(514) Semear dentes de dragão
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O mito como fazendo parte integrante de todas as sociedades humanas.
A Demanda do Velo de Ouro.
Tudo o que me consigo lembrar é que o tipo estava a sorrir, R. Fisk.
Estamos a semear o Médio Oriente com dentes de dragão, C. Hedges.
É talvez de Carlos Eduardo de Soveral a definição mais abrangente sobre o que é “mito”, como sendo “narrativa, conto, história, ao princípio oral como a saga, e, como a saga, elaborada por sucessivas gerações, mercê de vários e afins mitologemas que já de si são fruto ou projeção na realidade de uma estrutura cognoscente que em especial vigora em faces primitivas ou primitivo-barbáricas, onde mais se vive tecnicamente despojado e onde, o âmbito do que na Vida é substantivo, mais se sofrem e advertem os impasses e limitações”.
Dela se pode extrair o mito como fazendo parte integrante de todas as sociedades humanas que aí, ao longo de muitos, mas mesmo muitos anos, encontraram uma “racionalidade” própria que lhes permitiu com um entendimento mínimo e, contudo, suficiente sobre o que lhes estava a acontecer, resistir e sobreviver às condições hostis em que viviam.
Um dos ciclos míticos mais importantes oriundos da Grécia Antiga é o que nos dá a conhecer a viagem por mar (e por isso “ultramarina”) do primeiro herói europeu (Jasão) a bordo do seu navio, o Argo (daí os navegadores serem conhecidos por Argonautas), em busca do Velo de Ouro.
Esse longo poema com as suas muitas peripécias (uma casa real com problemas de casamentos e sucessões, um oráculo que prevê a morte do tio usurpador às mãos dum pretendente com uma só sandália, a fuga dos noivos num carneiro mágico voador com velo de puro ouro, a queda ao mar da rapariga – Hela - que morre afogada no estreito do Helesponto – o mar de Hela -, a chegada do irmão à Cólquida no mar Desfavorável – o mar Negro – casamento com a filha do rei, sacrifício do carneiro, guardando-se a pele - o velo de ouro -, o aparecimento de Jasão com uma só sandália a instar o tio usurpador para lhe dar um reino, a promessa deste de que só lhe daria um reino se Jasão trouxesse o velo de ouro retido na Cólquida, a construção do barco mais veloz -Argo – e os companheiros de viagem -os Argonautas, entre eles Hércules, Orfeu, Peleu – o pai de Aquiles-, Castor e Pólux-, chegada à ilha de Lemnos, encontro com as Harpias, as cadelas de Zeus, os Rochedos Movediços em perpétuo movimento, encontro com as Amazonas, o Prometeu amarrado às rochas, finalmente a Cólquida, Medeia a filha do rei apaixona-se por Jasão, arar o campo com os bois com patas de bronze e bafo de línguas de fogo, semear nos sulcos dentes de dragão dos quais brotariam de imediato uma ceara de homens armados que Jasão teria de vencer, o bálsamo de invisibilidade, a traição de Medeia para com a família, a fuga com o velo) e que termina com o regresso dos heróis à Grécia, aparece escrito no século III por Apolónio de Rodes com o título de Demanda do Velo de Ouro.
Eurípides, grande poeta e dramaturgo do século V, vai-lhe acrescentar (Medeia) o posterior relato dos acontecimentos que levaram Jasão e Medeia nesse regresso atribulado.
O jornalista britânico do The Times e do The Independent, Robert Fisk, diz-nos no seu livro A Grande Guerra pela Civilização, o seguinte:
“Quando uma sociedade é despojada, quando as injustiças que lhe são impostas parecem insolúveis, quando o “inimigo” é todo-poderoso, quando o nosso próprio povo é bestializado como se tratasse de insetos, baratas, “bestas bípedes”, então a mente move-se para além da razão […] Fica fascinada em dois sentidos: pela ideia de uma vida após a morte e pela possibilidade de essa crença fornecer de alguma forma uma arma com mais potencial que a nuclear.
Quando os Estados Unidos estavam a transformar Beirute numa base da NATO em 1983, e a utilizar o seu poder de fogo contra guerrilheiros muçulmanos nas montanhas a leste, os Guardas Revolucionários Iranianos em Baalbek prometiam que Deus livraria o Líbano da presença americana. Escrevi na altura – não inteiramente em tom irónico – que esta seria provavelmente uma batalha titânica: tecnologia dos EUA versus Deus. Quem venceria?
Depois, no dia 23 de outubro de 1983, um bombista suicida solitário dirigiu um camião cheio de explosivos para o complexo da Marinha dos EUA no aeroporto de Beirute e matou 241 militares americanos em seis segundos.... Entrevistei mais tarde um dos poucos fuzileiros navais sobreviventes que viu o bombista suicida. ‘Tudo o que me consigo lembrar’, disse-me, ‘é que o tipo estava a sorrir’”.
Comentando esta situação, comparando-a com a que se vive hoje no Médio Oriente, Chris Hedges, vai escrever a 7 de janeiro de 2025 o artigo “Genocide: The New Normal”, onde se pode ler:
“Estes atos de terrorismo, ou no caso de Gaza, da Cisjordânia, do Líbano e da resistência armada do Iémen, são usados para justificar intermináveis assassinatos em massa. Esta Via Dolorosa conduz a uma espiral mortal global, especialmente à medida que a crise climática reconfigura o planeta e os organismos internacionais, como as Nações Unidas e o Tribunal Penal Internacional, se tornam apêndices vazios.
Estamos a semear o Médio Oriente com dentes de dragão e, tal como no antigo mito grego, estes dentes estão a surgir do solo como guerreiros enfurecidos determinados a destruir-nos.”
Acontece que, embora esta interpretação de Hedges seja correta, ela não é completa. Quando Medeia dá a Jasão o bálsamo que lhe garante invisibilidade por 24 horas, diz-lhe também que para vencer a safra de guerreiros armados, Jasão teria de lhes atirar uma pedra para o meio do campo. Assim, eles voltar-se-iam una para os outros e atacar-se-iam. Nessa altura, Jasão poderia ceifá-los a todos, o que aconteceu.
Ou seja, os guerreiros foram todos mortos, contrariando as esperanças de Hedges …
Curiosamente, esta é uma das caraterísticas dos mitos: a sua plasticidade, que permite a sua divisão e aceitação em partes, bem como na sua totalidade sempre sem fim. Daí, talvez, a sua permanência quase eterna.
Notas:
Aconselho vivamente o blog de 13 de maio de 2020, “A bondade do homem, a maldade da mulher”, onde o relacionamento de Jasão e Medeia se encontra mais desenvolvido, e onde se pode encontrar referencia à “Máquina Infernal” de Jean Cocteau.
Carlos Eduardo de Soveral, “Mito, Tragédia e História”, Revista de Ciências do Homem da Universidade de Lourenço Marques, Vol. I, Série A, 1969.