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Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

(533) “Mentir a coberto da verdade”

Tempo estimado de leitura: 4 minutos.

 

Ainda que o que se diga seja verdadeiro, os motivos porque o faço são falsos.

 

“Veem? Os pretos são assim!”

 

 Embora o discurso oficial cristão e democrático o negue, o fato é que comporta e suporta todas estas motivações admitidas na consciência, ainda que sob uma forma censurada.

 

A globalização já não é legitimada devido à superioridade ‘natural’ do Ocidente desenvolvido, nem por querermos preservar a nossa identidade cultural, mas única e exclusivamente por um egoísmo económico aceite pela maioria das classes trabalhadoras.

 

 

 

 

 Recentemente, nos bairros ‘desfavorecidos’ ou ‘problemáticos’ (eufemismo para os bairros em que os pobres e os refugiados se veem  obrigados a habitar) de Tor Sapieza em Roma e de San Siro em Milão (sim, onde está o estádio de futebol das grandes noites europeias), a polícia foi chamada a intervir perante o assalto e fogo posto levado a cabo pelos ‘antigos’ habitantes  desses bairros contra os ‘novos’ habitantes, os imigrantes refugiados estrangeiros colocados em centros de acolhimento e em acampamentos de nómadas.

 Para a esquerda tratava-se de uma questão de racismo, para a direita tratava-se da defesa da legalidade e da segurança.

 Situações como estas, que colocam pobres contra miseráveis, os que têm pouco contra os que não têm nada, trabalhadores públicos contra privados, novos sem trabalho contra velhos reformados, filhos contra pais, são indicativas de rutura social, que em muitos destes casos tem sido desejada, encorajada e programada.

 

 A quando do Katrina, Nova Orleães mergulhou num estado de selvajaria primitiva, em que os que por lá ficaram se viram de repente excluídos de qualquer ordem social. Pode-se mesmo dizer que durante alguns dias o poderoso governo americano, que tudo controla, perdeu o controlo de parte do seu território.

 Para a direita, esta desintegração da ordem social foi a confirmação da maldade da natureza humana que, sem um maior número de restrições e de imposições legais (policiais e outras), acabará por levar à queda no caos.

Uma vez que a enorme maioria dos que ficaram em Nova Orleães eram negros, o que se encontra subjacente a este pensamento da direita, é que na prática, entregues a si, os negros não são civilizados.

Para a esquerda, essa desintegração social é prova da persistência da divisão racial existente nos EUA. Da população total de Nova Orleães, cerca de 70% são negros, sendo simultaneamente os mais pobres, que exatamente por isso não tiveram meios para fugirem da cidade a tempo. Foram deixados para trás, sem alimentos e outros cuidados.

 Todas as informações, relatórios, imagens de televisão que descreveram a violência que se instalou, deram origem a histórias que circularam e chegaram a todos os lares. Subjacente a todas elas, muito embora fossem verdadeiras, encontrava-se sempre um elemento patológico e racista, para que no fim se pudesse dizer: “Veem? Os pretos são assim!”.

Como diz Zizek, trata-se de “mentir a coberto da verdade”:

 

Ainda que o que se diga seja verdadeiro, os motivos porque o faço são falsos.

 

Os meios de comunicação social podem e devem relatar todos os crimes e todos os factos com eles relacionados. Têm é de ter atenção para que a verdade fatual que apresentam não implique a transmissão de uma mentira a partir da posição subjetiva com que a enunciam.

Por exemplo: dizer que há casais de homossexuais ou de lésbicas que maltratam crianças, em vez de dizer que há casais que maltratam crianças; perguntarem a alguém que habitualmente utiliza transportes se concorda com aquela greve dos transportes, para obterem a resposta óbvia que insinue que as greves, embora legalmente sejam um direito que dizem não contestar, só provocam incómodos e nada resolvem; mostrarem a fealdade e dição incorreta de alguns elementos do povo logo seguida de bem-falantes apresentadores, locutores, comentadores de fato e gravata último modelo ou modelo a seguir; mostrar, como fizeram os documentaristas nazis, soldados africanos negros do exército francês, no campo de detenção onde se encontravam prisioneiros, a degolarem uma cabra para a comerem e a beberem o sangue; etc..

Outro exemplo muito atual: O The Guardian publicou um artigo de Rhiannon Lucy Cosslett intitulado "Enquanto as crianças de Gaza são bombardeadas e passam fome, nós assistimos — impotentes. O que é que isto nos está a fazer enquanto sociedade?", que é notável porque consegue ao longo de todo o artigo não mencionar a palavra "Israel" ou "israelita" uma única vez. Nem sequer Netanyahu.

É como que o que se passa em Gaza fosse uma espécie de tragédia infeliz que está a acontecer passivamente ao povo palestiniano, como se fosse um desastre natural ou algo do género. É como se as bombas e as guerras de cerco fossem apenas um fenómeno climatérico: "Hoje em Gaza temos bombardeamentos durante a parte da manhã e fome o dia todo!".

Outra forma de apresentar estas motivações ‘pretensamente’ escondidas sem as assumir, é de as invocar apenas como se tratasse de uma mera alternativa que será logo posta de parte.

Exemplo: aquele radialista norte-americano que propunha como solução para a diminuição da criminalidade, o aborto obrigatório das mães de todos os bebés pretos, concluindo que bem sabia que “se tratava de uma coisa ridiculamente impossível e moralmente condenável, mas que certamente levaria à diminuição da taxa de criminalidade”.

 

Embora o discurso oficial cristão e democrático o negue, o fato é que comporta e suporta todas estas motivações admitidas na consciência, ainda que sob uma forma censurada.

Quando a Espanha teve de enfrentar o problema de deter o grande número de imigrantes africanos que tentavam alcançar o seu território de Melila, na fronteira com Marrocos, a solução que adotou foi a da construção de um muro.

 Aliás, não é solução inédita, em vigor entre Israel e a Cisjordânia, entre os EUA e o México, e já utilizada pela Alemanha Oriental com o muro de Berlim (este para não permitir que as pessoas saíssem, os outros para não permitirem que as pessoas entrassem). A própria criação da força de polícias pan-europeia visava já garantir o isolamento da União Europeia perante o afluxo previsto da chegada de imigrantes.

 

Esta é a outra face da globalização, ou melhor, a sua verdadeira face: a construção de novos muros para proteger a Europa desta imigração. A circulação livre é apenas para o capital e para as coisas, sendo a circulação das pessoas cada vez mais controlada.

A globalização já não é legitimada devido à superioridade ‘natural’ do Ocidente desenvolvido, nem por querermos preservar a nossa identidade cultural, mas única e exclusivamente por um egoísmo económico sem vergonha aceite pela maioria das classes trabalhadoras.

Se atualmente preconizássemos o derrube dos muros e a abertura indiscriminada das fronteiras, as classes trabalhadoras locais seriam as primeiras a revoltarem-se, como indiciam os acontecimentos em Itália e muitos outros países.

 

 Põe-se, portanto, a questão de tentarmos saber como chegámos aqui:

Será que os seres humanos são de si racistas, xenófobos, antissemitas, ou será que temos sido conduzidos perante um processo de ‘domesticação’ (dir-se-á hoje ‘formatação’) social?

 

Nota: a completar no próximo blog com um exemplo do antissemitismo nazi, “As leis naturais sobre a raça”.

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