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Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

(458) A culpa como desculpa

Tempo estimado de leitura: 6 minutos.

 

O parágrafo que levou a Fundação HB a retirar a atribuição do prémio, alegando que dele se poderia inferir que Israel tinha como objetivo “liquidar Gaza como se tratasse de um gueto nazi”.

 

A carta escrita por Hannah Arendt na qual, a propósito da visita aos Estados Unidos de Menachem Begin, focava o aparecimento em Israel de um partido cujos métodos, organização e filosofia política eram semelhantes aos dos partidos nazis.

 

O enorme sentimento de culpa que a Alemanha tem (ou diz ter) por ter perpetrado o mais conhecido genocídio da história.

 

 

 

 

O blog anterior, “O tiro pela culatra da Arte Degenerada”, incidia sobre o cancelamento do festival temático “Periferias” que se vinha realizando anualmente desde 2000 na pequena cidade de Huesca, Espanha, e que neste ano de 2023 seria dedicado à cultura cigana. Tal atitude foi devida à oposição assumida por uma organização conotada com a “direita”, o partido Vox.

Já este blog, “A culpa como desculpa”, vai incidir sobre um prémio atribuído a uma conceituada jornalista, que depois foi retirado, desta vez por uma organização conotada com a “esquerda”, o partido Verde da Alemanha.

 

O Prémio Hannah Arendt para o Pensamento Político, foi criado em 1994 pela Fundação Heinrich Böll, uma fundação independente ligada ao Partido Verde da Alemanha (Die Grünen). Era sua intenção “honrar indivíduos que identificam aspetos críticos e pouco visíveis de acontecimentos políticos correntes e que não tinham receio de apresentarem as suas opiniões abertas ao debate político público”.

Neste ano, em agosto, a Fundação HB, com base numa decisão feita por um júri independente, anunciou que o prémio fora atribuído à jornalista russo-americana Masha Gessen:

 “uma analista do declínio e esperança, Gessen relata os jogos do poder e as tendências totalitárias da mesma forma que relata a desobediência civil e o amor à liberdade”.

 

Mas eis que a 9 de dezembro, Gessen, publica na New Yorker um ensaio (“In  the Shadows of the Holocaust”) onde, numa crítica ao forte apoio que parte da cultura política institucionalizada alemã  vem prestando a Israel, vai chamar a atenção para o paralelo entre o que se está a passar em Gaza  e os guetos de judeus na então Europa nazi:

 

Nos últimos dezassete anos, Gaza tem sido como que um depositório hiperdensamente povoado, empobrecido e murado, em que apenas uma pequena fração da população tinha o direito de sair, mesmo por um curto período de tempo – por outras palavras, um gueto. Não como o gueto judeu de Veneza ou um gueto numa cidade periférica da América, mas como um gueto judeu num país da Europa de Leste ocupado pela Alemanha nazi. Nos dois meses desde que o Hamas atacou Israel, todos os habitantes de Gaza sofreram com o ataque sem interrupção das forças israelitas. Milhares morreram. Em média, uma criança é morta em Gaza a cada dez minutos. As bombas israelitas atingiram hospitais, maternidades e ambulâncias. Oito em cada dez habitantes de Gaza estão agora sem abrigo, deslocando-se de um lugar para outro, nunca conseguindo chegar a um local seguro.”

 

Este parágrafo foi, aparentemente, o suficiente para que a Fundação HB lhe retirasse o prémio, porquanto dele se poderia inferir que Israel tinha como objetivo “liquidar Gaza como se tratasse de um gueto nazi” e que “esta declaração é para nós inaceitável e rejeitamo-la”.

 

Parece interessante chamar a atenção para uma carta publicada a 4 de dezembro de 1948 no The New York Times, escrita por Hannah Arendt e subscrita por vários intelectuais judeus, entre eles Albert Einstein, e na qual, a propósito da visita aos Estados Unidos de Menachem Begin, focavam o aparecimento em Israel de um partido cujos métodos, organização e filosofia política eram semelhantes aos dos partidos nazis:

 

"Entre os fenómenos políticos mais perturbadores dos nossos tempos está o aparecimento, no recém-criado Estado de Israel, do "Partido da Liberdade" (nuat Haherut), um partido político estritamente semelhante na sua organização, métodos, filosofia política e apelo social aos Partidos nazistas e fascistas. Foi formado a partir dos membros e seguidores do ex-Irgun Zvai Leumi, uma organização terrorista e chauvinista de direita na Palestina. A atual visita de Menachem Begin, líder deste partido, aos Estados Unidos é obviamente calculada para dar a impressão de apoio americano ao seu partido nas próximas eleições em Israel e para cimentar laços políticos com elementos sionistas conservadores nos Estados Unidos. Vários americanos de reputação nacional emprestaram os seus nomes para dar as boas-vindas à sua visita. É inconcebível que aqueles que se opõem ao fascismo em todo o mundo, se corretamente informados sobre o histórico e as perspetivas políticas do Sr. Begin, pudessem acrescentar os seus nomes e apoio ao movimento que ele representa."

"Um exemplo chocante foi o seu comportamento na aldeia árabe de Deir Yassin. Esta aldeia, fora das estradas principais e cercada por terras judaicas, não participou na guerra e até lutou contra bandos árabes que a queriam usar como base. Em abril, o The New York Times informou que bandos terroristas atacaram esta vila pacífica, que não era um objetivo militar, mataram a maioria de seus habitantes - 240 homens, mulheres e crianças - e mantiveram alguns deles vivos para desfilarem como cativos pelas ruas de Jerusalém. A maior parte da comunidade judaica ficou horrorizada com o ato, e a Agência Judaica enviou um telegrama de desculpas ao rei Abdullah da Transjordânia. Mas os terroristas, longe de se envergonharem de seu ato, estavam orgulhosos deste massacre, divulgaram-no amplamente e convidaram todos os correspondentes estrangeiros presentes no país para verem os cadáveres amontoados e a destruição geral em Deir Yassin."

 

"O incidente de Deir Yassin exemplifica o caráter e as ações do Partido da Liberdade. Dentro da comunidade judaica, eles pregaram uma mistura de ultranacionalismo, misticismo religioso e superioridade racial. Como outros partidos fascistas, eles foram usados ​​para furar greves e têm pressionado para a destruição dos sindicatos livres, propondo em seu lugar sindicatos corporativos segundo o modelo fascista italiano. Durante o último ano de violência esporádica antibritânica, os grupos IZL e Stern inauguraram um reinado de terror na comunidade judaica palestina. Por falarem contra eles professores foram espancados; por não deixarem os filhos juntarem-se-lhes, adultos foram baleados. Através da utilização de métodos de gângsteres, espancamentos, quebra de janelas e roubos generalizados, os terroristas intimidaram a população e cobraram um pesado tributo."

 

Para quem não se lembre, Menachem Begin foi fundador do partido atualmente no poder, Likud, e sexto Primeiro Ministro de Israel.

Masha Gessen, jornalista russo-americana que nasceu numa família judia que viveu em Moscovo, faz parte do corpo de redatores da New Yorker, é uma crítica acérrima do presidente da Rússia, Vladimir Putin, (o seu livro, The Man Without a Face, apresenta Putin não como um génio político, mas como um simplório cujo ego arruinou o país) e do ex-presidente dos EUA, Donald Trump, (segundo ela, o sucesso de Trump nas eleições de 2016, só pode ser explicado devido à sabotagem eleitoral feita pelo governo russo).

E o que diz nesse artigo que publicou em dezembro, é muito mais inócuo do que a carta-ensaio de Arendt acima relatado.

 

O que leva a pôr-se a questão: será que a Fundação HB aceitaria para o “Prémio Hannah Arendt para o Pensamento Político” a carta-ensaio que a própria Hannah Arendt escreveu em dezembro de 1948?

 

Uma das explicações possíveis para o cancelamento do prémio pela Fundação HB, tem que ver com o enorme sentimento de culpa que a Alemanha tem (ou diz ter) por ter perpetrado o mais conhecido genocídio da história, o que tem levado os representantes institucionais da Alemanha a considerarem como sua missão nacional, a defesa intransigente de Israel.

O que neste caso, confundindo críticas às políticas e práticas de Israel ou a defesa da situação na Palestina, faz com que considere tais posições como antissemitismo. Mesmo que isso implique o silenciamento de vozes judaicas que se façam ouvir contra o apartheid de Israel, a sua ocupação, colonização, e até agora ao que muitos chamam, ainda que incorretamente, de genocídio.

 

 

 

 

Anexo:

Carta aberta da Fundação HB em que suspende a atribuição do prémio a Masha Gessen:

 

Senhoras e senhores,

na próxima sexta-feira, a associação "Prémio Hannah para o Pensamento Político", juntamente com os doadores do prémio, as Fundações Böll Berlim e Bremen e o Senado da Cidade Hanseática Livre de Bremen, entregarão o Prêmio Hannah Arendt de Pensamento Político 2023 à historiadora Masha Gessen.

 

A Deutsch-Israelische Gesellschaft Bremen/Unterweser e.V. (Sociedade Alemã-Israelense) apela aos responsáveis ​​para que suspendam esta decisão. As recentes declarações de Masha Gessen num ensaio na “New Yorker” deixaram claro que isto honraria uma pessoa cujo pensamento está em claro contraste com o de Hannah Arendt. Tal honraria impediria a necessária e determinada posição contra o crescente antissemitismo. Neste ensaio, Masha Gessen banaliza as organizações que apelam a um boicote político, económico e cultural a Israel porque Israel é – na sua opinião – um “estado colonial”; mas este movimento de boicote abriu caminho para que os terroristas do Hamas de 7 de outubro fossem banalizados ou mesmo celebrados como “combatentes da libertação” em muitos lugares.

Como Sociedade Alemã-Israelense, ficamos particularmente incomodados pela declaração de Masha Gessen de que Gaza era “como um gueto judeu num país da Europa de Leste ocupado pela Alemanha nazi”. Gaza tem sido governada pelos próprios palestinianos desde 2005, desde a tomada violenta do poder sob o regime ditatorial do Hamas. O país recebeu milhares de milhões de dólares e euros em ajuda internacional, que o Hamas gastou não no bem-estar da população crescente, mas em armamento maciço e agressivo contra Israel (e na vida luxuosa da sua liderança). Os controlos fronteiriços por parte de Israel (e do Egipto!) destinavam-se a impedir este armamento. Os guetos nazistas na Polónia, na Ucrânia, na Bielorrússia e nos Estados Bálticos eram instalações sob controle total da Alemanha nazi, criada para matar sistematicamente os judeus através da fome, doenças e exploração. Os judeus foram deportados dos guetos para a morte por balas e gás.

É incompreensível para nós como um académico tão experiente como Masha Gessen, que deu um contributo tão grande para a análise crítica do imperialismo russo, possa equiparar seriamente Gaza aos guetos de extermínio nazis. Para nós, só há uma explicação: um preconceito negativo profundo e fundamental contra o Estado judeu. Isto não tem nada a ver com julgamento político no sentido de Hannah Arendt.

Masha Gessen é livre para defender tais opiniões, temos discussões desse tipo em muitas ocasiões hoje em dia; tal como a avaliação crítica da política israelita também é uma parte permanente do nosso trabalho como DIG. Mas as opiniões de Masha Gessen não deveriam ser homenageadas com a atribuição de um prémio que se destina a homenagear a filósofa judia Hannah Arendt.

 

Hermann Kuhn

(Presidente da DIG Bremen/Unterweser e.V.)

 

Outras referências:

 

O blog de 31 de março de 2020, “A colonização sionista da Palestina”.

O blog de 8 de novembro de 2023, “O gueto de Varsóvia”.

E particularmente o blog de 5 de abril de 2023, “Em defesa de Benjamin Natanhyau”.

 

 

 

(457) O tiro pela culatra da Arte Degenerada

Tempo estimado de leitura: 6 minutos.

 

É no Mein Kampf que Adolf Hitler nos vem dizer que durante a sua juventude pensara poder vir a viver só através da arte.

 

As suas criações revelavam-se com pouco talento, e embora demonstrasse uma memória quase fotográfica no tratamento dos edifícios, mostrava-se incapaz de apreciar a forma humana.

 

A exposição da Arte Degenerada aparece como tentativa para desprestigiar os artistas que o Governo entendia  sem qualidade e prejudiciais aos valores morais que pretendia ver instituídos.

 

Todos esses grupos de fofoqueiros, diletantes e falsificadores que se apoiam mutuamente serão desenterrados e eliminados, Adolf Hitler.

 

 

 

 

 

O festival temático e multidisciplinar, “Periferias”, que se realiza anualmente desde o ano 2000 na pequena cidade de Huesca, Espanha, que tem abordado temas como por exemplo exílios, cosmos, versão, festa, terra, futuro, horror, fake, raízes, e cujo tema deste ano de 2023 era dedicado à cultura cigana, vai deixar de se realizar.

E isto acontece, conforme noticia o El País de 11 de dezembro de 2023, devido à exigência que o partido Vox impôs como condição para  que os seus dois eleitos camarários apoiassem o executivo do partido PP.

 

É no Mein Kampf que Adolf Hitler nos vem dizer que durante a sua juventude pensara poder vir a viver só através da arte, pelo que com dezoito anos, quando se mudou para Viena, intentou levar á prática essa sua inclinação. Daí a vida boémia em que caiu, o vestir diferentemente, o viver exclusivamente de noite (mas nada de promiscuidade sexual, pois era-lhe importante chegar puro ao casamento), e o evitar arranjar trabalho fixo: como artista estava por cima disso.

Cheio de confiança, vai tentar entrar para a Academia das Belas Artes de Viena, mas por dois anos seguidos vê recusada a sua entrada. Segundo os examinadores, as suas criações revelavam-se com pouco talento, e embora demonstrasse uma memória quase fotográfica no tratamento dos edifícios (um dos professores aconselhou-o mesmo a esquecer-se da pintura e ir para arquitetura), mostrava-se incapaz de apreciar a forma humana.

Pelo que foi sobrevivendo conforme podia, dormindo em bancos de rua, mendigando refeições em refeitórios sociais de freiras, pintando casas e vendendo estampas de igrejas durante os casamentos que aí se realizavam.

A primeira pessoa que se interessou em comprar por bom preço os seus quadros foi um vidreiro judeu, Samuel Morgenstern. A partir daí, Morgenstern passou a comprar-lhe quase toda a produção, telas que o vidreiro utilizava para encher as molduras dos quadros que vendia na sua loja: “A experiência diz-me que é mais fácil vender as molduras se elas já tiverem uma imagem dentro”, conforme se pode ler no Hitler’s Vienna: A Portrait of the Tyrant as a Young Man.

Muito tempo depois, em 1938, o Governo arrebataria o negócio a Morgenstern, privando-o de licença comercial, o que o impedia de poder trabalhar, acabando por forçá-lo a isolar-se no gueto de Litzmannstad, onde acabaria por morrer, arruinado e miserável.

Triste e curiosamente, os livros da contabilidade de Morgenstern mostraram posteriormente que a maior parte das pinturas com a assinatura de Hitler tinham sido compradas por judeus que queriam levar para casa molduras bonitas já com paisagens.

Em princípios de 2017, inaugurou-se no Museu Della Follia de Salo na Lombardia, uma exposição que pretendia estudar a relação entre a loucura e a arte, e onde se exibia uma pintura a óleo inédita de Hitler. Vittorio Sgarbi, comissário da exposição, disse sobre o quadro: “É uma porcaria que diz muito sobre a psique do autor, não existe aqui grandeza, só miséria”.

 

Foi a 18 de julho de 1937 que o governo nazi inaugurou com pompa e circunstância (Adolf Hitler discursou na abertura, explicando o que era a “arte alemã”, única a ser admitida publicamente no futuro) a primeira Grande Exposição de Arte Alemã (Grosse deutsche Kunstausstellung), na Casa da Arte Alemã (Haus der Kunst) no museu de Munique,  onde figuravam centenas de obras e artistas que o regime dava o beneplácito de considerar como representativas dos seus ideais.

Em salas muitissimamente bem arranjadas, podiam apreciar-se pinturas de famílias alemães idealizadas e felizes, paisagens bucólicas da Alemanha, soldados vitoriosos, jovens loiras alemãs nuas, etc.

 

Mas nesse mesmo julho de 1937, apenas um dia depois, inaugurou-se também uma outra exposição que o governo nazi patrocinou, no Hofgarten de Munique, e a que deu o nome de Arte degenerada (Entartete Kunst), onde se exibiam umas seiscentas e cinquenta pinturas, esculturas e livros de mais de uma centena de artistas, escolhidas pelo pintor do regime Adolf Ziegler e mais cinco outras pessoas a quem tinha sido dada a incumbência de vasculharem e retirarem de todos os museus todas as obras de arte moderna que pudessem ofender o regime, nomeadamente peças do cubismo, expressionismo, surrealismo e abstracionismo.

As instalações no Hofgarten, em visível oposição às da grande Exposição de Arte Alemã, tinham um “aspecto caótico para propositadamente transmitirem uma ideia de se estava perante uma arte e artistas moralmente desprezíveis: quadros empilhados ou pregados nas paredes à pressa, inclinados e rodeados de grafitis que insultavam a obra ou o autor.”

No catálogo oficial podia-se ler que a finalidade da exposição era “demonstrar as intenções por detrás de todo este movimento filosófico, político, racial e moral, assim como as forças motrizes da corrupção que o motivam”.

 

Vejamos alguns exemplos das degeneradas obras e artistas aí presentes:

 

O pintor e escultor expressionista Max Beckmann, muito reconhecido na Alemanha durante a República de Weimar, autor de Retrato de família (1920) e de O sonho (1921), professor na Städelschule de Frankfurt, medalha de ouro da cidade de Düsseldorf. Assim que Hitler chegou ao poder acusa-o de ser bolchevique cultural, afasta-o do ensino e confisca-lhe a obra.

 

Franz Marc, outro pintor alemão, pioneiro do expressionismo, autor de Grandes cavalos azuis (1911), Cão deitado na neve (1911), As raposas (1913). Em 191 alistou-se como voluntário para combater na Primeira Guerra Mundial, acabando por ser encarregado para desenhar a camuflagem militar. Em 1916, o Governo alemão elaborou uma lista de artistas que considerava ser necessário retirar do campo de batalha. Antes de chegar a ordem de evacuação, um estilhaço de metralha, matou-o em Verdun. Vinte anos depois, os nazis olharam para as suas obras e etiquetaram-nas como arte degenerada, retirando cento e trinta dos seus quadros dos museus alemães.

 

Otto Dix, outro artista que se voluntariou para o exército, retratista fora de série com Pela beleza (1922), Retrato da periodista Sylvia von Harden (1924),e com a descrição dos horrores das batalhas com Tropas de assalto avançando debaixo de gás (1924) e Hora de almoço nas trincheiras (1924). Os nazis consideraram que aquilo era uma “sabotagem ao espírito militar das forças armadas”, confiscaram duzentos e setenta quadros e fizeram fogueiras com a maior parte deles.

 

Ernst Barlach, escultor, gravador e escritor alemão, também voluntário em 1916 como soldado de infantaria, vê-se obrigado a abandonar o Exército devido a doença cardíaca.  Foi, no entanto, suficiente para passar de uma atitude favorável à guerra para um antimilitarismo militante, o que se pode ver na sua célebre escultura, Cenotáfio de Magdeburgo (1929). Três soldados alemães rodeando uma sepultura num cemitério junto de uma viúva enlutada com o rosto coberto e um esqueleto vestido como um soldado alemão, não caíram nada bem aos novos censores nazis: Barlach foi proibido de trabalhar como escultor e a maioria das suas obras foi confiscada.

 

Emil Hansen, um convicto antissemita e nacional-socialista, adota o nome artístico de Emil Nolde, que acredita piamente que o expressionismo era um movimento muito alemão e muito nobre, vai pintar O jardim das flores (1908), O paraíso perdido (1921) e Paisagem à luz vermelha (1925). Hitler não compartilha essa opinião, pelo que mandou confiscar todas as suas pinturas.  Nolde passou o resto da vida a pintar a aguarela (para que o cheiro do óleo não o denunciasse quando a Gestapo entrava de surpresa na sua casa) e a esconder os seus trabalhos que intitulou “Os quadros que não foram pintados”.

 

Paul Klee, alemão nascido na Suíça, aborda já o surrealismo, No princípio (1916), Carnaval nas montanhas (1924), Balão vermelho (1922), teve dezassete das suas obras na exposição. Mestre no pontilhismo com Ad Parnassum (1932), e finalmente, pouco antes de morrer, Morte e fogo (1940).

 

Outros artistas figuraram também na exposição, como George Gorsz, Autómatos republicanos (1920), Marx Ernst, O anjo do lar (1937), Edwin Scharff, que esculpiu as estátuas monumentais de domadores de cavalos em Düsseldorf, Rossebändiger (1937), Max Pechstein e Debaixo das árvores (1911), e ainda Kandinski, Henri Matisse, Pablo Picasso, Vincent van Gogh, Ernst Kirchner , Edvard Munch.

 

Acontece que esta tentativa para desprestigiar os artistas que o Governo entendia como sem valor e prejudiciais aos valores morais que pretendia ver instituídos, acabou por redundar num fracasso, na medida em que a Exposição dos Degenerados teve cerca de quatro vezes mais visitantes que a Exposição da Arte Alemã acarinhada pelo Governo. Aliás, a maior parte das obras da Arte Alemã expostas, foram compradas por Hitler com dinheiro do Governo.

Quanto a Adolf Ziegler, o artista pintor encarregado de selecionar e arrebanhar as obras para a exposição dos degenerados, quando expressou certas dúvidas sobre o desenvolvimento da campanha de guerra em curso, Hitler mandou levá-lo para o campo de concentração de Dachau para durante seis semanas se reeducar. Regressado das “férias”, nunca mais encontrou trabalho, acabando por se retirar para uma aldeia em Baden-Baden.

 

 

Adenda:

 

Eis parte do discurso proferido por Adolf Hitler na abertura da Grande Exposição de Arte Alemã em Munique, 18 de julho de 1937:

 

De agora em diante, travaremos uma guerra implacável de limpeza contra os últimos elementos da nossa desintegração cultural. Mas se houver um entre eles que ainda acredita que está destinado a algo mais elevado, então teve quatro anos para o provar, mas esses quatro anos foram suficientes para chegarmos a um julgamento final. Mas agora – quero-lhe assegurar aqui - todos esses grupos de fofoqueiros, diletantes e falsificadores que se apoiam mutuamente serão desenterrados e eliminados. Essas idades da pedra pré-históricas, pré-históricos e gagos de arte, podem regressar às cavernas dos seus antepassados, a fim de lá colocarem os seus primitivos rabiscos internacionais.”

 

 

 

 

 

 

 

(456) Raposas no galinheiro

Tempo estimado de leitura: 4 minutos.

 

Sem o envolvimento das empresas de combustíveis fósseis não se poderá resolver a crise do clima, Sultão Al Jaber, presidente da Cop28 e chefe executivo da ADNOC, Companhia Nacional de Petróleo de Abu Dhabi.

 

Os combustíveis fósseis podem continuar a ser queimados até quase ao fim do século XXI, potenciando com isso o crescimento económico, os empregos e a inovação, W. Nordhaus, Nobel de Economia.

 

Os fundos de pensões informaram os seus membros que o aquecimento global de 2 a 4,3ºC terá apenas um impacto mínimo nas suas carteiras, conselho de consultores de investimento.

 

 

 

 

O IPCC (Intergovernmental Panel on Climate Change), é uma organização intergovernamental das Nações Unidas que tem por missão promover o avanço do conhecimento científico relacionado com as alterações climáticas causadas pelas atividades humanas. Constituído em 1988, é a autoridade internacionalmente aceite no que se refere à alteração climática.

O Painel é constituído por membros de 195 governos, que se reúnem em Sessões Plenárias pelo menos uma vez por ano, para aprovarem, entre outros, o Relatório Anual (Assessment Report), com as principais conclusões a que chegaram e que servem de base para as negociações anuais da United Nations Framewrk Convention on Climate Change (UNFCCC). Por exemplo, o Quinto Relatório Anual teve enorme influência para se conseguir chegar ao consenso do  Acordo de Paris em 2015, no qual se aprovou a limitação da subida de temperatura global para 2ºC acima dos níveis pré-industriais.

 

Este ano, a 28ª Conferência (COP28) realizou-se no Dubai, Emiratos Unidos Árabes (UAE), debaixo da presidência do Sultão Al Jaber, chefe executivo da Adnoc, a Companhia Nacional de Petróleo de Abu Dhabi, que recentemente disse que a ciência não justificava que a eliminação dos combustíveis fósseis fizesse diminuir, só por si, o limite do aquecimento global, e que tal eliminação conduziria antes o mundo para uma nova era das cavernas. Note-se que é a primeira vez que um homem de negócios é presidente da Conferência (COP), acrescendo ainda neste caso ser também presidente de uma empresa petrolífera.

O que para Al Jaber é perfeitamente aceitável e correto porquanto “sem o envolvimento das empresas de combustíveis fósseis não se poderá resolver a crise do clima”. Para ele e certamente para os 2.500 lobistas dessas empresas de combustíveis fósseis presentes na conferência.

No mesmo sentido se pronunciou o Secretário Geral da OPEC, Haithman Al Ghais, quando incentivou os estados membros da aliança a rejeitarem quaisquer tentativas para que no documento final desta 28ª Conferência fossem inseridas menções sobre a eliminação gradual dos combustíveis fósseis.

 

Em assuntos de tal complexidade e de enormes interesses económicos, industriais, políticos e militares, com a participação de cientistas e ativistas, os documentos finais refletem exatamente isso: o ponto de equilíbrio, o que não significa o mais certo nem o mais correto, apenas o que garantiu a aprovação. Daí as variadas controvérsias, interpretações, confrontações, avanços e atrasos para todos os gostos.

 

É em 1977 que William Nordhaus vai publicar dois estudos sobre as estratégias para o controle do dióxido de carbono e sobre a influência do dióxido de carbono no crescimento económico e no clima. Em 1991 começa a desenvolver um modelo para aplicação simultânea à economia e ao clima, aproximando-se do célebre modelo DICE (Dynamic Integrated Climate-Economy), que permite pesar e quantificar os benefícios das medidas a tomar para atrasar a alteração climática.

Segundo os modelos de Nordhaus (Nobel de Economia em 2018, e principal influenciador da política adotada pela Environmental Protection Agency dos EUA, do IPCC, dos principais gestores de risco globais, de serviços financeiros da indústria, e das principais universidades que ensinam economia do clima),  um aumento de temperatura entre os 2,7 e 3,5 graus Celsius conduzirá até a uma adaptação “ótima” da economia global, ou seja, os combustíveis fósseis podem continuar a ser queimados até quase ao fim do século XXI, potenciando com isso o crescimento económico, os empregos e a inovação.

A humanidade não terá dificuldade em adaptar-se a tal grau de aquecimento, e investimentos modestos na infraestrutura poderão resultar em pequenas e graduais alterações sociais e em poucos sacrifícios nos países desenvolvidos.

 

Vários cientistas têm criticado a opção por este modelo (DICE) em que o efeito do aquecimento do clima é medido apenas como uma perda (ou ganho) percentual no PIB. Presume-se que o crescimento do PIB seja “determinado exogenamente”, na linguagem da teoria económica, o que significa que persistirá a uma taxa de crescimento definida ao longo do tempo, independentemente dos choques climáticos.

Esta presunção de crescimento constante num futuro afetado pelo clima é, segundo Stern e Stiglitz, um dos erros de Nordhaus:

 

“O modelo de Nordhaus não toma em conta o facto de que se não fizermos mais para evitar as alterações climáticas, as alterações climáticas afetarão as taxas de crescimento […] Teremos de gastar cada vez mais na reparação de danos, o que nos deixará cada vez menos para gastar em investimentos que promovam o crescimento.”

 

Por exemplo, calor extremo, submersão, desertificação, furacões, etc. bem como grandes mudanças climáticas, poderão tornar improdutivas ou inabitáveis grandes áreas do mundo de baixa produtividade.

 

Já os economistas climáticos da escola Nordhaus estimam que, à medida que a atividade económica devido ao aquecimento se dirige para o Pólo, a redução maciça do PIB verificada nos trópicos será compensada por uma adaptação ótima no Norte. Essa redução maciça do PIB não é explicitamente entendida como o colapso do sistema alimentar ao longo do equador, do colapso social que se segue, mortes em massa, guerras e êxodos bíblicos que produzem efeitos não lineares em cascata.

Isso não é preocupante, assegura Nordhaus: A extinção violenta de nações com baixo PIB dificilmente afetará as perspetivas de crescimento económico global porque as coisas irão melhorar no Norte.

 

Não é de admirar que o sector financeiro se basei neste otimismo. Seguindo o “conselho de consultores de investimento, os fundos de pensões informaram os seus membros que o aquecimento global de 2-4,3ºC terá apenas um impacto mínimo nas suas carteiras”.

Segundo outros especialistas críticos, estamos antes perante “uma enorme desconexão entre o que os cientistas esperam do aquecimento global e aquilo para que os reformados/investidores/sistemas financeiros estão preparados.”

 

Eis o que Andrew Glikson, que leciona na Universidade Nacional Australiana em Canberra e aconselha o IPCC, escreveu sobre o que considera vir a ser uma próxima era de morte humana em massa, a que chama de Plutoceno, o sucessor natural do Antropoceno, e que acusa os governos globais de serem “criminosos” por inaugurarem o Plutoceno na busca de ganhos políticos e económicos de curto prazo:

 

As classes governantes desistiram da sobrevivência de numerosas espécies e das gerações futuras” […] “e a sua inação constitui o crime final contra a vida na Terra”.

 

Fizeram galinheiros. E autorizaram a entrada de raposas com coleira.

(455) A Amizade duradoura e estável

Tempo estimado de leitura: 6 minutos.

 

A amizade é uma relação de afeição recíproca entre dois adultos do mesmo estatuto, que sentem esse sentimento para com o outro porque reconhecem e apreciam as virtudes um do outro, Aristóteles.

 

Um amigo é como que a nossa outra pessoa., Aristóteles.

 

Uma boa pessoa gosta de si mesmo, mas gosta mais de si mesmo do que de qualquer outra pessoa, Aristóteles.

 

A amizade que envolva amor recíproco baseado nas virtudes do outro é uma amizade duradoura e estável, Aristóteles.

 

 

 

Há mais de dois mil e trezentos anos já a humanidade tinha passado por muito, pelo que não constituía novidade o conhecimento que fora sendo adquirido sobre os tipos de constituições políticas utilizadas para governar as sociedades. A saber: conforme fossem governadas por uma só pessoa, por algumas pessoas ou por muitas pessoas, assim teríamos respetivamente monarquia, aristocracia e “timocracia”.

O que de certa forma constituiu novidade foi a extrapolação que Aristóteles revelou na Ética a Nicómaco, quando fez notar que existia uma correspondência, que não era acidental, entre a família e a sociedade política (8.10-11).

 

Para o demonstrar, começa por afirmar que aquelas três formas de governo também se encontravam presentes em todas as famílias (1160b22-23): a monarquia, teria o seu equivalente nas relações que existem entre pai e filhos; a aristocracia, teria o seu equivalente no governo que marido e mulher fazem da casa; e a timocracia, teria o seu equivalente no governo próprio que os irmãos têm sobre as outras pequenas coisas que lhes são próprias.

 

E como é que todas estas características que se desenvolvem na família, são transferidas, por analogia, dos cidadãos para o governo da sociedade política?

As pessoas de uma comunidade têm necessidades individuais que, grande parte das vezes não conseguem suprir, senão através da cooperação com outros membros da comunidade; considera-se o que motiva esta cooperação, o querer ou a necessidade de cada um, como o bem original,; e o que conseguem através desta cooperação é o seu bem comum.

Não é o bem original que cada pessoa consegue que constitui o bem comum da associação, mas sim o que cada um recebe através do plano da sua cooperação, uma vez que o bem comum implica uma espécie de troca, que vai transformar os objetivos de cada um dos membros da associação.

 

De seguida vai demonstrar que só por si, a justiça não é suficiente para garantir a cooperação suficiente entre as pessoas (1155a22-28), tornando-se para isso necessária a existência de amizade de uns pelos outros.

Sendo natural a sociabilidade entre seres humanos, “os seres humanos são por natureza animais que vivem em cidades” (1097b11), não seria correto que a natureza nos tivesse dado essas propensões para nada; deve haver algo onde os seres humanos se abrigaram para desenvolver tal demonstração de afeições que lhes permite exibir amizade nas várias associações em que participam. Para Aristóteles, é a família que faz desenvolver tais aptidões.

Daí que a família não exista isolada, ela é feita para ser membro de uma sociedade política, e conduz a uma sociedade política; ela só pode, portanto, ser entendida na sua relação natural com a sociedade política.

Parece, pois, que a amizade seja central para o desenvolvimento de tais aptidões.

 

Para Aristóteles, a amizade é entendida como uma relação de afeição recíproca entre dois adultos do mesmo estatuto, que sentem esse sentimento para com o outro porque reconhecem e apreciam as virtudes um do outro.

Assim, e por definição, todas as outras formas de amizade que não se possam incluir na definição, como sejam as amizades entre não iguais, ou entre pessoas a quem faltem virtudes, ou em relações tidas só porque algo se ganha com elas, são secundárias ou derivadas. Mesmo as afeições dentro da família, são casos secundários de amizade.

Daí a importância de dedicar a maior parte do capítulo 8 (8.1-12) às definições, classificação, e formas de amizade, para que posteriormente consiga decidir-se sobre quais as que deverá seguir.

 

Começa por apresentar algumas das dificuldades presentes nas relações de amizade (8.13-9.2).  Passa de seguida para a discussão sobre a natureza da amizade (9.4-8), onde vai desenvolver a teoria de que um amigo é como que a nossa outra pessoa, pois uma boa pessoa relaciona-se com o amigo como se relaciona consigo próprio.

 Esta noção de amigo como a nossa outra pessoa, leva-o a examinar o amor-próprio. Se os amigos amarem os seus amigos de igual maneira que eles gostam de si próprios, e se assim o fizerem, como a amizade é algo de bom, daqui se pode concluir que o amor-próprio é também algo de bom.

Mas como o amor-próprio é normalmente associado ao egoísmo, Aristóteles é forçado a dar uma explicação mais detalhada (9.8), começando por considerar que há um amor-próprio bom e um amor-próprio mau. Segundo ele, uma boa pessoa gosta de si mesmo, mas gosta mais de si mesmo do que de qualquer outra pessoa.

 

Depois, passa àquilo que constitui a reciprocidade da amizade, com o exemplo dos amigos que fazem o bem a cada um deles, ou seja, eu faço-te bem a ti e por isso, tu fazes-me bem a mim. Para Aristóteles, este tipo de reciprocidade é defeituoso. Por que razão os amigos praticam a reciprocidade? Por que razão um amigo pretende corresponder às ações do outro? Porque pretende ser como o outro para o outro. Ora, isto implica uma relação de igualdade e, de algum modo, de partilha. Contudo, um acto de serviço ou de doação, é baseado na desigualdade: a pessoa que faz o serviço é superior à que recebe o serviço, que lhe é inferior. Por outro lado, os amigos não fazem as coisas à vez, ou seja, não é uma vez um e depois o outro.

 

Foram considerações como esta, que o levaram a concluir que a melhor expressão de amizade não é aquela em que os amigos se afadigam a fazer o bem um do outro, mas antes, quando se empregam a passarem tempo com o outro, e a viverem juntos toda a vida. Passar tempo com um amigo é a melhor forma de se descobrirem mutuamente.

 A amizade é tanto maior, quanto mais os amigos pensarem sobre as mesmas verdades, cada um deles reconhecendo que o outro pensa da mesma maneira. O pensamento e a perceção do ser humano são reflexivos: pensar é sempre perceber que o outro também pensa. Só passando tempo com o amigo é que conseguiremos ter uma relação com a outra pessoa que se possa assemelhar à relação que temos connosco mesmo.

 

Os três níveis de amizade

 

Também para a amizade Aristóteles vai considerar a existência de três níveis, mas em que apenas ela se torna possível de realizar no nível mais elevado.

Começa por partir do princípio que só há duas coisas que os indivíduos procuram como finalidade: bens e prazeres. O que o leva de imediato à primeira classificação dividindo o amor em dois tipos: o amor por bens e o amor por prazeres.

Como o amor diz sempre respeito a uma relação entre um agente e o objeto do amor, então esses dois tipos de amor que uma pessoa pode ter por outra são subdivisíveis em quatro subtipos distintos: uma pessoa tem amor a outra porque essa pessoa é boa; uma pessoa tem amor a outra porque essa pessoa lhe dá prazer; uma pessoa tem amor a outra porque essa pessoa contribui para o seu bem; uma pessoa tem amor a outra porque essa pessoa contribui para o seu prazer.

Após examinar exaustivamente estes tipos de amor, acaba por reduzi-los a apenas três:

Amor baseado na utilidade, amor baseado no prazer e amor baseado no bem.

 

E que tipo de relação é que irá resultar quando se inserirem estes três tipos de amor no esquema da amizade? Começa primeiro pelas relações nas quais cada amigo tem pelo outro o mesmo tipo de amor, “amizades que são uniformes” (1156b33-35,1163b32-33), uma vez que são estas aquelas que mais próximas estão do ideal de uma amizade recíproca.

Mas acaba por concluir que, apenas a amizade que envolva amor recíproco baseado nas virtudes do outro é uma amizade duradoura e estável, “exatamente [o que] procuramos numa amizade” (1156b35).

 Contudo, não diz que seja a única merecedora do nome de amizade, concedendo que qualquer outra relação possa ser também percebida como de amizade, num maior ou menor grau, na medida em que se assemelhar ao ideal da amizade (1157ª25-32;1158b5-11).

 

Amor-próprio

 

No capítulo 9.4-8, Aristóteles volta ao tema da discussão em torno do amor-próprio e da amizade. O argumento que desenvolve é que para uma pessoa boa, qualquer relação de amizade que tenha é sempre uma extensão do seu amor-próprio.

Passa a diferenciar aquilo que considera serem as marcas distintas da amizade, a saber:

Assistência: um amigo deseja coisas boas ou coisas que lhe parecem boas, e fá-las para o seu amigo.

Alegria: um amigo tem como bom o facto da mera existência e vida do seu amigo.

Associação: os amigos passam tempo uns com os outros.

Simpatia: um amigo fica feliz com o prazer do seu amigo, e fica aflito com a aflição do seu amigo.

 

Na sua argumentação, Aristóteles vai sempre partir do pressuposto que uma boa pessoa tem sempre como finalidade agir virtuosamente, mas para tal tem de o fazer intencionalmente, o que implica uma ação pensada.

 Por isso, uma boa pessoa, deseja sempre coisas boas para si. E, como tem carácter virtuoso, extrapola para fora de si esta intencionalidade. Donde conclui que, se entendermos corretamente o que é o amor-próprio, veremos que é de todo impossível amar o outro mais do que a nós próprios.

 

Amizade e felicidade

 

Para Aristóteles, só existe amizade se ambas as pessoas envolvidas forem virtuosas; então, se a felicidade não for possível sem amizade, a felicidade não será possível para quem não seja virtuoso.

Vai depois expandir a sua argumentação sobre felicidade e amizade (1169b28-13), começando por definir felicidade como a atividade da alma de acordo com a virtude. Se os amigos nos ajudarem a ser ativos na virtude, então necessitamos deles para ser felizes.

 

Palavras finais                                                          

 

Os seus comentários sobre a amizade terminam no livro nove, donde citamos:

 

E, é por isto, que a amizade entre pessoas más é má. Porque elas comungam coisas más e são instáveis, tornam-se maus ao serem como o outro. Pelo contrário, a amizade entre pessoas boas é boa, uma vez que se vão desenvolvendo à medida que se associam, tornando-se melhores pessoas pelas suas ações e correção mútuas, por copiarem uma da outra tudo aquilo que lhes dá prazer, o que é a fonte do ditado, ‘homem nobre só faz coisas nobres”.

 

 

Notas:

 

É na Ética a Nicómaco, que Aristóteles nos revela que anda à procura da finalidade última da vida humana, pois só assim se alcançará a felicidade. Pelo que não admira que a verdadeira amizade, nos termos em que é por ele colocada, seja extremamente rara. Aristóteles certamente já sabia isso há 2.300 anos, mas trata-se de Ética, que aponta para os ideais da ação e, assim sendo, mesmo que tal amizade seja rara, ela constituirá sempre um ideal contra o qual mediremos as nossas amizades comuns.

 

Convém não esquecer que Aristóteles fez sempre parte das elites do poder. Após a morte do seu pai, Nicómaco, que era médico da corte de Amintas II, rei da Macedónia (pai de Filipe da Macedónia e avô de Alexandre, o Grande), Aristóteles é enviado ainda jovem para Atenas para estudar com Platão na “Academia”. Após a morte de Platão, retira-se para Assos (Ásia Menor, hoje Turquia), onde casa com a sobrinha do rei Hérmias. Segue-se a sua indicação para tutor dum rapaz de 13 anos, Alexandre que viria a ser o Grande, e posterior regresso bem acompanhado a Atenas, onde vai fundar no “Liceu” o seu novo local de ensino, considerado como a primeira Universidade pelas áreas de conhecimento aí lecionadas e pelo método seguido.

 

A Ética a Nicómaco é um dos textos fundamentais do pensamento Ocidental, estando na raiz da filosofia moral, da teoria política, da ciência do comportamento e da economia. Foi postumamente editada por Nicómaco, filho de Aristóteles, o que levanta aquela dúvida menor, mas curiosa, sobre quem é o Nicómaco a que a Ética a Nicómaco se refere.

 

A obra é composta por três secções principais, a que se segue uma quarta, onde discute outros tópicos. É nesta quarta parte, nos capítulos 8 e 9, que vai dedicar especial atenção à Amizade, e quando dizemos que dedica especial atenção é porque ela constitui um quinto da obra.

A numeração incluída corresponde à da versão utilizada, e que foi a de Cambridge University Press, Aristotle: Nicomachean Ethics, editada e traduzida por Roger Crisp, novembro 2014.

 

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