(530) Os piores dos cegos
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Temos tendência para nos apercebermos da realidade apenas dentro da moldura daquilo do que já experienciámos.
Convictos do seu excecionalismo e do seu sistema de “checks and balances”, não acreditam que tal possa ter lugar.
O velho mundo está a morrer, e o novo mundo luta para nascer: este é o tempo dos monstros, Antonio Gramsci.
Por volta do ano 50 a. C., o poeta filósofo romano Tito Lucrecio Caro, o tal a quem Ovídio proclamou como “sublime”, escreveu um longo tratado de filosofia, ciência, ética, Da Natureza das Coisas, (De rerum natura) onde para além de demonstrar que “nada nasce do nada”, que “nada volta ao nada”, que a alma está composta por elementos materiais e que por isso mesmo é mortal, explica como é a natureza e o movimento dos corpos celestes, o aparecimento e desenvolvimento dos seres orgânicos, o desenvolvimento das civilizações, e muito mais, e, para o caso que agora interessa, diz-nos que nós não podemos imaginar um rio que seja maior que o maior dos rios que pessoalmente tenhamos visto.
Ou seja, que os seres humanos têm dificuldade em imaginar e assimilar coisas que extrapolem as suas experiências pessoais. Temos tendência para nos apercebermos da realidade apenas dentro da moldura daquilo do que já experienciámos.
Curiosamente, a extensão do mesmo argumento vai ser utilizada no ano 1100 por Santo Anselmo para conseguir provar, ou não (segundo Gaunilo), a existência de alguma coisa maior do que ‘a qual nada pode ser pensado’ tanto no intelecto como na realidade” (blog de 5 de fevereiro de 2020, “As grandes controvérsias”).
Tem tudo isto ainda aplicação nos nossos tempos? Vejamos alguns exemplos recentes:
As grandes alterações no sistema da administração americana promovidas pelos decretos (ordens executivas) do presidente Trump, dificilmente poderão serem apercebidas pelos americanos como sendo um golpe de estado, dado que convictos do seu excecionalismo e do seu sistema de “checks and balances”, não acreditam que tal possa ter lugar.
O Presidente acredita ainda que pode comprar ou invadir o Canadá, a Groelândia, o Panamá, deslocar populações inteiras em Gaza para construir hotéis, enviar os imigrantes para Guantánamo e para prisões em El Salvador.
O mesmo parece estar a acontecer com Israel quando acredita que pode impunemente bombardear, matar à fome, eliminar todos os palestinos (e os que diz serem palestinos) que quiser em Gaza, na Cisjordânia, Líbano, no Irão, etc..
Recordemos Antonio Gramsci quando profetizava:
“O velho mundo está a morrer, e o novo mundo luta para nascer: este é o tempo dos monstros”.
Mas pode ser que tudo isto não passe de coincidência. Como a única exceção ao fecho total à imigração ilegal e legal em que Trump autorizou a concessão dos vistos para os Estados Unidos aos africânderes, os brancos que ele determinou serem uma minoria oprimida na África do Sul. Alegando falsamente que as suas terras foram confiscadas pelo governo sul-africano e que enfrentam genocídio, nomeou-os numa ordem executiva como "vítimas de discriminação racial injusta".
Nas redes sociais escreveu ainda:
“Qualquer Agricultor (com família!) da África do Sul que queira fugir daquele país por motivos de segurança, será convidado a entrar nos Estados Unidos da América com um caminho rápido para a cidadania”.
Talvez tenha sido por influência e intervenção da “mão invisível” de Elon Musk, seu copresidente, que além de ter nascido na era do Apartheid na África do Sul, “acarinha” teses racistas relativas à raça e inteligência.
Só por esquecimento se compreenderá que não tenha de igual modo estendido as concessões dos vistos de entrada para os EUA aos palestinos de Gaza, o que lhe permitiria resolver o problema da Riviera de Gaza.
A seu favor, e para vergonha da humanidade, nenhuma mão dos governos dos países árabes, da Rússia, da China, da Alemanha, da França, etc. se ergueu para acolher os palestinos. Como já antes acontecera com os barcos cheios de judeus fugidos da Alemanha que nenhum país queria receber. É a moldura em que vivemos.