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Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

(547) Tempos de arrasar e salgar

Tempo estimado de leitura: 5 minutos.

 

Arrasar e salgarera a pena cumulada durante grande parte dos Antigos Regimes.

 

Varsóvia deve ser arrasada, todos os habitantes devem ser mortos, não é permitido nenhum prisioneiro, H. Himmler.

 

Deve ficar claro que não há espaço no país para ambos os povos... ... Não há outra solução, Yosef Weitz.

 

Não há palestinos, porque não há um povo palestino, Bezalel Smotrich ministro das Finanças de Israel.

 

Já ouviu falar de Dresden, PM Starmer? Mike Huckabee, embaixador dos EUA em Israel.

 

 

 

 

 

Públio Cornélio Cipião Emiliano Africano, ás ordens de Roma, após ter vencido a Terceira Guerra Púnica (146 a.C.) arrasou a cidade de Cartago não deixando pedra sobre pedra e salgando depois todo o chão para que nada nele voltasse a crescer.

Esta prática de arrasar tudo aquilo que oferecesse resistência com a intenção de impedir o seu reaparecimento futuro, não constitui uma originalidade de Cipião: há muito se vinha praticando (basta reler, por exemplo, o Antigo Testamento) e continuou a ser utilizada até à atualidade.

 

Por exemplo, recorde-se o processo dos Távoras (1758) em Portugal, em que após a alegada tentativa de assassinato do rei D. José I, além de terem sido torturados e queimados e enforcados e decapitados quase todos os membros da família dos Távora (incluindo mulheres e crianças) e do Duque de Aveiro e seus conhecidos, o palácio do Duque de Aveiro em Lisboa foi arrasado e o terreno salgado para que nunca mais nada ali crescesse. Se um dia forem aos pastéis de Belém em Lisboa, não deixem de visitar ali mesmo ao lado antes do Mosteiro dos Jerónimos, um padrão alusivo mandado erigir por D. José no local do palácio, hoje chamado de Beco do Chão Salgado. Vale a pena ler a inscrição.

Aliás, “Arrasar e salgar” era a pena cumulada durante grande parte dos Antigos Regimes, e que se aplicava a crimes considerados particularmente graves tais como traição à coroa e casos notórios de heresia. Piedosamente, a pena era sempre precedida da execução do condenado.

 

Em 1939, a cidade de Varsóvia, capital da Polónia, tinha mais de milhão e meio de habitantes, 20 teatros, 70 cinemas, imensos restaurantes e hotéis, e preparava-se para organizar os Jogos Olímpicos de 1948 ou 1952.

Com o início da Segunda Guerra a 1 de setembro de 1939, a campanha da ocupação nazi destrói logo nesse ano 10 por cento da cidade. Com o ataque à União Soviética a partir de junho de 1941, a técnica de bombardeamento aéreo em tapete é usada sobre a cidade. Depois, em maio de 1943, devido à resistência oferecida pelos judeus no Gueto de Varsóvia, a destruição do Gueto alcança um máximo.

 A etapa seguinte é a da aniquilação estratégica da cidade que ocorre após o fim da Revolta de Varsóvia: a batalha urbana de dois meses levou a uma destruição substancial, especialmente nos bairros da Cidade Velha, na parte norte do centro da cidade. Após a Revolta, quando os insurgentes e os civis foram deportados da cidade, as unidades alemãs da Verbrennungs-und Vernichtungskomanndo (Destacamentos de Queima e Destruição) iniciaram o seu plano para obliterar o que ainda estava de pé: no Outono e Inverno de 1944/1945, os bairros da cidade foram incendiados, um a um. A fúria da destruição durou até à entrada do Exército soviético na cidade, em meados de janeiro de 1945.

 

Se juntarmos as perdas sofridas na Revolta de Varsóvia, na Campanha de setembro de 1939 e na Revolta do Gueto de Varsóvia, verifica-se que as operações militares destruíram 85% de Varsóvia.

Não havia eletricidade nem água canalizada. Todas as pontes foram destruídas. 90% das instalações industriais, 90% dos edifícios históricos, 70% dos apartamentos, 70% das escolas, 95% das instituições culturais e todas as estações ferroviárias praticamente deixaram de existir.

 

É, contudo, importante realçar que o plano de destruição da capital da Polónia era um sentimento comum já existente entre a liderança nazi desde o início da Segunda Guerra Mundial. Varsóvia era considerada o coração do movimento de resistência polaco e o seu centro cultural, artístico e político. Por isso, os alemães decidiram que Varsóvia precisava de ser degradada para não passar de uma cidade de província.

O projeto urbanístico de Hubert Gross e Otto Nurnberg, de 6 de fevereiro de 1940,  a que se deve acrescentar um outro preparado em 1942 por Friedrich Pabst, arquiteto-chefe nazi de Varsóvia, e que ficaram conhecidos como o Plano Pabst, tinham como objetivo transformar Varsóvia numa pequena cidade alemã de apenas 130.000 habitantes. Os distritos da margem esquerda do rio seriam destinados exclusivamente para a elite alemã (Ostgruppe) de 40.000 pessoas, que ficaria responsável pelos territórios conquistados no Leste, enquanto a margem direita do rio Vístula albergaria um pequeno distrito exclusivo para os polacos que trabalhariam para os alemães. A nova Varsóvia estaria localizada a sul e sudoeste da Cidade Velha, que deveria ser destruída, e o Castelo Real transformado no Parteivolkshalle (Salão do Povo).

 

Durante os julgamentos de Nuremberga, Ludwig Fischer, chefe nazi do Distrito de Varsóvia, declarou em 11 de outubro de 1944:

 

Varsóvia precisava de ser demolida até aos alicerces. Quer dizer, precisava de ser arrasada, mesmo enquanto ainda estivermos em guerra, enquanto quaisquer objetivos militares relacionados com a Fortaleza de Varsóvia* (*nota: fortificar Varsóvia em antecipação do ataque do Exército Vermelho) não estiverem a caminho. Todos os materiais, tecidos e mobiliário precisam de ser protegidos antes que um alvo seja derrubado. A operação é prerrogativa da administração civil. Oficializo-a porque a nova ordem relacionada com a aniquilação de Varsóvia, emitida pelo Führer, é de grande importância quando se trata de novas políticas para a Polónia.”

 

Casas, fábricas e instituições foram esvaziadas. Tudo o que apresentava algum valor foi saqueado e os edifícios foram incendiados. Como consequência, dos 957 edifícios classificados como monumentos, 782 foram totalmente destruídos e 141 parcialmente demolidos.

 

Durante os mesmos julgamentos, o SS-Obergruppenführer Erich von dem Bach-Zelewski, comandante das forças nazis na altura da Revolta de Varsóvia, admitiu ter recebido a seguinte ordem:

 

Todos os habitantes devem ser mortos, não é permitido nenhum prisioneiro, Varsóvia deve ser arrasada e, desta forma, deve ser criado um exemplo intimidante para toda a Europa.

 

E o chefe das SS, Heinrich Himmler, a 17 de outubro de 1944, confirmou:

 

A cidade devia desaparecer completamente da superfície da terra e servir apenas como entreposto de transporte para a Wehrmacht. Nenhuma pedra podia ficar de pé. Qualquer edifício devia ser reduzido aos seus alicerces”.

 

 

Yosef Weitz, chefe do Departamento da Aquisição e Distribuição de Terras da Fundação Nacional Judaica (JNF), criada para colonizar a Palestina através da compra de propriedades árabes para os Yishuv (os imigrantes judeus na Palestina antes de 1948), escreveu em novembro de 1940 – oito anos antes da fundação do Estado de Israel – o seguinte:

 

    “Deve ficar claro que não há espaço no país para ambos os povos... Se os árabes o deixarem, o país tornar-se-á amplo e espaçoso para nós .... A única solução é uma terra... sem árabes. Não há espaço aqui para compromissos ... Não há maneira de transferir os árabes daqui para os países vizinhos ... Nenhuma aldeia deve ser deixada, nem uma tribo ... Não há outra solução.

 

Na atualidade, a linha de pensamento mantem-se:

 

Estamos a lutar contra animais humanos e agiremos de acordo”, disse o ministro da Defesa israelita, Yoav Gallant; “Esta é uma batalha, não apenas de Israel contra esses bárbaros”, diz o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, “é uma batalha de civilização contra a barbárie”.  E “não há palestinos, porque não há um povo palestino”, declara o ministro das Finanças, Bezalel Smotrich.

O mesmo ministro Bezalel Smotrich,  falando a 6 de maio de 2025 numa conferência sobre os colonatos judaicos na Cisjordânia ocupada, anunciou que:

 

Gaza será completamente destruída, os civis serão enviados para... sul, para uma zona humanitária sem Hamas nem terrorismo, e a partir daí começarão a partir em grande número para países terceiros”.

 

Talvez valha a pena recordar também o que o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu disse ao presidente Joe Biden sobre as preocupações que este manifestou relativamente à morte impiedosa de civis em Gaza. “Bem, vocês arrasaram a Alemanha. Lançaram as bombas atómicas. Muitos civis morreram”.

 

E recordar ainda a resposta de Mike Huckabee, o embaixador americano em Israel, perante uma declaração do primeiro-ministro britânico Keir Starmer quando este disse que “a decisão do governo de Israel de intensificar ainda mais a sua ofensiva em Gaza está errada”: citando o ataque aéreo dos EUA-britânico a Dresden em fevereiro de 1945, que desencadeou uma enorme tempestade de fogo que incinerou a cidade e seus habitantes, Huckabee twittouJá ouviu falar de Dresden, PM Starmer?

 

 

Entretanto, segundo Chris Hedges, “[…] Israel danificou ou destruiu as universidades de Gaza, agora todas fechadas, e 60% de outras instalações educacionais, incluindo 13 bibliotecas. Também destruiu pelo menos 195 patrimónios, incluindo 208 mesquitas, igrejas e Arquivos Centrais de Gaza, que continham 150 anos de registros e documentos históricos. Aviões de guerra, mísseis, drones, tanques, projéteis de artilharia e armas navais, pulverizam diariamente Gaza – que tem apenas 20 milhas de comprimento e cinco milhas de largura – numa campanha de terra queimada diferente de tudo visto desde a guerra no Vietnam. Lançou 25 mil toneladas de explosivos – o equivalente a duas bombas nucleares – em Gaza, muitos dos alvos selecionados pela Inteligência Artificial. Larga munições não guiadas (“bombas burras”) e bombas destruidoras de ‘bunkers’ de 2000 libras em campos de refugiados e centros urbanos densamente povoados, bem como as chamadas “zonas seguras” – 42% dos palestinos mortos foram atingidos nessas “zonas seguras” onde foram instruídos por Israel a refugiarem-se. Mais de 1,9 milhão de palestinos foram deslocados de suas casas, forçados a encontrar refúgio em abrigos superlotados da UNRWA, corredores e pátios, escolas, tendas ou ao ar livre a sul de Gaza, muitas vezes vivendo ao lado de charcos fétidos de dejetos não tratados.

 

 

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