(539) Da autossuficiência à austeridade consentida ou imposta
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A autossuficiência como virtude moral.
Ser-se mais autossuficiente é estar mais perto de Deus.
No século XX vamos assistir a grandes movimentos de nações com vista à conquista da autossuficiência, por vezes até por caminhos estranhos.
Todas as vilas têm de se autossustentarem e serem capazes de governarem os seus negócios, mesmo que tenham de se defender contra todo o mundo, M. Gandhi.
O que disse George Washington em 1790 e Donald Trump em 2025.
Parece-me importante tentar minimamente perceber porque é que, quase simultaneamente, aquela ideia de que quanto maiores forem as interrelações comerciais entre as nações, maior segurança e prosperidade haverá para todos (a apregoada globalização) começou a ser substituída pela exaltação da autossuficiência como única forma de quebrar as algemas da interconexão e da dependência.
As recentes declarações do presidente dos EUA sobre a “independência económica” americana relativamente aos outros países, a “autossuficiência” (zili gengsheng) há anos advogada pelo presidente da China, a declaração de presidente da Rússia ao afirmar que “a Rússia é uma nação autossuficiente em todos os sentidos da palavra”, e ainda o chamado slogan repetido do primeiro ministro da Índia sobre a “autocerteza” (atmanirbhar bharat), constituem prova substancial que o pensamento sobre o mundo deverá estar a mudar.
Curiosamente, não que ele (esse pensamento) seja novo. Recordemos aquele cúmulo da autossuficiência do século IV a. C. dado por Diógenes, que vivendo nas ruas de Atenas na sua barrica, ao ser interpelado pelo “grande” Alexandre no sentido de saber se desejaria alguma coisa (comida, habitação, mulheres, etc.), respondeu que o que desejava era que ele, Alexandre, saísse da frente, pois estava a tapar-lhe o sol que queria apanhar.
Mesmo que este episódio não se tenha verificado, o simples facto de ainda hoje perdurar passados mais de 2.000 anos, só poderá ser atribuído aos atenienses terem tido em muita consideração a autossuficiência como virtude moral.
E não apenas quando aplicada ás pessoas individuais. Aristóteles, seu contemporâneo, via ainda na autossuficiência o ideal da cidade-estado:
“Empregamos o termo autossuficiência referindo-nos não apenas ao ser sozinho, vivendo uma vida de isolamento, mas também aos nossos pais, filhos e mulher, aos nossos amigos e cidadãos em geral, pois o homem é por natureza um animal político.”
Esta interdependência que Aristóteles propõe entre a autossuficiência do indivíduo e da coletividade, entre o pessoal e o político, perdurou e manteve-se na era cristã, vindo a proporcionar a Tomás de Aquino o célebre argumento da autossuficiência de Deus, segundo o qual toda a existência provinha do criador e que a divindade não necessitava de nada que lhe fosse exterior. Um dos corolários era que ser-se mais autossuficiente era estar mais perto de Deus.
A nível individual defendia mesmo que “Quanto mais digna for uma coisa, mais autossuficiente é, pois sempre que se necessitar da ajuda de outro isso mostra uma deficiência”. A nível de comunidade, é também favorável à autossuficiência, notando que “a ganância é despertada nos corações dos cidadãos pela fixação nas trocas”.
Aliás, em todo o mundo medieval cristão este ideal de autossuficiência, quer a nível pessoal quer comunitário, era santificado, o que se pode bem verificar pela expansão dos mosteiros como comunidades largamente autossuficientes independentes das autoridades exteriores que não fossem a Igreja e Deus, que produziam comida própria, vinho e vestuário.
Mas não só na Idade Média: mesmo durante o Iluminismo e o romantismo, este ideal da autossuficiência vai-se manter. Um dos seus representantes mais conhecidos, Jean-Jacques Rousseau, escrevia no seu Discours sur lórigine et les fondements de l«inégalité parmi les hommes, (1754), o que considerava ser o estado natural do homem:
“deambulando pelas florestas sem indústrias, sem falar, sem um lar, sem guerra e sem relações, sem necessidade dos seus semelhantes e, da mesma forma, sem desejo de os prejudicar, talvez até sem nunca reconhecer nenhum deles individualmente (…)”
Concluindo que, como norma para os seus contemporâneos, todo aquele que dependesse de outros e não tivesse recursos próprios, nunca poderia ser livre. Pelo que incita os povos a multiplicarem o mais possível as produções domésticas e o consumo próprio.
Uma geração depois, o filósofo alemão Fichte vai propor (The Closed Commercial State) a aplicação do mesmo conceito agora para o relacionamento entre as nações, notando que o comércio entre estados rivais só originava relações corruptas, e que as nações que se fechassem tenderiam a desenvolver características nacionais mais vincadas e um maior grau de honra nacional.
Já no século XIX, o socialista utópico francês Charles Fourier, visiona a sociedade ideal como sendo constituída por sociedades rurais autossuficientes (os “falanstérios”, da junção das falanges militares com os mosteiros), onde se proporcionava uma educação unitária para todas as crianças independentemente da riqueza das famílias, e um rendimento mínimo anual que garantisse efetivamente um “mínimo social”.
No século XX vamos assistir a grandes movimentos de nações com vista à conquista da autossuficiência, por vezes até por caminhos estranhos. É o caso da Alemanha, em que Hitler vai substituir a ideia inicial de que se poderia alimentar toda a população alemã através da sua produção agrícola com base no seu território, pela ideia de tal só seria possível através da conquista e exploração de novas terras agrícolas a leste. De um seu discurso em 1936:
“Se eu tivesse os Montes Urais com os seus incalculáveis tesouros em matérias-primas, a Sibéria com as suas vastas florestas e a Ucrânia com os seus enormes campos de trigo, a Alemanha e a liderança nacional-socialista nadariam em abundância!”
Contudo, e tendo esses tesouros, Stalin vai também em 1930 impor uma férrea autossuficiência na União Soviética, cortando as exportações para alcançar uma independência do mundo capitalista.
Na China, Mao Zedong, nos anos cinquenta, vê-se forçado a impor o Grande Salto em Frente, fazendo com que os chineses derretessem as suas panelas e potes em fornos primitivos para assim criar a indústria doméstica nacional do aço.
Também nos anos cinquenta, Mahatma Gandhi, na sua luta de independência da Índia contra os britânicos, lembrava com a sua célebre roca de fiar algodão, que “todas as vilas têm de se autossustentarem e serem capazes de governarem os seus negócios mesmo que se tenham de defender contra todo o mundo.”
Mais radicalmente, Kim Il Sung da Coreia do Norte, impõe a autossuficiência nacional (juche) a partir de 1950:
“Estabelecer o ‘juche’ significa… rejeitar a dependência dos outros, usar a própria cabeça, acreditar na própria força, exibir o espírito revolucionário da autoconfiança.”
Mas este conceito de autossuficiência também teve outras derivas, como, por exemplo, a introduzida pelo americano Robert LeFevre. Para ele, não se tratava de uma conceção política ou económica:
“significa autogoverno total. Pressupõe um sistema ou arranjo social em que cada pessoa assume a plena responsabilidade por si própria, passa a controlar-se, exerce autoridade sobre si própria […] e não procura, de forma alguma, impor a sua vontade pela força a qualquer outra pessoa.”
E, contudo, LeFevre não era contra o comércio, sendo mesmo um adepto ferrenho do mercado livre, e um implacável opositor de qualquer tipo de intervenção governamental ou de redistribuição económica. Exemplo marcante, o magnate dos combustíveis fósseis e da indústria química Charles Koch, que fora aluno de LeFevre em 1960, reserva grande parte da sua fortuna para financiar encontros libertários, onde se defende a redução dos impostos, a redução drástica dos gastos do governo com a assistência social e uma desregulação radical.
Esta chamada à autossuficiência de tempos em tempos e ao longo dos tempos, é bem demonstrada pela comparação entre as primeiras mensagens dirigidas ao Congresso por dois presidentes americanos. Eis George Washington, em janeiro de 1790:
“Um povo livre não deve apenas estar armado, mas disciplinado e a sua segurança e interesse exigem que se promovam manufaturas que tendam a torná-los independentes de outros para fornecimentos essenciais, particularmente militares”.
Em 2025, na sua primeira declaração ao Congresso, eis Donald Trump:
"Se não tivermos... aço e muitas outras coisas, não teremos forças armadas e, francamente, não teremos um país durante muito tempo […] Costumávamos construir tantos navios. Já não os construímos com tanta frequência, mas vamos fazê-lo muito rapidamente, muito em breve."
Ao ligar explicitamente a política comercial à autossuficiência nacional e às capacidades de defesa, Trump estava a ressuscitar ideias que foram influentes no próprio nascimento da república americana, muito embora no caso de Washington se estivesse ainda sob a influência da Guerra da Independência e dos perigos militares consequentes. Washington sabia que para enfrentar a grande superpotência comercial e industrial que era a Grã-Bretanha, a República necessitava urgentemente que os Estados se industrializassem e de uma política de forte proteção tarifária para não serem inundados por produtos importados britânicos.
Serão estes chamamentos feitos à autossuficiência apenas uma forma de congregar apoios à sua volta sempre que em tempos de dificuldade, ou será a autossuficiência uma caraterística do ser humano que lhe permitiu sobreviver e viver ao longo dos tempos?