(535) Porque não sabemos o que não sabemos?
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Sabiam os dirigentes americanos que as bombas atómicas lançadas sobre cidades e civis japoneses teriam efeitos prolongados e mortíferos?
O envenenamento por radiação como "forma muito agradável de morrer", General Leslie R. Groves.
Ao entrar na II Guerra Mundial, todas as principais potências envolvidas faziam experiências com seres humanos.
Na sabedoria que fomos adquirindo ao longo do tempo (ou que nos foi sendo ensinada por quem cuida de nós), temos como normal e natural a existência de seres superiores, mais iluminados, que nos protegem, fontes do nosso bem-estar que têm dado forma à nossa sociedade. Seres especiais aos quais chegamos mesmo a atribuir características como o da infalibilidade. Não nos passa, portanto, pela cabeça que tomem decisões que nos possam vir a afetar, sem terem prévio conhecimento dos condicionantes e implicações envolvidas.
1# Quando os cientistas e decisores políticos americanos tomaram a decisão de utilizar as bombas atómicas sobre cidades japonesas, tinham eles conhecimento dos efeitos prolongados e mortíferos que elas produziriam, de certa forma análogos aos das armas químicas ou biológicas?
O historiador Sean L. Mallory num estudo publicado na Diplomatic History de 24 de abril de 2012, “ ‘A Very Pleasent Way to Die’: Radiation Effects and the Decision to Use the Atomic Bomb against Japan” (“Uma muito agradável maneira para morrer”: os efeitos da radiação e a decisão de usar a bomba atómica contra o Japão), vai debruçar-se sobre esta questão.
Segundo ele, do que se sabe sobre o conhecimento pré-Hiroxima existente nos Estados Unidos respeitante à maioria dos efeitos biológicos imediatos e a longo prazo da radiação nas vítimas, é que eles já eram previsíveis. Embora a compreensão da radioatividade entre os cientistas do Projeto Manhattan nessa altura estivesse longe de ser perfeita, já em 1940 existia uma extensa investigação realizada por cientistas e médicos, incluindo experiências em humanos e animais, que sugeria que a bomba produziria efeitos persistentes e letais.
Contudo, esse conhecimento desempenhou pouco ou nenhum papel na decisão de utilizar a bomba atómica. A política de compartimentação e sigilo imposta pelo diretor do Projeto Manhattan, General Leslie R. Groves, combinada com a determinação em construir a bomba antes dos nazis, fez com que poucos, mesmo dentro do próprio Projeto Manhattan, estivessem cientes ou interessados no crescente conjunto de conhecimentos sobre os efeitos da radioatividade libertada.
Parece que mesmo os altos dirigentes que tomaram as decisões finais sobre a bomba, incluindo o presidente Harry S. Truman, o secretário de Estado James F. Byrnes e o secretário da Guerra Henry L. Stimson, parece que nunca foram informados de que a arma continuaria a adoecer e a matar pessoas muito tempo depois da sua utilização. A Santa ignorância.
2# Esta aparente desconexão entre o conhecimento científico e a tomada de decisões políticas no que diz respeito à bomba atómica, continuou a observar-se na Guerra Fria, período em que os EUA e a União Soviética estavam a preparar-se para lutarem entre si nas ruínas pós-nucleares da Europa. Ambos os países realizaram exercícios militares com testes nucleares reais, pondo soldados a marcharem em direção a nuvens de cogumelos radioativas.
Num desses exercícios de treino conduzido pela União Soviética, denominado exercício nuclear de Totskoye (o Departamento de Defesa dos Estados Unidos tinha planos semelhantes, Operação Dropshot) foi realizado em 1954 no campo de treino de Totskoye, no Oblast de Orenburg, região sul da Rússia. A importância deste exercício vem do facto de ter sido o primeiro a utilizar armas nucleares como meio para conter e destruir as defesas da oposição numa guerra nuclear.
A localização da base militar foi especificamente escolhida porque a configuração da região era muito semelhante à da Europa Ocidental, que Georgy Zhukov (o general do exército responsável pelo treino) acreditava ser o local mais provável para o início da Terceira Guerra Mundial.
O treino militar começou com uma detonação nuclear para verificar os seus efeitos no armamento de guerra, nos animais e na estrutura de defesa já preparada, que simulava a formação de uma força inimiga.
O contingente envolveu aproximadamente 45.000 militares e 10.000 cidadãos de regiões locais. Uma das maiores consequências deste treino militar foram os numerosos casos de cancro, defeitos congénitos, mortalidade infantil, doenças hematológicas e anomalias cromossómicas, devido às medidas inadequadas tomadas pelas autoridades soviéticas ao informar os participantes sobre os métodos de defesa contra quantidades excessivas de radiação.
Nos EUA, também os militares foram informados de que poderiam enviar tropas "imediatamente" para as cidades atingidas pelas bombas atómicas, tendo mesmo o general Groves classificado os relatos de envenenamento por radiatividade em Hiroxima e Nagasaki como propaganda japonesa. Em novembro de 1945, quando o número de vítimas de radiação era impossível de negar, Groves atestou no Senado que o envenenamento por radiação era "uma forma muito agradável de morrer".
3# Durante a Guerra Fria várias outras experiências destrutivas foram conduzidas pelos governos sobre os seus próprios soldados e cidadãos.
Sabe-se, por uma investigação de 2024 do San Francisco Public Press e do The Guardian, que o Laboratório de Defesa Radiológica Naval dos EUA expôs pelo menos 1.073 pessoas à radiação em 24 experiências entre 1946 e 1963.
Os soldados recrutados e os voluntários civis foram colocados em ambientes radioativos ou propositadamente doseados com radiação sem o seu consentimento. O laboratório não se preocupou em monitorizar os efeitos na saúde a longo prazo. Na verdade, nem o governo se deu ao trabalho de manter os seus próprios resultados.
Outros exemplos: o do projeto MKUltra, o projeto da CIA com a finalidade de desenvolver procedimentos de controlo mental com recurso a drogas psicadélicas e tortura psicológica. Ou o da Operação Sea-Spray, em que a Marinha dos EUA pulverizou secretamente São Francisco, entre 1950 e 1960, com bactérias para simular um ataque biológico. Aliás, experiências similares verificaram-se também noutras cidades americanas até 1969, altura em que Richard Nixon proibiu a pesquisa de patogénicos para a guerra.
No blog de 30 de junho de 2021, “Sobre farinhas e sacos”, refiro que “ao entrar na II Guerra Mundial, quaisquer das principais potências envolvidas, faziam experiências com seres humanos. Os alemães recorriam normalmente a prisioneiros judeus, russos e polacos. Também em Porton Down, devido à escassez de soldados disponíveis, se utilizaram os cidadãos das potências do Eixo que tinham sido feitos prisioneiros. Contudo, já antes, vinham fazendo experiências com seres humanos desde os anos 30, quando expuseram durante 10 anos, 500 soldados indianos em calções e camisa de algodão, em câmaras de gás mostarda, o que só foi descoberto em 2007 (as “experiências de Rawalpindi”).
Os avanços alemães foram notáveis neste campo, tendo criado o primeiro pesticida sintético, o tabún, que para além de ser letal era inodoro e incolor, e ainda o célebre zyklon b que usaram para assassinar milhões de pessoas. As armas químicas que tinham em armazém chegavam às 44.000 toneladas.
Quantidades idênticas ou superiores deviam também ter os EUA: é significativo indicar que o Edgewood Arsenal do Chemical Corps do exército que dispunha em 1942 de um orçamento da ordem dos dois milhões de dólares empregando 1.000 trabalhadores, viu este orçamento durante o período entre as guerras ser aumentado para 1.000 milhões de dólares e 46.000 trabalhadores. Só o projeto para a construção da bomba atómica é que recebera mais recursos e pessoal.”
Cabe também referir o projeto secreto das Forças Armadas do Japão, conhecido como Unidade 731, que entre 1936 e 1945 se dedicou à pesquisa e desenvolvimento de armas biológicas e químicas, recorrendo a experiências letais em seres humanos, estimando-se que tenha provocado a morte de 200.000 pessoas, incluindo 10.000 prisioneiros de guerra. As experiências constavam de injeções de doenças, desidratação controlada, testes de armas biológicas, testes em câmara de pressão hipobárica, vivissecção, extração de órgãos, amputação e testes de armas padrão. As vítimas incluíam não só homens, mulheres (incluindo grávidas) e crianças raptadas, mas também bebés nascidos da violação sistemática perpetrada pela equipa dentro do complexo. Além disso, a Unidade 731 produziu armas biológicas que foram utilizadas em áreas da China não ocupadas pelas forças japonesas, o que incluía cidades e vilas chinesas, fontes de água e campos. Todos os prisioneiros dentro do complexo foram mortos para ocultar provas, e não houve sobreviventes documentados.
Só a 28 de agosto de 2002, é que o Tribunal Distrital de Tóquio decidiu admitir que o Japão tinha praticado guerra biológica na China e, consequentemente, era responsável pela morte de muitos residentes.
Tanto a União Soviética como os Estados Unidos recolheram dados da Unidade após a queda do Japão. Embora doze investigadores da Unidade 731 presos pelas forças soviéticas tenham sido presentes nos julgamentos de crimes de guerra de Khabarovsk, em Dezembro de 1949, foram condenados a penas leves de dois a 25 anos de prisão no campo de trabalho siberiano, em troca das informações que possuíam. A União Soviética construiu a sua instalação de armas biológicas em Sverdlovsk utilizando documentação capturada da Unidade na Manchúria. Aos investigadores capturados pelos militares norte-americanos foi-lhes secretamente concedida imunidade. O governo de Harry S. Truman ajudou a encobrir as experiências em humanos e concedeu bolsas aos perpetradores.
4# Contagens de mortos e desaparecidos em combate: Durante as negociações em Istambul, a Rússia ofereceu-se para entregar "unilateralmente" à Ucrânia os 6.000 corpos de militares das Forças Armadas da Ucrânia.
Esta oferta põe problemas significativos para o governo ucraniano. Primeiro porque reconhecer que os mortos são de facto soldados ucranianos será bastante dispendioso.
Depois, porque os mortos estão atualmente apenas listados como "desaparecidos" (o que é a prática usual em qualquer das Forças Armadas existentes). Se forem declarados mortos, as suas famílias terão direito a receber 15 milhões de hryvnias (UAH) (US$ 1 = UAH 41,50) cada (3 milhões de uma só vez e o restante ao longo de três anos e três meses).
Pelo que o regresso de seis mil corpos de militares mortos em combate custará 90 mil milhões de hryvnias (~2,2 mil milhões de dólares) em pagamentos do orçamento ucraniano. Isto representa quase 10% do orçamento militar da Ucrânia para todo o ano.
5# O historiador americano Ralph Raico (The Struggle for Liberty, A Libertarian History of Political Thought, 2004, pdf) vem dizer-nos que a propaganda moderna de guerra começou com "as histórias de atrocidades belgas de 1914, que foram talvez o primeiro grande sucesso de propaganda dos tempos modernos".
Referia-se à campanha britânica orquestrada para exagerar enormemente a agressão alemã na Bélgica e passar a mensagem de que os alemães eram uma raça bárbara, diferente dos civilizados franceses e britânicos da Europa. Baseava-se principalmente num relatório oficial do governo britânico conhecido como Relatório Bryce.
O relatório fazia inúmeras alegações infundadas sobre violações em massa, crianças com as mãos cortadas, freiras violadas e soldados canadianos crucificados à porta dos celeiros. Isto gerou horror e fanatismo antialemão em grande parte do mundo.
O problema é que era quase tudo baseado em mentiras. Eis o que Raico escreve:
“Qual é a história das atrocidades belgas? A história das atrocidades belgas é que foram falsificadas. Foram fabricadas. Eram falsas. As fotos foram tiradas em edifícios específicos conhecidos em Paris. Os cenários foram desenhados por designers para a ópera parisiense. As histórias foram inventadas do nada e disseminadas pela propaganda britânica como mais uma arma na guerra — especialmente na guerra pelas mentes dos países neutros. […] Isto vira grande parte da opinião pública contra os alemães.”
O regime britânico estava desesperado para que os americanos entrassem na guerra ao seu lado, e os britânicos não pouparam esforços nem despesas para os convencer de que estavam a combater um inimigo de maldade sem limites. O programa foi muito bem-sucedido. Raico observa que:
“um preconceito enraizado da classe política e da elite social americanas foi galvanizado pela propaganda britânica. A 5 de agosto de 1914, a Marinha Real cortou os cabos submarinos que ligavam os Estados Unidos à Alemanha. Agora, as notícias para os Estados Unidos tinham de ser canalizadas por Londres, onde os censores moldavam e aparavam as reportagens em benefício do seu governo. Eventualmente, o aparelho de propaganda britânico na Primeira Guerra Mundial tornou-se o maior jamais visto pelo mundo; mais tarde, serviu de modelo ao Ministro da Propaganda nazi, Josef Goebbels.
Philip Knightley escreveu que ‘os esforços britânicos para levar os Estados Unidos à guerra ao lado dos Aliados penetraram em todas as fases da vida americana. […] Foi um dos maiores esforços de propaganda da história, e foi conduzido tão bem e tão secretamente que pouco sobre ele surgiu até à véspera da Segunda Guerra Mundial, e a história completa ainda está por contar’.”