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Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

(528) Abençoados os idiotas

Tempo estimado de leitura: 4 minutos.

 

O único modo de nos aproximarmos da morte é convencermo-nos de que todos os outros são uns idiotas.

 

Alguém que aos vinte ou trinta anos pensa que todos os outros são uns idiotas, é ele próprio um idiota e nunca alcançará a sabedoria.

 

A sabedoria consiste em reconhecer no momento certo (nunca antes) que alguém que amamos e adoramos também era idiota.

 

 

 

 

 

Nestes tempos em que cada vez mais se sabe menos o que fazer à vida, relembro sempre com conforto o duque Jean Floressas des Esseintes. Segundo nos conta J.K. Huysmans, em 1884 o duque des Esseintes vivia só num grande palacete nos arredores de Paris, passando os seus dias a ler os clássicos, colecionando pensamentos sobre a humanidade.

Das poucas vezes que saíra para ir a uma aldeia vizinha, depressa começara a sentir um sentimento de repulsa, que o levara a não mais querer afastar-se de casa. “Para evitar a fealdade e a estupidez”. Até que, talvez por influência do que lera de Dickens, um dia acordou com o enorme desejo de conhecer Londres. Mandou os criados fazerem-lhe as malas, vestiu-se à inglesa, fato de tweed, chapéu de coco e capa de inverno, e eis que parte para Paris no primeiro comboio.

Dispondo de tempo até apanhar o transporte que o levaria para Londres, foi a uma livraria comprar o Guia de Londres de Baedeker, o que lhe permitiu sonhar com os passeios que procurava vir a fazer. À hora do almoço, entrou numa taberna inglesa da rua de Amsterdão, perto da Gare Saint Lazare. Local tipicamente inglês, escuro e cheio de fumo, um grande balcão e filas de torneiras de cerveja de barril, pequenas mesas de bancos corridos onde se sentavam “robustas inglesas de traços masculinos, com os seus dentes grandes como espátulas, as suas faces afogueadas como maçãs, e as mãos e os pés enormes”. Comeu sopa de rabo de boi, rosbife com batatas, dois pintos de cerveja e queijo de Stilton.

Quando por fim chegou a hora do transporte para Londres, Des Esseintes sentiu-se subitamente muito cansado só de antever que teria ainda de se pôr a caminho da estação, disputar um bagageiro, subir para o comboio, dormir numa cama estranha, apanhar frio, pôr-se em bichas só para visitar afinal os lugares que o Baedeker tão minuciosamente descrevia.

Para que se há-de mover quem pode fazer viagens maravilhosas sentado na sua cadeira? Não estaria ele já em Londres, cujos cheiros, clima, população, pratos de cozinha sem que faltassem sequer os talheres, o rodeavam? Que mais poderia esperar para além de tudo isso, a não ser novas deceções?

Des Esseintes pagou a conta, saiu da taberna, e com os seus baús, os seus sacos, os seus fatos emalados, guarda-chuvas e bengalas, apanhou o primeiro comboio de regresso, e nunca mais saiu de casa.

 

Como vida e morte têm andado sempre ligadas, sendo a morte aceite como o mais seguro que temos na vida (nem todos, pelo menos Um escapou, mas Esse mesmo para ressuscitar teve de morrer primeiro), seria bom que soubéssemos morrer. A partir da altura em se encarou a morte como inelutável, várias filosofias que se têm debruçado sobre o assunto, grande parte delas tranquilizadoras. Recorde-se, por exemplo, a de Epicuro, que explicava que não nos devíamos preocupar com a morte porque quando o momento chegar, nesse instante, já cá não estaremos. Outros, mais grandiloquentes, afirmam gravemente que a vida é uma preparação para a morte.

Mas leia-se antes um texto escrito em 2020  por Umberto Eco para La bustina di Minerva (Milão, Bompiani) intitulado “Como prepararsi serenamente alla morte”:

 

“Recentemente, um discípulo pensativo (um tal Críton) perguntou-me: «Mestre, como é que podemos preparar-nos bem para a aproximação da morte?» Respondi que o único modo de nos aproximarmos da morte é convencermo-nos de que todos os outros são uns idiotas.

Perante a estupefação de Críton, expliquei-lhe: «Vê», disse-lhe, «como é que te podes aproximar da morte, mesmo que sejas crente, se pensares que, enquanto tu morres, as discotecas estão cheias de jovens atrativos de ambos os sexos, que dançam e se divertem como loucos; que cientistas iluminados desvendam os últimos mistérios do cosmos; que políticos incorruptíveis estão a criar uma sociedade melhor; que os jornais e as televisões concordam em dar apenas notícias relevantes; que empresários responsáveis se esforçam para que os seus produtos não degradem o meio ambiente, restaurando uma natureza feita de ribeiros potáveis, encostas cobertas de bosques, céus limpos e serenos protegidos por ozono providencial, nuvens fofas que destilam novamente chuvas dulcíssimas? Se pensares que tens de te ir embora, enquanto todas estas coisas maravilhosas acontecem na Terra, a ideia da morte torna-se insuportável.

Mas tenta imaginar que, no momento em que te apercebes que estás a deixar este vale, tu tens a certeza inabalável de que o mundo (seis biliões de seres humanos) está cheio de idiotas; que todos os que estão a dançar na discoteca são uns idiotas; idiotas os cientistas que acham que resolveram os mistérios do Universo; idiotas os políticos que propõem uma panaceia como cura para todos os nossos males; idiotas aqueles que enchem páginas e páginas de jornais com insossos mexericos marginais; idiotas os empresários suicidas que destroem o planeta. Não ficarias então feliz, aliviado, satisfeito por ires abandonar este vale de idiotas?»

Críton perguntou-me então: «Mestre, e quando é que devo começar a pensar dessa maneira?» Respondi que não se deve fazê-lo demasiado cedo, porque alguém que aos vinte ou trinta anos pensa que todos os outros são uns idiotas, é ele próprio um idiota e nunca alcançará a sabedoria. É necessário começar por se pensar que os outros são todos melhores do que nós, depois evoluir pouco a pouco, ter as primeiras débeis dúvidas lá pelos quarenta, principiar a mudar de opinião entre os cinquenta e os sessenta, e mudá-la completamente quando já se vai a caminho dos cem, mas de modo a ter as contas fechadas assim que chegue o telegrama anunciando a nossa hora. A convicção de que toda a gente à nossa volta (seis biliões de pessoas) é idiota, é o resultado d uma arte subtil e sagaz, não está à disposição do primeiro Cebes com argolas nas orelhas (ou no nariz) que apareça por aí. Requer estudo e trabalho. Não é preciso acelerar o tempo. O que é preciso é chegar ao último momento docemente, mesmo a tempo de morrer serenamente. Mas no dia anterior ainda temos de pensar que existe uma pessoa, alguém que amamos e adoramos, que não é exatamente um idiota. A sabedoria consiste em reconhecer no momento certo (nunca antes) que essa pessoa também era idiota. Só então podemos morrer.

Por conseguinte, a grande arte consiste em estudar pouco a pouco o pensamento universal, esquadrinhar as vicissitudes dos costumes, monitorizar os media dia-a-dia, as afirmações dos artistas muito seguros de si, os apotegmas lançados aos quatro ventos pelos políticos, os aforismos dos heróis carismáticos, estudar as suas teorias, propostas, apelos, imagens, aparições. Só no fim de tudo isto é que terás a irresistível revelação de que são todos uns idiotas. Nessa altura, estás pronto para o teu encontro com a morte.

Deves resistir até ao último momento a esta insustentável revelação: obstina-te em pensar que alguém diz coisas sensatas, que há um livro que ainda vale a pena ler, que aquele político quer verdadeiramente o bem comum. É natural, é humano, é próprio da nossa espécie não querer acreditar que os outros sejam indistintamente uns idiotas; caso contrário, valeria apena viver? Mas quando, no fim, tiveres a certeza de que todos o são, terás compreendido porque é que vale a pena (aliás, é esplêndido) morrer.

Críton, disse-me então: «Mestre, não quero tomar decisões precipitadas, mas suspeito que você é um idiota.» «Vês», disse-lhe, «já estás no bom caminho.»”

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