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Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

(546) Crianças que choram sem ninguém para as escutar

Tempo estimado de leitura: 3 minutos.

 

O fracasso do mundo em proteger as crianças de Gaza é uma falha moral a uma escala monumental, Iain Overtone.

 

O lugar mais perigoso do mundo para se ser criança, UNICEF.

 

A maior crise de órfãos da história moderna.

 

 

 

 

A Common Drreams, empresa noticiosa americana vocacionada para o serviço da comunidade progressiva, publicou a 19 de agosto de 2025, um artigo de Brett Wilkins, jornalista e autor de São Francisco, intitulado  “"Cheias de Lágrimas", 1.000 Crianças Palestinianas Formam-se em Escola para Órfãos em Gaza”.

Aqui deixo a sua tradução:

 

 

“As crianças choraram, pois não havia pais presentes para partilhar o momento – os seus pais tinham sido mortos pelo exército israelita”, disse um observador.

 

Mais de mil crianças palestinianas, órfãs devido ao ataque genocida de Israel a Gaza, participaram segunda-feira numa cerimónia agridoce de graduação numa escola especial para órfãos no sul do enclave sitiado, enquanto as forças israelitas continuavam a sua campanha de aniquilação e limpeza étnica nas proximidades apoiada pelos EUA.

 

Vestindo becas e bonés e agitando bandeiras da Palestina, os formandos da escola da Aldeia de Órfãos de al-Wafa, em Khan Younis — inaugurada no início deste ano pela terapeuta da fala Wafaa Abu Jalala — receberam os seus diplomas sob o olhar orgulhoso de alunos e funcionários. Foi um acontecimento notável, dado o tremendo sofrimento dos palestinianos em Gaza, especialmente das crianças, e a destruição da infraestrutura educativa da Faixa por Israel, frequentemente chamada de escolasticídio.

 

Os organizadores disseram que o acontecimento foi o maior do género desde que Israel começou a arrasar Gaza após o ataque liderado pelo Hamas, a 7 de outubro de 2023. O ataque e o cerco de Israel, que são objeto de um processo de genocídio perante o Tribunal Internacional de Justiça, mataram já mais de 62.000 palestinianos, incluindo mais de 18.500 crianças – um número oficial de mortes que está provavelmente muito aquém do esperado.

 

Vídeo (0:24)

 

O Gabinete Central de Estatísticas da Palestina informou em Abril que quase 40 mil crianças em Gaza perderam um ou ambos os pais devido às bombas e balas israelitas, chamando-lhe a "maior crise de órfãos" da história moderna. Outros grupos independentes afirmam que o número de órfãos é ainda maior numa guerra em que os profissionais médicos cunharam uma nova sigla sombria: WCNSF – wounded child, no surviving family (criança ferida, sem família sobrevivente).

 

Centenas de milhares de outros palestinianos estão a morrer de fome naquilo a que a Amnistia Internacional chamou na segunda-feira uma "campanha deliberada". Milhares de crianças de Gaza são tratadas por subnutrição todos os meses, e pelo menos 122 morreram de fome, segundo as autoridades locais.

 

No início da guerra, o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) chamou a Gaza "o lugar mais perigoso do mundo para se ser criança". No ano passado, o Secretário-Geral da ONU, António Guterres, juntou Israel pela primeira vez à sua chamada "Lista da Vergonha" de países que matam e ferem crianças durante guerras e outros conflitos armados. Médicos e outros, incluindo voluntários dos EUA, documentaram muitos casos em que concluíram que atiradores israelitas e outras tropas dispararam deliberadamente sobre a cabeça e o peito de crianças.

 

Há também mais crianças amputadas em Gaza do que em qualquer outro lugar do mundo, estimando as agências da ONU, no início deste ano, que entre 3.000 e 4.000 crianças palestinianas tiveram um ou mais membros removidos, por vezes sem anestesia. A administração do presidente norte-americano, Donald Trump — que fornece a Israel muitas das armas utilizadas para matar e mutilar crianças palestinianas — suspendeu recentemente a emissão de vistos para amputados e outras vítimas que procuram tratamento médico nos EUA.

 

Tudo o acima referido é a causa para o que uma mãe de Gaza chamou de "destruição psicológica completa" das crianças no enclave em conflito.

 

De facto, um inquérito de 2024 a mais de 500 crianças palestinianas em Gaza revelou que 96% delas temem a morte iminente, 92% não aceitam a realidade, 79% sofrem de pesadelos, 77% evitam discutir acontecimentos traumáticos, 73% apresentam sinais de agressividade, 49% desejam morrer por causa da guerra e muitas outras "mostram sinais de abstinência e ansiedade severa, juntamente com uma sensação generalizada de desesperança".

 

Iain Overton, diretor executivo do grupo britânico Action on Armed Violence, afirmou na altura da publicação da investigação que "o fracasso do mundo em proteger as crianças de Gaza é uma falha moral a uma escala monumental".

 

 

(545) Revisitar o Paraíso

Tempo estimado de leitura: 3 minutos.

 

Fomos criados para viver no Paraíso, e o Paraíso foi destinado para nos servir.

 

Fomos expulsos do Paraíso, mas o Paraíso não foi destruído.

 

O realizado não pode ser anulado, mas apenas confundido.

 

O mundo visível como uma tentativa de falsificar a realidade do conhecimento, de ver o conhecimento como um fim ainda a ser alcançado.

 

 

 

 

 Para além das novelas mais comummente conhecidas de Franz Kafka (1883-1924), existem um sem número de deliciosas pequenas histórias e de parábolas, algumas das quais permanecerão para sempre profundamente atuais por representarem maneiras de estar, sentir e interpretar a realidade que perduram, quase como de mitos se tratassem. Como por exemplo, esta sobre o que é o “Paraíso”:

 

“Segundo o seu significado principal, a expulsão do Paraíso é eterna: consequentemente, a expulsão do Paraíso é final e a vida neste mundo é irrevogável, mas a natureza eterna da ocorrência (ou, expressa temporalmente, a recapitulação eterna da ocorrência) torna possível, no entanto, que não apenas possamos viver continuamente no Paraíso, mas que de facto lá estejamos continuamente, não importando se aqui o sabemos ou não.

 Por que lamentamos a queda do homem? Não fomos expulsos do Paraíso por causa disso, mas por causa da Árvore da Vida, para que dela não comêssemos.

 Somos pecadores não apenas porque comemos da Árvore do Conhecimento, mas também porque ainda não comemos da Árvore da Vida. O estado em que nos encontramos é pecaminoso, independente de culpa.

 Fomos criados para viver no Paraíso, e o Paraíso foi destinado para nos servir. O nosso destino foi alterado; mas isso também aconteceu com o destino do Paraíso e tal não é afirmado.

 Fomos expulsos do Paraíso, mas o Paraíso não foi destruído. De certo modo, a nossa expulsão do Paraíso foi um golpe de sorte, pois, se não tivéssemos sido expulsos, o Paraíso teria de ser destruído.

 Deus disse que Adão teria que morrer no dia em que comesse da Árvore do Conhecimento. De acordo com Deus, o resultado instantâneo de comer da Árvore do Conhecimento seria a morte; segundo a serpente (pelo menos assim se pode entender), o mesmo aconteceria com Deus. Ambos estavam errados de maneiras semelhantes. Os homens não morriam, mas tornavam-se mortais; não se tornavam como Deus, mas recebiam a capacidade indispensável para o ser. Ambos estavam certos de maneiras semelhantes. O homem não morreu, mas sim o homem paradisíaco; os homens não se tornaram Deus, mas conhecimento divino.

 Ele é um cidadão livre e seguro do mundo, pois está preso a uma corrente que é suficientemente comprida para lhe dar a liberdade de todo o espaço terrestre, e ainda assim não tão comprida que nada possa arrastá-lo para além das fronteiras do mundo. Mas, simultaneamente, ele também é um cidadão do Céu livre e seguro, pois também está preso por uma corrente celestial projetada de forma semelhante. De modo que se ele se dirige, digamos, para a terra, o seu colar celestial estrangula-o, e se ele se dirige para o céu, o colar terrestre faz o mesmo. E, no entanto, todas as possibilidades são dele, e ele sente isso, mais, ele realmente recusa-se a explicar o impasse por um erro no grilhão original.

 Desde a Queda, temos sido essencialmente iguais na nossa capacidade de reconhecer o bem e o mal; no entanto, é justamente aqui que procuramos mostrar a nossa superioridade individual. Mas as diferenças reais começam para além desse conhecimento. A ilusão oposta pode ser explicada assim: ninguém pode ficar contente com o mero conhecimento do bem e do mal em si, mas deve também esforçar-se para agir de acordo com ele. A força para fazê-lo, porém, também não lhe é dada, consequentemente ele deve destruir-se a intentar fazê-lo, sob o risco de não conseguir a força necessária mesmo assim; contudo, nada mais lhe resta a não ser esta tentativa final. (Além disso, esse é o significado da ameaça de morte ligada à Árvore do Conhecimento; talvez também isso fosse o significado original da morte natural.) Agora, diante dessa tentativa, o homem está cheio de medo; ele prefere anular o seu conhecimento do bem e do mal (o termo "a queda do homem" pode ser atribuído a esse medo); no entanto, o realizado não pode ser anulado, mas apenas confundido. Foi com esse propósito que as nossas racionalizações foram criadas. O mundo inteiro está cheio delas, na verdade todo o mundo visível talvez não seja nada mais do que a racionalização de um homem que quer encontrar a paz por um momento. Uma tentativa de falsificar a realidade do conhecimento, de ver o conhecimento como um fim ainda a ser alcançado.”

 

 

Nota 1: Pequenos escritos como este, encontram-se espalhados por várias organizações e editores, o que tem dificultado o seu acesso para a maior parte dos seus leitores, o que é pena. Deixo aqui alguns links que ajudarão nessa recolha.

Nota 2: Sobre o Paraíso sugiro a leitura do blog de 17 de março de 2021, “Pecado no Paraíso”, com base numa interpretação de Giorgio Agamben.

 

 

 

(544) À sombra de Hitler

Tempo estimado de leitura: 4 minutos.

 

Não estou entre aqueles que afirmam que o progresso possa ser dado como garantido, que a humanidade não possa retroceder, A. Blanqui.

 

A história humana é definida por longos períodos de esterilidade cultural e de repressão brutal, C. Hedges.

 

Entre 1490 e 1890, a colonização europeia foi responsável pela morte de pelo menos 100 milhões de indígenas, D. Stannard.

 

Permanece a dicotomia entre quem somos e quem dizemos ser.

 

 

 

 

Existem pelo menos duas linhas principais de interpretação sobre o que se considera ser “progresso”. Uma, mais tradicional e maioritária, entende a história humana como sendo fruto cumulativo de uma progressão linear conducente a uma maior igualdade e moralidade (preconizado pelos positivistas, por Friedrich Hegel e Karl Marx, por algumas religiões morais, etc.), e outra, que acredita que o progresso não pode ser tomado como garantido e que a humanidade não possa retroceder (como preconizava Louis-Auguste Blanqui).

Blanqui, participante ativo numa série de revoltas do século XIX em França, nomeadamente na insurreição armada de maio de 1839, no levantamento de 1848 e na Comuna de Paris, entendia  que a crença no progresso linear propalado pelos positivistas (“Notes on Positivism”, pdf) não era mais que uma forma que os opressores utilizavam para desapoderar os oprimidos:

 

Todas as atrocidades do vencedor, a longa série dos seus ataques, transformam-se friamente numa evolução constante e inevitável, como a da natureza... Mas a sequência das coisas humanas não é inevitável como a do universo. Pode ser alterada a qualquer momento”.

 

O avanço científico e tecnológico, em vez de ser um exemplo de progresso, poderia “tornar-se uma arma terrível nas mãos do Capital contra o Trabalho e o Pensamento”. E isto porque:

 

“[…] a humanidade nunca é estacionária. Avança ou recua. A sua marcha progressiva leva-a à igualdade. A sua marcha regressiva recua, passando por todos os estágios de privilégio, até à escravatura humana, a palavra final do direito à propriedade” (“Who Makes the Soup, Should Eat It”, pdf).

Não estou entre aqueles que afirmam que o progresso possa ser dado como garantido, que a humanidade não possa retroceder” (“Auguste Blanqui, heretical communist”, pdf).

 

 

Chris Hedges, no seu artigo “The New Dark Age”, vem também dizer-nos que “a história humana é definida por longos períodos de esterilidade cultural e de repressão brutal. A queda do Império Romano levou à miséria e à repressão em toda a Europa durante a Idade das Trevas, aproximadamente do século VI ao XIII. Houve perda de conhecimento técnico, incluindo a construção e manutenção de aquedutos. O empobrecimento cultural e intelectual levou à amnésia coletiva. As ideias dos estudiosos e artistas antigos foram apagadas. Não houve renascimento até ao século XIV e ao Renascimento, um desenvolvimento possibilitado em grande parte pelo florescimento cultural do Islão, que, através da tradução de Aristóteles para árabe e de outras realizações intelectuais, impediu que a sabedoria do passado desaparecesse.”

 

 

Mas não precisamos recuar até aos tempos dos romanos e das invasões que se seguiram para nos apercebermos das atrocidades, selvajarias e genocídios cometidos ao longo das recentes últimas centenas de anos de pilhagens e explorações, evidentemente sempre sobre os mais fracos.

É o que o historiador americano  David E. Stannard nos vai quantificar quando na sua obra American Holocaust, Columbus and the conquest of the New World (pdf.), nos mostra que a colonização europeia entre 1490 e 1890 foi responsável pela morte de pelo menos 100 milhões de indígenas.

Recordemos, por exemplo, a Conferência de Berlim (1884-85) na qual África foi repartida entre as potências europeias, numa enorme anexação de terras e povos que torna a ocupação de Gaza uma brincadeira de crianças.

Lembremos, de passagem,  o muito reverenciado rei Leopoldo II da Bélgica, que no final do século XIX ocupou o Congo, tornando-o no Estado Livre do Congo, sua propriedade privada, em nome da civilização ocidental e do anti esclavagismo, mas o que fez foi saquear  o país, resultando na morte — por doença, fome e brutal assassinato — de cerca de 10 milhões de congoleses.

E para um apalpar do sentir desses tempos (que parecem continuar a serem os nossos na medida em que permanece a dicotomia entre quem somos e quem dizemos ser) recomenda-se a leitura de duas obras de Joseph Conrad, o romance "Coração das Trevas" e o conto "Um Posto Avançado do Progresso" (que serviram de guião a Francis Coppola para o Apocalypse Now), e do importante mas voluntariamente esquecido Le rapport Brazza, Mission d’enquête du Congo: rapport et documents (1905-1907).

 

Só a partir de 1951 (data em que entrou em vigor a Convenção sobre Genocídio da ONU), podem-se contar mais de uma dúzia de genocídios, incluindo o do Bangladesh, do Camboja, da Guatemala, do Ruanda, da Bósnia.

 

Todas estas matanças e genocídios perpetrados nas Américas, África, Índias, como que fazem que eles possam ser vistos como um traço caraterístico da dominação da nossa civilização.

E o pior é que não lhe atribuímos importância e nem queremos ver que assim é. É como se o único genocídio que contasse tivesse sido apenas o praticado por Hitler (até no genocídio Hitler teria de ser o maior), e culpa exclusiva dele, pelo que tudo que se passe depois não tenha qualquer importância. A sombra de Hitler serve-nos como desculpa.

 

 

 

 

(543) À procura de monstros

Tempo estimado de leitura:4 minutos.

 

O problema de vasculhar o mundo à procura de monstros para destruir é que eles têm uma maneira para nos seguir até casa, A. P. Napolitano.

 

As guerras estrangeiras ofensivas não espalham a liberdade; espalham a violência, John Quincy Adams.

 

Os presidentes podem agora legalmente – mas não constitucionalmente – enviar pequenos exércitos de agentes federais fardados com uniformes militares e transportando equipamento militar para qualquer país que o presidente escolher, a fim de resgatar alguém que odeie ou tema.

 

 

 

 

Andrew P. Napolitano, ex-juiz do Supremo Tribunal de Nova Jérsia, EUA, e analista judicial sénior no canal Fox News, publicou recentemente (11 de julho de 2025) no Original.Antiwar.Com, o artigo “Searching for Monsters”, que me parece ser importante quanto baste para dele se tomar  conhecimento. Aqui fica a sua tradução integral:

 

A América não vai para o estrangeiro à procura de monstros para destruir...

Ela poderia tornar-se a ditadora do mundo, mas já não seria a governante do seu próprio espírito.”

 John Quincy Adams (1767-1848)

 

A meio do seu mandato como Secretário de Estado, o futuro Presidente John Quincy Adams solicitou autorização para discursar numa sessão conjunta do Congresso. Tal pedido é inédito nos tempos modernos. O que é que ele tinha em mente?

 

Os Estados Unidos tinham terminado a Guerra de 1812 com a Grã-Bretanha. Fora travada quase inteiramente no Canadá. Alguns historiadores acreditam que os britânicos iniciaram esta guerra para reconquistar as suas antigas colónias. Alguns acreditam que os EUA a começaram para tomar o Canadá à Grã-Bretanha. Adams andava preocupado que o cancro da guerra estivesse novamente a espalhar-se por todas as instituições (establishment) de Washington e queria eliminá-lo.

 

Fê-lo com sucesso com o argumento que as guerras estrangeiras ofensivas não espalham a liberdade; espalham a violência.

 

Avançando para 1992, os EUA travavam outra guerra estrangeira infrutífera, desta vez utilizando a CIA e a Agência Antidroga (DEA) – para evitar os procedimentos legais que exigem a comunicação de conflitos militares ao Congresso e a necessidade de uma declaração de guerra por parte do Congresso. Foi a guerra contra a droga que os EUA travavam contra o governo mexicano e os civis mexicanos.

 

Em plena guerra, o governo de George H.W. Bush decidiu raptar estrangeiros que tinham violado as leis americanas noutros locais e responsabilizá-los aqui. A teoria por detrás desta arrogância imperialista era que estas pessoas tinham prejudicado os americanos no México, ao oporem resistência à violência das guerras americanas da droga, e nos EUA, ao fazerem com que as drogas acabassem aqui.

 

Não importa que as drogas sejam compradas e consumidas voluntariamente, e não importa que o Supremo Tribunal já tivesse decidido que cada um de nós é dono do seu corpo e o que fazemos com ele em privado não é uma questão regulamentar de interesse federal.

 

Tudo isto culminou no Supremo Tribunal em 1992, quando um médico mexicano contestou o seu violento rapto no seu consultório no México, orquestrado e financiado pela DEA de Bush.

 

O Supremo Tribunal decidiu que o rapto foi legal porque os tribunais não se preocupam com a forma como o arguido fora levado a tribunal; preocupam-se apenas com o que acontece depois. Além disso, como o tratado de extradição entre os EUA e o México não mencionava o rapto governamental, era, portanto, legal.

 

Esta interpretação distorcida dos primeiros princípios, entre os quais o de que o governo deve cumprir as leis que aplica, levou à utilização de agentes do FBI, da CIA e da DEA para raptar estrangeiros em países estrangeiros que alegadamente causaram danos a pessoas ou bens americanos.

 

Por mais terrível que tudo isto seja, a legislação americana sempre exigiu um nexo de dano americano, que determinava que o sequestro governamental só poderia ser justificado como um passo inicial para reparar os danos criminais efetivamente causados pela pessoa sequestrada a uma pessoa ou propriedade americana.

 

Depois, em 2022, o Congresso alargou a autoridade dos tribunais federais de forma a abranger os crimes cometidos em países estrangeiros contra pessoas ou bens estrangeiros. Ao remover o nexo de dano americano, o Congresso permitiu que o governo federal acusasse quem quisesse por crimes cometidos em países estrangeiros contra vítimas estrangeiras, e determinou que os tribunais federais julgassem estes casos.

 

Isto levou a mais raptos por parte do governo dos EUA e a uma expansão do poder presidencial de capturar adversários políticos ou jornalísticos no estrangeiro apenas para os silenciar. Também deu aos presidentes americanos outra ferramenta para uma guerra discreta, uma vez que agora podem legalmente – mas não constitucionalmente – enviar pequenos exércitos de agentes federais vestidos com uniformes militares e transportando equipamento militar para qualquer país que o presidente escolher, a fim de resgatar alguém que odeie ou tema.

 

Isto não é o Estado de Direito. Isto é o Estado da Força Bruta. E como nenhum americano precisa de ser ferido e nenhuma lei americana precisa de ser violada, o presidente pode visar literalmente qualquer estrangeiro que escolher. Para que ninguém pense que os meus avisos são fantasiosos, isso já aconteceu.

 

Quando o ex-Presidente Barack Obama enviou drones para matar americanos e os seus companheiros estrangeiros no Iémen em 2011 – nenhum dos quais tinha sido acusado de um crime americano e todos estavam cercados por agentes americanos durante as últimas 48 horas das suas vidas – justificou os seus assassinatos argumentando que matou menos pessoas com os seus drones do que essas pessoas poderiam ter matado se estivessem vivas.

 

Esta justificação tortuosa e perversa é uma rejeição completa dos princípios do direito natural e do devido processo legal, que proíbem terminantemente o primeiro uso de agressão contra terceiros e exigem julgamentos por júri antes da punição.

 

Na semana passada, o general Hugo Carvajal, antigo chefe dos serviços de informação militar da Venezuela, declarou-se culpado num tribunal federal da cidade de Nova Iorque por tráfico de droga na Venezuela. Tinha sido raptado em Espanha, onde vivia reformado, até que os agentes americanos o levaram. Que informações trocará pela sua liberdade?

 

Se é legal o governo dos EUA entrar num país estrangeiro e sequestrar uma pessoa estrangeira, é legal o governo chinês entrar no Havai e sequestrar um executivo ou político americano da área da tecnologia? Podem os EUA raptar um soldado russo que matou um civil ucraniano e julgá-lo aqui? Segundo a decisão do Supremo Tribunal de 1992 e a legislação de 2022: SIM.

 

Thomas Paine alertou que a paixão por punir é perigosa para a liberdade, até mesmo para a liberdade daqueles que punem. Muitas vezes, isto leva a interpretações tão distorcidas das leis que as tornam irreconhecíveis. "Aquele que deseja garantir a sua própria liberdade deve proteger até o seu inimigo da opressão; pois, se violar este dever, estabelece um precedente que o atingirá."

 

Ainda não aprendemos a lição do 11 de Setembro. O problema de vasculhar o mundo em busca de monstros para destruir é que eles têm uma maneira de nos seguir até casa.

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