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Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

(441) Não é preciso saber ler para saber contar

Tempo estimado de leitura: 2 minutos.

 

Eu nunca mais leria um livro, Sam Bankman-Fried.

 

Mark Zuckerberg, César Augusto e as “coisas” que teve de fazer.

 

Livros são para perdedores.

 

 

 

 

É pacificamente aceite por quase todos a extraordinária ignorância demonstrada sobre questões de sociedade e história dos homens do nosso tempo que estão a moldar a nova sociedade. Louva-se-lhes a coragem, a perseverança, as qualidades de trabalho e a dedicação à causa. Louvados sejam.

 

Sabemos entretanto que Mark Zuckerberg leu bastante sobre César Augusto, considerando-o uma figura fascinante por “ter conseguido um largo período de paz, o que se antevia como inalcançável” tendo para isso de “fazer escolhas que não foram fáceis, e teve de fazer algumas coisas”. Certamente devia estar a referir-se à eliminação de opositores políticos e à execução do neto.

 

Também Elon Musk, brilhante engenheiro, parece ter dificuldades em lidar com singelos conceitos literários como a paródia e sátira.

 

Mas o cúmulo é Sam Bankman-Fried (SBF como era conhecido), o fundador da empresa de câmbio de cripto moedas FTX, que recentemente perdeu a sua fortuna de 16 biliões de dólares em poucos dias. Numa entrevista dada semanas antes a Will Gottsegen da The Atlantic:

 

"Oh sim?" diz SBF. “Eu nunca mais leria um livro.”

Não tenho bem a certeza do que dizer sobre isso. Durante toda a minha vida adulta li um livro por semana e escrevi três.

Sou muito cético relativamente aos livros. Não quero dizer que nenhum livro valha a pena ser lido, mas na verdade acredito em algo muito próximo disso”, explica SBF.

Eu acho que se você escreveu um livro, você fez uma asneira, e deveria antes ter feito uma postagem de seis parágrafos no blog.

 

Ora aí está: livros são para perdedores.

 

 

(“Oh, yeah?” says SBF. “I would never read a book.” 

I’m not sure what to say. I’ve read a book a week for my entire adult life and have written three of my own.

“I’m very skeptical of books. I don’t want to say no book is ever worth reading, but I actually do believe something pretty close to that,” explains SBF. “I think, if you wrote a book, you fucked up, and it should have been a six-paragraph blog post.”

So there you have it: Books are for losers.)

https://archive.ph/Yg64e

 

 

Não posso deixar de lembrar aquele ditado popular sobre as bruxas:

“Não sei se há bruxas ou não. Mas que as há, há”.

Repare-se no nome do SBF traduzido para português: Samuel dos Bancos Frito! E que bem frito ficou!

 

(440) Sobre a obscenidade

Tempo estimado de leitura: 5 minutos.

 

A sociedade da abundância é obscena nos discursos, nos sorrisos dos seus políticos e oradores; nas suas orações, na sua ignorância, na falsa sabedoria dos intelectuais que ela sustenta, H. Marcuse.

 

O símbolo da obscenidade não é a mulher nua que exibe a sua púbis, mas o general que exibe no seu peito a medalha que ganhou no Vietname, H. Marcuse.

 

Face a uma sociedade sem moral, a moralidade torna-se uma força política efetiva, H. Marcuse.

 

 

 

 

 

Foi em 1969 que Herbert Marcuse abordou no seu ensaio sobre a libertação, An Essay On Liberation, o tema da obscenidade na sociedade da abundância em que se vivia:

 

“É obsceno, da parte dessa sociedade, produzir e expor descaradamente uma quantidade asfixiante de mercadorias, enquanto as suas vítimas se veem privadas de mais do que o estritamente necessário; ou empanturrar-se de alimentos, de encher com as suas sobras caixotes de lixo, quando nas suas zonas de agressão, destrói ou envenena os raros resquícios comestíveis que aí existem. A sociedade da abundância é obscena nos discursos, nos sorrisos dos seus políticos e oradores; nas suas orações, na sua ignorância, na falsa sabedoria dos intelectuais que ela sustenta.

A obscenidade enquanto conceito moral é vítima, no arsenal verbal da ordem estabelecida, de uma utilização abusiva: ela nunca é aplicada ao comportamento moral da ordem estabelecida, mas sim e sempre ao comportamento moral dos outros. Assim, o símbolo da obscenidade não é o da mulher nua que exibe a sua púbis, mas do general que exibe no seu peito a medalha que ganhou no Vietname; não é o ritual hippie, mas a declaração do alto dignatário da Igreja segundo o qual a guerra é necessária para se obter a paz.

A terapia linguística, quer dizer o esforço para desembaraçar as palavras (e, portanto, os conceitos) da significação adulterada com que a ordem estabelecida as carregou, impõe que os critérios morais não sejam mais fundados (nem sancionados) pela ordem estabelecida, mas pela revolta.

De igual modo, o vocabulário sociológico deve ser alvo de uma refundação radical: é preciso retirar-lhe a capa de pretensa neutralidade, é preciso deliberadamente, sistematicamente, “moralizá-lo” numa ótica de Recusa.

A moralidade não é necessariamente e antes de tudo um facto ideológico; perante uma sociedade sem moral, a moralidade aparece como uma força política efetiva; é ela que dá ânimo aqueles que queimam as suas cadernetas militares da incorporação, aqueles que ridicularizam os seus líderes nacionais, aqueles que nas igrejas se fazem ouvir com cartazes onde inscrevem o mandamento: “Não matarás”.

 

A reação normal à obscenidade é a vergonha, normalmente interpretada como a manifestação fisiológica do sentimento de culpa que acompanha a transgressão de um tabu. Mas as exibições obscenas da sociedade da abundância não provocam habitualmente nem vergonha nem sentimento de culpa, mesmo se essa sociedade enfrente alguns dos tabus morais mais importantes da nossa civilização.

A noção de obscenidade provém da esfera sexual, a falta e o sentimento de culpa provém da situação edipiana. Se a moralidade social tivesse por base a moral sexual, poderíamos pensar que a falta de vergonha na sociedade da abundância e o apagamento eficaz do sentimento de culpa, correspondem a uma atenuação da vergonha e do sentimento de culpa na esfera sexual.

 Aliás, a exibição da nudez para todos os efeitos práticos é autorizada e mesmo encorajada; e os tabus sobre as relações pré-maritais e extramaritais, estão consideravelmente relaxados. Encontramo-nos assim confrontados com este paradoxo, que a liberalização da sexualidade serve de base institucional ao poder repressivo e agressivo da sociedade da abundância.

Contudo, esta contradição é apenas aparente, isto se dermos conta que esta liberalização da moralidade da ordem estabelecida continua inscrita no quadro das restrições eficazes: desde que se mantenha contida nessa moldura, o que ela faz é reforçar a coesão do conjunto.

O relaxamento dos tabus, restringindo o sentimento de culpa, cria uma relação libidinal (mesmo que fortemente ambivalente) entre os indivíduos “livres” e os Pais institucionalizados: estes aparecem como autoritários, mas tolerantes; e é assim que eles dirigem a nação e a economia por forma que pareça assegurar e a proteger a liberdade dos cidadãos.

Pelo que, sempre que a violação dos tabus transcender a esfera sexual, a falta e o sentimento de e a revolta, tal indica não um apagamento ou uma atenuação do sentimento de culpa, mas apenas uma transferência: não somos nós que somos culpados, são os “pais”; a sua tolerância aparente não passa de hipocrisia; para se verem livres da sua própria culpa atribuindo-a a nós, os filhos, criam um mundo de hipocrisia e de violência no qual nós recusamos viver. A revolta instintiva passa então a revolta política, e esta conjuntura suscita de parte da ordem estabelecida a mobilização de toda a sua potência […]”

 

“[…] A economia dita de consumo e a política do capitalismo dos monopólios forjaram o homem a uma segunda natureza que o liga à forma comercial através de um modo libidinal e agressivo. A necessidade de possuir, de consumir, de manipular, de renovar constantemente todos os gadgets, aparelhos, motores, máquinas de todas as espécies que se oferecem, e se impõem mesmo, aos indivíduos, a necessidade de se servir deles mesmo com risco da própria vida, torna-se […] uma necessidade “biológica”.

Assim, a segunda natureza do homem opõe-se a uma alteração que risque interromper e talvez mesmo a abolir aquela dependência do indivíduo relativamente a um mercado cada vez mais saturado de mercadorias – pondo assim fim à sua existência como consumidor que se consome a ele próprio na sua compra e na sua venda.

As necessidades engendradas pelo sistema são, portanto, eminentemente estabilizadoras e conservadoras: elas representam o enraizamento da contrarrevolução no mais profundo da estrutura instintiva.

O mercado foi sempre um mercado de exploração e, portanto, de dominação, contribuindo para um fechamento da estrutura de classes da sociedade. Contudo, o processo de produção do capitalismo avançado modificou a forma de dominação: recobriu com um véu tecnológico o puro interesse da classe que opera no mercado.

Será ainda necessário explicar que não é a tecnologia, a técnica, a máquina, que exercem o domínio, mas somente a presença, nas máquinas, da autoridade dos patrões que determinam o número, a duração da existência, o poder e a significação na vida dos homens, e que decidem sobre a necessidade que temos deles? […]

O automóvel, a televisão, os aparelhos domésticos, não têm por si próprios uma função repressiva, só na medida em que sendo produzidos segundo as leis de lucro do mercado eles se tornam parte integral da existência dos indivíduos, da sua “quotidianidade” – por forma a que os indivíduos são constrangidos a adquirir por compra uma parte integrante da sua existência, e que esta se torna a realização do capital.

É o interesse de classe puro e simples que preside à construção de automóveis ultrapassados (fora de moda) e pouco seguros, libertando assim energia destruidora; que se serve das comunicações de massa para fazer o elogio da violência e da estupidez, e assegurar a servidão dos seus auditores. Os patrões não fazem mais que responder aos pedidos do público e das massas: a famosa lei da oferta e da procura estabelece uma harmonia entre os dirigentes e os dirigidos.

Esta harmonia é, evidentemente, pré-estabelecida, na medida em que os patrões moldaram um público que reclama as suas mercadorias, e com a maior insistência possível, nessas e por essas mercadorias, em que descarregam a frustração e agressividade que elas provocam.

Com efeito, onde é que a autodeterminação e a autonomia do indivíduo, poderão exprimir-se? No direito de conduzirem um automóvel, de manipularem engenhos mecânicos, comprarem uma arma, ou de expressarem a sua opinião, por mais agressiva e estúpida que seja, a um grande número de auditores.

O modo como o capitalismo organizado sublimou a frustração e a agressividade primária dos indivíduos para os utilizar de maneira produtiva na sociedade, não tem precedentes na história: não que essa sublimação transporte consigo uma quantidade de violência extraordinária, mas porque ela nunca engendrou tal satisfação, um tal contentamento, nunca ela conseguiu reproduzir tão bem a “servidão voluntária” […]

 

O capitalismo está em vias de produzir uma bem maior quantidade de objetos que nos provoquem satisfação do que anteriormente, e isso permite-lhe uma acomodação pacífica dos conflitos de classes; mas isso não apaga a sua caraterística fundamental, a apropriação privada da mais-valia (apropriação controlada, mas não abolida, pela intervenção do Estado), e a conversão dessa mais-valia em lucro do grande capital. O capitalismo reproduz-se transformando-se, ou seja, melhorando o seu sistema de exploração. A exploração e a dominação não são mais sentidas como penosas, elas são “compensadas” por um nível de conforto jamais igualado […]

Da mesma forma, este sistema, em função do qual vastas regiões do planeta se transformaram num inferno, repousa sobre um processo de produção no qual a energia física dá progressivamente lugar à energia mental: o trabalho tornou-se por isso menos extenuante?

Se respondermos pela afirmativa, então justificamos todas as formas de opressão desde que elas mantenham a populaça tranquila e contente; ao passo que uma resposta negativa despoja o indivíduo do direito de ser o próprio juiz da sua felicidade.”

 

 

Transcorridos 54 anos após a publicação deste escrito, ou passou ainda pouco tempo para que a moralidade se tenha tornado uma força política, ou o conceito de moralidade se alterou, se modificou, se tornou irrelevante, ou foi absorvido pela força política.

 

 

 

(439) A colonização do Universo: “First we take Manhattan …”

Tempo estimado de leitura: 7 minutos.

 

Os humanos anatomicamente modernos surgiram há menos de 400.000 anos; estamos presentes há menos de 0,01 por cento do tempo da história da Terra.

 

Replicar tudo o que a Terra nos oferece num outro planeta, em escalas de tempo de algumas vidas humanas, é simplesmente impossível.

 

Se não podemos aprender a trabalhar dentro do sistema planetário com o qual evoluímos, como esperamos replicar esses processos profundos num outro planeta?

 

O ´faroeste’ como ideal e espaço de liberdade para quem saiba manejar as pistolas”, Bauman.

 

 

 

Sabemos hoje que Marte é um planeta frio, seco, com uma atmosfera muito fina e tempestades de areia que podem durar semanas sem fim. A pressão média à superfície é menos de um por cento da Terra, pelo que sobreviver sem fato pressurizado é impossível. A composição do ar é essencialmente de dióxido de carbono (na Terra a atmosfera contém apenas 0,04 % de CO2) e, as temperaturas oscilam entre os 30º no verão e os -140º no inverno.

Ou seja, é impossível a permanência em Marte por longos períodos a não ser que se o transforme num local/ambiente mais parecido com a Terra (terraforming). O que poderia ser feito se, por exemplo, se libertasse CO2 para criar um efeito de estufa que permitiria aumentar a temperatura, tornaríamos a atmosfera de Marte mais densa. Só que ao atingirmos níveis de 10% de CO2 (que não chegariam para aquecer o planeta), os seres humanos sufocariam, mesmo que tivessem oxigénio em abundância.

Outra hipótese seria a construção de cúpulas à superfície ou em grutas onde os humanos se abrigassem, só que devido às grandes diferenças de pressão entre o interior e exterior (muito maior que num avião em grande altitude) teria de ser mantida uma vigilância constante e permanente para evitar que qualquer fuga originasse uma explosão e sufocamento.

 

Mas havendo tantas estrelas, não seria melhor aguardar para ver se elas não teriam um qualquer planeta (exoplaneta) com condições idênticas à Terra?

Só a missão Kepler da NASA já identificou mais de 100.000 estrelas, com 900 planetas de dimensão idêntica à Terra, dos quais 23 podem ser considerados como habitáveis (a superfície pode suportar água líquida, desde que tenha pressão atmosférica suficiente).

Estudos recentes predizem que em cada uma de 10 estrelas podem-se encontrar planetas deste tipo. A ser assim, só na nossa galáxia, com aproximadamente 300 biliões de estrelas, para uma média de 30% poderemos ter 90 biliões de planetas compatíveis. O que nos deixa esperançados, porque pelo menos um deles poderá ser exatamente igual à Terra.

 

Claro que existe o problema da distância. Marte está a 225 milhões de quilómetros. Mesmo que os astronautas viajassem a 58.000 kph (velocidade máxima da New Horizon), levariam 162 dias a alcançar Marte, e 79.000 anos a alcançarem a Proxima Centauri, a estrela mais próxima fora do nosso sistema solar a 40 triliões de quilómetros.

 

Esqueçamos todos estes problemas, e concentremo-nos na possível chegada ao nosso tão procurado novo planeta idêntico à Terra. Observamos formas de vida a flutuar nos oceanos, expelindo o metano que dá ao céu aquela cor alaranjada. Idêntico ao nosso, mas em que fase de desenvolvimento está? Lembremos que nós não conseguíamos sobreviver na Terra ao longo de 90% da sua história: a atmosfera rica em oxigénio de que dependemos só recentemente aconteceu no nosso planeta.

No começo (Éon Hadeano) a Terra teria sido um lugar terrível com oceanos de lava derretida e uma atmosfera de rocha vaporizada. Seguiu-se o Arqueano, há 4 biliões de anos, quando a primeira vida (não humana) surge na Terra. Depois do Arqueano veio o Proterozoico, há 2,5 biliões de anos. Neste aparecia já terra, um oceano azul e um céu mais familiares. O oxigénio finalmente começou a acumular-se na atmosfera. Mas o nível de oxigénio era inferior a 10% do que temos hoje. O ar ainda seria impossível para nós respirarmos. Seguiram-se as grandes glaciações, onde por milhões de anos o gelo cobriu todo o globo, dos polos ao equador. A Terra passou mais tempo totalmente congelada do que o tempo que nós, humanos, existimos.

 

O atual período da Terra, o Fanerozoico, começou há apenas cerca de 541 milhões de anos com a explosão Cambriana – um período de tempo em que a vida se diversificou rapidamente. Uma infinidade de vida, incluindo as primeiras plantas terrestres, dinossauros e as primeiras plantas com flores, todas apareceram durante este período. Finalmente a nossa atmosfera tornou-se na que podemos respirar. Este período também foi caracterizado por múltiplas extinção em massa que eliminaram até 90% de todas as espécies em curtos espaços de tempo. Do ponto de vista do planeta, as mudanças que levam a essas extinções em massa são relativamente pequenas. No entanto, para as formas de vida da época, essas mudanças destruíram o seu mundo e muitas vezes levaram à sua extinção completa.

 

Olhando para a longa história da Terra, descobrimos que seríamos incapazes de viver no nosso planeta durante a maior parte da sua existência. Os humanos anatomicamente modernos surgiram há menos de 400.000 anos; estamos presentes há menos de 0,01 por cento do tempo da história da Terra.

A única razão pela qual consideramos agora a Terra habitável é por causa da vasta e diversa biosfera que por centenas de milhões de anos evoluiu e moldou o nosso planeta na casa que conhecemos hoje. A nossa sobrevivência contínua depende da continuação do estado atual da Terra, sem quaisquer solavancos desagradáveis ​​ao longo do caminho. Somos formas de vida complexas com necessidades complexas. Somos totalmente dependentes de outros organismos para toda a nossa alimentação e para o próprio ar que respiramos. O colapso dos ecossistemas da Terra é o colapso dos nossos sistemas de suporte à vida. Replicar tudo o que a Terra nos oferece num outro planeta, em escalas de tempo de algumas vidas humanas, é simplesmente impossível.

 

Alguns argumentam que precisamos colonizar outros planetas para garantir o futuro da raça humana. Dentro de 5 biliões de anos, o nosso Sol, uma estrela de meia-idade, tornar-se-á uma gigante vermelha, aumentando de tamanho e possivelmente engolindo a Terra. Em 1 bilião de anos, prevê-se que o aquecimento gradual do nosso Sol fará com que os oceanos da Terra fervam. Embora isso certamente pareça preocupante, 1 bilião de anos é muito, muito tempo. Há um bilião de anos, as massas de terra da Terra formaram o supercontinente Rodínia, e a vida na Terra consistia em organismos unicelulares e pequenos multicelulares. Nenhuma planta ou animal ainda existia. Os vestígios mais antigos do Homo sapiens datam de 315.000 anos atrás, e 12.000 anos atrás todos os humanos viviam como caçadores-coletores.

 

A revolução industrial aconteceu há menos de 400 anos. Desde então, a atividade humana na queima de combustíveis fósseis tem mudado rapidamente o clima, ameaçando vidas humanas e danificando ecossistemas em todo o mundo. Sem uma ação rápida, prevê-se que as mudanças climáticas causadas pelo homem tenham consequências globais devastadoras nos próximos 50 anos. Esta é a crise iminente em que a humanidade se deve concentrar.

Se não podemos aprender a trabalhar dentro do sistema planetário com o qual evoluímos, como esperamos replicar esses processos profundos num outro planeta? Considerando como as civilizações humanas são diferentes hoje de 5.000 anos atrás, preocupar-se com um problema que os humanos podem ter que resolver num bilião de anos é simplesmente absurdo.

Relembremos ainda que muitas das atitudes proclamadas respeitantes à colonização do espaço são preocupantemente próximas das mesmas atitudes exploradoras que nos levaram à crise climática que enfrentamos agora.

 

A Terra é o lar que conhecemos e amamos graças à sua relação de biliões de anos com a vida. Assim como as pessoas são moldadas não apenas pela sua genética, mas também pela sua cultura e relacionamentos com os outros, os planetas são moldados pelos organismos vivos que surgem e prosperam neles. Com o tempo, a Terra foi dramaticamente transformada pela vida num mundo onde nós, humanos, podemos prosperar. A relação funciona nos dois sentidos: enquanto a vida molda o seu planeta, o planeta molda a sua vida. A Terra atual é o nosso sistema de suporte à vida e não podemos viver sem ela.

Em teoria, a razão porque os cientistas se interessam particularmente pelo estudo de Marte e outros planetas, é para tentarem perceber como é que a Terra e a vida na Terra se formaram e evoluíram. Ou seja, para melhor nos conhecermos. Esta busca não é feita com a intenção de escapar aos problemas que temos, pois sabemos bem que a Terra é a nossa única casa no cosmos.

Esta é a teoria bem-intencionada.

 

 

A 27 de setembro de 2016, o dono da SpaceX, Elon Musk, deu a conhecer no Congresso Internacional de Astronáutica em Guadalajara, os seus planos para o transporte e colonização de Marte.

Para além dos complicados problemas técnicos envolvidos nesta missão, e que são exclusivamente da responsabilidade da empresa que se propõe executá-la e que só a ela dizem respeito, há, no entanto, outros problemas que têm fortes implicações para o viver individual e coletivo da sociedade dos seres humanos.

Por exemplo: qualquer empresa privada pode enviar pessoas para Marte, construir habitações e começar uma nova sociedade, desde que siga as regras estabelecidas e acordadas  no Tratado do Espaço Exterior  (aprovado nas Nações Unidas em 1966, e que, entre outros, diz que  a exploração e o uso do espaço sideral serão realizados em benefício e no interesse de todos os países e serão da competência de toda a humanidade; o espaço exterior não está sujeito à apropriação nacional por reivindicação de soberania, por meio de uso ou ocupação, ou por qualquer outro meio; os Estados não devem colocar armas nucleares ou outras armas de destruição em massa em órbita ou em corpos celestes ou estacioná-los no espaço sideral de qualquer outra maneira; os Estados serão responsáveis ​​pelas atividades espaciais nacionais, sejam elas realizadas por entidades governamentais ou não governamentais; os Estados devem evitar a contaminação prejudicial do espaço e dos corpos celestes), mas, quem tem autoridade sobre elas? A que leis devem ficar sujeitas? Que tipo de governo local será implantado?

Sabemos que mesmo que o dono da empresa seja Musk, a colónia terá de ficar sujeita à jurisprudência americana, e isto porque ainda que a missão parta da Guiana Francesa ou do Cazaquistão, como a SpaceX é uma empresa americana, todo o transporte é feito numa nave americana. Tal como sucede atualmente no direito marítimo internacional, as leis que se aplicam aos navios em águas internacionais são as do país sob cuja bandeira navegam.

 

E quem dá autorização para colonizar o espaço, quando até para enviar um foguete para o espaço é necessária uma autorização governamental e, dependendo de que atividade se pretende desenvolver tem de se obter uma segunda ou terceira licença específica? Podem os governos concederem estas autorizações sem infringirem o estabelecido no Tratado Do Espaço Exterior?

 

E os procedimentos para evitar a contaminação dos locais a explorar serão seguidos ou continuarão a ficar ao critério do “gentleman’s agreement” como tem sido a prática corrente?  Que mecanismo têm os governos para obrigar as empresas que voem sob as suas bandeiras a não violarem os princípios da proteção planetária? 

 

E quais os procedimentos e processos para licenciamento para a mineração no espaço? Numa altura em que várias empresas se preparam para essa exploração, os governos pouco dizem ou fazem, o que acabará como sempre por serem considerados como “força de bloqueio” ao “desenvolvimento e progresso” por parte das empresas.

 

Não é, pois, de espantar que Musk, ao arrepio do que consta do Tratado do Espaço Exterior, tenha sugerido a utilização frequente de pequenas bombas atómicas na atmosfera de Marte para o tornar mais consentâneo para habitar por populações da Terra (as detonações aqueceriam o dióxido de carbono congelado existente transformando-o num gás capaz de capturar calor, criando um efeito de estufa).

Ou seja, não se trata já de ir apenas contra as forças de bloqueio que são os governos, mas contra as forças de bloqueio que são as organizações internacionais que a todos nos representam. E quando isso acontecer (está a acontecer) foi dado mais um passo em direção ao oeste longínquo tão ansiado:

O ´faroeste’ como ideal e espaço de liberdade para quem saiba manejar as pistolas”.

Esta é a realidade imposta.

 

 

 

 

Notas:

Aconselho a leitura do blog de 31 de julho de 2019, “O futuro da civilização humana”, o de 18 de setembro de 2019, “Beam me up!”, o de 8 de julho de 2020, “O futuro não precisa de nós”, e o de 11 de novembro de 2020, “Escapatórias sem escape”.

E ainda o blog de 21 de dezembro de 2016, “O ‘faroeste’ instalado”.

 

(438) Vida como simulação

Tempo estimado de leitura: 5 minutos.

 

Não é inteligente acreditar completamente nos que nos enganam nem que seja uma só vez, Descartes.

 

A crença de que há uma hipótese significativa de um dia nos virmos a tornar pós-humanos que fazem simulações de antepassados é falsa, a menos que estejamos a viver atualmente numa simulação, Bostrom.

 

A probabilidade de estarmos a viver numa base real é de uma em biliões, E. Musk.

 

Problema: não há como verificar se estamos ou não a viver numa simulação.

 

 

 

Há aproximadamente dois mil e quatrocentos anos (476-221 a. C.), um texto chinês incluído numa coleção de alegorias, parábolas, paradoxos e fábulas, que se entendeu chamar de Zhuangzi (Senhor Zhuang), do nome do seu autor, descrevia um dos primeiros paradoxos do sonho, sobre a falsa dicotomia entre o sonhar e o estar acordado, em “O Sonho da Borboleta”:

 

Aconteceu que uma vez, Zhuang Zhou sonhou que era uma borboleta, uma borboleta que esvoaçava por cima de tudo, feliz consigo própria e fazendo o que lhe apetecia. Ela não sabia que era Zhuang Zhou.

Eis quando de repente acordou e verificou que ali estava ele, sem sombra de dúvida Zhuang Zhou que tinha sonhado que era uma borboleta, ou uma borboleta a sonhar que era Zhuang Zhou. Devia haver, contudo, uma distinção entre Zhuong Zhou e a borboleta! A isto chama-se a Transformação das Coisas.”

 

Também no século IV a. C., Platão vai abordar este tema da realidade ou aparência, na “Alegoria da Caverna” e no Teeteto, a que se seguiram semelhantes conceções de Aristóteles e outros. Muitos séculos depois, recorde-se o célebre “argumento do sonho” (1641)utilizado por Descartes nas Meditações sobre Filosofia Primeira para demonstrar que os nossos sentidos não podem ser tidos como confiáveis na sua totalidade para podermos distinguir entre a realidade e a ilusão.

E isto porque quando se está a sonhar, não damos conta de que estamos a sonhar. E em algumas raras ocasiões, o sonho pode estar contido dentro de outro sonho onde aparecemos como estando a ter um sonho, sendo isso apenas um sonho do qual não nos recordamos de estar a ter. Pelo que nunca se pode estar certo de não nos encontrarmos agora a sonhar ou imersos num estado de sonho perpétuo que não nos permita aperceber da realidade …

 

Tudo o que até agora fui levado a aceitar como sendo verdade vem dos meus sentidos. Mas verifiquei que ocasionalmente eles me enganam e, portanto, não é inteligente acreditar completamente nos que nos enganam nem que seja uma só vez.

 

 

Muitos e variados filósofos e cientistas têm-se debruçado sobre estes argumentos e contra-argumentos. Em 2001, o professor da Faculdade de Filosofia da Universidade de Oxford, Nick Bostrom, publicou um estudo intitulado “Are You Living In A Computer Simullation?”, onde na sua “Sinopse” podemos ler:

 

Este estudo argumenta que pelo menos uma das seguintes proposições é verdadeira: (1) é muito provável que a espécie humana se extinga antes de atingir um estágio “pós-humano”; (2) é extremamente improvável que qualquer civilização pós-humana faça um número significativo de simulações de sua história evolutiva (ou variações dela); (3) quase de certeza estamos a viver numa simulação de computador. Segue-se que a crença de que há uma hipótese significativa de um dia nos virmos a tornar pós-humanos que fazem simulações de antepassados é falsa, a menos que estejamos a viver atualmente numa simulação. Uma série de outras consequências desse resultado são também discutidas.”

 

E na sua “Introdução” explica:

 

 “Muitas obras de ficção científica, bem como algumas previsões de tecnólogos e futurólogos sérios, preveem que no futuro estarão disponíveis enormes quantidades de poder computacional. Suponhamos por um momento que essas previsões estejam corretas. Uma coisa que as gerações futuras podem fazer com esses computadores superpoderosos é correr (run) simulações detalhadas dos seus antepassados ​​ou de pessoas como os seus antepassados. Como os computadores seriam então tão poderosos, eles poderiam correr muitas dessas simulações. Suponha que essas pessoas simuladas estejam conscientes (como estariam se as simulações fossem suficientemente refinadas e se uma certa posição amplamente aceite na filosofia da mente fosse certa). Pode acontecer que a grande maioria das mentes como a nossa não pertença à raça original, mas sim a pessoas simuladas pelos descendentes avançados de uma raça original. É então possível argumentar que, se fosse esse o caso, seria racional pensar que provavelmente estamos entre as mentes simuladas e não entre as mentes biológicas originais. Portanto, se não pensarmos que estamos a viver atualmente numa simulação de computador, não temos o direito de acreditar que teremos descendentes que farão correr muitas dessas simulações dos seus antepassados. Essa é a ideia básica. O restante deste artigo explicará isso com mais cuidado. […]”

 

E, após várias páginas com cálculos matemáticos, dá-nos a “Conclusão”:

 

Uma civilização “pós-humana” tecnologicamente madura teria um enorme poder computacional. Com base nesse facto empírico, o argumento da simulação mostra que pelo menos uma das seguintes proposições é verdadeira: (1) A fração de civilizações de nível humano que atingem um estágio pós-humano é muito próxima de zero; (2) A fração de civilizações pós-humanas que estão interessadas em executar simulações de ancestrais é muito próxima de zero; (3) A fração de todas as pessoas com o nosso tipo de experiências que vivem numa simulação é muito próxima de um.

Se (1) for verdadeiro, quase certamente seremos extintos antes de chegarmos à pós-humanidade. Se (2) for verdadeiro, então deve haver uma forte convergência entre os percursos das civilizações avançadas, de modo que praticamente nenhuma contenha indivíduos relativamente ricos que desejem executar simulações sobre antepassados e sejam livres para fazê-lo. E se (3) for verdadeiro, quase certamente vivemos numa simulação. Na floresta escura de nossa ignorância atual, parece sensato distribuir a credibilidade de alguém mais ou menos uniformemente entre (1), (2) e (3).

A menos que agora vivamos numa simulação, os nossos descendentes quase certamente nunca porão a correr uma simulação dos antepassados.

 

Transcorridos pouco mais de vinte anos desde que Bostrom publicou este estudo (que também originou o aparecimento do conceito, filosofia e crença do pós-humanismo), parte relativamente importante da humanidade acredita de facto na possibilidade de estarmos a viver numa simulação de computador: desde os adoradores da saga do The Matrix até ao super empreendedor Elon Musk (vale a pena ver e ouvir a sua conferência no YouTube, subordinada ao tema “Is life a video game?” em que conclui que A probabilidade de estarmos a viver numa base real é de uma em biliões”), até a vários cientistas de conceituadas Universidades que demonstram matematicamente que, na melhor das hipóteses, a probabilidade de estarmos a viver numa base real é quase a mesma que a probabilidade de estarmos a viver numa simulação, ou seja: a probabilidade é de cinquenta por cento. O mesmo que atirar a moeda ao ar.

 

 O problema é que não há como se verificar se estamos ou não a viver numa simulação. Pelo que nos resta recorrer ao velho princípio da parcimónia atribuído a William of Ockham, filósofo e teólogo do século XIV, que nos diz que na falta de outra evidência, a explicação mais simples é que deve ser a correta. Neste caso, perante as complicadas e elaboradas explicações que acabam por não nos conseguirem garantir se estamos ou não a viver dentro de uma simulação, então devemos aceitar como correta a explicação mais simples e natural: a de que vivemos num mundo real.

 

É por isso que, convenientemente e incongruentemente (ai! os contratos para a exploração do espaço, ai! os contratos com a Defesa), o empreendedor-mor Musk, que afirma sem rebuço que estamos a viver numa simulação apesar da pequenina dúvida (“um para biliões”) que admite que possa ter, lá vai explorando a rapaziada do mundo real que lhe dá os dólares reais em tal quantidade que lhe permite até dizer (e convencer-nos) que eles não são deste mundo real (aquela velha teoria da separação de poderes, “A césar o que é de César”). Nova Religião prometida, novo conto do vigário, o velho real de sempre vestido de novo.

 

 

Nota:  Vermes com 46.000 anos de permanência no permafrost num estado de “vida suspensa”, foram “descongelados” regressando à sua vida normal.  Regressados à vida, será que aprenderam alguma coisa com a suspensão de 46.000 anos?

Sobre as novas religiões e os novos Messias, aconselho a leitura do blog de 30 de dezembro de 2015, “A rãzinha e a andorinha”.

Nota: Sobre Bostrom, transumanismo, tecno gnose, bioengenharia e outros, aconselho o blog de 7 de agosto de 2019, “Pré-viventes ou pré-sobreviventes?

 

 

(437) Parábolas e Paradoxos

Tempo estimado de leitura: 4 minutos.

 

" Mestre, para onde é que vai?" "Não sei", disse, "para longe daqui, longe daqui. Sempre para longe daqui, só assim poderei chegar ao meu destino", Kafka.

 

Uma corrente de causalidade que era, é claro, logicamente inevitável, Kafka.

 

Existem apenas mensageiros que se apressam pelo mundo, gritando uns para os outros - já que não há reis - mensagens que se tornaram sem sentido, Kafka.

 

O Messias virá somente quando não for mais necessário, Kafka.

 

 

 

 

O meu destino

 

Dei ordens para que trouxessem dos estábulos o meu cavalo. O servo não me entendeu. Eu mesmo fui ao estábulo, selei o cavalo e montei. Ao longe ouvi um toque de corneta, perguntei-lhe o que é que isso significava. Ele não sabia e não tinha ouvido nada. No portão ele parou-me, perguntando: " Mestre, para onde é que vai?" "Não sei", disse, "para longe daqui, longe daqui. Sempre para longe daqui, só assim poderei chegar ao meu destino." "Mas então sabe o seu destino?" perguntou ele. "Sei sim", respondi, "não foi o que disse? Longe-de-Aqui, esse é o meu destino." "Mas não leva víveres consigo", disse ele. "Não preciso de nada", disse eu, "a viagem é tão longa que morrerei de fome se não conseguir nada pelo caminho. Nenhuma provisão me pode salvar. Porque, felizmente, é verdadeiramente uma jornada imensa."

 

Robinson Crusoe

 

Se Robinson Crusoe nunca tivesse deixado o ponto mais alto, ou mais corretamente, o ponto mais visível da sua ilha, por desejo de conforto, timidez, medo, ignorância ou desejo, rapidamente teria perecido; mas como sem prestar atenção aos navios que passavam e aos seus débeis telescópios ele começou a explorar toda a ilha e a divertir-se com isso, conseguiu manter-se vivo até que finalmente foi encontrado, por uma corrente de causalidade que era, é claro, logicamente inevitável.

 

Correios

 

Foi-lhes oferecida a escolha entre tornarem-se reis ou mensageiros de reis. Como as crianças fariam, todos queriam ser mensageiros. Portanto, existem apenas mensageiros que se apressam pelo mundo, gritando uns para os outros - já que não há reis - mensagens que se tornaram sem sentido. Eles gostariam de pôr fim a esta sua vida miserável, mas não ousam por causa dos juramentos feitos de serviço.

 

O Imperador

 

Um homem duvidou que o imperador descendesse dos deuses; afirmou que o imperador era o nosso legítimo soberano, não duvidando da missão divina do imperador (isso era para ele uma evidência), era apenas da descendência divina que ele duvidava. Isso, naturalmente, não causou muito rebuliço; quando a rebentação das ondas lança uma gota d'água sobre a terra, isso não interfere com o eterno rolar do mar, ao contrário, é causado por ele.

 

Diógenes

 

No meu caso, pode-se imaginar três círculos, um mais interior, A, depois B, depois C. O núcleo de A explica a B por que é que esse homem se deve atormentar e desconfiar de si próprio, por que deve renunciar, por que não deve viver. (Por exemplo, não era nesse sentido que Diógenes estava gravemente doente? Qual de nós não teria ficado feliz sob o olhar radiante de Alexandre? Mas Diógenes implorou-lhe freneticamente para que se afastasse do caminho do sol. Aquela banheira estava cheia de fantasmas.) Para C, o homem ativo, nenhuma explicação é dada, ele é apenas comandado por B; C age sob a pressão mais severa, mas mais com medo do que com compreensão, ele confia, ele acredita, que A explica tudo a B e que B entendeu tudo corretamente.

 

A Vinda do Messias

 

O Messias virá assim que o mais desenfreado individualismo da fé se tornar possível - quando não houver ninguém para destruir essa possibilidade e ninguém para sofrer essa destruição; então, as sepulturas abrir-se-ão. Esta, talvez, seja também a doutrina cristã, aplicando-se tanto à apresentação real do exemplo a ser imitado, que é um exemplo individualista, quanto à apresentação simbólica da ressurreição do Mediador no indivíduo único.

 

O Messias virá somente quando não for mais necessário; ele virá apenas no dia seguinte à sua chegada; ele virá, não no último dia, mas mesmo no último momento.

 

Uma Confusão Comum

 

UMA EXPERIÊNCIA COMUM, resultando numa confusão comum. A. tem que tratar de negócios importantes com B. em H. Ele vai a H. para uma entrevista preliminar, realiza a viagem até lá em dez minutos, e a viagem de volta no mesmo tempo, e ao retornar vangloria-se da expedição para a sua família. No dia seguinte vai novamente a H., desta vez para resolver definitivamente o seu negócio. Como isso, ao que tudo indica, levará várias horas, A. sai bem cedo pela manhã. Mas embora todas as circunstâncias circundantes, pelo menos na estimativa de A., sejam exatamente as mesmas do dia anterior, desta vez ele leva dez horas para chegar a H. Quando lá chega à noite, exausto, é informado que B., irritado com a sua ausência, tinha partido meia hora antes para ir à aldeia de A., pelo que se devem ter cruzado na estrada. A. é aconselhado a esperar. Mas, com a ansiedade sobre os seus negócios, ele sai imediatamente e corre para casa.

 

Desta vez ele percorre a distância, sem prestar atenção especial ao facto, praticamente num instante. Em casa, fica a saber que B. chegou bem cedo, logo após a partida de A., na verdade, que encontrou A. na porta e o lembrou dos seus negócios; mas A. Tinha respondido que não tinha tempo a perder, e que ele deveria ir imediatamente.

 

Apesar desse comportamento incompreensível de A., no entanto, B. esperou o regresso de A.. É verdade, ele tinha perguntado várias vezes se A. ainda não tinha voltado, mas ainda estava sentado no quarto de A.. Muito feliz com a oportunidade de ver B. de uma vez e explicar-lhe tudo, A. corre escadas acima. Está quase no topo, quando tropeça, torce um tendão, e quase desmaiando de dor, incapaz até mesmo de soltar um grito, apenas capaz de gemer baixinho na escuridão, ele ouve B. - impossível dizer se a grande distância ou bem perto dele – raivosamente pisando forte escada abaixo, desaparecendo para sempre.

 

 

 

Nota: para outros pequenos contos, sugiro a leitura do blog de 5 de julho de 2017, “As Josefinas cantoras”, último conto escrito pouco antes de morrer, e o blog de 2 de janeiro de 2020, “A mensagem imperial”, parábola escrita em 1917, publicada separadamente em 1919 (originalmente estava incluída numa história maior, “A Grande Muralha da China”, só aparecida postumamente em 1930).

 

 

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