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Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

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Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

(532) Uranverein, o programa nuclear nazi

Tempo estimado de leitura; 5 minutos.

 

O programa nuclear nazi foi oficialmente estabelecido debaixo da supervisão militar a 1 de setembro de 1939.

 

As conclusões transmitidas a Albert Speer por Heisenberg foram que a fabricação de armas nucleares não seria possível antes de 1947.

 

Perto do fim da Guerra, os Aliados organizaram programas com vista à apreensão de cientistas alemães que tivessem trabalhado no programa nuclear.

 

 

 

O Projeto Manhattan foi o nome com que ficou conhecido o programa do governo americano para construir e lançar as primeiras bombas atómicas antes que os nazis o pudessem fazer. Esta pressa teve que ver com alguns desenvolvimentos importantes da altura, entre eles o facto de terem sido cientistas alemães (Otto Hahn e Fritz Strassmann) que a dezembro de 1938 descobriram a fissão nuclear obtida por bombardeamento do urânio através de neutrões, prevendo ainda a existência e libertação de neutrões adicionais durante o processo de fissão abrindo assim a possibilidade de uma reação nuclear em cadeia, e com uma carta do  físico húngaro Leo Szilard que Albert Einstein recebeu em agosto de 1939 e que enviou ao presidente Franklin Roosevelt, avisando-o que os alemães poderiam vir a desenvolver uma “bomba extremamente potente”.

Apesar de não estar envolvido na guerra (os EUA só entraram em guerra contra o Japão a partir de 7 de dezembro de 1941, após Pearl Harbor ser bombardeado, e contra a Alemanha após Hitler ter declarado guerra à América a 11 de dezembro de 1941), a 21 de outubro de 1939, Roosevelt deu ordens para a formação do Advisory Commitee on Uranium, que tendo concluído sobre a viabilidade do programa de armas nucleares iniciou de imediato o que ficou conhecido como o Projeto Manhattan.

 

Na Alemanha, após várias hesitações, o programa formal de armas nucleares que ficou conhecido como Uranverein, foi oficialmente estabelecido debaixo da supervisão militar a 1 de setembro de 1939, estranhamente coincidindo com a data apontada como a do início da 2ª Guerra Mundial.

Em junho de 1942, o importante Ministro dos Armamentos, Albert Speer, requer informações/atualizações sobre o andamento e desenvolvimento desse programa nuclear e sobre a possibilidade de se fabricarem armas nucleares. As conclusões que lhe foram transmitidas por Heisenberg foi que a fabricação de armas nucleares não seria possível antes de 1947, pelo que Speer decidiu pela reorganização do programa apenas tendo em vista a produção de energia. E assim se manteve.

 

Perto do fim da Guerra, os Aliados (todos eles, incluindo os russos, separadamente ou em conjuntos) organizaram programas com vista à apreensão de cientistas alemães que tivessem trabalhado no programa nuclear nazi. Por exemplo, a Operação Epsilon permitiu, entre 1 de maio e 30 de junho de 1945, a captura de 10 cientistas de topo, entre eles Werner Heisenberg, Otto Hahn, Karl Wirtz, Max von Laue, que foram levados para uma casa de campo do MI6 cheia de escutas, Farm Hall, em Godmanchester, perto de Cambridge, Inglaterra, onde permaneceram até 3 de janeiro de 1946. O objetivo era, entre outros, o de se saber através das conversas que tivessem entre eles, se os alemães tinham estado a construir uma bomba atómica.

 

De algumas transcrições registadas e vindas a público em 1992, ficou-se a saber que todos eles ficaram chocados quando foram informados sobre o lançamento de uma bomba atómica sobre Hiroxima, a 6 de agosto de 1945. Alguns duvidaram mesmo que a informação fosse genuína, especialmente na parte em que segundo o anúncio oficial se dizia que tinha sido lançada uma "bomba atómica" sobre Hiroxima. Harteck disse que teria compreendido as palavras "urânio" ou "bomba de fissão nuclear", mas que ele tinha trabalhado com hidrogénio atómico e oxigénio atómico e pensou que os cientistas americanos poderiam ter conseguido estabilizar uma elevada concentração de átomos (separados); tal bomba teria um poder dez vezes superior ao de uma bomba convencional.

Os cientistas refletiram então sobre como teria sido feita a bomba americana e porque é que a Alemanha não produziu nenhuma.  Sobre o fracasso do programa alemão em construir uma bomba atómica, Heisenberg comentou:

 

 "Não teríamos tido a coragem moral de recomendar ao governo, na Primavera de 1942, que empregassem 120.000 homens apenas para construir a coisa."

 

 As transcrições parecem indicar que os físicos, em particular Heisenberg, sobrestimaram a quantidade de urânio enriquecido que uma bomba atómica exigiria ou a exageraram conscientemente, e que o projeto alemão estava, na melhor das hipóteses, numa fase teórica muito inicial de pensamento sobre como as bombas atómicas funcionariam; aliás, estima-se que nunca teriam conseguido produzir a quantidade necessária nos quatro anos em que pretendiam criar uma bomba atómica. Heisenberg pensou especificamente que a quantidade de urânio 235 necessária na massa crítica era cerca de mil vezes superior à que faria explodir uma bomba atómica.

Alguns cientistas indicaram que estavam felizes por não terem conseguido construir uma bomba nuclear para Adolf Hitler, enquanto outros mais simpatizantes do partido nazi (Diebner e Gerlach) estavam consternados por terem falhado. Otto Hahn, um dos que estavam satisfeitos pelo facto de a Alemanha não ter construído uma bomba, repreendeu aqueles que tinham trabalhado no projeto alemão, dizendo:

 

 "Se os americanos têm uma bomba de urânio, então vocês são todos cientistas de segunda categoria."

 

Após ler as transcrições de Farm Hall, o historiador e físico americano Jeremy Bernstein concluiu:

 

Eles decidiram que fazer uma bomba na Alemanha durante a guerra não era possível quer sob o ponto de vista técnico quer económico. Era simplesmente demasiado grande e demasiado custoso. A moralidade nada tinha a ver com isso.

 

Em termos de recursos financeiros e humanos, as comparações entre o Projeto Manhattan e o Uranverein são relevantes. O Projeto Manhattan consumiu cerca de 2 mil milhões de dólares (1945, ~27 mil milhões de dólares em dólares de 2023) em fundos governamentais e empregou no seu auge cerca de 120.000 pessoas, principalmente nos setores da construção e das operações. No total, o Projeto Manhattan envolveu o trabalho de cerca de 500.000 pessoas, quase 1% de toda a força de trabalho civil dos EUA. Em comparação, o Uranverein foi orçamentado em apenas 8 milhões de reichsmarks, o equivalente a cerca de 2 milhões de dólares (1945, ~27 milhões de dólares em dólares de 2023) – um milésimo das despesas americanas.

Em termos de organização, leia-se o relatório constante do "Manhattan District History, Book 1, Volume 14, Foreign Intelligence Supplement No. 1" (PDF). 8 November 1948. p. S4.48:

 

“O plano geral de condução da investigação do assunto [desenvolvimento de uma arma atómica] seguiu, em alguns aspectos, um padrão empregado nos Estados Unidos. As tarefas de investigação foram distribuídas por vários grupos pequenos, geralmente de alguma universidade ou escola técnica, ou para empresas industriais especializadas numa ou mais atividades relacionadas. Entretanto, o esforço do inimigo carecia definitivamente de direção geral, unidade de propósito e coordenação entre as agências participantes. No início do esforço alemão, o problema do urânio foi abordado separadamente por vários grupos mais ou menos concorrentes. Havia um grupo sob o comando do Exército, outro sob o Instituto Kaiser-Wilhelm de Física e ainda outro sob o Departamento Postal. Entre estes grupos existiam disputas sobre o fornecimento de material e uma atitude pouco cooperativa na troca de informação. Os esforços de investigação do Departamento Postal foram poucos e não duraram muito tempo. Os dois primeiros grupos acima foram unificados em 1942, sob o Conselho de Investigação do Reich. No geral, resultados benéficos, do ponto de vista alemão, foram obtidos através desta unificação. Mas ainda existiam conflitos de jurisdição entre o Governo Alemão e os ramos do Serviço. Até às últimas fases da guerra, as dificuldades eram aparentes relativamente ao adiamento do pessoal científico do serviço militar. Muitos cientistas alemães trabalharam nas suas próprias linhas e não foram obrigados a trabalhar em projetos específicos. Não se acreditava que o desenvolvimento de armas atómicas fosse possível [durante a guerra].

Como consequência do exposto, o desenvolvimento da energia atómica na Alemanha não passou da fase laboratorial; a utilização para a produção de energia e não para explosivos foi a principal consideração; e, embora a ciência alemã estivesse interessada neste novo campo, outros objetivos científicos receberam maior atenção oficial.”

 

Parece, pois, poder concluir-se que embora os alemães tivessem todo o conhecimento científico para a produção da bomba atómica, não o fizeram, porquanto, para além do acima referido, dispensaram grande número de cientistas por serem ou parecerem judeus, não atribuíram grande importância à produção da bomba, uma vez que que as forças que tinham eram mais que suficientes para eliminarem a Rússia em 6 meses e nunca pensaram que poderiam perder a guerra.

 

Passos grandes demais para as pernas que tinham; sobrestimaram as próprias forças e subestimaram as do adversário. Muito boa propaganda (tão boa que eles próprios acreditaram nela) mas manta curta. Visão global estreita do mundo.

Tudo isto fez com que, na altura, nenhum dos objetivos propostos tivessem sido alcançados.

 

 

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