(537) Os novos cristãos-novos
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"Não existe Cisjordânia — é Judeia e Samaria. Não existe povoação. São comunidades. São bairros. São cidades. Não existe ocupação." Mike Huckabee.
O Embaixador dos EUA em Israel opõe-se à criação de um Estado palestiniano, rejeitando a identidade palestiniana como "uma ferramenta política para tentar forçar a apropriação de terras por Israel".
E apela ao Presidente Trump para utilizar bombas atómicas para acabar com o Irão, pois ele é um escolhido por Deus.
Recentemente, o Presidente Trump partilhou com o público o texto de uma mensagem que lhe foi enviada por Mike Huckabee, embaixador dos EUA em Israel.
Eis o que diz o texto:
“Sr. Presidente,
Deus poupou-o em Butler, na Pensilvânia, para ser o Presidente mais importante num século — talvez de sempre. Não gostaria que as decisões que pesam sobre os seus ombros fossem tomadas por mais ninguém.
Muitas são as vozes que tem a falar consigo, Senhor, mas há apenas UMA voz que importa. A voz DELE.
Sou o seu servo designado nesta terra e estou disponível para si, mas não tento estar na sua presença com frequência porque confio nos seus instintos.
Nenhum Presidente na minha vida esteve numa posição como a sua. Não desde Truman em 1945. Não estendo a mão para o persuadir. Apenas para o encorajar.
Acredito que ouvirá do céu e que essa voz é muito mais importante do que a minha ou a de QUALQUER outra pessoa.
Enviaste-me a Israel para ser os teus olhos, ouvidos e voz e para garantir que a nossa bandeira está hasteada na nossa embaixada. O meu trabalho é ser o último a sair.
Não abandonarei este posto. A nossa bandeira NÃO virá abaixo! Não procurou este momento. Este momento procurou-O!
É uma honra servi-lo!
Mike Huckabee”
Mike Huckabee é um pastor Baptista conhecido pelas suas posições Evangélicas (a Verdade só está nos Evangelhos), que foi comentador político com programas de televisão na Fox News, na TBN e na rádio (The Huckabee Report), governador do Arkansas de 1996 a 2007, candidato presidencial à Casa Branca em 2008 e de novo em 2016, desistindo a favor de Trump. Em 2025 foi nomeado Embaixador em Israel, cargo que atualmente exerce.
A carta enviada ao presidente Trump, para além de expressar uma devoção pessoal, quase subserviência, que tem para com o seu chefe, reflete bem as suas posições sobre Israel e a Palestina que desde sempre tem defendido.
Huckabee é um forte defensor de Israel, opondo-se à criação de um Estado palestiniano e rejeitando a identidade palestiniana como "uma ferramenta política para tentar forçar a tomada de terras por Israel". Em 2008, afirmou que "não existe realmente algo como um palestiniano". Em 2017, num acontecimento na Cisjordânia, declarou: "Não existe Cisjordânia — é Judeia e Samaria. Não existe povoação. São comunidades. São bairros. São cidades. Não existe ocupação."
Recentemente, a 1 de junho de 2025, disse que, se a França quer um Estado palestiniano, então que o “acolha” na Riviera Francesa.
Mas nesta carta, para além do fundamentalismo religioso expresso, o mais perturbador são a referência feita a Truman em 1945 (uma referência à última e única vez que um líder nacional usou armas atómicas contra um Estado inimigo), e a referência feita a Butler, a localidade em que como sabemos o próprio Trump afirma ter passado por uma transformação religiosa depois de ter sobrevivido a uma tentativa de assassinato (‘It changed something in me’: Trump admits attemped assassination transformed his belief in God).
Um convite ao bombardeamento atómico de outra nação (neste caso, do Irão) em nome de Deus por um escolhido de Deus. E ainda vamos no século XXI.
O que há de diferente desta vez relativamente à decisão de invadir o Iraque em 2003 em que o período que antecedeu o conflito foi repleto de alegações alarmistas que se revelaram falsas (o vice-presidente Dick Cheney declarou: "Não há dúvida de que Saddam Hussein possui agora armas de destruição maciça. Não há dúvida de que as está a acumular para usar contra os nossos amigos, contra os nossos aliados e contra nós". O presidente George W. Bush afastou a verificação dos factos como um impedimento insustentável: "Não podemos esperar pela prova final — a prova cabal — que pode vir sob a forma de uma nuvem em forma de cogumelo.") é que agora essa decisão manifesta-se às claras com base num fundamentalismo religioso. Neste aspecto, Israel já ganhou.
Em qualquer dos casos, quer porque Trump se julgue verdadeiramente o ungido por Deus ou porque pretenda testar mais um dos limites do seu poder real (o de decidir uma ação de guerra sem autorização do Congresso), o destino está traçado. Por agora.
Nota: este artigo foi escrito antes do bombardeamento feito pelos EUA ao Irão, ocorrido a 22 de junho. Contudo, entendi mantê-lo por continuar a parecer-me esclarecedor.
Percebe-se agora melhor a razão porque Trump publicitou aquela carta do embaixador Huckabee.
Nota: complementar com o blog de 18 de novembro de 2015, “A cartilha do fundamentalismo”.