofias consentâneas para as nossas vidas reais.
É pois importante percebermos como surgiram esses grupos com a corrida para a criação da Inteligência Artificial Geral (IAG), qual a sua ligação, dependência e interdependência relativamente a novos conceitos que aparentemente permitiram pensar a IAG, que supostamente por si só promoveram avanços tecnológicos. E como tudo isto acabou por gerar muito lucro, com todos os seus excessos.
Um dos seus críticos estudiosos, não deixa de observar que:
“A construção da IAG aparece inicialmente como uma questão de utopia e não de lucro, embora o lucro se tenha tornado um impulsionador significativo, o que juntamente com os sonhos tecno-utópicos da IAG possibilitou inaugurar um mundo de fantasia paradisíaco entre os céus.”
Em resumo, o que estamos a tentar perceber é porquê e como todos esses bons rapazes, inteligentíssimos, querem ficar muito ricos e viver para sempre.
E dizem ter um plano:
"... (e) se Deus não estiver do nosso lado, criaremos um que esteja."
Para nos orientarmos nesse labirinto, socorro-me dum estudo (que inclusivamente por si só nos fará entender o quão emaranhado/estranho/obscuro tudo isto está) de Nat Wilson Turner, “As Ideologias de Silicon Valley como uma Lente sobre os Acontecimentos Correntes” (“Silicon Valley Ideologies as a Lens for Viewing Currente Events”), onde vai resumir e discutir criticamente escritos de Emille P. Torres, de Ross Douthat, e de Matt Stoller.
Comecemos por Emille Torres
Na segunda da sua série de três partes sobre o que reconhece ser o pró-extincionismo (movimento de extinção humana voluntária) caraterístico de Silicon Valley, "Conheça os Radicais Pró-Extincionistas de Silicon Valley! (“Meet the Radical Silicon Valley Pro-Extinctionists!"), Torres vai focar-se sobre o impacto que a corrida para a construção da IAG (inteligência artificial geral) teve ou tem deste movimento.
Segundo ele, a corrida à IAG surgiu diretamente das ligeiras ideologias do movimento TESCREAL ligadas às figuras importantes de Silicon Valley (T de transumanismo – transformar a condição humana aumentando as suas capacidades através do uso de tecnologias emergentes -, E de extrapianismo – melhoria contínua da condição humana através da ciência e tecnologia com a finalidade de lhe aumentar a sua extensão e ultrapassar limitações biológicas -, S de singularitarianismo – prevê a inevitabilidade da criação de uma superinteligência tecnológica -, C de cosmismo – a extensão da vida, imortalidade e ressurreição pela fusão com o cosmos por meios científicos -, R de racionalismo – a razão por si só como fonte de conhecimento ou prova -, EA de altruísmo efectivo – advoga a imparcialidade através do cálculo dos benefícios por forma a obter o maior dos bens -, e L de longtermismo – influenciar o futuro a longo prazo da humanidade como prioridade moral).
A construção da IAG aparece assim inicialmente como uma questão de utopia e não de lucro, embora o lucro se tenha tornado um impulsionador significativo, o que juntamente com os sonhos tecno-utópicos da IAG possibilitou inaugurar um mundo de fantasia paradisíaco entre os céus literais. Assim sendo, não é possível compreender a corrida à IAG sem alguma compreensão das ideologias TESCREAL.
Para Torres, o movimento TESCREAL está profundamente entrelaçado a uma perspetiva pró-extincão, segundo a qual a nossa espécie, Homo sapiens, deve ser marginalizada, destituída de poder e, por fim, eliminada pelos nossos sucessores pós-humanos.
Mais especificamente, quase sem exceção, as visões dentro do movimento TESCREAL, situam-se algures entre o pró-extincionismo e o neutralismo da extinção. Para os pró-extincionistas de Silicon Valley a espécie humana não sobreviverá, enquanto o neutralismo da extinção afirma que não importa muito se a nossa espécie sobreviverá quando a pós-humanidade chegar.
Torres prossegue o seu artigo com resumos do pensamento de várias figuras de Silicon Valley, incluindo Hans Moravec, da Carnegie Mellon, Larry Page, o cofundador da Google, Richard Sutton, o vencedor do prémio Turing, o shitposter Beff Jezos, Ray Kurzweil, o profeta da singularidade, Sam Altman e Peter Thiel.
Sam Altman
Altman é apenas um dos principais responsáveis pelo lançamento e aceleração da corrida em direção à IAG, acreditando que a transferência de mentes humanas para computadores se tornará possível ainda em vida. Foi uma das 25 pessoas que se inscreveram numa startup chamada Nectome para terem o cérebro preservado caso morresse prematuramente. A Nectome promete preservar os cérebros para que a sua microestrutura possa ser digitalizada e a informação resultante transferida para um computador, que pode então emular o funcionamento do cérebro. Ao fazê-lo, a pessoa que possuía o cérebro subitamente "acordará", alcançando assim a "ciberimortalidade".
Ou seja, se todas as pessoas do futuro forem apenas mentes carregadas (uploaded), então a nossa espécie terá desaparecido. Seremos, ou melhor, serão os pós-humanos a dominarem o mundo. Para os TESCREAListas, entre eles Altman, o que importa é que a continuação da "inteligência" ou da "consciência" se faça.
Peter Thiel
Thiel defende uma interpretação mais restrita do pró-extincionismo, segundo a qual apesar de nos tornarmos numa nova espécie pós-humana, esta espécie pós-humana não deveria ser inteiramente digital. Devemos manter os nossos substratos biológicos, embora num estado radicalmente transformado. Isto contrasta com a maioria das outras visões aqui discutidas, que são exemplos claros de eugenia digital, enquanto Thiel defende uma versão do pró-extincionismo que é uma variante pró-biológica do transumanismo (uma forma de eugenia).
Torres faz também referência a um lapso de Thiel que, quando foi entrevistado por Ross Douthat do NYT ("Peter Thiel e o Anticristo: O ator original da direita tecnológica que fala sobre IA, Marte e imortalidade" (“Peter Thiel and the Antichrist: The original tech right power player on A.I., Mars and immortality”), e lhe perguntaram se "preferia que a raça humana perdurasse", ele respondeu com um incerto "Uh —", o que levou Douthat a perguntar-lhe como é que ele conciliava estas suas visões com o seu alegado cristianismo, uma vez que a promessa do cristianismo é que se obtém o corpo e a alma perfeitos pela graça de Deus.
“Thiel: Bem, é — vamos articular isso.
Douthat: Pode ser que tenha uma forma herética de cristianismo que diga outra coisa.
Thiel: Sim, não sei. Penso que a palavra "natureza" não aparece uma única vez no Antigo Testamento. E depois há uma palavra em que, num sentido em que, da forma como eu entendo a inspiração judaico-cristã, ela se refere a transcender a natureza. Trata-se de ultrapassar as coisas. E o mais próximo que se pode dizer da natureza é que as pessoas são caídas. Isso é natural no sentido cristão, que você confundiu. E isso é verdade. Mas há algumas formas pelas quais, com a ajuda de Deus, se pode transcender e superar isso.”
Notar que num trabalho anterior de Torres à TruthDig, vem dizer-nos que no cerne do movimento TESCREAL está uma visão “tecno utópica” do futuro. Antecipa um tempo em que as tecnologias avançadas permitirão à humanidade realizar coisas como: produzir abundância radical, reengenharmo-nos, tornarmo-nos imortais, colonizar o universo e criar uma civilização “pós-humana” em expansão entre as estrelas, repleta de triliões e triliões de pessoas. E que a forma mais direta de concretizar esta utopia é construindo uma IAG superinteligente.
Torres acredita que estas ideologias são a razão central pela qual empresas como a OpenAI, financiada principalmente pela Microsoft, e a sua concorrente, a Google DeepMind, estão a tentar criar “inteligência artificial geral” em primeiro lugar.
Quanto àquela parte em que a procura do lucro acaba também por ter o seu lugar, Torres vai, curiosamente, referir David Z. Morris, cujo livro “DeepSeek e o Culto do Assassinato da IA” defende que “o racionalismo liga-se a uma onda de assassinatos, apropriação indevida de FTX e mercados em queda”.
Desse artigo pode ler-se:
“(O racionalismo) está no cerne do desfalque desenfreado de Sam Bankman-Fried (SBF) na #FTX, dos quais 500 milhões de dólares foram para a Anthropic, uma startup impulsionada pela "Segurança em IA" (AI Safety) que emprega Amanda Askell, ex-mulher do fundador da Effective Altruism, Will MacAskill. 5 milhões de dólares em dinheiro roubado por SBF foram também diretamente para o Centro de Racionalidade Aplicada (CFAR), uma das duas organizações de Yudkowsky. Meio milhão em fundos da FTX também ajudou a facilitar a compra de um hotel que se tornou a sede de uma subsidiária da CFAR chamada Lightcone Research, que contou notoriamente com a presença de vários eugenistas e supremacistas brancos em eventos.”
Isto também ajuda a explicar que a OpenAI e outras startups de inteligência artificial dos EUA são movidas por algumas das mesmas ideias que levaram os racionalistas marginais à loucura.
Já ocorreram pelo menos OITO mortes violentas nos últimos três anos. anos ligados, em graus variados, a fações dissidentes do movimento racionalista fundado por Eliezer Yudkowsky em São Francisco.
Para Torres, a fonte do conflito é que estes atores mal-intencionados pegaram nas ideias básicas de Yudkowsky, sobretudo nas ideias sobre a destruição iminente da humanidade pela IA, e levaram-nas a uma conclusão lógica – ou, pelo menos, a uma conclusão racionalista. Esta onda de assassinatos é apenas a manifestação mais extrema de elementos de seita que surgiram do próprio movimento racionalista há quase uma década, incluindo um condicionamento semelhante ao do MKUltra tanto no Leverage Research – outro grupo dissidente aparentemente expulso do próprio racionalismo após certas revelações – como dentro do próprio Centro para o Altruísmo Eficaz.
No seu artigo “FTX, Racionalismo e Inteligência dos EUA: Uma Teoria da Conspiração” (um excerto do seu livro Roubando o Futuro: Sam Bankman-Fried, Fraude de Elite e o Culto da Tecnoutopia), David Morris ligou alguns pontos alarmantes:
O Centro de Racionalidade Aplicada, que recebeu (e resistiu a devolver) fundos roubados aos clientes da FTX por Sam Bankman-Fried e os seus coconspiradores, tem uma impressionante semelhança com as agendas de lavagem cerebral individual e de engenharia social em grande escala que impulsionaram alguns dos programas mais perturbadores da Agência Central de Inteligência (CIA).
Ora, com a revelação de que um grupo de racionalistas desonestos conhecido como "Zizianos" foi ligado a uma onda de assassinatos nos EUA, parece justificado explorar a possibilidade de o movimento racionalista não ser meramente um ethos equivocado tornado tóxico por um isolamento semelhante ao de um culto. Colocados num contexto mais vasto, os seus princípios e práticas começam a assemelhar-se tanto ao Movimento do Potencial Humano, centrado em instituições como o Instituto Esalen, como, em subgrupos marginais que se separaram do próprio Racionalismo, à experimentação humana ilícita conduzida pela CIA a partir da década de 1950, sob o nome de código MKUltra.
O artigo de Morris, “O que é o TESCREALismo? Mapeando o Culto da Tecnoutopia”, pode ajudar-nos a regressar aos acontecimentos atuais:
O mito da IA avançada é a razão pela qual os esforços baseados na realidade para tornar os algoritmos de IA existentes seguros para humanos vivos têm quase zero aceitação entre os maiores defensores da “segurança da IA”. Da mesma forma que Sam Bankman-Fried roubou fundos de clientes para fazer apostas a longo prazo, os atuais líderes da IA estão a descartar ativa e abertamente os riscos materiais atuais dos algoritmos de aprendizagem automática e a concentrar-se, em vez disso, num futuro a longo prazo que preveem com confiança, sem a mínima evidência real. (Apenas duas das suposições infundadas da fantasia pessimista são que a IA se tornará auto-aprimorável e que dominará facilmente a nanotecnologia.)
Esta demonstração patente de insensatez pode ser a razão subjacente mais profunda que a indústria tecnológica teve para expurgar Timnit Gebru. A visão da IA partilhada por pessoas como Sam Altman deriva substancialmente de ficção científica como O Exterminador Implacável, de James Cameron, e remonta a R.U.R.e, de Karel Capek, a origem da palavra "robô". A peça de Capek de 1923 precedeu em muito qualquer coisa parecida com a IA, deixando claro que o "robô" intencional, humanoide e pensante sempre foi principalmente uma metáfora para a dialética muito mais complexa pela qual a tecnologia criada pelo homem se torna uma ameaça à essência humana. Os singularitaristas cometeram o erro infantil de confundirem estes contos de fadas simplificados com a complexidade da realidade e, enquanto Gebru e a sua turma se mantiverem empenhados em descrever como a tecnologia realmente funciona, a fantasia coletiva de uma IA superinteligente, mas incrivelmente perigosa, estará ameaçada.
Norris também liga o TESCREALismo à publicação recém-lançada The Argument e aos irmãos Abundance no seu "Altruísmo Eficaz num Fato de Pele: "The Argument" está a Lavar a Austeridade":
O lançamento do novo veículo noticioso "liberal", The Argument, foi inequivocamente hilariante, fundamentalmente porque a maioria dos seus principais escritores, particularmente Matt Yglesias e Kelsey Piper, não são propriamente "liberais" em qualquer sentido americano comummente entendido, mas sim "de centro-direita a secretamente eugenistas". Piper e Yglesias estão ambos anteriormente ligados à Vox, e o The Argument conta ainda com Derek Thompson como copywriter – parceiro de Ezra Klein no projeto ideologicamente muito semelhante “Abundance Liberalism” ("Liberalismo da Abundância"), que visa, em grande parte, cooptar a retórica de desregulação da direita.
Ao analisar o financiamento de The Argument, torna-se muito claro porque é que esta publicação "liberal" se dedica a minar a defesa de um Estado de bem-estar social. The Argument é financiado e composto maioritariamente por "liberais", não por "liberais", mas por uma mistura de Altruístas Eficazes, como Dustin Moskovitz, que se afastou estrategicamente desta marca após o desastre da FTX ter demonstrado o seu vazio estratégico e ideológico; e entidades ligadas a fontes de financiamento de extrema-direita, entre as quais Peter Thiel e os Irmãos Koch. Isto é "liberalismo" em 2025.
Freddy deBoer tem algumas reflexões complementares sobre Ezra Klein que não se ligam explicitamente às ideologias de Silicon Valley, mas fornecem insights adicionais:
Klein, na sua sincera credulidade em relação às alegações dos maximalistas da IA, mostra-nos uma forma como esta recusa se concretiza. Ezra está fascinado pela perspetiva de uma transformação tecnológica radical, pela possibilidade de os modelos generativos, a robótica ou a biotecnologia reconstruir completamente a condição humana.
Entrevistou dezenas de pessoas sobre o assunto e, embora hesite e restrinja, há sempre uma abertura subjacente à ideia de que estamos à beira de um futuro de ficção científica. "Pessoa após pessoa... vêm ter comigo dizendo... Estamos prestes a chegar à inteligência artificial geral[!]", diz Ezra, no seu estilo ofegante, sem parar para reconhecer que cada uma destas pessoas é alguém que tem investimento financeiro direto não na realidade e iminência da IA, mas na impressão de que ela é real e iminente.
Klein não quer abdicar da possibilidade de viver em Star Trek, Blade Runner ou Exterminador Implacável; quer acreditar que as nossas vidas podem ser tão completamente alteradas que o peso da existência quotidiana será aliviado. E prometo que não estou a desmentir nada quando digo que, enquanto considero a maioria dos evangelistas da IA charlatães hipócritas, considero tudo o que Ezra diz transbordante de sinceridade e sentimento. O que, analiticamente, claro, é exatamente o problema. Ele está demasiado ansioso para acreditar.
...
Klein quer que a história da IA signifique que estamos à beira de uma sociedade pós-escassez, que a dura rotina da política e do trabalho pode em breve ser evitada por máquinas milagrosas; é suficientemente esperto para não dizer a outra parte em voz alta, que é que quer pilotar um robô nas areias de Marte, para guiar o seu X-Wing até à boca de um buraco de verme que o levará sabe-se lá para onde.
...
As fantasias de Klein correm o risco de destruir a economia mundial.
Klein está desesperado para acreditar em magia. O que ele não percebe é que as suas fantasias são estruturadas e guiadas por "pensadores" de Silicon Valley, igualmente comprometidos com uma visão fantasiosa da realidade.
Infelizmente para todos os outros, eles têm dinheiro e poder para impor estas fantasias a todos nós.
E, já agora, sobre outro tipo de subversão a que a IAG pode conduzir, escutemos Matt Stoller, que no seu artigo "Existe um Plano de Silicon Valley para Subverter as Eleições?” (“Is There a Silicon Valley Plan to Subvert Elections?”), essencialmente nos revela "...a criação de um novo fundo político secreto por parte dos titãs de Silicon Valley. Não quero ser alarmista, mas se correr como planeado, poderá subverter funcionalmente as eleições nos Estados Unidos."
Apresenta como exemplo, a Fairshake (comité de ação política fundado pela indústria de criptomoedas), que tem conseguido alterar o apoio da maioria dos políticos sem gastar um tostão, através da criação de factos alternativos da vida pessoal de aspirantes a cargos públicos não gostariam de perder apenas por causa do que consideram ser uma política menor em relação às finanças. Empresas como a Fairshake conseguiram tudo o que queriam: estão agora a executar a política de criptomoedas para Trump e aterrorizam a maioria dos membros do Congresso, levando-os a votar no que bem entendem. Para 2026, a Fairshake acumulou ainda um outro grande fundo de reserva, pelo que é improvável que o poder das criptomoedas seja prejudicado até que haja uma crise financeira.
A lição da Fairshake não passou despercebida a outros em Silicon Valley. Marc Andreessen, que faz parte do conselho da Meta e está envolvido na Fairshake, tem vindo a organizar esta estratégia noutras áreas. O CEO da Meta, Mark Zuckerberg, e os investidores de capital de risco em IA optaram agora por lançar os seus próprios fundos secretos ao estilo da Fairshake, impossibilitando assim a regulamentação da IA genérica ou das grandes empresas tecnológicas.
O efeito líquido destas quantidades de dinheiro é poder tornar funcionalmente impossível promulgarem-se políticas públicas em torno da IA através do sistema democrático. À medida que a IA se torna mais importante, isto significa que a legislação americana irá progredindo de acordo com que Andreessen e alguns outros titãs desejam, fechando assim espaços à democracia.
Sempre foi difícil progredir, especialmente após o aparecimento dos Citizens United (grupo de corporações, de interesses especiais e patronos ricos, que pretendem gastar todo o dinheiro que quiserem nas eleições) uma vez que o dinheiro abafa muitas boas políticas. De facto, o que estamos a assistir são já as fases finais de uma tentativa organizada, a partir da década de 1970, de permitir que o dinheiro se sobreponha à democracia. Estes enormes fundos secretos podem significar que o voto se tornou realmente ornamental (sobre o tema, aconselho a série em podcast o Plano Mestre da Lever).
Todos estes bons rapazes, inteligentíssimos, que querem ficar muito ricos e viver para sempre. E têm um plano … para eles.