(524) A importância das recordações
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A sociedade da transparência significa o final da narração e da recordação.
Nenhuma narração é transparente. A única coisa transparente são as informações e os dados.
A vida narrada ou recordada tem forçosamente buracos.
O eu não é uma quantidade, mas uma qualidade. «Autoconhecimento por meio de cifra» é uma quimera.
Byung-Chul Han, coreano que estudou Filosofia e Teologia na Alemanha, é dos primeiros a desmontar, com a publicação em 2012 do seu livro A Sociedade da Transparência, aquele discurso público muito em voga da necessidade da transparência, em que a transparência vem apenas relacionada à corrupção e à liberdade de informação. É que essa exigência e aceitação da transparência vai muito para além desses campos, acabando por se manifestar numa sociedade em que a confiança desaparece e que aposta na vigilância e no controle. Pelo que a ser assim entendida, trata-se de um imperativo meramente económico, não moral nem biopolítico. “As coisas tornam-se transparentes quando se expressam na dimensão do preço, despojando-se da sua singularidade. A sociedade da transparência é um inferno do igual”.
Onze anos depois, em 2023, publica A crise da narração, onde mais sinteticamente nos vem falar desta sociedade que estamos a criar. Eis a reprodução de um excerto do capítulo “A vida narrada” contido nessa obra:
“[…] A memória humana é seletiva. E nisso se diferencia do banco de dados. É narrativa, ao passo que a memória digital trabalha somando e acumulando. A narração baseia-se em selecionar e abraçar acontecimentos. Procede seletivamente. Procede seletivamente. Nela só se incorporam acontecimentos selecionados. A vida narrada ou recordada tem forçosamente buracos. As plataformas digitais, pelo contrário, aquilo que procuram é precisamente protocolar a vida sem deixar buracos. Quanto menos se narra, mais dados e informações se produzem e se acumulam. Para as plataformas digitais os dados são mais valiosos que as narrações. As reflexões narrativas estão mal vistas.
Algumas plataformas digitais permitem formatos narrativos, mas então devem configurar-se de modo a que se ajustem ao banco de dados, para que assim aí possam descarregar a maior quantidade possível de dados. As stories configuram-se para carrear informação. Provocam a desaparição do sentido próprio da narração. As plataformas digitais configuram-se para alcançarem uma protocolização total da vida. Trata-se de transferir a vida a jogos de dados. Quantos mais dados se compilarem acerca de uma pessoa, tanto melhor se a poderá vigiar, manejar e explorar economicamente […]”
Mais à frente, dá-nos alguns exemplos do que se verifica no nosso dia-a-dia, começando por se socorrer da tese que Walter Benjamin expõe (A Obra de Arte na Era da sua Reprodutibilidade Técnica) sobre as possibilidades técnicas da máquina de filmar quer em câmara lenta quer em câmara rápida, podendo com isso descobrir e analisar a partir dos nossos movimentos o «inconsciente ótico», tal como o psicanalista faz com o «inconsciente pulsional»:
“…] Se tomarmos o Data Mining como uma técnica análoga à máquina de filmar, diremos que opera como uma câmara lenta digital, por detrás do espaço que ocupa a consciência, descobre e analisa outro espaço ocupado pelo inconsciente, que podemos nomear como inconsciente digital. Assim, a inteligência artificial pode aceder a aqueles desejos e às nossas inclinações de que não somos conscientes. A psicopolítica, que trabalha com dados, estaria, portanto, em condições de se assenhorear do nosso comportamento a um nível ainda pré-consciente.
No chamado Self-trackhing ou «autosseguimento», a narração é completamente substituída pela contagem. A única coisa que gera são puros dados. O lema do Quantified Self ou o «Eu quantificado», é um autoconhecimento através de números. Os seguidores desse movimento tratam de alcançar o autoconhecimento não através da narração, da recordação ou da reflexão, mas através de contagens e cifras. Para isso, aplicam ao corpo diversos censores que geram automaticamente dados sobre o ritmo cardíaco, a pressão sanguínea, a temperatura corporal, os perfis do movimento ou do sono. Os estados de saúde e de ânimo são registados regularmente. Protocolizam-se minuciosamente todas as atividades diárias. Fica registado inclusivamente o dia em que deu pelo seu primeiro cabelo branco. Nada deve escapar. Contudo, nada aí se narra, é tudo meramente medido. Os sensores e as aplicações recolhem automaticamente dados a um nível prévio à representação linguística e à reflexão narrativa. Os dados recompilados agrupam-se em forma de gráficos e de atrativos diagramas. Mas nada contam sobre quem eu sou. O eu não é uma quantidade, mas uma qualidade. «Autoconhecimento por meio de cifra» é uma quimera. As cifras não narram nada. O termo narrativas numéricas é um oximóron. A vida não se pode narrar em forma de acontecimentos quantificáveis.
O terceiro episódio da primeira temporada de Black Mirror intitula-se «Toda a tua história». Nessa sociedade da transparência em que se passa a ação, cada pessoa leva atrás da orelha um implante que regista absolutamente tudo o que essa pessoa viu e viveu, de modo que tudo o que se viveu e percebeu se pode reproduzir integralmente nos olhos e em monitores externos. Por exemplo, nos controles de segurança dos aeroportos pedem ás pessoas que reproduzam os acontecimentos vividos durante um determinado período de tempo. Já não há segredos. Os criminosos já não podem ocultar as suas malfeitorias. Ou seja, a pessoa está apanhada nas suas recordações. Se todo o vivido se pode recuperar integralmente, então, num sentido estrito, as recordações já não são possíveis.
A recordação não é uma repetição mecânica do vivido, mas antes uma narração a que continuamente há que voltar a ser contada de novo. As recordações têm forçadamente buracos. Pressupõem uma proximidade e um afastamento. Quando todo o vivido está presente sem distanciamento, quer dizer, quando está disponível, a recordação desaparece. Uma reprodução integral do vivido também não é uma narração, mas uma informação ou um protocolo. Quem quer narrar ou recordar deve poder esquecer ou omitir muitas coisas. A sociedade da transparência significa o final da narração e da recordação. Nenhuma narração é transparente. A única coisa transparente são as informações e os dados. «Toda a tua história» termina com aquela cena em que o protagonista arranca o seu implante com uma lâmina de barbear.”