(544) À sombra de Hitler
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Não estou entre aqueles que afirmam que o progresso possa ser dado como garantido, que a humanidade não possa retroceder, A. Blanqui.
A história humana é definida por longos períodos de esterilidade cultural e de repressão brutal, C. Hedges.
Entre 1490 e 1890, a colonização europeia foi responsável pela morte de pelo menos 100 milhões de indígenas, D. Stannard.
Permanece a dicotomia entre quem somos e quem dizemos ser.
Existem pelo menos duas linhas principais de interpretação sobre o que se considera ser “progresso”. Uma, mais tradicional e maioritária, entende a história humana como sendo fruto cumulativo de uma progressão linear conducente a uma maior igualdade e moralidade (preconizado pelos positivistas, por Friedrich Hegel e Karl Marx, por algumas religiões morais, etc.), e outra, que acredita que o progresso não pode ser tomado como garantido e que a humanidade não possa retroceder (como preconizava Louis-Auguste Blanqui).
Blanqui, participante ativo numa série de revoltas do século XIX em França, nomeadamente na insurreição armada de maio de 1839, no levantamento de 1848 e na Comuna de Paris, entendia que a crença no progresso linear propalado pelos positivistas (“Notes on Positivism”, pdf) não era mais que uma forma que os opressores utilizavam para desapoderar os oprimidos:
“Todas as atrocidades do vencedor, a longa série dos seus ataques, transformam-se friamente numa evolução constante e inevitável, como a da natureza... Mas a sequência das coisas humanas não é inevitável como a do universo. Pode ser alterada a qualquer momento”.
O avanço científico e tecnológico, em vez de ser um exemplo de progresso, poderia “tornar-se uma arma terrível nas mãos do Capital contra o Trabalho e o Pensamento”. E isto porque:
“[…] a humanidade nunca é estacionária. Avança ou recua. A sua marcha progressiva leva-a à igualdade. A sua marcha regressiva recua, passando por todos os estágios de privilégio, até à escravatura humana, a palavra final do direito à propriedade” (“Who Makes the Soup, Should Eat It”, pdf).
“Não estou entre aqueles que afirmam que o progresso possa ser dado como garantido, que a humanidade não possa retroceder” (“Auguste Blanqui, heretical communist”, pdf).
Chris Hedges, no seu artigo “The New Dark Age”, vem também dizer-nos que “a história humana é definida por longos períodos de esterilidade cultural e de repressão brutal. A queda do Império Romano levou à miséria e à repressão em toda a Europa durante a Idade das Trevas, aproximadamente do século VI ao XIII. Houve perda de conhecimento técnico, incluindo a construção e manutenção de aquedutos. O empobrecimento cultural e intelectual levou à amnésia coletiva. As ideias dos estudiosos e artistas antigos foram apagadas. Não houve renascimento até ao século XIV e ao Renascimento, um desenvolvimento possibilitado em grande parte pelo florescimento cultural do Islão, que, através da tradução de Aristóteles para árabe e de outras realizações intelectuais, impediu que a sabedoria do passado desaparecesse.”
Mas não precisamos recuar até aos tempos dos romanos e das invasões que se seguiram para nos apercebermos das atrocidades, selvajarias e genocídios cometidos ao longo das recentes últimas centenas de anos de pilhagens e explorações, evidentemente sempre sobre os mais fracos.
É o que o historiador americano David E. Stannard nos vai quantificar quando na sua obra American Holocaust, Columbus and the conquest of the New World (pdf.), nos mostra que a colonização europeia entre 1490 e 1890 foi responsável pela morte de pelo menos 100 milhões de indígenas.
Recordemos, por exemplo, a Conferência de Berlim (1884-85) na qual África foi repartida entre as potências europeias, numa enorme anexação de terras e povos que torna a ocupação de Gaza uma brincadeira de crianças.
Lembremos, de passagem, o muito reverenciado rei Leopoldo II da Bélgica, que no final do século XIX ocupou o Congo, tornando-o no Estado Livre do Congo, sua propriedade privada, em nome da civilização ocidental e do anti esclavagismo, mas o que fez foi saquear o país, resultando na morte — por doença, fome e brutal assassinato — de cerca de 10 milhões de congoleses.
E para um apalpar do sentir desses tempos (que parecem continuar a serem os nossos na medida em que permanece a dicotomia entre quem somos e quem dizemos ser) recomenda-se a leitura de duas obras de Joseph Conrad, o romance "Coração das Trevas" e o conto "Um Posto Avançado do Progresso" (que serviram de guião a Francis Coppola para o Apocalypse Now), e do importante mas voluntariamente esquecido Le rapport Brazza, Mission d’enquête du Congo: rapport et documents (1905-1907).
Só a partir de 1951 (data em que entrou em vigor a Convenção sobre Genocídio da ONU), podem-se contar mais de uma dúzia de genocídios, incluindo o do Bangladesh, do Camboja, da Guatemala, do Ruanda, da Bósnia.
Todas estas matanças e genocídios perpetrados nas Américas, África, Índias, como que fazem que eles possam ser vistos como um traço caraterístico da dominação da nossa civilização.
E o pior é que não lhe atribuímos importância e nem queremos ver que assim é. É como se o único genocídio que contasse tivesse sido apenas o praticado por Hitler (até no genocídio Hitler teria de ser o maior), e culpa exclusiva dele, pelo que tudo que se passe depois não tenha qualquer importância. A sombra de Hitler serve-nos como desculpa.