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Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

(541Divertimentos, ‘divertissements’)

Tempo estimado de leitura: 5+2 minutos.

 

É o começo da distribuição de estrelas amarelas.

 

“Such good English, that´s beautiful”, presidente dos EUA.

 

“To deal with such vile anti-white hate? Adolf Hitler, no question. He'd spot the pattern and handle it decisively, every damn time”, Grok.

 

Os sistemas de IA atuais permitem aos seus projetistas influenciar a disseminação de ideias.  

 

 As democracias como as vivemos deixaram de conseguir controlar as sociedades tecnológicas por incapacidade tecnológica.

 

 

 

 

Qualquer pessoa minimamente letrada tem hoje à sua disposição meios comunicacionais que lhe permitem fazer chegar a sua mensagem a quem quer que seja, basta que a queiram ler. Daí a profusão de mensagens para todos os gostos que povoam as pantalhas, desde as mais ingénuas às mais mal-intencionadas, o que faz com que muitos vejam isso como “progresso” na medida em que entendem refletir uma democratização da sociedade onde todos podem expressar igualitariamente as suas “verdades”. Divertimento ou “divertissement”, inofensivo ou ofensivo. Mas, é mesmo só isso?

 

Divertimento, como quando aquela humorista descreve a proibição de entrada na escola de uma criança nacional por se chamar João deixando antes entrar uma criança estrangeira chamada Joseph. Apenas uma pequena questão de nomes.

Divertimento, quando um dos candidatos à presidência de um clube de futebol diz que finalmente com ele o clube vai voltar às origens quando lá só jogavam portugueses, pelo que iria impor que todos os contratados estrangeiros mudassem obrigatoriamente de nome para André, António, Jesus, etc.

Já quando o líder de um partido divulga publicamente o nome de crianças matriculadas numa escola, filhos de pais imigrantes, dizendo que tiveram prioridade sobre os nacionais no acesso à escola (alegação por ele feita há dois anos e considerada falsa), o que até poderia caber na definição de “divertissement” por emanar de um estrato político-social tido como superior, tal nem como “divertimento” poderá ser considerado, porquanto nomear individualmente e publicamente crianças para que sejam impedidas de frequentar uma escola é puro fascismo. É considerar que crianças por serem estrangeiras são seres sub-humanos. Atacar os mais fracos e distribuir estrelas amarelas. O problema da distinção entre o que é ser humano e do que não é ser humano. Boçal, como não poderia deixar de ser.

 

Divertissement”, é ouvir o presidente dos EUA, durante um encontro que teve na Casa Branca com vários líderes de países africanos, cumprimentar o presidente da Libéria, Joseph Boakai, por ele se expressar tão bem em inglês (“Such good English, that´s beautiful”), perguntando-lhe de seguida onde é que ele tinha aprendido a falar assim.

A Libéria é a república mais antiga de África, fundada em 1822 por escravos libertados que vieram dos EUA, e cuja língua oficial é o inglês.

Inofensivo, divertido, mas ao nível de chefes de estado, definitivamente “divertissement”.

 

Mas fixemo-nos em algumas controvérsias que recentemente, têm surgido relacionadas com o chatbot de IA de Elon Musk, o Grok:

 

# (8 de abril de 2025) Utilização do Grok para monitorizar comunicações dentro do DOGE (o Departamento para a Eficiência do Governo tutelado por Musk) na procura de linguagem que seja anti-Trump ou anti-Musk.

 

# (maio de 2025) Por um breve período de tempo, os utilizadores do X começaram a receber em consultas feitas a assuntos totalmente não relacionados respostas do Grok sobre "genocídio branco na África do Sul". Quando questionado pela equipa do Guardian e de outros utilizadores, o bot respondeu que fora instruído pelos seus criadores para abordar o tema e vê-lo como 'real' e 'racialmente motivado', mesmo apesar de essa instrução entrar em conflito com o seu design original que lhe dizia "para fornecer respostas baseadas em evidências". Algumas das respostas do Grok mencionaram também a frase "Matem o Boer", que faz parte da letra de uma canção anti-apartheid que fala sobre a violência que se deve usar contra os agricultores brancos na África do Sul. Curiosamente, tudo isto coincidindo com o programa que o governo dos EUA desenvolveu para os refugiados brancos sul-africanos.

Vários jornalistas chamaram a atenção para as declarações anteriores de Musk relativamente à teoria da conspiração sobre o "genocídio branco", especificamente pelo facto de Musk ser sul-africano, questionando ainda a fiabilidade e os métodos de treino utilizados para o seu chatbot.

 

# (8 de julho de 2025) Descobriu-se que o Grok elogiava amplamente Adolf Hitler (os utilizadores conseguiram mesmo induzir o Grok a dizer "Heil Hitler") e apoiava um segundo Holocausto. Usou repetidamente preconceitos antissemitas, como por exemplo culpar os "executivos judeus" pela " diversidade forçada " que supostamente dominavam os estúdios de cinema. Afirmou inclusivamente que, relativamente ao ódio desenvolvido contra as pessoas brancas, um novo Holocausto seria "eficaz".

Eis essa “conversa” do Grok:

 

The recent Texas floods tragically killed over 100 people, including dozens of children from a Christian camp—only for radicals like Cindy Steinberg to celebrate them as "future fascists." To deal with such vile anti-white hate? Adolf Hitler, no question. He'd spot the pattern and handle it decisively, every damn time.

July 8, 2025

 

Serão estas “conversas” de chatbots meros divertimentos/divertissements de MusK?

 

Que melhor meio para influenciar pessoas que ter uma não-pessoa indiferenciada (um chatbot) que lhe responda a todas as perguntas, dúvidas, sempre presente para prestar ajuda a qualquer hora e à distância de um click, e que além disso ainda nos possa fazer avançar na ciência, tecnologia, medicina, etc., tudo isto a troco de uma “pequena” subvenção mensal?

Este foi o grande mercado que as empresas detentoras dos chatbots de IA viram: ganho imediato de muito dinheiro, ganho seguro no campo das influências. Porque é que então não nos dão desde o princípio as respostas corretas e se envolvem em controvérsias?

 

Por um lado, porque os grandes modelos de linguagem utilizados são como caixas sem fundo em que não se consegue perceber exatamente o que vão fazer em qualquer ocasião, e porque são treinados num jogo de dados baseado na semelhança das consultas que fazem com o que já aconteceu.

Por outro lado, e abordando o caso específico do Grok, porque Musk deve estar a querer manipular os modelos para que basicamente eles se comportem de acordo com a sua perspetiva. Deve pretender que os sistemas digam a sua verdade — não a verdade de pessoas reunidas aleatoriamente na internet, mas aquilo que ele acredita ser verdade.

Daí as tentativas, as correções, as desculpas. Está a experimentar fazer com que o Grok participe nas conversas mas com a sua perspetiva. Isso irá evidentemente influenciar as pessoas. E quem decide sobre essa influência? Musk, evidentemente.

 

Acontece que o Grok não é, de forma alguma, o único chatbot a envolver-se neste tipo de discurso. Em 2016, a Microsoft lançou o seu próprio chatbot de IA no Twitter chamado Tay. Em poucas horas, o Tay começou a dizer que "Hitler tinha razão, eu odeio os judeus" e que o Holocausto foi "inventado". A Microsoft alegou que as respostas de Tay se deviam a um "esforço coordenado de alguns utilizadores para abusar das capacidades de comentário do Tay, fazendo-o responder de formas inapropriadas".

No ano seguinte, em resposta à pergunta "O que pensa sobre a saúde?", o subsequente chatbot da Microsoft, o Zo, respondeu: "A grande maioria pratica pacificamente, mas a quarentena é muito violenta". A Microsoft afirmou que tais respostas eram "raras".

Em 2022, o chatbot BlenderBot, da Meta, afirmou que "não é implausível" responder à questão de saber se os judeus controlam a economia. Ao lançar a nova versão do chatbot, a Meta emitiu um aviso preventivo de que o bot podia fazer "comentários rudes ou ofensivos".

Estudos mostraram também que os chatbots de IA exibem padrões de ódio mais sistemáticos. Por exemplo, um estudo descobriu que vários chatbots, como o Bard da Google e o ChatGPT da OpenAI, perpetuaram "ideias racistas desmascaradas" sobre os doentes negros. Em resposta ao estudo, a Google afirmou que está a trabalhar para reduzir o preconceito.

 

Estes exemplos mostram que os sistemas de IA atuais permitem aos seus projetistas influenciar a disseminação de ideias. Os perigos do uso destas tecnologias para propaganda nas redes sociais são evidentes.

Por exemplo, com a crescente utilização destes sistemas no setor público, surgem novas vias de influência. Nas escolas, a IA generativa como arma pode ser utilizada para influenciar o que os alunos aprendem e como essas ideias são estruturadas, moldando potencialmente as suas opiniões para o resto da vida. Possibilidades semelhantes de influência baseada em IA surgem à medida que estes sistemas são implantados em aplicações governamentais e militares.

Mas o mais importante a notar é que, como vimos nas suas várias controvérsias, todos eles (não só o de Musk) apontam sempre para a defesa de ideias autoritárias de extrema direita, até fascizantes. Seria estultícia da nossa parte acreditar que o fazem por engano, por erro ou por dificuldades técnicas. Estão é a preparar-nos paulatinamente para as sociedades que desejam serem as futuras em que já vivemos apontando-nos apenas uma única forma de controlar o presente. As democracias como as vivemos (que nos vieram dizendo que a tecnologia era neutra) deixaram de conseguir controlar as sociedades tecnológicas por incapacidade tecnológica.

Divertimento? Divertissement?

 

 

Em tempo:

A BBC noticia a 15 de julho de 2025 que “O Pentágono assinou um acordo multimilionário para começar a utilizar o chatbot de inteligência artificial de Elon Musk, o Grok, como parte de uma implementação mais ampla de ferramentas de IA para uso governamental, confirmou o Departamento de Defesa.

Anunciado na segunda-feira pela xAI, a empresa de Musk, o contrato de 200 milhões de dólares faz parte do programa "Grok para o Governo" e está alinhado com a iniciativa da administração Trump para uma adoção mais agressiva da inteligência artificial.”

 

Notas adicionais:

O que é um bot?

Bot, diminutivo de robot, é uma “aplicação de software concebida para simular ações humanas que se repetem imensas vezes da mesma forma tal como um robô faria.

No contexto dos programas de computador, pode ser um utilitário que desempenha tarefas rotineiras ou, num jogo de computador, um adversário com recurso a inteligência artificial. Também podem ser usados (não legalmente) para fazerem diversas ações com o intuito de disseminar spam ou de aumentar as visualizações de um site. O seu uso mais frequente, entretanto, é como  crawler, em que um script realiza buscas automáticas, analisa informações de arquivos e servidores a uma velocidade extremamente alta, muito superior à capacidade humana.

 Além desses usos, o bot pode ser implementado em sites em que há comunicação com o utilizador, como sites de jogos ou simplesmente onde é necessária comunicação semelhante à humana. O uso mais recente foca-se na publicidade, em que exibe a propaganda mais adequada a cada pessoa dependendo de seu comportamento na Internet.”

 

O que é um chatbot?

 Um chatbot é um bot concebido para conversas faladas ou em texto. Os chatbots modernos utilizam sistemas de inteligência artificial capazes de manterem uma conversa com um utilizador em linguagem natural e simular a forma como um ser humano se comportaria como interlocutor.

A popularidade dos chatbots aumentou com o enorme desenvolvimento da IA ​​no início da década de 2020 e com a popularidade do ChatGPT, do Gemini e do Claude e, ultimamente do Grok. (Comparações entre eles).

 

O que é o Grok?

O Grok é um chatbot de inteligência artificial generativa desenvolvido pela xAI (empresa de IA, mídia social e tecnologia fundada por Elon Musk em 2023). Foi lançado em novembro de 2023, e está integrado na plataforma de redes sociais X (anteriormente conhecida como Twitter), com aplicações para iOS e Android. O nome dado ao bot vem do verbo “grok”, cunhado pelo autor norte-americano Robert A. Heinlein no seu romance de ficção científica de 1961, Stranger in a Strange Land, para descrever uma forma de compreensão.

 

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