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Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

(526) Pequeno Manual do Candidato

Tempo estimado de leitura: 2 minutos.

 

As instruções para vencer as eleições que o irmão mais novo de Cícero escreveu em 64 a. C.

 

Deve apenas mostrar-se sedutor, fazendo favores a uns, prometendo-os a outros, sem nunca dizer não a ninguém, porque basta deixar a ideia de que se vai fazer alguma coisa.

 

Age de maneira a que surja alguma suspeita contra os teus adversários.

 

 

 

Corria o ano 64 a. C., quando o nosso conhecido orador Marco Túlio Cícero, entendeu concorrer ao Consulado de Roma, em despique contra Caio Antonio Híbrida e Lúcio Sérgio Catilina. Pediu então ao seu irmão mais novo, Quinto Túlio, que lhe escrevesse um pequeno panfleto em forma de carta para o ajudar a vencer a corrida.

São estas instruções que aparecem traduzidas e publicadas com o título Manualetto del Candidato, Instruzione per vincere le elezioni, que muito argutamente levou o recém desaparecido jornalista, escritor e político italiano, Furio Colombo, que também foi diretor do l’Unità, a refletir sobre a comparação entre essa primeira República e a atualmente existente.

Colombo relembra que foi no modelo dessa república romana que se inspiraram os autores dos Federalist Papers, que delinearam as linhas fundamentais daquela que viria a ser a democrática Constituição americana, a mesma que com mais realismo os neoconservadores adaptam mais à imagem da Roma imperial, daí as suas ideias de império e pax americana, alusão que continua explícita à pax romana.

Mas essas são construções ausentes nas poucas páginas do Manual. Ele debruça-se mais sobre as orientações práticas a seguir pelo candidato:

 

não se deve comprometer com nenhum problema político, de modo a não criar inimigos; deve apenas mostrar-se sedutor, fazendo favores a uns, prometendo-os a outros, sem nunca dizer não a ninguém, porque basta deixar a ideia de que se vai fazer alguma coisa. A memória dos eleitores é curta e, mais cedo ou mais tarde, vão esquecer-se das velhas promessas.” 

 

A campanha eleitoral não passa de um espetáculo puramente formal em que não conta a real personalidade do candidato, mas o modo como se apresenta perante os outros. Mas como apesar de tudo as qualidades naturais têm um certo peso, o problema é fazer com que a simulação possa sobrepor-se à natureza.

Por outro lado, “a adulação é detestável para o candidato cujo comportamento, rosto e maneira de se exprimir devem mudar de vez em quando, adaptando-se aos pensamentos e desejos de qualquer pessoa que se lhe depare pela frente”.

Naturalmente, é necessário proceder-se de modo a que “toda a tua campanha eleitoral seja solene, brilhante e esplêndida, e ao mesmo tempo popular […] Sempre que puderes, age de maneira a que surja alguma suspeita contra os teus adversários […] uma suspeita de malvadez, de devassidão ou de dissipação”.

 

Atento observador da sociedade, Umberto Eco faz as perguntas fundamentais: mas a democracia é apenas uma forma de conquista do favor público, baseada somente na aparência e na estratégia do engano?

E responde: Não haja dúvida de que em parte a democracia é isto e nem podia ser de outro modo, uma vez que se baseia num sistema que impõe que se chegue ao poder apenas através do consenso, e não graças à força e à violência.

Mas não nos esqueçamos que estes conselhos para uma campanha eleitoral surgem numa altura em que a democracia romana já se encontra em plena crise. Dentro em pouco, César vai tomar as rédeas do poder com o apoio das suas legiões, vai instituir o principado de facto, e Marco Túlio Cícero vai pagar com a vida a passagem de um regime fundado no consenso para um regime fundado no golpe de Estado.

 E conclui:

 

Não podemos deixar de pensar que a democracia romana começou a morrer quando os seus políticos perceberam que não precisavam de levar a sério os programas, bastava que se esforçassem por parecer simpáticos aos olhos dos seus telespectadores.

 

 

 

Nota:

A Gradiva editou em 2015 o pequeno manual de Quinto Túlio Cícero com o título Como Ganhar Eleições: Um Guia Clássico para Líderes Actuais.

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