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Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

(525) Vendedores de banha de cobra

Tempo estimado de leitura: 4 minutos.

 

À segunda-feira diz uma coisa e à terça precisamente o contrário; fala quando não deve falar; deixa escapar afirmações que é obrigado a negar no dia seguinte […], Umberto Eco.

 

Dispara em todas as direções, sem se preocupar com as contradições em que possa incorrer. Não pode é parar de falar, e com insistência, para evitar que alguém levante objeções.

 

A vitimização como um elemento típico de todas as formas de populismo.

 

 

 

 

A propósito deste tempo de eleições sempre programadas, seus atores principais, claques e demais público assistente, recordo um interessante artigo de Umberto Eco, publicado na MicroMega (revista de cultura, política, ciência e filosofia fundada em 1986) em setembro de 2003, “Diabolizar Berlusconi”, que julgo ser importante para não nos sentirmos desacompanhados nestes tempos em que vivemos. Dizia então ele:

 

“[…] Considera-se que, não sendo um estadista mas um líder de uma empresa cujo único objetivo é manter os equilíbrios precários dentro da sua coligação, Berlusconi não se apercebe que à segunda-feira diz uma coisa e à terça precisamente o contrário; que fala quando não deve falar; que deixa escapar afirmações que é obrigado a negar no dia seguinte; que confunde os assuntos privados com os públicos a tal ponto que já se permitiu fazer gracejos de péssimo gosto sobre a sua própria esposa na presença de ministros estrangeiros – e assim por diante. Neste sentido, a figura de Berlusconi predispõe-se à sátira; os seus adversários consolam-se muitas vezes pensando que ele perdeu o sentido das proporções, e esperam que ele vá correndo atrás da sua própria destruição sem se dar conta”.

 

Mas Eco não acredita nisso. Vê antes a prática de uma estratégia complexa, hábil e subtil, de um prodigioso instinto de vendedor. E para nos mostrar em que consiste esta técnica de vendedor, socorre-se de um vendedor de automóveis:

 

“Começará por nos dizer que o carro que nos quer vender é um verdadeiro bólide, basta um toquezinho no acelerador para chegarmos aos duzentos à hora, que foi idealizado para uma condução desportiva. Mas mal se dá conta que o cliente tem cinco filhos e uma sogra inválida passa, sem transição, à demonstração que aquele carro é ideal para uma condição segura, que mantém calmamente a velocidade de cruzeiro, um carro feito para a família. E logo a seguir oferece tapetes grátis. O vendedor não se preocupa com o facto de o cliente achar ou não o seu discurso coerente; o seu objetivo é que, no meio de tudo o que diz, o cliente se sinta tocado por um dos argumentos, e a partir daí se esqueça de todos os outros. Por isso, o vendedor dispara em todas as direções, sem se preocupar com as contradições em que possa incorrer. Não pode é parar de falar, e com insistência, para evitar que alguém levante objeções […] A sua força não estava nos argumentos que utilizava, estava no facto de usar muitos e de dispará-los em todas as direções.”

 

Mas Berlusconi tem de enfrentar não só um cliente, mas uma oposição, a opinião pública italiana e estrangeira e os media. O que faz?

 

 “A sua técnica consiste em fazer promessas que, sejam boas, más ou neutras aos olhos dos seus apoiantes, possam ser encaradas pelos seus críticos e opositores como uma provocação. E tem de produzir uma provocação diária, de preferência inconcebível e inaceitável. Consegue assim ocupar as primeiras páginas e as notícias de abertura dos media, mantendo-se sempre no centro das atenções. Em segundo lugar, a provocação deve ser de tal ordem que a oposição não possa deixá-la passar em claro e seja forçada a reagir energicamente. Conseguir provocar uma reação indignada das oposições permite a Berlusconi mostrar ao seu eleitorado que está a ser vítima de uma perseguição («vejam, seja o que for que eu diga, atacam-me sempre»).”

 

A vitimização como um elemento típico de todas as formas de populismo:

 

 “Mussolini fez com que fossem aplicadas sanções a Itália por causa do ataque que fez à Etiópia, mas depois veio invocar propagandisticamente a existência de uma conspiração internacional contra o nosso país […] Hitler lançou-se à conquista da Europa, dizendo que eram os outros países que estavam a negar ao povo alemão o seu espaço vital. Exatamente a mesma tática que o lobo usa com o cordeiro. A prevaricação tem de ser justificada pela denúncia de uma injustiça perpetrada contra a autointitulada vítima. A vitimização é um dos vários recursos que um regime tem para usar o chauvinismo como forma de assegurara a coesão interna: para engrandecer o nosso país, dizemos que são os outros que nos odeiam e que nos querem cortar as asas. Todos os tipos de exaltação nacionalista e populista pressupõem o cultivo de um estado de frustração contínuo.”

 

Por outro lado, o lamentar quotidiano de uma conspiração contra nós também nos ajuda a aparecer todos os dias nos media para denunciar o adversário. É uma técnica muito antiga, usada pelas próprias crianças:

 

 “Eu dou uma cotovelada ao meu colega de carteira, ele atira-me uma bolinha de papel e eus vou fazer queixa ao professor.”

 

Outra técnica consiste em lançar provocações, desmenti-las no dia seguinte («perceberam-me mal») e lançar imediatamente outra provocação, de modo a que a oposição tenha de reagir à segunda e as pessoas esqueçam de que a primeira era simplesmente flatus vocis. Este tipo de atuação permite ainda alcançar outros dois objetivos essenciais:

 

“O primeiro é que, por muito forte que uma provocação tenha sido, ela funciona sempre como um balão de ensaio. Se a opinião pública não reagiu com energia suficiente, isso significa que estão abertas as portas para todo o tipo de propostas que queiramos apresentar, mesmo as mais ofensivas. É neste momento que a oposição é forçada a reagir, apesar de saber que se trata de pura e simples provocação, porque, se nada disser, abre a porta a outras tentativas. Faz o que não pode deixar de fazer para impedir o golpe rasteiro, mas, ao reagir, acaba por corrobora-lo, porque se rende à sua lógica.

O segundo objetivo atingido é aquilo a que eu chamaria o efeito bomba. Se eu fosse um homem de poder envolvido em negócios obscuros, e me informassem que no dia seguinte os jornais iam revelar as minhas trafulhices, só tinha uma solução ao meu alcance: punha ou mandava pôr uma bomba na estação dos comboios, num banco, na praça à saída da missa. Assim teria a certeza de que, pelo menos durante quinze dias, as primeiras páginas dos jornais e as aberturas dos telejornais seriam dedicados ao atentado, e a notícia que me preocupava, mesmo que saísse, passaria despercebida no meio de tantas outras.”

 

Pelo que Eco aconselha:

 

“Devíamos reler todas as primeiras páginas dos jornais dos últimos dois anos e calcular o número de efeitos bomba que se produziram. Quando encontrarmos afirmações perfeitamente disparatadas, como aquela de que todos os magistrados precisam de ir ao psiquiatra, devemos perguntar-nos que outra iniciativa foi relegada para segundo plano por aquela bomba.”

É assim que Berlusconi “controla e dirige as reações dos seus opositores, distorce-as, usa-as para mostrar que o estão a tentar destruir, que todos os apelos à opinião pública são um golpe baixo ad hominem.”

 

 

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