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Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

(533) “Mentir a coberto da verdade”

Tempo estimado de leitura: 4 minutos.

 

Ainda que o que se diga seja verdadeiro, os motivos porque o faço são falsos.

 

“Veem? Os pretos são assim!”

 

 Embora o discurso oficial cristão e democrático o negue, o fato é que comporta e suporta todas estas motivações admitidas na consciência, ainda que sob uma forma censurada.

 

A globalização já não é legitimada devido à superioridade ‘natural’ do Ocidente desenvolvido, nem por querermos preservar a nossa identidade cultural, mas única e exclusivamente por um egoísmo económico aceite pela maioria das classes trabalhadoras.

 

 

 

 

 Recentemente, nos bairros ‘desfavorecidos’ ou ‘problemáticos’ (eufemismo para os bairros em que os pobres e os refugiados se veem  obrigados a habitar) de Tor Sapieza em Roma e de San Siro em Milão (sim, onde está o estádio de futebol das grandes noites europeias), a polícia foi chamada a intervir perante o assalto e fogo posto levado a cabo pelos ‘antigos’ habitantes  desses bairros contra os ‘novos’ habitantes, os imigrantes refugiados estrangeiros colocados em centros de acolhimento e em acampamentos de nómadas.

 Para a esquerda tratava-se de uma questão de racismo, para a direita tratava-se da defesa da legalidade e da segurança.

 Situações como estas, que colocam pobres contra miseráveis, os que têm pouco contra os que não têm nada, trabalhadores públicos contra privados, novos sem trabalho contra velhos reformados, filhos contra pais, são indicativas de rutura social, que em muitos destes casos tem sido desejada, encorajada e programada.

 

 A quando do Katrina, Nova Orleães mergulhou num estado de selvajaria primitiva, em que os que por lá ficaram se viram de repente excluídos de qualquer ordem social. Pode-se mesmo dizer que durante alguns dias o poderoso governo americano, que tudo controla, perdeu o controlo de parte do seu território.

 Para a direita, esta desintegração da ordem social foi a confirmação da maldade da natureza humana que, sem um maior número de restrições e de imposições legais (policiais e outras), acabará por levar à queda no caos.

Uma vez que a enorme maioria dos que ficaram em Nova Orleães eram negros, o que se encontra subjacente a este pensamento da direita, é que na prática, entregues a si, os negros não são civilizados.

Para a esquerda, essa desintegração social é prova da persistência da divisão racial existente nos EUA. Da população total de Nova Orleães, cerca de 70% são negros, sendo simultaneamente os mais pobres, que exatamente por isso não tiveram meios para fugirem da cidade a tempo. Foram deixados para trás, sem alimentos e outros cuidados.

 Todas as informações, relatórios, imagens de televisão que descreveram a violência que se instalou, deram origem a histórias que circularam e chegaram a todos os lares. Subjacente a todas elas, muito embora fossem verdadeiras, encontrava-se sempre um elemento patológico e racista, para que no fim se pudesse dizer: “Veem? Os pretos são assim!”.

Como diz Zizek, trata-se de “mentir a coberto da verdade”:

 

Ainda que o que se diga seja verdadeiro, os motivos porque o faço são falsos.

 

Os meios de comunicação social podem e devem relatar todos os crimes e todos os factos com eles relacionados. Têm é de ter atenção para que a verdade fatual que apresentam não implique a transmissão de uma mentira a partir da posição subjetiva com que a enunciam.

Por exemplo: dizer que há casais de homossexuais ou de lésbicas que maltratam crianças, em vez de dizer que há casais que maltratam crianças; perguntarem a alguém que habitualmente utiliza transportes se concorda com aquela greve dos transportes, para obterem a resposta óbvia que insinue que as greves, embora legalmente sejam um direito que dizem não contestar, só provocam incómodos e nada resolvem; mostrarem a fealdade e dição incorreta de alguns elementos do povo logo seguida de bem-falantes apresentadores, locutores, comentadores de fato e gravata último modelo ou modelo a seguir; mostrar, como fizeram os documentaristas nazis, soldados africanos negros do exército francês, no campo de detenção onde se encontravam prisioneiros, a degolarem uma cabra para a comerem e a beberem o sangue; etc..

Outro exemplo muito atual: O The Guardian publicou um artigo de Rhiannon Lucy Cosslett intitulado "Enquanto as crianças de Gaza são bombardeadas e passam fome, nós assistimos — impotentes. O que é que isto nos está a fazer enquanto sociedade?", que é notável porque consegue ao longo de todo o artigo não mencionar a palavra "Israel" ou "israelita" uma única vez. Nem sequer Netanyahu.

É como que o que se passa em Gaza fosse uma espécie de tragédia infeliz que está a acontecer passivamente ao povo palestiniano, como se fosse um desastre natural ou algo do género. É como se as bombas e as guerras de cerco fossem apenas um fenómeno climatérico: "Hoje em Gaza temos bombardeamentos durante a parte da manhã e fome o dia todo!".

Outra forma de apresentar estas motivações ‘pretensamente’ escondidas sem as assumir, é de as invocar apenas como se tratasse de uma mera alternativa que será logo posta de parte.

Exemplo: aquele radialista norte-americano que propunha como solução para a diminuição da criminalidade, o aborto obrigatório das mães de todos os bebés pretos, concluindo que bem sabia que “se tratava de uma coisa ridiculamente impossível e moralmente condenável, mas que certamente levaria à diminuição da taxa de criminalidade”.

 

Embora o discurso oficial cristão e democrático o negue, o fato é que comporta e suporta todas estas motivações admitidas na consciência, ainda que sob uma forma censurada.

Quando a Espanha teve de enfrentar o problema de deter o grande número de imigrantes africanos que tentavam alcançar o seu território de Melila, na fronteira com Marrocos, a solução que adotou foi a da construção de um muro.

 Aliás, não é solução inédita, em vigor entre Israel e a Cisjordânia, entre os EUA e o México, e já utilizada pela Alemanha Oriental com o muro de Berlim (este para não permitir que as pessoas saíssem, os outros para não permitirem que as pessoas entrassem). A própria criação da força de polícias pan-europeia visava já garantir o isolamento da União Europeia perante o afluxo previsto da chegada de imigrantes.

 

Esta é a outra face da globalização, ou melhor, a sua verdadeira face: a construção de novos muros para proteger a Europa desta imigração. A circulação livre é apenas para o capital e para as coisas, sendo a circulação das pessoas cada vez mais controlada.

A globalização já não é legitimada devido à superioridade ‘natural’ do Ocidente desenvolvido, nem por querermos preservar a nossa identidade cultural, mas única e exclusivamente por um egoísmo económico sem vergonha aceite pela maioria das classes trabalhadoras.

Se atualmente preconizássemos o derrube dos muros e a abertura indiscriminada das fronteiras, as classes trabalhadoras locais seriam as primeiras a revoltarem-se, como indiciam os acontecimentos em Itália e muitos outros países.

 

 Põe-se, portanto, a questão de tentarmos saber como chegámos aqui:

Será que os seres humanos são de si racistas, xenófobos, antissemitas, ou será que temos sido conduzidos perante um processo de ‘domesticação’ (dir-se-á hoje ‘formatação’) social?

 

Nota: a completar no próximo blog com um exemplo do antissemitismo nazi, “As leis naturais sobre a raça”.

(532) Uranverein, o programa nuclear nazi

Tempo estimado de leitura; 5 minutos.

 

O programa nuclear nazi foi oficialmente estabelecido debaixo da supervisão militar a 1 de setembro de 1939.

 

As conclusões transmitidas a Albert Speer por Heisenberg foram que a fabricação de armas nucleares não seria possível antes de 1947.

 

Perto do fim da Guerra, os Aliados organizaram programas com vista à apreensão de cientistas alemães que tivessem trabalhado no programa nuclear.

 

 

 

O Projeto Manhattan foi o nome com que ficou conhecido o programa do governo americano para construir e lançar as primeiras bombas atómicas antes que os nazis o pudessem fazer. Esta pressa teve que ver com alguns desenvolvimentos importantes da altura, entre eles o facto de terem sido cientistas alemães (Otto Hahn e Fritz Strassmann) que a dezembro de 1938 descobriram a fissão nuclear obtida por bombardeamento do urânio através de neutrões, prevendo ainda a existência e libertação de neutrões adicionais durante o processo de fissão abrindo assim a possibilidade de uma reação nuclear em cadeia, e com uma carta do  físico húngaro Leo Szilard que Albert Einstein recebeu em agosto de 1939 e que enviou ao presidente Franklin Roosevelt, avisando-o que os alemães poderiam vir a desenvolver uma “bomba extremamente potente”.

Apesar de não estar envolvido na guerra (os EUA só entraram em guerra contra o Japão a partir de 7 de dezembro de 1941, após Pearl Harbor ser bombardeado, e contra a Alemanha após Hitler ter declarado guerra à América a 11 de dezembro de 1941), a 21 de outubro de 1939, Roosevelt deu ordens para a formação do Advisory Commitee on Uranium, que tendo concluído sobre a viabilidade do programa de armas nucleares iniciou de imediato o que ficou conhecido como o Projeto Manhattan.

 

Na Alemanha, após várias hesitações, o programa formal de armas nucleares que ficou conhecido como Uranverein, foi oficialmente estabelecido debaixo da supervisão militar a 1 de setembro de 1939, estranhamente coincidindo com a data apontada como a do início da 2ª Guerra Mundial.

Em junho de 1942, o importante Ministro dos Armamentos, Albert Speer, requer informações/atualizações sobre o andamento e desenvolvimento desse programa nuclear e sobre a possibilidade de se fabricarem armas nucleares. As conclusões que lhe foram transmitidas por Heisenberg foi que a fabricação de armas nucleares não seria possível antes de 1947, pelo que Speer decidiu pela reorganização do programa apenas tendo em vista a produção de energia. E assim se manteve.

 

Perto do fim da Guerra, os Aliados (todos eles, incluindo os russos, separadamente ou em conjuntos) organizaram programas com vista à apreensão de cientistas alemães que tivessem trabalhado no programa nuclear nazi. Por exemplo, a Operação Epsilon permitiu, entre 1 de maio e 30 de junho de 1945, a captura de 10 cientistas de topo, entre eles Werner Heisenberg, Otto Hahn, Karl Wirtz, Max von Laue, que foram levados para uma casa de campo do MI6 cheia de escutas, Farm Hall, em Godmanchester, perto de Cambridge, Inglaterra, onde permaneceram até 3 de janeiro de 1946. O objetivo era, entre outros, o de se saber através das conversas que tivessem entre eles, se os alemães tinham estado a construir uma bomba atómica.

 

De algumas transcrições registadas e vindas a público em 1992, ficou-se a saber que todos eles ficaram chocados quando foram informados sobre o lançamento de uma bomba atómica sobre Hiroxima, a 6 de agosto de 1945. Alguns duvidaram mesmo que a informação fosse genuína, especialmente na parte em que segundo o anúncio oficial se dizia que tinha sido lançada uma "bomba atómica" sobre Hiroxima. Harteck disse que teria compreendido as palavras "urânio" ou "bomba de fissão nuclear", mas que ele tinha trabalhado com hidrogénio atómico e oxigénio atómico e pensou que os cientistas americanos poderiam ter conseguido estabilizar uma elevada concentração de átomos (separados); tal bomba teria um poder dez vezes superior ao de uma bomba convencional.

Os cientistas refletiram então sobre como teria sido feita a bomba americana e porque é que a Alemanha não produziu nenhuma.  Sobre o fracasso do programa alemão em construir uma bomba atómica, Heisenberg comentou:

 

 "Não teríamos tido a coragem moral de recomendar ao governo, na Primavera de 1942, que empregassem 120.000 homens apenas para construir a coisa."

 

 As transcrições parecem indicar que os físicos, em particular Heisenberg, sobrestimaram a quantidade de urânio enriquecido que uma bomba atómica exigiria ou a exageraram conscientemente, e que o projeto alemão estava, na melhor das hipóteses, numa fase teórica muito inicial de pensamento sobre como as bombas atómicas funcionariam; aliás, estima-se que nunca teriam conseguido produzir a quantidade necessária nos quatro anos em que pretendiam criar uma bomba atómica. Heisenberg pensou especificamente que a quantidade de urânio 235 necessária na massa crítica era cerca de mil vezes superior à que faria explodir uma bomba atómica.

Alguns cientistas indicaram que estavam felizes por não terem conseguido construir uma bomba nuclear para Adolf Hitler, enquanto outros mais simpatizantes do partido nazi (Diebner e Gerlach) estavam consternados por terem falhado. Otto Hahn, um dos que estavam satisfeitos pelo facto de a Alemanha não ter construído uma bomba, repreendeu aqueles que tinham trabalhado no projeto alemão, dizendo:

 

 "Se os americanos têm uma bomba de urânio, então vocês são todos cientistas de segunda categoria."

 

Após ler as transcrições de Farm Hall, o historiador e físico americano Jeremy Bernstein concluiu:

 

Eles decidiram que fazer uma bomba na Alemanha durante a guerra não era possível quer sob o ponto de vista técnico quer económico. Era simplesmente demasiado grande e demasiado custoso. A moralidade nada tinha a ver com isso.

 

Em termos de recursos financeiros e humanos, as comparações entre o Projeto Manhattan e o Uranverein são relevantes. O Projeto Manhattan consumiu cerca de 2 mil milhões de dólares (1945, ~27 mil milhões de dólares em dólares de 2023) em fundos governamentais e empregou no seu auge cerca de 120.000 pessoas, principalmente nos setores da construção e das operações. No total, o Projeto Manhattan envolveu o trabalho de cerca de 500.000 pessoas, quase 1% de toda a força de trabalho civil dos EUA. Em comparação, o Uranverein foi orçamentado em apenas 8 milhões de reichsmarks, o equivalente a cerca de 2 milhões de dólares (1945, ~27 milhões de dólares em dólares de 2023) – um milésimo das despesas americanas.

Em termos de organização, leia-se o relatório constante do "Manhattan District History, Book 1, Volume 14, Foreign Intelligence Supplement No. 1" (PDF). 8 November 1948. p. S4.48:

 

“O plano geral de condução da investigação do assunto [desenvolvimento de uma arma atómica] seguiu, em alguns aspectos, um padrão empregado nos Estados Unidos. As tarefas de investigação foram distribuídas por vários grupos pequenos, geralmente de alguma universidade ou escola técnica, ou para empresas industriais especializadas numa ou mais atividades relacionadas. Entretanto, o esforço do inimigo carecia definitivamente de direção geral, unidade de propósito e coordenação entre as agências participantes. No início do esforço alemão, o problema do urânio foi abordado separadamente por vários grupos mais ou menos concorrentes. Havia um grupo sob o comando do Exército, outro sob o Instituto Kaiser-Wilhelm de Física e ainda outro sob o Departamento Postal. Entre estes grupos existiam disputas sobre o fornecimento de material e uma atitude pouco cooperativa na troca de informação. Os esforços de investigação do Departamento Postal foram poucos e não duraram muito tempo. Os dois primeiros grupos acima foram unificados em 1942, sob o Conselho de Investigação do Reich. No geral, resultados benéficos, do ponto de vista alemão, foram obtidos através desta unificação. Mas ainda existiam conflitos de jurisdição entre o Governo Alemão e os ramos do Serviço. Até às últimas fases da guerra, as dificuldades eram aparentes relativamente ao adiamento do pessoal científico do serviço militar. Muitos cientistas alemães trabalharam nas suas próprias linhas e não foram obrigados a trabalhar em projetos específicos. Não se acreditava que o desenvolvimento de armas atómicas fosse possível [durante a guerra].

Como consequência do exposto, o desenvolvimento da energia atómica na Alemanha não passou da fase laboratorial; a utilização para a produção de energia e não para explosivos foi a principal consideração; e, embora a ciência alemã estivesse interessada neste novo campo, outros objetivos científicos receberam maior atenção oficial.”

 

Parece, pois, poder concluir-se que embora os alemães tivessem todo o conhecimento científico para a produção da bomba atómica, não o fizeram, porquanto, para além do acima referido, dispensaram grande número de cientistas por serem ou parecerem judeus, não atribuíram grande importância à produção da bomba, uma vez que que as forças que tinham eram mais que suficientes para eliminarem a Rússia em 6 meses e nunca pensaram que poderiam perder a guerra.

 

Passos grandes demais para as pernas que tinham; sobrestimaram as próprias forças e subestimaram as do adversário. Muito boa propaganda (tão boa que eles próprios acreditaram nela) mas manta curta. Visão global estreita do mundo.

Tudo isto fez com que, na altura, nenhum dos objetivos propostos tivessem sido alcançados.

 

 

(531) As bombinhas atómicas pequeninas

Tempo estimado de leitura: 6 minutos.

 

Em março de 1955, os Estados Unidos colocaram as primeiras armas atómicas na Alemanha Ocidental.

 

A 5 de abril de 1957, o chanceler Konrad Adenauer, num comunicado de imprensa, classificou as armas nucleares táticas como “armas especialmente inofensivas”.

 

Acreditamos que um país pequeno como a República Federal da Alemanha está mais bem protegido e a paz mundial mais protegida quando as armas nucleares de qualquer tipo são proibidas, Manifesto de Göttingen.

 

 

 

 

Terminada a Segunda Guerra Mundial, começa a Guerra Fria entre as grandes superpotências, Estados Unidos e União Soviética. Com o aparecimento e Pequenaprodução das bombas de hidrogénio que quase se lhe seguiu, torna-se óbvio para todos o potencial exorbitante que essas duas potências possuíam entre si com capacidade para isoladamente poderem destruir o mundo. Começou-se a viver no grande receio de uma guerra nuclear.

Na altura, a Alemanha encontrava-se dividida em dois estados, sendo ambos estados fronteiriços na Guerra Fria. Em maio de 1955, a Alemanha Ocidental tornou-se uma nação soberana e aderiu à NATO. Apesar dos muitos protestos contra a sua remilitarização, fundou o seu próprio exército, o Bundeswehr. Em 1956, a Alemanha de Leste seguiu-lhe o exemplo e fundou também o seu próprio exército, o Nationale Volksarmee (NVA).

Terminada a Guerra da Coreia, o foco dos EUA muda para a Europa. Através da NATO, os Estados Unidos vão em março de 1955 implantar as suas primeiras armas nucleares na Alemanha Ocidental. Isto conduziu no decorrer do ano de 1956 ao aparecimento de propostas para que o recém-criado exército da Alemanha Ocidental fosse igualmente equipado com idênticas capacidades. Franz Josef Strauss, Ministro Federal da Energia Nuclear em 1955 e Ministro da Defesa em 1956, foi encarregado de desenvolver e capacitar as forças de defesa da Alemanha Ocidental.

É então que vários físicos nucleares alemães tentaram sem sucesso dissuadir os políticos alemães da inclusão de armas nucleares. A 5 de abril de 1957, o chanceler Konrad Adenauer, num comunicado de imprensa, classificou as armas nucleares táticas como sendo “armas especialmente inofensivas”.

A 12 de abril de 1957, 18 importantes cientistas nucleares da Alemanha Ocidental (entre eles os Prémios Nobel Otto Hahn, Max Born, Werner Heisenberg e Max von Laue) escrevem, o que ficou conhecido como o Manifesto de Göttingen, contra o armamento do exército da Alemanha Ocidental com armas nucleares táticas:

 

Os investigadores nucleares abaixo assinados estão profundamente preocupados com os planos para equipar as Forças Armadas da República Federal da Alemanha (Bundeswehr) com armas nucleares. Alguns de nós expressámos as nossas preocupações há alguns meses ao ministro federal responsável. Hoje em dia, o debate sobre esta questão tornou-se do conhecimento geral. Os abaixo assinados sentem-se, por isso, na obrigação de falar sobre factos conhecidos pelos especialistas, mas que parecem ser insuficientemente conhecidos pelo público.

 

1) As armas nucleares táticas têm o mesmo efeito destrutivo que as bombas atómicas normais. São "táticas" apenas na medida em que são aplicadas não só em residências civis, mas também em tropas terrestres. Cada arma nuclear tática tem um efeito semelhante ao da primeira bomba atómica que destruiu Hiroxima. Como as armas nucleares táticas estão disponíveis em números significativos, o seu efeito destrutivo é, no geral, muito maior. São apenas "pequenas" em comparação com as bombas recentemente desenvolvidas, principalmente a bomba de hidrogénio.

 

2) Não existe um limite natural para o desenvolvimento de efeitos fatais de armas nucleares estratégicas. Hoje, uma arma nuclear tática pode destruir uma pequena cidade, e uma bomba de hidrogénio pode tornar uma região inteira, como o Vale do Ruhr, inabitável. Hoje em dia, é provavelmente possível exterminar toda a população da Alemanha Ocidental com a radioatividade das bombas de hidrogénio. Não conhecemos meios técnicos para proteger uma grande população desta ameaça.

 

Percebemos quão difícil é prever as consequências políticas destes factos. Como somos apolíticos, ninguém espera que o façamos. A nossa profissão, ou seja, a ciência pura e a sua aplicação, através da qual trazemos muitos jovens para o nosso grupo, deixa-nos com a responsabilidade pelos potenciais efeitos dessas ações. Por isso, não podemos permanecer em silêncio perante todas as questões políticas. Alinhamo-nos com a liberdade que o mundo ocidental representa contra o comunismo. Não podemos negar que o medo da bomba H contribui para a manutenção da paz no mundo inteiro e da liberdade em parte do mundo. No entanto, esta forma de paz e liberdade é insustentável a longo prazo, e o colapso desta situação é potencialmente mortal. Não temos experiência para fazer sugestões políticas concretas às superpotências. Acreditamos que um país pequeno como a República Federal da Alemanha está mais bem protegido e a paz mundial mais protegida quando as armas nucleares de qualquer tipo são proibidas. Em qualquer caso, nenhum dos signatários está preparado para participar na criação, teste ou implantação de qualquer tipo de arma nuclear. Ao mesmo tempo, sentimos que é extremamente importante continuarmos a trabalhar em conjunto no desenvolvimento pacífico da energia nuclear.

Assinam:

Fritz Bopp, Max Born, Rudolf Fleischmann, Walther Gerlach, Otto Hahn, Otto Haxel, Werner Heisenberg, Hans Kopfermann, Max v. V. Weizsäcker, Karl Wirtz.

 

 

Preocupados com o aumento exponencial e com a disseminação desconhecida das bombas nucleares, os investigadores americanos Robert S. Norris, William M. Arkin e William Burr, resolveram pedir ao governo essa informação ao abrigo do Freedom of Information Act. A resposta veio na forma de um documento oficial intitulado History of the Custody and Deplacement of Nuclear Weapons: July 1945 through Setember 1977, que os autores verteram para um artigo publicado em The Bulletin of the Atomic Scientists de Nov/Dez 1999, intitulado “Where they were” (Onde é que elas estão) que, embora datado, vale a pena conhecer.

Note-se que a resposta oficial além de demonstrar como os EUA desenvolveram a sua estratégia de potência hegemónica através, neste caso, da utilização das suas bases militares e armamento atómico em todo o mundo, referencia também alguns dos incidentes e acidentes graves na persecução desses objetivos, bem como dos procedimentos seguidos nessa afirmação de hegemonia.

 

O documento veio dar a conhecer até 1977 os nomes de nove locais onde as bombas foram colocadas, nomeadamente Alasca, Cuba, Guam, Havai, Ilha de Johnston, Midway, Porto Rico, Grã-Bretanha Alemanha Ocidental e de outros 18 locais considerados sensíveis.

A autorização para a deslocação para fora dos EUA de conjuntos de bombas nucleares foi dada pela primeira vez a 11 de junho de 1950 pelo presidente Harry Truman: 89 conjuntos de bombas nucleares para a Grã-Bretanha para apoiar o Comando Aéreo Estratégico (SAC) - unidades de bombardeiros estratégicos.

A 1 de julho desse ano, Truman deu mais um passo em direção a uma dispersão mais ampla, autorizando alguns componentes a serem implantados em Guam, e ainda outros 15 conjuntos para serem armazenados a bordo do porta-aviões Mar de Coral, que se dirigia para o Mediterrâneo.

Segue-se a janeiro de 1952, autorização para o armazenamento de mais conjuntos para as bases do SAC de Bem Guerir, Nouasseur e Sim Slimane no Marrocos francês, onde se encontravam colocados os bombardeiros B-36 e B-47. O governo francês não foi informado.

Em abril de 1954, o presidente concedeu autorização para a colocação de armas completas na Grã-Bretanha e Marrocos, seguindo-se entre 1954 e 1963, mais oito países da Nato (Alemanha Ocidental, março de 1955; Itália, abril de 1957; França, agosto de 1958; Turquia, fevereiro de 1959; Holanda, abril de 1960; Grécia, outubro de 1960; Bélgica, novembro de 1963).

 

A Alemanha armazenou de longe (mais de 3500) o maior número de armas nucleares da NATO. Guam, um território americano no Pacífico, tinha 20 tipos diferentes armazenados, mas os números eram muito inferiores aos da Alemanha. A ilha japonesa de Okinawa acolheu 19 tipos diferentes durante o período de 1954-72, mas em nenhum momento foram mais do que de 1.000 ogivas.

Estas armas começaram a ser introduzidas na NATO em 1955, alcançando quase 3.000 em 1960. Este número duplicou para 6.000 em 1965. O número de armas nucleares dos EUA na Europa da NATO atingiu o seu pico em 1971, com aproximadamente 7.300.

 

Para as áreas consideradas politicamente sensíveis, o documento acrescenta pormenores sobre destacamentos e ogivas retiradas, nomeadamente do Japão, Gronelândia, Islândia e Taiwan.

Japão: Os Estados Unidos removeram componentes de bombas em meados de 1965, mais de uma década após a sua implantação inicial. As circunstâncias precisas da retirada permanecem classificadas. Durante o final da década de 1950, o Pentágono tinha esperado curar os japoneses da sua "alergia nuclear" para que pudessem aceitar o armazenamento contínuo de armas nucleares no seu território. Mas em 1965, as autoridades do Pentágono aparentemente decidiram que a alergia era muito difícil de curar. Em qualquer caso, os bombardeiros e os navios de guerra continuaram a utilizar bases e instalações portuárias no Japão para transporte de rotina de armas nucleares.

O Japão não foi a única nação que exigiu tratamento especial para a implantação de armas nucleares. A Dinamarca teve uma política de proibição de implantação de armas nucleares dentro das suas fronteiras. Esta política também cobria a Gronelândia, uma colónia dinamarquesa, que rotineiramente os bombardeiros americanos armados com armas nucleares sobrevoavam.

 Contudo, só em 1994, é que investigadores dinamarqueses descobriram que esses sobrevoos aconteceram realmente. Publicado na imprensa dinamarquesa, foi fonte de grande constrangimento para os governos de ambos os países. Em 29 de junho,1995, o governo dinamarquês enviou uma informação de quatro páginas para o parlamento dinamarquês. Nele, o governo admitiu que os aviões com armas nucleares tinham sobrevado a Gronelândia, mas concluiu que os Estados Unidos agiram em boa fé.

Em 1993 e 1994, os registos desclassificados da força aérea americana tornaram possível documentar pela primeira vez que os bombardeiros armados dos EUA voavam rotineiramente sobre a Gronelândia durante a década de 1960. E que, inclusivamente em 1968, um bombardeiro B-52 caiu na calota de gelo da Gronelândia com quatro bombas nucleares a bordo.

Após esta divulgação, o governo dinamarquês recebeu informações adicionais do Estados Unidos sobre a implantação de armas nucleares no território. Estas informações revelaram que de 1958 a 1965 os Estados Unidos mantiveram armas nucleares na Base Aérea de Thule, na Gronelândia.

 

A história da colocação de bombas nucleares não acaba aqui. Em abril de 1999, a NATO declarou (“Conceito estratégico”) que as suas forças nucleares consistiam em "aeronaves de dupla capacidade e um pequeno número de ogivas Tridente do Reino Unido”. As aeronaves permanecem em 10 bases aéreas de sete países europeus, não sendo oficialmente reconhecidos e permanecendo a sua localização em segredo, não tendo como alvo nenhum país.

 

A 22 de julho de 2010, os National Archives publicam o “Statement of William Burr” em que vieram reconhecer a desclassificação de arquivos relativos aos 25 anos da instalação das armas nucleares dos EUA no mundo.

 

 

 

Recomendações:

blog de 22 de junho de 2016, “A mulher de César

blog de 8 de junho de 2022, “Prometeu realizado”

blog de 15 de junho de 2022, “Clayde Eatherly Dreyfus Assange

blog de 31 de julho de 2024, “Acreditar em anjos é muito mais inofensivo”.

Blog de 1 de março de 2023, “A ecologia apocalítica dos balões

Blog de 8 de março de 2023, “A hegemonia americana não aconteceu”.

(530) Os piores dos cegos

Tempo estimado de leitura: 3 minutos.

 

Temos tendência para nos apercebermos da realidade apenas dentro da moldura daquilo do que já experienciámos.

 

Convictos do seu excecionalismo e do seu sistema de “checks and balances”, não acreditam que tal possa ter lugar.

 

O velho mundo está a morrer, e o novo mundo luta para nascer: este é o tempo dos monstros, Antonio Gramsci.

 

 

 

Por volta do ano 50 a. C., o poeta filósofo romano Tito Lucrecio Caro, o tal a quem Ovídio proclamou como “sublime”, escreveu um longo tratado de filosofia, ciência, ética, Da Natureza das Coisas, (De rerum natura) onde para além de demonstrar que “nada nasce do nada”, que “nada volta ao nada”, que a alma está composta por elementos materiais e que por isso mesmo é mortal, explica como é a natureza e o movimento dos corpos celestes, o aparecimento e desenvolvimento dos seres orgânicos, o desenvolvimento das civilizações, e muito mais, e, para o caso que agora interessa, diz-nos que nós não podemos imaginar um rio que seja maior que o maior dos rios que pessoalmente tenhamos visto.

Ou seja, que os seres humanos têm dificuldade em imaginar e assimilar coisas que extrapolem as suas experiências pessoais. Temos tendência para nos apercebermos da realidade apenas dentro da moldura daquilo do que já experienciámos.

 

Curiosamente, a extensão do mesmo argumento vai ser utilizada no ano 1100 por Santo Anselmo para conseguir provar, ou não (segundo Gaunilo), a  existência de alguma coisa maior do que ‘a qual nada pode ser pensado’ tanto no intelecto como na realidade” (blog de 5 de fevereiro de 2020, “As grandes controvérsias”).

 

 Tem tudo isto ainda aplicação nos nossos tempos? Vejamos alguns exemplos recentes:

 

As grandes alterações no sistema da administração americana promovidas pelos decretos (ordens executivas) do presidente Trump, dificilmente poderão serem apercebidas pelos americanos como sendo um golpe de estado, dado que convictos do seu excecionalismo e do seu sistema de “checks and balances”, não acreditam que tal possa ter lugar.

O Presidente acredita ainda que pode comprar ou invadir o Canadá, a Groelândia, o Panamá, deslocar populações inteiras em Gaza para construir hotéis, enviar os imigrantes para Guantánamo e para prisões em El Salvador.

O mesmo parece estar a acontecer com Israel quando acredita que pode impunemente bombardear, matar à fome, eliminar todos os palestinos (e os que diz serem palestinos) que quiser em Gaza, na Cisjordânia, Líbano, no Irão, etc..

 

Recordemos Antonio Gramsci quando profetizava:

 

O velho mundo está a morrer, e o novo mundo luta para nascer: este é o tempo dos monstros”.

 

Mas pode ser que tudo isto não passe de coincidência. Como a única exceção ao fecho total à imigração ilegal e legal em que Trump autorizou a concessão dos vistos para os Estados Unidos aos africânderes, os brancos que ele determinou serem uma minoria oprimida na África do Sul. Alegando falsamente que as suas terras foram confiscadas pelo governo sul-africano e que enfrentam genocídio, nomeou-os numa ordem executiva como "vítimas de discriminação racial injusta".

Nas redes sociais escreveu ainda:

 

Qualquer Agricultor (com família!) da África do Sul que queira fugir daquele país por motivos de segurança, será convidado a entrar nos Estados Unidos da América com um caminho rápido para a cidadania”.

 

Talvez tenha sido por influência e intervenção da “mão invisível” de Elon Musk, seu copresidente, que além de ter nascido na era do Apartheid na África do Sul,  “acarinha” teses racistas relativas à raça e inteligência.

Só por esquecimento se compreenderá que não tenha de igual modo estendido as concessões dos vistos de entrada para os EUA aos palestinos de Gaza, o que lhe permitiria resolver o problema da Riviera de Gaza.

A seu favor, e para vergonha da humanidade, nenhuma mão dos governos dos países árabes, da Rússia, da China, da Alemanha, da França, etc. se ergueu para acolher os palestinos. Como já antes acontecera com os barcos cheios de judeus fugidos da Alemanha que nenhum país queria receber. É a moldura em que vivemos.

 

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