(513) O “acordo de cavalheiros” impõe-se ao direito internacional
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O juízo intelectual do Ocidente mostra incapacidade em distinguir factos de desejos, Emmanuelle Todd.
Dado o alegado compromisso do Ocidente com os direitos humanos e a prevenção do genocídio, seria de esperar que países como os Estados Unidos, a Grã-Bretanha e a Alemanha tivessem travado o genocídio israelita, John Mearsheimer.
É bastante provável que um dos gasodutos do Nord Stream abandonado, possa vir a ser ativado, desde que venha a ser comprado pelo investidor americano Stephen Lynch, o que permitiria que as sanções/objeções ocidentais fossem levantadas, TASS.
Em 1976, com apenas 25 anos, o historiador antropólogo e demógrafo francês Emanuelle Todd, tendo por base indicadores estatísticos como o aumento dos índices de mortalidade infantil, previu (La chute finale: Essais sur la décomposition de la sphère Soviétique) que a União Soviética estava a caminho do colapso.
Em 2001, com base em indicadores sobre o desempenho económico, social e político, previu (Aprés l’Empire: Essai sur la décomposition du système américain) a queda dos EUA como superpotência hegemónica. Alguns pontos importantes que destacou:
- A economia dos Estados Unidos está a caminho de um crash e só é suportada por investimento estrangeiro. O défice comercial dos Estados Unidos é um desastre alimentado pelas empresas norte-americanas que empurram os seus empregos industriais para o estrangeiro e destroem a base industrial do país.
Cerca de 10% do consumo industrial dos Estados Unidos depende de bens estrangeiros para os quais não existe um equilíbrio correspondente nas exportações nacionais.
- Os Estados Unidos já não dispõem dos recursos económicos e financeiros para apoiar os seus objetivos de política externa.
- Os Estados Unidos estão a tornar-se uma sociedade não democrática e ultraconservadora dividida entre os muito ricos e o sector dos serviços.
- Os Estados Unidos são economicamente dependentes dos países que detêm os seus títulos e dívidas – China, Japão e Europa. Os EUA necessitam de uma certa dose global para compensar esta dependência, de forma a manter a presença político-militar dos EUA no Velho Mundo. Cada vez mais, o resto do mundo produz para que os Estados Unidos possam consumir.
- Nos Estados Unidos observam-se algumas tendências perturbadoras, como a crescente estratificação baseada em credenciais educacionais e a "obsolescência de instituições políticas irreformáveis".
Em 2024, Todd publica na Gallimard, La Défaite de l’Occident (“A Derrota do Ocidente”), onde, para além de acentuar a queda da liderança americana vai visar particularmente o juízo intelectual ocidental, com a sua incapacidade em distinguir factos de desejos, especialmente no que respeita à guerra na Ucrânia.
É muito interessante a entrevista que a propósito concede ao Corriere Di Bologna (seguem-se alguns excertos):
P: Defende que a Europa delegou a representação do Ocidente aos Estados Unidos e está agora a pagar o preço. Como acha que esta tendência pode ser alterada?
R: “No estado atual não podemos fazer mais nada. Uma guerra começou. É o resultado desta guerra que decidirá o destino da Europa. Se a Rússia for derrotada na Ucrânia, a submissão europeia aos americanos prolongar-se-á por um século. Se, como acredito, os Estados Unidos forem derrotados, a NATO desintegrar-se-á e a Europa ficará livre.
Mais importante ainda do que uma vitória russa será a contenção do exército russo no Dniepre e a relutância do regime de Putin em atacar militarmente a Europa Ocidental. Com 144 milhões de pessoas, uma população cada vez menor e 17 milhões de quilómetros quadrados, o Estado russo já luta para ocupar o seu território. A Rússia não terá nem os meios nem o desejo de se expandir quando as fronteiras da Rússia pré-comunista forem reconstituídas. A histeria da russofobia ocidental que fantasia sobre o desejo da expansão russa na Europa é simplesmente ridícula para um historiador sério.
O choque psicológico que espera os europeus será perceber que a NATO não existe para nos proteger, mas para nos controlar.”
P: Acha que a Europa deu o passo final para esta subordinação [aos EUA] durante os conflitos nos Balcãs, e especialmente com a questão do Kosovo?
R: “Não, tudo começou na Ucrânia. Durante a guerra do Iraque, depois do Kosovo, Putin, Schroeder e Chirac realizaram conferências de imprensa conjuntas. Isso aterrorizou Washington. Parecia que a América podia ser expulsa do continente europeu. A separação da Rússia da Alemanha tornou-se assim uma prioridade para os estrategas americanos. O agravamento da situação na Ucrânia serviu para esse propósito.
Forçar os russos a entrar em guerra para impedir a integração de facto da Ucrânia na NATO foi, inicialmente, um grande sucesso diplomático para Washington. O choque da guerra paralisou a Alemanha e permitiu que os americanos, na confusão geral, explodissem o gasoduto Nordstream, um símbolo do entendimento económico entre a Alemanha e a Rússia.
É claro que, numa segunda fase, a da derrota americana, o controlo americano sobre a Europa será pulverizado. Alemanha e Rússia voltarão a encontrar-se. Este conflito é, em certo sentido, artificial. O que é natural, numa Europa de baixa fertilidade e com população envelhecida, é a complementaridade entre a indústria da Alemanha e a energia e recursos minerais da Rússia”.
Nota solta:
A agência portuguesa de notícias Lusa, publicou às 20:06 do dia 2 de janeiro de 2025, o seguinte:
Primeiro-ministro eslovaco acusa Zelenski de “sabotar” finanças da UE
"A decisão do presidente Zelenski só beneficia os EUA", acusou o primeiro-ministro eslovaco, após o fim do transporte de gás russo através de gasodutos na Ucrânia.
O primeiro-ministro eslovaco, Robert Fico, acusou esta quinta-feira o presidente ucraniano, Volodimir Zelenski, de “sabotar” as finanças da União Europeia e ameaçou cortar apoios aos ucranianos residentes na Eslováquia. A acusação e a ameaça foram feitas na sequência do fim do transporte de gás russo para a Europa através da Ucrânia.
Fico avançou que a “decisão unilateral” de Zelenski representa uma perda anual de “quase 500 milhões de dólares” para a Eslováquia, receita esta proveniente dos direitos de passagem do gás russo pelo território eslovaco.
“A Bancarrota Moral do Ocidente”
A 26 de Janeiro de 2024, o Tribunal Internacional de Justiça concluiu que era possível argumentar-se de forma plausível que Israel estava a cometer genocídio em Gaza.
A 21 de Novembro de 2024, o Tribunal Penal Internacional emitiu mandados de detenção contra o primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, e o antigo ministro da Defesa israelita, Yoav Gallant, por crimes contra a humanidade e crimes de guerra.
A 5 de Dezembro de 2024, a Amnistia Internacional publicou um relatório de 296 páginas em que detalha o genocídio de Israel em Gaza.
A 19 de Dezembro de 2024, a Human Rights Watch publicou um relatório de 179 páginas que detalha o genocídio de Israel em Gaza.
Tudo isto levou o professor de Ciência Política da Universidade de Chicago, John J. Mearsheimer a escrever “The Moral Bankruptcy of the West”, onde se pode ler:
“Dado o alegado compromisso do Ocidente com os direitos humanos e especialmente com a prevenção do genocídio, seria de esperar que países como os Estados Unidos, a Grã-Bretanha e a Alemanha tivessem travado o genocídio israelita.
Em vez disso, os governos destes três países, especialmente os Estados Unidos, sempre apoiaram o comportamento inimaginável de Israel em Gaza. Na verdade, estes três países são cúmplices deste genocídio.
Além disso, quase todos os muitos defensores dos direitos humanos nestes países, e no Ocidente em geral, permaneceram em silêncio enquanto Israel executava o seu genocídio. A grande comunicação social quase não fez qualquer esforço para expor e desafiar o que Israel está a fazer aos palestinianos. Inclusivamente, alguns meios de comunicação importantes até apoiaram firmemente as ações de Israel.
Interrogamo-nos sobre o que se dizem as pessoas no Ocidente que apoiaram o genocídio de Israel ou permaneceram em silêncio para justificar o seu comportamento e para conseguirem dormir descansados à noite.
A história não os tratará bem.”
Nota:
Relembrar o blog de 26 de outubro de 2022, “Gasoduto ao fundo”.
Nota:
É bastante provável que um dos gasodutos do Nord Stream abandonado, possa vir a ser ativado, desde que venha a ser comprado pelo investidor americano Stephen Lynch (ou outro similar que se apresente, permitindo assim que as sanções/objeções “ocidentais” fossem levantadas), evidentemente com a concordância da empresa russa que fornece o gás. Um “acordo de cavalheiros” entre oligarcas em vez dos acordos de Minsk.
Entretanto morreram milhares de ucranianos, russos e outros, o gás e o combustível ficaram mais caros, a Europa central quase colapsou economicamente, as empresas de material militar (todas elas) exultam de braço dado com as de energia, e tudo volta aparentemente ao mesmo (embora mais caro, evidentemente).