(526) Pequeno Manual do Candidato
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As instruções para vencer as eleições que o irmão mais novo de Cícero escreveu em 64 a. C.
Deve apenas mostrar-se sedutor, fazendo favores a uns, prometendo-os a outros, sem nunca dizer não a ninguém, porque basta deixar a ideia de que se vai fazer alguma coisa.
Age de maneira a que surja alguma suspeita contra os teus adversários.
Corria o ano 64 a. C., quando o nosso conhecido orador Marco Túlio Cícero, entendeu concorrer ao Consulado de Roma, em despique contra Caio Antonio Híbrida e Lúcio Sérgio Catilina. Pediu então ao seu irmão mais novo, Quinto Túlio, que lhe escrevesse um pequeno panfleto em forma de carta para o ajudar a vencer a corrida.
São estas instruções que aparecem traduzidas e publicadas com o título Manualetto del Candidato, Instruzione per vincere le elezioni, que muito argutamente levou o recém desaparecido jornalista, escritor e político italiano, Furio Colombo, que também foi diretor do l’Unità, a refletir sobre a comparação entre essa primeira República e a atualmente existente.
Colombo relembra que foi no modelo dessa república romana que se inspiraram os autores dos Federalist Papers, que delinearam as linhas fundamentais daquela que viria a ser a democrática Constituição americana, a mesma que com mais realismo os neoconservadores adaptam mais à imagem da Roma imperial, daí as suas ideias de império e pax americana, alusão que continua explícita à pax romana.
Mas essas são construções ausentes nas poucas páginas do Manual. Ele debruça-se mais sobre as orientações práticas a seguir pelo candidato:
“não se deve comprometer com nenhum problema político, de modo a não criar inimigos; deve apenas mostrar-se sedutor, fazendo favores a uns, prometendo-os a outros, sem nunca dizer não a ninguém, porque basta deixar a ideia de que se vai fazer alguma coisa. A memória dos eleitores é curta e, mais cedo ou mais tarde, vão esquecer-se das velhas promessas.”
A campanha eleitoral não passa de um espetáculo puramente formal em que não conta a real personalidade do candidato, mas o modo como se apresenta perante os outros. Mas como apesar de tudo as qualidades naturais têm um certo peso, o problema é fazer com que a simulação possa sobrepor-se à natureza.
Por outro lado, “a adulação é detestável para o candidato cujo comportamento, rosto e maneira de se exprimir devem mudar de vez em quando, adaptando-se aos pensamentos e desejos de qualquer pessoa que se lhe depare pela frente”.
Naturalmente, é necessário proceder-se de modo a que “toda a tua campanha eleitoral seja solene, brilhante e esplêndida, e ao mesmo tempo popular […] Sempre que puderes, age de maneira a que surja alguma suspeita contra os teus adversários […] uma suspeita de malvadez, de devassidão ou de dissipação”.
Atento observador da sociedade, Umberto Eco faz as perguntas fundamentais: mas a democracia é apenas uma forma de conquista do favor público, baseada somente na aparência e na estratégia do engano?
E responde: Não haja dúvida de que em parte a democracia é isto e nem podia ser de outro modo, uma vez que se baseia num sistema que impõe que se chegue ao poder apenas através do consenso, e não graças à força e à violência.
Mas não nos esqueçamos que estes conselhos para uma campanha eleitoral surgem numa altura em que a democracia romana já se encontra em plena crise. Dentro em pouco, César vai tomar as rédeas do poder com o apoio das suas legiões, vai instituir o principado de facto, e Marco Túlio Cícero vai pagar com a vida a passagem de um regime fundado no consenso para um regime fundado no golpe de Estado.
E conclui:
“Não podemos deixar de pensar que a democracia romana começou a morrer quando os seus políticos perceberam que não precisavam de levar a sério os programas, bastava que se esforçassem por parecer simpáticos aos olhos dos seus telespectadores.”
Nota:
A Gradiva editou em 2015 o pequeno manual de Quinto Túlio Cícero com o título Como Ganhar Eleições: Um Guia Clássico para Líderes Actuais.