Todos estes bons rapazes, inteligentíssimos, querem ficar muito ricos e viver para sempre. E têm um plano: "...e se Deus não estiver do nosso lado, criaremos um que esteja."
A construção da Inteligência Artificial Geral aparece inicialmente como uma questão de utopia e não de lucro, embora o lucro se tenha tornado um impulsionador significativo.
Tecnologias avançadas permitirão à humanidade produzir abundância radical, tornarmo-nos imortais, colonizar o universo e criar uma civilização “pós-humana” em expansão entre as estrelas.
Enormes fundos secretos de dinheiro podem significar que o voto se tornou realmente ornamental.
Uma das formas que temos para nos conseguirmos situar nos tempos em que vivemos é tentarmos perceber, intuir, como é que os grandes grupos sócio-económicos-político-militares e seus detentores pensam e projetam a sua atuação.
Um desses grupos poderosos e seus detentores, é o constituído pelas empresas tecnológicas de Silicon Valley que, numa busca implacável pelo poder, dispondo de biliões e biliões de dólares para influenciar as políticas, têm vindo a controlar cada vez mais as nossas vidas.
Os seus diversos sistemas de pensamento (ideologias emergentes) têm vindo a espalhar-se e a serem aceites como se tratassem de verdadeiras filosofias consentâneas para as nossas vidas reais.
É pois importante percebermos como surgiram esses grupos com a corrida para a criação da Inteligência Artificial Geral (IAG), qual a sua ligação, dependência e interdependência relativamente a novos conceitos que aparentemente permitiram pensar a IAG, que supostamente por si só promoveram avanços tecnológicos. E como tudo isto acabou por gerar muito lucro, com todos os seus excessos.
Um dos seus críticos estudiosos, não deixa de observar que:
“A construção da IAG aparece inicialmente como uma questão de utopia e não de lucro, embora o lucro se tenha tornado um impulsionador significativo, o que juntamente com os sonhos tecno-utópicos da IAG possibilitou inaugurar um mundo de fantasia paradisíaco entre os céus.”
Em resumo, o que estamos a tentar perceber é porquê ecomo todos esses bons rapazes, inteligentíssimos, querem ficar muito ricos e viver para sempre.
E dizem ter um plano:
"... (e) se Deus não estiver do nosso lado, criaremos um que esteja."
Para nos orientarmos nesse labirinto, socorro-me dum estudo (que inclusivamente por si só nos fará entender o quão emaranhado/estranho/obscuro tudo isto está) de Nat Wilson Turner, “As Ideologias de Silicon Valley como uma Lente sobre os Acontecimentos Correntes” (“Silicon Valley Ideologies as a Lens for Viewing Currente Events”), onde vai resumir e discutir criticamente escritos de Emille P. Torres, de Ross Douthat, e de Matt Stoller.
Segundo ele, a corrida à IAG surgiu diretamente das ligeiras ideologias do movimento TESCREAL ligadas às figuras importantes de Silicon Valley (T de transumanismo – transformar a condição humana aumentando as suas capacidades através do uso de tecnologias emergentes -, E de extrapianismo – melhoria contínua da condição humana através da ciência e tecnologia com a finalidade de lhe aumentar a sua extensão e ultrapassar limitações biológicas -, S de singularitarianismo – prevê a inevitabilidade da criação de uma superinteligência tecnológica -, C de cosmismo – a extensão da vida, imortalidade e ressurreição pela fusão com o cosmos por meios científicos -, R de racionalismo – a razão por si só como fonte de conhecimento ou prova -, EA de altruísmo efectivo – advoga a imparcialidade através do cálculo dos benefícios por forma a obter o maior dos bens -, e L de longtermismo – influenciar o futuro a longo prazo da humanidade como prioridade moral).
A construção da IAG aparece assim inicialmente como uma questão de utopia e não de lucro, embora o lucro se tenha tornado um impulsionador significativo, o que juntamente com os sonhos tecno-utópicos da IAG possibilitou inaugurar um mundo de fantasia paradisíaco entre os céus literais. Assim sendo, não é possível compreender a corrida à IAG sem alguma compreensão das ideologias TESCREAL.
Para Torres, o movimento TESCREAL está profundamente entrelaçado a uma perspetiva pró-extincão, segundo a qual a nossa espécie, Homo sapiens, deve ser marginalizada, destituída de poder e, por fim, eliminada pelos nossos sucessores pós-humanos.
Mais especificamente, quase sem exceção, as visões dentro do movimento TESCREAL, situam-se algures entre o pró-extincionismo e o neutralismo da extinção. Para os pró-extincionistas de Silicon Valley a espécie humana não sobreviverá, enquanto o neutralismo da extinção afirma que não importa muito se a nossa espécie sobreviverá quando a pós-humanidade chegar.
Torres prossegue o seu artigo com resumos do pensamento de várias figuras de Silicon Valley, incluindo Hans Moravec, da Carnegie Mellon, Larry Page, o cofundador da Google, Richard Sutton, o vencedor do prémio Turing, o shitposter Beff Jezos, Ray Kurzweil, o profeta da singularidade, Sam Altman e Peter Thiel.
Sam Altman
Altman é apenas um dos principais responsáveis pelo lançamento e aceleração da corrida em direção à IAG, acreditando que a transferência de mentes humanas para computadoresse tornará possível ainda em vida. Foi uma das 25 pessoas que se inscreveram numa startup chamada Nectome para terem o cérebro preservado caso morresse prematuramente. A Nectome promete preservar os cérebros para que a sua microestrutura possa ser digitalizada e a informação resultante transferida para um computador, que pode então emular o funcionamento do cérebro. Ao fazê-lo, a pessoa que possuía o cérebro subitamente "acordará", alcançando assim a "ciberimortalidade".
Ou seja, se todas as pessoas do futuro forem apenas mentes carregadas (uploaded), então a nossa espécie terá desaparecido. Seremos, ou melhor, serão os pós-humanos a dominarem o mundo. Para os TESCREAListas, entre eles Altman, o que importaé que a continuação da "inteligência" ou da "consciência" se faça.
Peter Thiel
Thiel defende uma interpretação mais restrita do pró-extincionismo, segundo a qual apesar de nos tornarmos numa nova espécie pós-humana, esta espécie pós-humana não deveria ser inteiramente digital. Devemos manter os nossos substratos biológicos, embora num estado radicalmente transformado. Isto contrasta com a maioria das outras visões aqui discutidas, que são exemplos claros de eugenia digital, enquanto Thiel defende uma versão do pró-extincionismo que é uma variante pró-biológica do transumanismo (uma forma de eugenia).
Douthat: Pode ser que tenha uma forma herética de cristianismo que diga outra coisa.
Thiel: Sim, não sei. Penso que a palavra "natureza" não aparece uma única vez no Antigo Testamento. E depois há uma palavra em que, num sentido em que, da forma como eu entendo a inspiração judaico-cristã, ela se refere a transcender a natureza. Trata-se de ultrapassar as coisas. E o mais próximo que se pode dizer da natureza é que as pessoas são caídas. Isso é natural no sentido cristão, que você confundiu. E isso é verdade. Mas há algumas formas pelas quais, com a ajuda de Deus, se pode transcender e superar isso.”
Notar que num trabalho anterior de Torres à TruthDig, vem dizer-nos que no cerne do movimento TESCREAL está uma visão “tecno utópica” do futuro. Antecipa um tempo em que as tecnologias avançadas permitirão à humanidade realizar coisas como: produzir abundância radical, reengenharmo-nos, tornarmo-nos imortais, colonizar o universo e criar uma civilização “pós-humana” em expansão entre as estrelas, repleta de triliões e triliões de pessoas. E que a forma mais direta de concretizar esta utopia é construindo uma IAG superinteligente.
Torres acredita que estas ideologias são a razão central pela qual empresas como a OpenAI, financiada principalmente pela Microsoft, e a sua concorrente, a Google DeepMind, estão a tentar criar “inteligência artificial geral” em primeiro lugar.
Quanto àquela parte em que a procura do lucro acaba também por ter o seu lugar, Torres vai, curiosamente, referir David Z. Morris, cujo livro “DeepSeek e o Culto do Assassinato da IA” defende que “o racionalismo liga-se a uma onda de assassinatos, apropriação indevida de FTX e mercados em queda”.
Desse artigo pode ler-se:
“(O racionalismo) está no cerne do desfalque desenfreado de Sam Bankman-Fried (SBF) na #FTX, dos quais 500 milhões de dólares foram para a Anthropic, uma startup impulsionada pela "Segurança em IA" (AI Safety) que emprega Amanda Askell, ex-mulher do fundador da Effective Altruism, Will MacAskill. 5 milhões de dólares em dinheiro roubado por SBF foram também diretamente para o Centro de Racionalidade Aplicada (CFAR), uma das duas organizações de Yudkowsky. Meio milhão em fundos da FTX também ajudou a facilitar a compra de um hotel que se tornou a sede de uma subsidiária da CFAR chamada Lightcone Research, que contou notoriamente com a presença de vários eugenistas e supremacistas brancos em eventos.”
Isto também ajuda a explicar que a OpenAI e outras startups de inteligência artificial dos EUA são movidas por algumas das mesmas ideias que levaram os racionalistas marginais à loucura.
Já ocorreram pelo menos OITO mortes violentas nos últimos três anos. anos ligados, em graus variados, a fações dissidentes do movimento racionalista fundado por Eliezer Yudkowsky em São Francisco.
Para Torres, a fonte do conflito é que estes atores mal-intencionados pegaram nas ideias básicas de Yudkowsky, sobretudo nas ideias sobre a destruição iminente da humanidade pela IA, e levaram-nas a uma conclusão lógica – ou, pelo menos, a uma conclusão racionalista. Esta onda de assassinatos é apenas a manifestação mais extrema de elementos de seita que surgiram do próprio movimento racionalista há quase uma década, incluindo um condicionamento semelhante ao do MKUltra tanto no Leverage Research – outro grupo dissidente aparentemente expulso do próprio racionalismo após certas revelações – como dentro do próprio Centro para o Altruísmo Eficaz.
O Centro de Racionalidade Aplicada, que recebeu (e resistiu a devolver) fundos roubados aos clientes da FTX por Sam Bankman-Fried e os seus coconspiradores, tem uma impressionante semelhança com as agendas de lavagem cerebral individual e de engenharia social em grande escala que impulsionaram alguns dos programas mais perturbadores da Agência Central de Inteligência (CIA).
Ora, com a revelação de que um grupo de racionalistas desonestos conhecido como "Zizianos" foi ligado a uma onda de assassinatos nos EUA, parece justificado explorar a possibilidade de o movimento racionalista não ser meramente um ethos equivocado tornado tóxico por um isolamento semelhante ao de um culto. Colocados num contexto mais vasto, os seus princípios e práticas começam a assemelhar-se tanto ao Movimento do Potencial Humano, centrado em instituições como o Instituto Esalen, como, em subgrupos marginais que se separaram do próprio Racionalismo, à experimentação humana ilícita conduzida pela CIA a partir da década de 1950, sob o nome de código MKUltra.
O mito da IA avançada é a razão pela qual os esforços baseados na realidade para tornar os algoritmos de IA existentes seguros para humanos vivos têm quase zero aceitação entre os maiores defensores da “segurança da IA”. Da mesma forma que Sam Bankman-Fried roubou fundos de clientes para fazer apostas a longo prazo, os atuais líderes da IA estão a descartar ativa e abertamente os riscos materiais atuais dos algoritmos de aprendizagem automática e a concentrar-se, em vez disso, num futuro a longo prazo que preveem com confiança, sem a mínima evidência real. (Apenas duas das suposições infundadas da fantasia pessimista são que a IA se tornará auto-aprimorável e que dominará facilmente a nanotecnologia.)
Esta demonstração patente de insensatez pode ser a razão subjacente mais profunda que a indústria tecnológica teve para expurgar Timnit Gebru. A visão da IA partilhada por pessoas como Sam Altman deriva substancialmente de ficção científica como O Exterminador Implacável, de James Cameron, e remonta a R.U.R.e, de Karel Capek, a origem da palavra "robô". A peça de Capek de 1923 precedeu em muito qualquer coisa parecida com a IA, deixando claro que o "robô" intencional, humanoide e pensante sempre foi principalmente uma metáfora para a dialética muito mais complexa pela qual a tecnologia criada pelo homem se torna uma ameaça à essência humana. Os singularitaristas cometeram o erro infantil de confundirem estes contos de fadas simplificados com a complexidade da realidade e, enquanto Gebru e a sua turma se mantiverem empenhados em descrever como a tecnologia realmente funciona, a fantasia coletiva de uma IA superinteligente, mas incrivelmente perigosa, estará ameaçada.
O lançamento do novo veículo noticioso "liberal", The Argument, foi inequivocamente hilariante, fundamentalmente porque a maioria dos seus principais escritores, particularmente Matt Yglesias e Kelsey Piper, não são propriamente "liberais" em qualquer sentido americano comummente entendido, mas sim "de centro-direita a secretamente eugenistas". Piper e Yglesias estão ambos anteriormente ligados à Vox, e o The Argument conta ainda com Derek Thompson como copywriter – parceiro de Ezra Klein no projeto ideologicamente muito semelhante “Abundance Liberalism” ("Liberalismo da Abundância"), que visa, em grande parte, cooptar a retórica de desregulação da direita.
Ao analisar o financiamento de The Argument, torna-se muito claro porque é que esta publicação "liberal" se dedica a minar a defesa de um Estado de bem-estar social. The Argument é financiado e composto maioritariamente por "liberais", não por "liberais", mas por uma mistura de Altruístas Eficazes, como Dustin Moskovitz, que se afastou estrategicamente desta marca após o desastre da FTX ter demonstrado o seu vazio estratégico e ideológico; e entidades ligadas a fontes de financiamento de extrema-direita, entre as quais Peter Thiel e os Irmãos Koch. Isto é "liberalismo" em 2025.
Freddy deBoer tem algumas reflexões complementares sobre Ezra Klein que não se ligam explicitamente às ideologias de Silicon Valley, mas fornecem insights adicionais:
Klein, na sua sincera credulidade em relação às alegações dos maximalistas da IA, mostra-nos uma forma como esta recusa se concretiza. Ezra está fascinado pela perspetiva de uma transformação tecnológica radical, pela possibilidade de os modelos generativos, a robótica ou a biotecnologia reconstruir completamente a condição humana.
Entrevistou dezenas de pessoas sobre o assunto e, embora hesite e restrinja, há sempre uma abertura subjacente à ideia de que estamos à beira de um futuro de ficção científica. "Pessoa após pessoa... vêm ter comigo dizendo... Estamos prestes a chegar à inteligência artificial geral[!]", diz Ezra, no seu estilo ofegante, sem parar para reconhecer que cada uma destas pessoas é alguém que tem investimento financeiro direto não na realidade e iminência da IA, mas na impressão de que ela é real e iminente.
Klein não quer abdicar da possibilidade de viver em Star Trek, Blade Runner ou Exterminador Implacável; quer acreditar que as nossas vidas podem ser tão completamente alteradas que o peso da existência quotidiana será aliviado. E prometo que não estou a desmentir nada quando digo que, enquanto considero a maioria dos evangelistas da IA charlatães hipócritas, considero tudo o que Ezra diz transbordante de sinceridade e sentimento. O que, analiticamente, claro, é exatamente o problema. Ele está demasiado ansioso para acreditar.
...
Klein quer que a história da IA signifique que estamos à beira de uma sociedade pós-escassez, que a dura rotina da política e do trabalho pode em breve ser evitada por máquinas milagrosas; é suficientemente esperto para não dizer a outra parte em voz alta, que é que quer pilotar um robô nas areias de Marte, para guiar o seu X-Wing até à boca de um buraco de verme que o levará sabe-se lá para onde.
...
As fantasias de Klein correm o risco de destruir a economia mundial.
Klein está desesperado para acreditar em magia. O que ele não percebe é que as suas fantasias são estruturadas e guiadas por "pensadores" de Silicon Valley, igualmente comprometidos com uma visão fantasiosa da realidade.
Infelizmente para todos os outros, eles têm dinheiro e poder para impor estas fantasias a todos nós.
E, já agora, sobre outro tipo de subversão a que a IAG pode conduzir, escutemos Matt Stoller, que no seu artigo "Existe um Plano de Silicon Valley para Subverter as Eleições?” (“Is There a Silicon Valley Plan to Subvert Elections?”), essencialmente nos revela "...a criação de um novo fundo político secreto por parte dos titãs de Silicon Valley. Não quero ser alarmista, mas se correr como planeado, poderá subverter funcionalmente as eleições nos Estados Unidos."
Apresenta como exemplo, a Fairshake (comité de ação política fundado pela indústria de criptomoedas), que tem conseguido alterar o apoio da maioria dos políticos sem gastar um tostão, através da criação de factos alternativos da vida pessoal de aspirantes a cargos públicos não gostariam de perder apenas por causa do que consideram ser uma política menor em relação às finanças. Empresas como a Fairshake conseguiram tudo o que queriam: estão agora a executar a política de criptomoedas para Trump e aterrorizam a maioria dos membros do Congresso, levando-os a votar no que bem entendem. Para 2026, a Fairshake acumulou ainda um outro grande fundo de reserva, pelo que é improvável que o poder das criptomoedas seja prejudicado até que haja uma crise financeira.
A lição da Fairshake não passou despercebida a outros em Silicon Valley. Marc Andreessen, que faz parte do conselho da Meta e está envolvido na Fairshake, tem vindo a organizar esta estratégia noutras áreas. O CEO da Meta, Mark Zuckerberg, e os investidores de capital de risco em IA optaram agora por lançar os seus próprios fundos secretos ao estilo da Fairshake, impossibilitando assim a regulamentação da IA genérica ou das grandes empresas tecnológicas.
O efeito líquido destas quantidades de dinheiro é poder tornar funcionalmente impossível promulgarem-se políticas públicas em torno da IA através do sistema democrático. À medida que a IA se torna mais importante, isto significa que a legislação americana irá progredindo de acordo com que Andreessen e alguns outros titãs desejam, fechando assim espaços à democracia.
Sempre foi difícil progredir, especialmente após o aparecimento dos Citizens United (grupo de corporações, de interesses especiais e patronos ricos, que pretendem gastar todo o dinheiro que quiserem nas eleições) uma vez que o dinheiro abafa muitas boas políticas. De facto, o que estamos a assistir são já as fases finais de uma tentativa organizada, a partir da década de 1970, de permitir que o dinheiro se sobreponha à democracia. Estes enormes fundos secretos podem significar que o voto se tornou realmente ornamental (sobre o tema, aconselho a série em podcast o Plano Mestre da Lever).
Todos estes bons rapazes, inteligentíssimos, que querem ficar muito ricos e viver para sempre. E têm um plano … para eles.
O assassinato de Kirk é um prenúncio de uma desintegração social em larga escala.
Toda a direita precisa de se unir. Já chega desta treta da luta interna. Estamos a enfrentar forças demoníacas vindas do inferno, Matt Walsh.
A canibalização da sociedade, uma tentativa fútil de recriar uma América mítica, acelerará a desintegração.
A 12 de setembro de 2025, Chris Hedges publicou o seguinte artigo, “The Martyrdom of Charlie Kirk” (O Martírio de Charlie Kirk) que julgo ser bastante representativo do estado atual vivido nos EUA e sua provável repercussão no chamado mundo ocidental:
O assassinato de Charlie Kirk prenuncia uma nova e mortífera fase na desintegração de uns Estados Unidos fragmentados e altamente polarizados. Enquanto a retórica tóxica e as ameaças atravessam as divisões culturais como granadas de mão, por vezes transbordando para a violência real — incluindo o assassinato da presidente emérita da Câmara dos Representantes do Minnesota, Melissa Hortman, e do seu marido, e as duas tentativas de assassinato contra Donald Trump — o assassinato de Kirk é um prenúncio de uma desintegração social em larga escala.
O seu assassinato deu ao movimento que representava — baseado no nacionalismo cristão — um mártir. Os mártires são a alma dos movimentos violentos. Qualquer hesitação quanto ao uso da violência, qualquer discurso de compaixão ou compreensão, qualquer esforço para mediar ou discutir, é uma traição ao mártir e à causa que ele morreu a defender.
Os mártires sacralizam a violência. São usados para virar a ordem moral de cabeça para baixo. A depravação torna-se moralidade. As atrocidades tornam-se heroísmo. O crime torna-se justiça. O ódio torna-se virtude. A ganância e o nepotismo tornam-se virtudes cívicas. O assassinato torna-se bom. A guerra é a estética final. É isso que está para vir.
“Precisamos de ter uma determinação férrea”, disse o estratega político conservador Steve Bannon no seu programa “War Room”, acrescentando: “Charlie Kirk é uma vítima da guerra. Estamos em guerra neste país. Estamos em guerra.”
“Se não nos deixam em paz, então a nossa escolha é lutar ou morrer”, escreveu Elon Musk no X.
“Toda a direita precisa de se unir. Já chega desta treta da luta interna. Estamos a enfrentar forças demoníacas vindas do inferno”, escreveu o comentador e autor Matt Walsh no X. “Deixem as quezílias pessoais de lado. Agora não é o momento. Isto é existencial. Uma luta pela nossa própria existência e pela existência do nosso país.”
O congressista republicano Clay Higgins escreveu que usará "a autoridade do Congresso e toda a influência com grandes plataformas tecnológicas para determinar o banimento imediato e vitalício de qualquer publicação ou comentário que menospreze o assassinato de Charlie Kirk..." Afirma ainda: "Também vou atrás das suas licenças e autorizações comerciais, os seus negócios serão colocados em listas negras agressivas, devem ser expulsos de todas as escolas e as suas cartas de condução devem ser revogadas. Basicamente, vou cancelar com extremo preconceito estes animais malignos e doentes que celebraram o assassinato de Charlie Kirk."
O cofundador da Palantir, Joe Lonsdale, aproveitou a morte de Kirk para defender o derrube da "aliança vermelho-verde" dos "comunistas e islamitas", que, segundo ele, se uniram para destruir a civilização ocidental. Propõe uma aplicação onde os cidadãos podem publicar fotos de crimes e de sem-abrigo em troca de "reembolsos no imposto predial".
O comediante de extrema-direita Sam Hyde, que tem quase meio milhão de seguidores no X, escreveu em resposta ao anúncio de Trump sobre a morte de Kirk: "Tempo de fazer o seu trabalho e tomar o poder... se quer ser mais do que uma nota de rodapé na secção 'American Collapse' dos livros de história do futuro, é agora ou nunca". No seu tweet, lista membros do governo e empreiteiros militares privados.
O ator conservador James Woods alertou: "Caros esquerdistas: podemos ter uma conversa ou uma guerra civil. Mais um tiro do vosso lado e não voltarão a ter essa escolha". O seu tweet foi partilhado por quase 20.000 pessoas, recebeu 4,9 milhões de visualizações e mais de 96.000 gostos.
Estas são uma amostra da enxurrada de sentimentos vitriólicos partilhados e aplaudidos por dezenas de milhões de americanos.
A desapropriação da classe trabalhadora, 30 milhões de pessoas que foram despedidas devido à desindustrialização, gerou raiva, desespero, deslocação, alienação e fomentou o pensamento mágico. Alimentou teorias da conspiração, um desejo de vingança e uma celebração da violência como purgante para a decadência social e cultural.
Os fascistas cristãos — como Kirk e Trump — aproveitaram-se astutamente deste desespero. Eles atiçaram as brasas. A morte de Kirk irá incendiá-las.
Os dissidentes, os artistas, os gays, os intelectuais, os pobres, os vulneráveis, as pessoas de cor, os que são indocumentados ou que não repetem irrefletidamente a cantilena de um nacionalismo cristão pervertido, serão condenados como contaminantes humanos a extirpar do corpo político. Tornar-se-ão, como em todas as sociedades doentes, vítimas sacrificiais na vã tentativa de alcançar a renovação moral e de recuperar a glória e a prosperidade perdidas.
A canibalização da sociedade, uma tentativa fútil de recriar uma América mítica, acelerará a desintegração. A embriaguez da violência — muitos dos que reagiram à morte de Kirk pareciam eufóricos com um banho de sangue iminente — autoalimentar-se-á como uma tempestade de fogo.
O mártir é vital para a cruzada, neste caso, para livrar a América daqueles a quem Trump chama "esquerda radical".
Os mártires são homenageados em cerimónias e atos de memória para lembrar os seus seguidores da retidão da causa e da perfídia daqueles que são culpados pela sua morte. Foi o que Trump fez quando chamou a Kirk "um mártir da verdade e da liberdade" numa mensagem vídeo a 10 de setembro, concedeu a Kirk a Medalha Presidencial da Liberdade e ordenou que as bandeiras fossem colocadas a meia haste até domingo. É por isso que o caixão de Kirk será levado de volta para Phoenix, no Arizona, no Air Force Two.
Kirk foi um exemplo do nosso emergente fascismo cristão. Propagava a Teoria da Grande Substituição, que afirma que os liberais ou os "globalistas" permitem a entrada de imigrantes não brancos no país para substituir os brancos, distorcendo as tendências imigratórias e transformando-as em conspiração. Era islamofóbico, tweetando: "O islamismo é a espada que a esquerda está a usar para degolar a América" e que "não é compatível com a civilização ocidental".
Quando a YouTuber infantil Sra. Rachel disse: "Jesus diz para amar a Deus e ao próximo como a si mesmo", Kirk retorquiu que "Satanás citou muitas escrituras" e acrescentou: "Já agora, Sra. Rachel, talvez queira abrir essa sua Bíblia, numa parte menos referenciada da mesma parte das escrituras, no Levítico 18, que diz que se deitará com outro homem e será apedrejada até à morte".
Exigiu a revogação da Lei dos Direitos Civis de 1964 e menosprezou líderes dos direitos civis, como Martin Luther King. Era degradante em relação aos negros: "Se estou a lidar com alguém no atendimento ao cliente que é uma mulher negra imbecil... ela está lá por causa da ação afirmativa?" Disse que "negros que rondam" estão a visar pessoas brancas "por diversão". Culpou o movimento Black Lives Matter por "destruir a estrutura da nossa sociedade".
A ideia de que defendia a liberdade de expressão e a liberdade é absurda. Era inimigo de ambas.
Kirk, que era um defensor do culto de Trump, personificava a hipermasculinidade que está no cerne dos movimentos fascistas. Esta era talvez a sua principal atração pelos jovens, especialmente pelos homens brancos. Alegou que há "uma guerra contra os homens", fetichizou as armas e vendeu Trump aos seus seguidores como um verdadeiro homem.
"Há muitas formas de chamar Donald Trump", escreveu. "Nunca ninguém lhe chamou feminino. Trump é um dedo do meio gigante para todos os monitores de auditório que atacavam os jovens por simplesmente existirem. É um grande "FODA-SE" para o establishment feminista que nunca foi desafiado antes de descer a escada rolante dourada. A maior parte dos media não se apercebeu disso. Os jovens não."
A história mostrou o que vem a seguir. Não será agradável. Kirk, elevado ao martírio, dá aos que procuram extinguir a nossa democracia a licença para matar, tal como Kirk foi morto. Isto remove as poucas restrições que ainda existem para nos proteger do abuso estatal e da violência dos justiceiros. O nome e o rosto de Kirk serão usados para acelerar o caminho para a tirania, que é como ele teria desejado.
Somente então, à beira do precipício, nos é dado compreender que “tudo o que nos ensinam é falso”, Henry Miller.
A crise moral do século XIX apenas cedeu lugar à bancarrota espiritual do século XX. É o ‘tempo dos assassinos’, e não há possibilidade de engano. A política tornou-se negócio de bandidos, Henry Miller.
A morte de um líder político cuja carreira seja considerada como representando um perigo para a causa da liberdade, pode ser considerada como necessária […]Nenhumas instruções para assassinatos devem ser escritas ou gravadas, in A Study of Assassination, Manual da C.I.A.
“Eles têm aproximadamente um minuto para viver. Trinta segundos. Dez, nove, oito”. Ouviu-se uma explosão. E o oficial disse, “Desapareceram”, a morte de Suleimani, contada por Trump.
Independentemente de todas as atrocidades praticadas pelos “nossos” serem sempre louvadas, desculpadas ou ignoradas (os “outros” farão o mesmo relativamente aos “seus”), o descaramento com que elas nos têm vindo a ser apresentadas diz muito sobre os tempos em que estamos a viver.
Recentemente, assassinatos, como os dos onze alegados traficantes de droga venezuelanos numa embarcação em águas internacionais pelas forças armadas dos EUA por ordem direta do Presidente, e torturas, como as de Mohammed al-Baluchi, preso em Guantánamo, em que o juiz de primeira instância que aceitou a confissão de culpa de Mohammed e que estando familiarizado com as mais de 40.000 páginas de documentos do caso, decidiu que fora “torturado de forma constante mais de 1.000 vezes, […] sujeito a afogamento simulado, sodomizado, privado de sono durante longos períodos e acorrentado como um pretzel de modo que os seus músculos estivessem constantemente sob tensão, […] e onde agentes da CIA em aprendizagem se revezavam para lhe bater com a cabeça contra a parede” (como nos informa Andrew Napolitano, “The Feds Defend their Tortures Again”), são despudorada e intencionalmente exibidos.
Para uma visão mais alargada do assunto, sugiro revisitar o blog de 4 de março de 2020, “Tempo dos assassinos”, que passo a transcrever na íntegra:
Um dos melhores escritos de Henry Miller talvez seja o seu pequeno estudo sobre Rimbaud, “consequência do fracasso de traduzir, da maneira desejada, Uma Estação no Inferno”. Nele, Miller exorta a América a “conhecer melhor essa figura lendária”, agora mais do que nunca, porquanto a “existência do poeta (tanto no sentido amplo quanto no específico) nunca esteve tão ameaçada”.
E justifica esta opinião sobre o destino que a sociedade americana reserva aos poetas, remetendo-nos para o necrológio que Kenneth Rexroth escreveu, “Não Matarás”, (Thou Shalt Not Kill) (2), quando soube da morte de Dylan Thomas, autor do Portrait of the Artist as a Young Dog. Segundo Miller, a categoria e a condição do poeta revelam o verdadeiro estado de vitalidade de um povo.
Para Miller, tratam-se sem dúvida de assassinatos, porque “quando se sufoca a voz do poeta, a história perde todo o seu sentido e a promessa escatológica surge como uma nova e apavorante aurora na consciência do homem. Somente então, à beira do precipício, nos é dado compreender que ‘tudo o que nos ensinam é falso’”.
Vivemos inteiramente no passado, alimentados de ideias mortas, crenças mortas, ciências mortas. E é o passado que nos está engolindo, não o futuro. “O futuro sempre pertenceu e sempre pertencerá ao – poeta […] O futuro é todo seu, mesmo que não haja futuro.”
Quando o poeta não pode mais falar em nome da sociedade, mas apenas em seu próprio nome, é sinal de que nós estamos nas últimas. Como ele, ou renunciamos a tudo que a nossa civilização representou até agora, e tentamos construir tudo de novo, ou iremos destruir tudo com as nossas próprias mãos.
Temos andado a fugir desde o início dos tempos. O destino alcança-nos facilmente. Vamos ter a nossa Estação no Inferno, todo homem, mulher e criança identificados com esta civilização […] O homem, renegado, perdeu a fé no seu semelhante. A falta de fé é universal. E nisto até o próprio Deus é impotente. Pusemos a nossa fé na bomba e é a bomba que atenderá as nossas preces.
[…] Chegámos ao fundo? Ainda não. A crise moral do século XIX apenas cedeu lugar à bancarrota espiritual do século XX. É o ‘tempo dos assassinos’, e não há possibilidade de engano. A política tornou-se negócio de bandidos.”
Tudo o acima exposto, e muito mais, consta dessa pequena obra de Miller, Tempo de Assassinos (The Times of the Assassins).
Em 1953, para ajudar a melhor cumprir a missão de retirar do poder o presidente da Guatemala, a C.I.A. elaborou um manual intitulado “Um Estudo do Assassinato” (A Study of Assassination) (1).
Como bom manual, começa pela definição de assassinato:
“a morte planeada de uma pessoa que não está sob a jurisdição legal do executante, que não está à mercê do executante, que foi selecionado por uma organização de resistência para ser morto, e cuja morte seja vantajosa para essa organização”.
E quando deve ser utilizado?
“Deve-se assumir que tal medida nunca será ordenada ou autorizada por qualquer Comando Central dos EUA, muito embora em circunstâncias excecionais possam concordar com a execução desde que feitas por membros de um serviço estrangeiro associado […] Nenhumas instruções para assassinatos devem ser escritas ou gravadas.”
Quais as justificações?
“O assassínio de pessoas responsáveis por atrocidades ou atos reprováveis podem ser vistos como uma punição justa. A morte de um líder político cuja carreira seja considerada como representando um perigo para a causa da liberdade, pode ser considerada como necessária. Mas o assassinato pode ser encarado com consciência tranquila. Contudo, pessoas que forem moralmente impressionáveis não o devem tentar.”
Depois, passa para as normas mais práticas, tais como a classificação das técnicas e seus executantes, o planeamento a seguir, os tipos de acidentes, as drogas, a escolha das armas, explosivos, finalizando com a descrição de alguns exemplos célebres de assassinatos ou tentativas falhadas (de Marat, a Ghandi, passando por Lincoln, Rasputine, Trotsky, Hitler, Truman, Mussolini e outros).
O assassinato como ferramenta a utilizar pelo Estado, pelos governos e governantes, teve sempre os seus apoiantes e os seus adversários. O teólogo do século XVI, Thomas More, recentemente canonizado como santo pela Igreja Católica, defendia que o assassinato de “um príncipe inimigo” só deveria ser equacionado se daí se obtivessem “grandes vantagens” pela salvação de muitas vítimas inocentes.
No século XVII, o diplomata e jurista holandês, Hugo Grotius, publica em 1625 a afamada obra De Jure Belli ac Pacis (Sobre a Lei da Guerra e da Paz) em que lançava as bases para a moderna legislação internacional, considerava que “era permitido matar um inimigo seja em que lugar fosse”.
A partir daí, por razões que desconhecemos, talvez pelo eclodir das revoluções americana e francesa, a luz do Iluminismo, tenha conduzi a uma descompressão das sociedades, a um tempo de progresso bom para a economia, ou por razões mais comezinhas como o dos executantes dos serviços secretos não se quererem matar uns aos outros, foi também crescendo entre os líderes políticos a rejeição à legitimação do assassinato mútuo. Thomas Jefferson, descrevia em 1789, o “assassinato, o veneno e o perjúrio” como abusos incivilizados que não deviam ter lugar no século XVIII.
Contudo, o século XX veio pôr fim a essa “trégua civilizacional”. É assim que durante a Segunda Guerra, espiões britânicos treinaram agentes checoslovacos para matarem o general nazi Reinhard Heydrich (um dos arquitetos da “Solução Final”), e muitos governos (entre eles o soviético, o britânico, o americano) tentaram, em vão, assassinar Adolfo Hitler.
Após a guerra, os futuros dirigentes de Israel fizeram da perseguição dos nazis uma estratégia de sobrevivência para a sua Nação, para que não lhes voltasse a acontecer outro Holocausto. Isto apesar de David Ben-Gurion, o primeiro primeiro-ministro de Israel, se mostrar contra o terrorismo pessoal, contra o assassinato de nazis alemães, por entender que seria bastante mais útil recrutá-los para a Mossad.
Em 1975, o Comité Church do congresso americano, começou a investigar as alegações da utilização abusiva do assassinato individual por parte das agências de inteligência e informação. No ano seguinte, são reveladas as tentativas feitas entre 1960 e 1965 para eliminar Fidel Castro (oito tentativas, incluindo o método da caixa de charutos envenenados), bem como de outros políticos.
O presidente Gerald Ford decide então emitir uma ordem executiva segundo a qual nenhum funcionário ou empregado do governo dos EUA “poderia envolver-se, ou conspirar para se envolver, em assassinatos políticos”. Em 1981, Ronald Reagan, alarga o alcance da ordem, retirando o “político”. “Assassinatos”, ponto.
Contudo, cinco anos depois, como retaliação à morte de cinco militares americanos numa discoteca em Berlim, a administração Reagan ordena o bombardeamento do local em que Muammar al-Gaddafi vivia.
Mas, a partir de julho de 2001, aparentemente devido a novos interesses económico-políticos, os EUA começam a condenar Israel pelo que disseram ser “assassinados dirigidos” contra palestinianos, “mortes extrajudiciais, que nós não apoiamos”!
Dois meses depois, aconteceram os ataques de 11 de setembro, e a partir daí, acabaram-se as restrições. De imediato, o presidente Bush autorizou o uso de drones, operações de comandos, ataques com mísseis de cruzeiro, fora das zonas de guerra. Qualquer resistência que pudesse haver a ataques de precisão dirigidos contra indivíduos desapareceu, e os limites da condução da guerra deixaram de ter qualquer ligação com o campo de batalha.
Aumentou também a cooperação entre a C.I.A. e a Mossad israelita, discutindo-se a efetivação de operações conjuntas.
Com o aparecimento das armas de precisão e a utilização de telemóveis, aumentaram-se as possibilidades para o planeamento e execução das missões para matar. Para se ter uma ordem de grandeza, entre 1948 e 2000, Israel conduziu aproximadamente 500 missões para matar. Entre 2000 e 2018, Israel conduziu pelo menos 1800 dessas operações. (3)
Nos EUA, a administração Bush lançou, desde 2001, pelo menos 59 operações deste tipo no Paquistão, Iémen e Somália. Nos oito anos seguintes da administração Obama, o número subiu para 572, a que se deve acrescentar em 2011 o raid que matou Osama bin Laden no Paquistão.
Para ultrapassar os problemas legais e morais que tal tipo de operações lhes punha, a administração Obama vai socorrer-se de dois conceitos. Para ultrapassar a interdição da ordem executiva sobre assassinatos, passa a chamar a tais operações, “mortes dirigidas” (targeted killings), o que mais tarde lhes vai pôr o problema da existência de uma lista prévia (o que evidentemente seria ilegal) com nomes de pessoas a serem mortas.
Para ultrapassar os escrúpulos morais, vai socorrer-se do conceito cristão de “guerra justa” (4):
“Se o alvo a abater for um alvo legitimamente militar e se tudo que puder ser feito para atingir o alvo for feito de forma a evitar que se matem pessoas inocentes, então -e lamento dizê-lo – está O.K.”
Na prática, a guerra com drones torna indistinguíveis as mortes dirigidas dos assassinatos. Numa tentativa para melhor disfarçar, introduzem-se considerações sobre “ataque iminente”, mas, mais uma vez, na prática tal significará:
“Este é um terrorista, e, em determinada altura deve ter, de uma maneira ou outra, participado ou planeado um ataque terrorista. Não somos agora capazes de o parar, portanto o melhor é matá-lo”.
Contudo, e resumindo: no final da presidência de Obama, após quinze anos de ataques com drones, os americanos já não lhes prestavam muita atenção. Segundo as várias previsões, a grande maioria dos americanos era favorável a esses ataques dirigidos. Trump segue-lhe o exemplo: nos últimos três anos, foram feitos pelo menos 262 ataques, o que representa um acréscimo de 20%.
Na determinação dos alvos, é grande a troca de informações entre os serviços americanos e israelitas. Os suspeitos são seguidos dias, meses e anos, tendo sempre em vista o seu possível abate, decidido sempre a nível superior. Lembremos, entre outros, a destruição do reator nuclear da Síria, o assassinato dos principais cientistas nucleares iranianos e de outros dirigentes do Hamas.
Figuras como o líbanês Imad Mughniyed (técnico especialista no uso de bombardeamento sincronizado por forma a maximizar vítimas, arquiteto da estratégia militar do Hezbollah), o general brigadeiro sírio Muhammad Suleiman (supervisor nuclear que construiu o arsenal de armas químicas da Síria) e o major general Qassem Suleimani (comandante chefe do Corpo Revolucionário do Irão, Quds, força de elite que conduzia operações fora do Irão com o intuito de fazer avançar a revolução iraniana), eram alvos permanentes e preferenciais.
Assassinados os dois primeiros, em fevereiro (à bomba, pela Mossad) e agosto (snipers de uma unidade de fuzileiros israelita) de 2008, restava Suleimani. No dia 3 de janeiro de 2020, um ataque americano a partir de um drone, MQ-9 Reaper, acabou com a vida do importante chefe iraniano.
Instantes depois do Pentágono ter confirmado a morte, Trump colocou num seu tweet a imagem de uma bandeira americana. Mais tarde, num discurso para os convidados pagantes de Mar-a-Lago, contou a operação, recordando o que lhe ia dizendo um oficial militar:
“Eles têm aproximadamente um minuto para viver. Trinta segundos. Dez, nove, oito”. Ouviu-se uma explosão. E o oficial disse, “Desapareceram.”
Segundo a Convenção de Haia de 1907, o assassinato de um membro oficial de um governo estrangeiro não era permitido, a não ser em tempo de guerra. Daí que inicialmente se pensasse que a morte de Suleimani pudesse vir a provocar retaliações eminentes sobre os americanos.
Perante as perguntas e as críticas, a administração americana alterou a posição assumida, invocando que Suleimani se preparava para fazer uma “série de ataques”. Só que depois, Trump vem claramente dizer que isso não interessava, porquanto Suleimani era “um homem terrível, com um passado horrível de mortes americanas”.
Ou seja, a procura da cobertura pela legalidade deixava de ser importante. E é nisto que este caso é diferente. É que Suleimani, não era o chefe de uma rebelião sem estado (ex. Bin Laden), mas um alto representante de uma das nações mais populosas do Médio-Oriente, que, apesar de todo o seu envolvimento com o terrorismo, não estava em estado de guerra convencional com os EUA.
Ao adotar um procedimento de ataque a um inimigo só previsto para ações em tempo de guerra, a administração americana só podia utilizar a cobertura legal se tivesse atuado no convencimento de que estava em guerra com o Irão. O que parece ser a sua desculpa legal. “Estamos em conflito com o Irão desde 1979.” É pouco.
Outro aspeto em que este caso se diferencia dos anteriores, foi no assumir público e publicitado da ação, pelo governo americano. Contrariamente a todos os outros relatados, em que ninguém se chegou à frente para reclamar a autoria, desta vez o próprio Presidente o confirmou.
Isto é uma novidade que vai alterar até o relacionamento entre os EUA e Israel. Se até aqui as administrações americanas tinham preocupações sobre o que as ações de Israel, unilateralmente, poderiam provocar na região, podendo acabar por arrastarem os EUA para um conflito, agora, são os israelitas que se passam a preocupar sobre as consequências de uma escalada americana na região.
Uma coisa parece ser certa: provavelmente pelo narcisismo de Trump, finalmente retirou-se a máscara sobre estas operações de assassinatos individuais a coberto do anonimato. A partir de agora, todos sabem (apoiando ou não) que o Estado pode utilizar os seus meios para assassinar qualquer pessoa, desde que o mesmo Estado a considere como inimiga. Estrangeiros ou nacionais, governantes ou não. A democracia na sua expressão mais lata. Morte como possibilidade igual para (quase) todos. Nada que já não soubéssemos.
Mas, atenção: não encaremos este desvelar, este estilhaçar da cobertura de proteção utilizada para não vermos o que está por baixo dela, como um produto do narcisismo de Trump. Acima de tudo, trata-se da forma da classe dominante (de que ele é o mais habilidoso representante) nos mostrar, mais uma vez, quem manda, de nos dizer que não temos minimamente de nos pronunciar sobre nada porque não entendemos nada.
Também o narcisismo de Henry Miller lhe obscurece a sua visão sobre o geral. Não que este não seja um tempo de assassinos, mas porque quase desde o início, os tempos foram sempre de assassinos. Lembremos Caim e Abel, e outros iguais pares de outras regiões que deram origem a civilizações.
Esta prática de arrasar tudo aquilo que oferecesse resistência com a intenção de impedir o seu reaparecimento futuro, não constitui uma originalidade de Cipião: há muito se vinha praticando (basta reler, por exemplo, o Antigo Testamento) e continuou a ser utilizada até à atualidade.
Por exemplo, recorde-se o processo dos Távoras (1758) em Portugal, em que após a alegada tentativa de assassinato do rei D. José I, além de terem sido torturados e queimados e enforcados e decapitados quase todos os membros da família dos Távora (incluindo mulheres e crianças) e do Duque de Aveiro e seus conhecidos, o palácio do Duque de Aveiro em Lisboa foi arrasado e o terreno salgado para que nunca mais nada ali crescesse. Se um dia forem aos pastéis de Belém em Lisboa, não deixem de visitar ali mesmo ao lado antes do Mosteiro dos Jerónimos, um padrão alusivo mandado erigir por D. José no local do palácio, hoje chamado de Beco do Chão Salgado. Vale a pena ler a inscrição.
Aliás, “Arrasar e salgar” era a pena cumulada durante grande parte dos Antigos Regimes, e que se aplicava a crimes considerados particularmente graves tais como traição à coroa e casos notórios de heresia. Piedosamente, a pena era sempre precedida da execução do condenado.
Em 1939, a cidade de Varsóvia, capital da Polónia, tinha mais de milhão e meio de habitantes, 20 teatros, 70 cinemas, imensos restaurantes e hotéis, e preparava-se para organizar os Jogos Olímpicos de 1948 ou 1952.
Com o início da Segunda Guerra a 1 de setembro de 1939, a campanha da ocupação nazi destrói logo nesse ano 10 por cento da cidade. Com o ataque à União Soviética a partir de junho de 1941, a técnica de bombardeamento aéreo em tapete é usada sobre a cidade. Depois, em maio de 1943, devido à resistência oferecida pelos judeus no Gueto de Varsóvia, a destruição do Gueto alcança um máximo.
A etapa seguinte é a da aniquilação estratégica da cidade que ocorre após o fim da Revolta de Varsóvia: a batalha urbana de dois meses levou a uma destruição substancial, especialmente nos bairros da Cidade Velha, na parte norte do centro da cidade. Após a Revolta, quando os insurgentes e os civis foram deportados da cidade, as unidades alemãs da Verbrennungs-undVernichtungskomanndo (Destacamentos de Queima e Destruição) iniciaram o seu plano para obliterar o que ainda estava de pé: no Outono e Inverno de 1944/1945, os bairros da cidade foram incendiados, um a um. A fúria da destruição durou até à entrada do Exército soviético na cidade, em meados de janeiro de 1945.
Se juntarmos as perdas sofridas na Revolta de Varsóvia, na Campanha de setembro de 1939 e na Revolta do Gueto de Varsóvia, verifica-se que as operações militares destruíram 85% de Varsóvia.
Não havia eletricidade nem água canalizada. Todas as pontes foram destruídas. 90% das instalações industriais, 90% dos edifícios históricos, 70% dos apartamentos, 70% das escolas, 95% das instituições culturais e todas as estações ferroviárias praticamente deixaram de existir.
É, contudo, importante realçar que o plano de destruição da capital da Polónia era um sentimento comum já existente entre a liderança nazi desde o início da Segunda Guerra Mundial. Varsóvia era considerada o coração do movimento de resistência polaco e o seu centro cultural, artístico e político. Por isso, os alemães decidiram que Varsóvia precisava de ser degradada para não passar de uma cidade de província.
O projeto urbanístico de Hubert Gross e Otto Nurnberg, de 6 de fevereiro de 1940, a que se deve acrescentar um outro preparado em 1942 por Friedrich Pabst, arquiteto-chefe nazi de Varsóvia, e que ficaram conhecidos como o Plano Pabst, tinham como objetivo transformar Varsóvia numa pequena cidade alemã de apenas 130.000 habitantes. Os distritos da margem esquerda do rio seriam destinados exclusivamente para a elite alemã (Ostgruppe) de 40.000 pessoas, que ficaria responsável pelos territórios conquistados no Leste, enquanto a margem direita do rio Vístula albergaria um pequeno distrito exclusivo para os polacos que trabalhariam para os alemães. A nova Varsóvia estaria localizada a sul e sudoeste da Cidade Velha, que deveria ser destruída, e o Castelo Real transformado no Parteivolkshalle (Salão do Povo).
Durante os julgamentos de Nuremberga, Ludwig Fischer, chefe nazi do Distrito de Varsóvia, declarou em 11 de outubro de 1944:
“Varsóvia precisava de ser demolida até aos alicerces. Quer dizer, precisava de ser arrasada, mesmo enquanto ainda estivermos em guerra, enquanto quaisquer objetivos militares relacionados com a Fortaleza de Varsóvia* (*nota: fortificar Varsóvia em antecipação do ataque do Exército Vermelho) não estiverem a caminho. Todos os materiais, tecidos e mobiliário precisam de ser protegidos antes que um alvo seja derrubado. A operação é prerrogativa da administração civil. Oficializo-a porque a nova ordem relacionada com a aniquilação de Varsóvia, emitida pelo Führer, é de grande importância quando se trata de novas políticas para a Polónia.”
Casas, fábricas e instituições foram esvaziadas. Tudo o que apresentava algum valor foi saqueado e os edifícios foram incendiados. Como consequência, dos 957 edifícios classificados como monumentos, 782 foram totalmente destruídos e 141 parcialmente demolidos.
Durante os mesmos julgamentos, o SS-Obergruppenführer Erich von dem Bach-Zelewski, comandante das forças nazis na altura da Revolta de Varsóvia, admitiu ter recebido a seguinte ordem:
“Todos os habitantes devem ser mortos, não é permitido nenhum prisioneiro, Varsóvia deve ser arrasada e, desta forma, deve ser criado um exemplo intimidante para toda a Europa.”
E o chefe das SS, Heinrich Himmler, a 17 de outubro de 1944, confirmou:
“A cidade devia desaparecer completamente da superfície da terra e servir apenas como entreposto de transporte para a Wehrmacht. Nenhuma pedra podia ficar de pé. Qualquer edifício devia ser reduzido aos seus alicerces”.
Yosef Weitz, chefe do Departamento da Aquisição e Distribuição de Terras da Fundação Nacional Judaica (JNF), criada para colonizar a Palestina através da compra de propriedades árabes para os Yishuv (os imigrantes judeus na Palestina antes de 1948), escreveu em novembro de 1940 – oito anos antes da fundação do Estado de Israel – o seguinte:
“Deve ficar claro que não há espaço no país para ambos os povos... Se os árabes o deixarem, o país tornar-se-á amplo e espaçoso para nós .... A única solução é uma terra... sem árabes. Não há espaço aqui para compromissos ... Não há maneira de transferir os árabes daqui para os países vizinhos ... Nenhuma aldeia deve ser deixada, nem uma tribo ... Não há outra solução.”
Na atualidade, a linha de pensamento mantem-se:
“Estamos a lutar contra animais humanos e agiremos de acordo”, disse o ministro da Defesa israelita, Yoav Gallant; “Esta é uma batalha, não apenas de Israel contra esses bárbaros”, diz o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, “é uma batalha de civilização contra a barbárie”. E “não há palestinos, porque não há um povo palestino”, declara o ministro das Finanças, Bezalel Smotrich.
O mesmo ministro Bezalel Smotrich, falando a 6 de maio de 2025 numa conferência sobre os colonatos judaicos na Cisjordânia ocupada, anunciou que:
“Gaza será completamente destruída, os civis serão enviados para... sul, para uma zona humanitária sem Hamas nem terrorismo, e a partir daí começarão a partir em grande número para países terceiros”.
Talvez valha a pena recordar também o que o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu disse ao presidente Joe Biden sobre as preocupações que este manifestou relativamente à morte impiedosa de civis em Gaza. “Bem, vocês arrasaram a Alemanha. Lançaram as bombas atómicas. Muitos civis morreram”.
E recordar ainda a resposta de Mike Huckabee, o embaixador americano em Israel, perante uma declaração do primeiro-ministro britânico Keir Starmer quando este disse que “a decisão do governo de Israel de intensificar ainda mais a sua ofensiva em Gaza está errada”: citando o ataque aéreo dos EUA-britânico a Dresden em fevereiro de 1945, que desencadeou uma enorme tempestade de fogo que incinerou a cidade e seus habitantes, Huckabee twittou “Já ouviu falar de Dresden, PM Starmer?”
Entretanto, segundo Chris Hedges, “[…] Israel danificou ou destruiu as universidades de Gaza, agora todas fechadas, e 60% de outras instalações educacionais, incluindo 13 bibliotecas. Também destruiu pelo menos 195 patrimónios, incluindo 208 mesquitas, igrejas e Arquivos Centrais de Gaza, que continham 150 anos de registros e documentos históricos. Aviões de guerra, mísseis, drones, tanques, projéteis de artilharia e armas navais, pulverizam diariamente Gaza – que tem apenas 20 milhas de comprimento e cinco milhas de largura – numa campanha de terra queimada diferente de tudo visto desde a guerra no Vietnam. Lançou 25 mil toneladas de explosivos – o equivalente a duas bombas nucleares – em Gaza, muitos dos alvos selecionados pela Inteligência Artificial. Larga munições não guiadas (“bombas burras”) e bombas destruidoras de ‘bunkers’ de 2000 libras em campos de refugiados e centros urbanos densamente povoados, bem como as chamadas “zonas seguras” – 42% dos palestinos mortos foram atingidos nessas “zonas seguras” onde foram instruídos por Israel a refugiarem-se. Mais de 1,9 milhão de palestinos foram deslocados de suas casas, forçados a encontrar refúgio em abrigos superlotados da UNRWA, corredores e pátios, escolas, tendas ou ao ar livre a sul de Gaza, muitas vezes vivendo ao lado de charcos fétidos de dejetos não tratados.”