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Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

(545) Revisitar o Paraíso

Tempo estimado de leitura: 3 minutos.

 

Fomos criados para viver no Paraíso, e o Paraíso foi destinado para nos servir.

 

Fomos expulsos do Paraíso, mas o Paraíso não foi destruído.

 

O realizado não pode ser anulado, mas apenas confundido.

 

O mundo visível como uma tentativa de falsificar a realidade do conhecimento, de ver o conhecimento como um fim ainda a ser alcançado.

 

 

 

 

 Para além das novelas mais comummente conhecidas de Franz Kafka (1883-1924), existem um sem número de deliciosas pequenas histórias e de parábolas, algumas das quais permanecerão para sempre profundamente atuais por representarem maneiras de estar, sentir e interpretar a realidade que perduram, quase como de mitos se tratassem. Como por exemplo, esta sobre o que é o “Paraíso”:

 

“Segundo o seu significado principal, a expulsão do Paraíso é eterna: consequentemente, a expulsão do Paraíso é final e a vida neste mundo é irrevogável, mas a natureza eterna da ocorrência (ou, expressa temporalmente, a recapitulação eterna da ocorrência) torna possível, no entanto, que não apenas possamos viver continuamente no Paraíso, mas que de facto lá estejamos continuamente, não importando se aqui o sabemos ou não.

 Por que lamentamos a queda do homem? Não fomos expulsos do Paraíso por causa disso, mas por causa da Árvore da Vida, para que dela não comêssemos.

 Somos pecadores não apenas porque comemos da Árvore do Conhecimento, mas também porque ainda não comemos da Árvore da Vida. O estado em que nos encontramos é pecaminoso, independente de culpa.

 Fomos criados para viver no Paraíso, e o Paraíso foi destinado para nos servir. O nosso destino foi alterado; mas isso também aconteceu com o destino do Paraíso e tal não é afirmado.

 Fomos expulsos do Paraíso, mas o Paraíso não foi destruído. De certo modo, a nossa expulsão do Paraíso foi um golpe de sorte, pois, se não tivéssemos sido expulsos, o Paraíso teria de ser destruído.

 Deus disse que Adão teria que morrer no dia em que comesse da Árvore do Conhecimento. De acordo com Deus, o resultado instantâneo de comer da Árvore do Conhecimento seria a morte; segundo a serpente (pelo menos assim se pode entender), o mesmo aconteceria com Deus. Ambos estavam errados de maneiras semelhantes. Os homens não morriam, mas tornavam-se mortais; não se tornavam como Deus, mas recebiam a capacidade indispensável para o ser. Ambos estavam certos de maneiras semelhantes. O homem não morreu, mas sim o homem paradisíaco; os homens não se tornaram Deus, mas conhecimento divino.

 Ele é um cidadão livre e seguro do mundo, pois está preso a uma corrente que é suficientemente comprida para lhe dar a liberdade de todo o espaço terrestre, e ainda assim não tão comprida que nada possa arrastá-lo para além das fronteiras do mundo. Mas, simultaneamente, ele também é um cidadão do Céu livre e seguro, pois também está preso por uma corrente celestial projetada de forma semelhante. De modo que se ele se dirige, digamos, para a terra, o seu colar celestial estrangula-o, e se ele se dirige para o céu, o colar terrestre faz o mesmo. E, no entanto, todas as possibilidades são dele, e ele sente isso, mais, ele realmente recusa-se a explicar o impasse por um erro no grilhão original.

 Desde a Queda, temos sido essencialmente iguais na nossa capacidade de reconhecer o bem e o mal; no entanto, é justamente aqui que procuramos mostrar a nossa superioridade individual. Mas as diferenças reais começam para além desse conhecimento. A ilusão oposta pode ser explicada assim: ninguém pode ficar contente com o mero conhecimento do bem e do mal em si, mas deve também esforçar-se para agir de acordo com ele. A força para fazê-lo, porém, também não lhe é dada, consequentemente ele deve destruir-se a intentar fazê-lo, sob o risco de não conseguir a força necessária mesmo assim; contudo, nada mais lhe resta a não ser esta tentativa final. (Além disso, esse é o significado da ameaça de morte ligada à Árvore do Conhecimento; talvez também isso fosse o significado original da morte natural.) Agora, diante dessa tentativa, o homem está cheio de medo; ele prefere anular o seu conhecimento do bem e do mal (o termo "a queda do homem" pode ser atribuído a esse medo); no entanto, o realizado não pode ser anulado, mas apenas confundido. Foi com esse propósito que as nossas racionalizações foram criadas. O mundo inteiro está cheio delas, na verdade todo o mundo visível talvez não seja nada mais do que a racionalização de um homem que quer encontrar a paz por um momento. Uma tentativa de falsificar a realidade do conhecimento, de ver o conhecimento como um fim ainda a ser alcançado.”

 

 

Nota 1: Pequenos escritos como este, encontram-se espalhados por várias organizações e editores, o que tem dificultado o seu acesso para a maior parte dos seus leitores, o que é pena. Deixo aqui alguns links que ajudarão nessa recolha.

Nota 2: Sobre o Paraíso sugiro a leitura do blog de 17 de março de 2021, “Pecado no Paraíso”, com base numa interpretação de Giorgio Agamben.

 

 

 

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