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Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

(436) O Paraíso segundo Kafka

Tempo estimado de leitura: 3 minutos.

 

Fomos criados para viver no Paraíso, e o Paraíso foi destinado para nos servir.

 

Fomos expulsos do Paraíso, mas o Paraíso não foi destruído.

 

O realizado não pode ser anulado, mas apenas confundido.

 

O mundo visível como uma tentativa de falsificar a realidade do conhecimento, de ver o conhecimento como um fim ainda a ser alcançado.

 

 

 

 

“Segundo o seu significado principal, a expulsão do Paraíso é eterna: consequentemente, a expulsão do Paraíso é final e a vida neste mundo é irrevogável, mas a natureza eterna da ocorrência (ou, expressa temporalmente, a recapitulação eterna da ocorrência) torna possível, no entanto, que não apenas possamos viver continuamente no Paraíso, mas que de facto lá estejamos continuamente, não importando se aqui o sabemos ou não.

 

Por que lamentamos a queda do homem? Não fomos expulsos do Paraíso por causa disso, mas por causa da Árvore da Vida, para que dela não comêssemos.

 

Somos pecadores não apenas porque comemos da Árvore do Conhecimento, mas também porque ainda não comemos da Árvore da Vida. O estado em que nos encontramos é pecaminoso, independente de culpa.

 

Fomos criados para viver no Paraíso, e o Paraíso foi destinado para nos servir. O nosso destino foi alterado; mas isso também aconteceu com o destino do Paraíso e tal não é afirmado.

 

Fomos expulsos do Paraíso, mas o Paraíso não foi destruído. De certo modo, a nossa expulsão do Paraíso foi um golpe de sorte, pois, se não tivéssemos sido expulsos, o Paraíso teria de ser destruído.

 

Deus disse que Adão teria que morrer no dia em que comesse da Árvore do Conhecimento. De acordo com Deus, o resultado instantâneo de comer da Árvore do Conhecimento seria a morte; segundo a serpente (pelo menos assim se pode entender), o mesmo aconteceria com Deus. Ambos estavam errados de maneiras semelhantes. Os homens não morriam, mas tornavam-se mortais; não se tornavam como Deus, mas recebiam a capacidade indispensável para o ser. Ambos estavam certos de maneiras semelhantes. O homem não morreu, mas sim o homem paradisíaco; os homens não se tornaram Deus, mas conhecimento divino.

 

Ele é um cidadão livre e seguro do mundo, pois está preso a uma corrente que é suficientemente comprida para lhe dar a liberdade de todo o espaço terrestre, e ainda assim não tão comprida que nada possa arrastá-lo para além das fronteiras do mundo. Mas, simultaneamente, ele também é um cidadão do Céu livre e seguro, pois também está preso por uma corrente celestial projetada de forma semelhante. De modo que se ele se dirige, digamos, para a terra, o seu colar celestial estrangula-o, e se ele se dirige para o céu, o colar terrestre faz o mesmo. E, no entanto, todas as possibilidades são dele, e ele sente isso, mais, ele realmente recusa-se a explicar o impasse por um erro no grilhão original.

 

Desde a Queda, temos sido essencialmente iguais na nossa capacidade de reconhecer o bem e o mal; no entanto, é justamente aqui que procuramos mostrar a nossa superioridade individual. Mas as diferenças reais começam para além desse conhecimento. A ilusão oposta pode ser explicada assim: ninguém pode ficar contente com o mero conhecimento do bem e do mal em si, mas deve também esforçar-se para agir de acordo com ele. A força para fazê-lo, porém, também não lhe é dada, consequentemente ele deve destruir-se a intentar fazê-lo, sob o risco de não conseguir a força necessária mesmo assim; contudo, nada mais lhe resta a não ser esta tentativa final. (Além disso, esse é o significado da ameaça de morte ligada à Árvore do Conhecimento; talvez também isso fosse o significado original da morte natural.) Agora, diante dessa tentativa, o homem está cheio de medo; ele prefere anular o seu conhecimento do bem e do mal (o termo "a queda do homem" pode ser atribuído a esse medo); no entanto, o realizado não pode ser anulado, mas apenas confundido. Foi com esse propósito que as nossas racionalizações foram criadas. O mundo inteiro está cheio delas, na verdade todo o mundo visível talvez não seja nada mais do que a racionalização de um homem que quer encontrar a paz por um momento. Uma tentativa de falsificar a realidade do conhecimento, de ver o conhecimento como um fim ainda a ser alcançado.”

 

 

Nota 1: Para além das novelas mais comummente conhecidas de Franz Kafka (1883-1924), contam-se um sem número de deliciosas pequenas histórias e parábolas, algumas das quais permanecerão para sempre profundamente atuais por representarem maneiras de estar, sentir e interpretar a realidade que perduram quase como de mitos se tratassem.

Esses pequenos escritos encontram-se espalhados por várias organizações e editores, o que tem dificultado o seu acesso para a maior parte dos seus leitores, o que é pena. Deixo aqui alguns links que ajudarão nessa recolha.

 

Nota 2: Sobre o Paraíso sugiro a leitura do blog de 17 de março de 2021, “Pecado no Paraíso”, com base na interpretação de Giorgio Agamben.

 

 

(435) Mas que verdade?

Tempo estimado de leitura: 6 minutos.

 

Algumas escolas que pensam o conhecimento (epistemologia), negam que o conhecimento seja possível.

 

Atualmente já não temos a tendência de perguntar porque pensamos que sabemos o que pensamos que sabemos.

 

O telemóvel, a base absoluta do conhecimento contemporâneo.

 

A justiça é uma mera propaganda usada pelos mais fortes para oprimir os fracos, enganando-os por forma a aceitarem essa opressão como se fosse justiça, Trasímaco, na República de Platão.

 

 

 

 

É Thomas Kuhn, que na Estrutura das Revoluções Científicas (1962) nos diz que para se descrever a realidade podemos desenvolver modelos muito complicados e bem-sucedidos que nos permitem descobrir uma enorme quantidade de novos ‘factos’, mas, contudo, nunca podemos provar que esses factos correspondem à realidade em si, e isto porque eles derivam do modelo particular que utilizámos para descrever a realidade.

Como exemplo, referia que o modelo heliocêntrico em nada tinha afetado a vida dos povos tinham vivido no modelo em que a Terra era o centro ao ponto de ainda hoje se dizer que o Sol nasce de um lado e põe-se do outro lado.

Não é de admirar que algumas escolas que pensam o conhecimento (epistemologia), neguem que o conhecimento seja possível. Segundo elas, o melhor que se consegue é criar a impressão de conhecimento para assim se esconder o facto de que não existem factos.

 

Para obviar esta ambiguidade estabelecida, tem-se vindo a procurar o ponto de apoio que permita alavancar o conhecimento. Há quem diga que podemos usar como garantia, critério para a verdade (é disso que se trata), as experiências anteriores, socorrendo-nos assim da indução. Só que isso deixa-nos com um problema, porquanto não é por qualquer coisa ter acontecido antes que tal signifique que possa acontecer de novo.

 E se proclamarmos que tal coisa é verdade com base numa evidência científica, estamos com isso a apelar para o argumento da autoridade. O socorremo-nos de outros, mesmo que sejam especialistas, não serve de prova de verdade, até porque eles podem cometer erros e terem preconceitos. Em lógica, chama-se a isto uma falácia.

Mesmo quando os cientistas justificam as suas obras recorrendo ao trabalho de outros cientistas, estão também a utilizar o argumento da autoridade. O que conduz a outro problema: o da regressão infinita. Fazer assentar o conhecimento numa qualquer base leva então inevitavelmente à pergunta sobre qual é a base em que assenta essa base, e assim por diante até ao infinito.

 

Chegados aqui, deparamo-nos com uma divisão entre os que acreditam que não é mesmo possível alcançar o conhecimento porque ele não existe e os que, embora duvidando que se possa alcançar o conhecimento, acreditam que ele existe. Ou seja, o conhecimento existe com base na fé.

Como as teorias científicas continuam a produzir resultados (avances tecnológicos) não se questionam sobre as verdades últimas delas, pelo que se aceita que as teorias científicas possam ter por base outras teorias, que por sua vez têm por base outras teorias que até podem ter por base um erro. Estamos perante uma trivialização das nossas dúvidas sobre o conhecimento. O que significa que o conhecimento em si não tem grande importância.

Vejamos o que se passa na nossa vida prática: numa paragem de Autocarros alguém nos diz que o autocarro está a chegar, e, ou não perguntamos como é que ela sabe isso ou se perguntamos, vamo-nos confrontar com aquilo que é a base absoluta do conhecimento contemporâneo: porque o telemóvel o diz. Se o telemóvel estiver certo, a sua autoridade fica preservada. Se estiver errado, muito provavelmente diremos antes que foi o autocarro que se atrasou.

E isto porque admitir-se hoje que o telemóvel possa estar errado é não só pôr em dúvida o telemóvel, mas todo o conhecimento em que ele se baseia, ou seja, todo o nosso conhecimento. Como alguém disse, tal como para o telemóvel, “já não temos a tendência de perguntar porque pensamos que sabemos o que pensamos que sabemos”. É assim a vida do dia a dia normal.

 

Acontece que se não existem razões para se considerar que possa existir conhecimento e verdade (niilismo epistemológico), também não existem razões para considerar que objetivamente possam existir os conceitos do certo e errado. A moralidade passa, portanto, a ser aquilo que acreditamos ser o certo (para cada período histórico, para cada cultura, para cada indivíduo) em vez de ser o que é certo (niilismo moral).

A atribuição de que alguma coisa é o certo, tem sido historicamente feito fundamentando-se em Deus, ou na felicidade, ou na razão. E como esses fundamentos têm vindo a ser aplicados universalmente (a todas as pessoas, em todos os lugares, em todos os tempos), então a moralidade é tida como tendo aplicação universal.

Mas eis que no século XVIII Immanuel Kant viu que fundar a moral tendo como base Deus ou a felicidade, poderia conduzir ao ceticismo moral. A crença em Deus poderia motivar as pessoas a agirem moralmente, mas apenas como meio para um fim, o de irem para o céu em vez do inferno.  A crença na felicidade poderia motivar as pessoas a agirem moralmente, só que não saberíamos quais seriam as ações que fariam as pessoas felizes. Pelo que Kant propôs para que a moral se baseasse na razão.

Segundo ele, para que a moralidade fosse universal, teríamos que tomar decisões de acordo com a lógica da universalidade. Determinando para cada ação aquilo que estamos a tentar alcançar, e vertendo essa intenção para uma lei a que todas as pessoas racionais deveriam obedecer, então poderíamos usar a razão para determinar se é logicamente possível para a ação intentada ela ser universalizada. A lógica, em vez de Deus ou do desejo, é o que nos deve dizer se uma dada ação é certa (universalizável) ou errada (não universalizável).

 

Com a prática, surgiram três problemas principais que questionavam esta teoria racional da moral. O primeiro: a utilização da universalidade como critério do que é certo ou errado, pode levar a que pessoas inteligentes possam cometer ações horríficas se conseguirem demonstrar (recorde-se o Marquês de Sade) que essas ações passam pelo exame da lógica de Kant.

O segundo: é que os seres humanos apesar de serem racionais, têm outras caraterísticas para além da racionalidade, pelo que se seguirem apenas as forças que a moral de Kant obriga, então acabaremos por ser mais robôs que pessoas.

O terceiro problema vai ser levantado por Nietzsche, Para a Genealogia da Moral, 1887, ao argumentar que a razão não era absoluta nem universal, porquanto ela própria tinha evoluído ao longo do tempo como parte da vida humana. Da mesma forma que um rato numa experiência de laboratório pode ser ensinado a ser racional, também nós aprendemos a ser racionais ao longo de séculos de ‘experiências’ morais, religiosas, e políticas, que nos ensinaram a ser racionais. Não pode, pois, a razão servir como fundamento para a moral, uma vez que a sua própria fundamentação é posta em causa.

 

E aqui põe-se de novo o problema: ou se redefine a moralidade ou se rejeita a moralidade. Se se rejeita a moralidade, então as ações passam a serem julgadas apenas em termos práticos, por exemplo, conforme são mais ou menos eficientes para alcançarem o fim desejado. Deixa de haver diferença entre as ações humanas e as ações dos animais ou mesmo de uma máquina. Se se considera errado dizer que um animal é mau por comer outro animal por ter fome, será também errado dizer que um homem é mau por roubar outro humano por ter fome.

 

Sem moralidade, conceitos como roubo, propriedade ou direitos só são equacionados perante a lei. As ações podem ser vistas como sendo criminosas, mas não imorais. O que levou a réplica de Trasímaco, na República de Platão, ao dizer que a “justiça” era uma mera propaganda usada pelos mais fortes para oprimir os fracos, enganando-os por forma a aceitarem essa opressão como se fosse justiça.

Se não se rejeita a moralidade tradicional só porque é posta em questão, opta-se por se viver de acordo com o que os outros acreditam ser o certo ou errado, o mau ou o bom. Prefere-se navegar com uma bússola defeituosa do que arriscar a viver sem qualquer bússola. É a opção pela comunidade, pois não se querem sentir sozinhos no mundo. O importante não é que amoral seja verdadeira, mas que ela seja popular.

Passa-se a ser como os espectadores do futebol que torcem pela equipa da casa porque é o que todos estão a fazer. Da mesma forma, seguem-se os padrões morais porque eles são os aceites pela comunidade a que queremos pertencer. A moralidade é um meio para se chegar a um fim, não é um fim por si mesmo.

 

E da mesma forma que o niilismo epistemológico conduz ao niilismo moral, também o niilismo moral conduz ao niilismo político.  O niilismo político é aquilo a que vulgarmente chamamos de rejeição à autoridade. Na sua forma radical conduz ao desejo anárquico de destruir a sociedade em nome da liberdade. Na sua forma mais passiva, conduz ao desejo conformista de destruir a liberdade para preservar a sociedade.

Curiosamente, é a necessidade de se sentir protegido do desconforto da dúvida e da insegurança da instabilidade que faz com que o niilismo passivo acabe por ser mais destrutivo que o niilismo ativo. Basta que os sistemas de moralidade e político, que advogam a liberdade e a independência, passem a ser vistos como menos atrativos que os sistemas que promovam a aceitação dogmática da tradição e a obediência cega à autoridade.

Embora se queira ser livre e independente, essa libertação pode ser sentida como um peso terrível. Quantas vezes quando vamos a um restaurante e nos apresentam uma lista com imensas opções de escolha, não acabamos por pedir ao empregado o que nos recomenda? Ou na Netflix em que perante a imensidade e variedade de filmes, optamos por deixar a escolha ao critério do algoritmo?

Nietzsche preocupou-se com o que considerava ser o crescimento do egoísmo e da aceitação do autossacrifício, como forma de negação dos ideais da moral. Via essa aceitação como evidência que o niilismo passivo se estava a espalhar na Europa durante o século XIX. Eric Fromm, pensava o mesmo quando escreveu Escape from Freedom (1941), evidenciando que o ‘medo da liberdade’ se estava a expandir por toda a Europa.

Arendt também nos avisa para evitarmos pensar que o niilismo seja apenas uma crise de incerteza. Para ela, o niilismo era uma crise política: o niilismo podia ser promovido por aqueles que estando no poder se beneficiavam de tais crises.

E Simone de Beauvoir, em Por uma moral da ambiguidade (1948), fala-nos da nostalgia como uma forma de niilismo, o desejo do regresso aos tempos de criança em que nos sentíamos livres antes de termos descoberto em adultos que a liberdade implicava responsabilidade. E refere-nos como as corporações se podem beneficiar da promoção dessa nostalgia como forma de nos distrair da realidade.

 

O que nos obriga a estar permanentemente alerta para tentarmos saber de onde vêm estas visões niilistas e quem delas beneficia por vermos o mundo dessa forma.

 

 

Notas:

Relembro o blog de 31 de janeiro de 2018, “O paradigma”, sobre Thomas Khun.

 

 

 

(434) A consciência feliz

Tempo estimado de leitura: 4 minutos.

 

A racionalidade tecnológica é a única dimensão do mundo em que vivemos, H. Marcuse, 1964.

 

A consciência feliz é a que nos faz acreditar que o real é racional.

 

Na era da consciência feliz não há lugar para o sentimento de culpabilidade, o cálculo toma o lugar da consciência.

 

 

 

 

É em O Homem Unidimensional, Estudos sobre a Ideologia da Sociedade Industrial Avançada, que o filósofo alemão naturalizado americano, Herbert Marcuse, vai em 1964 expor a sua tese segundo a qual a racionalidade tecnológica era a única dimensão no mundo em que vivíamos, e que era isso que fazia com que a consciência feliz passasse a ser preponderante.

E o que é a consciência feliz? É a consciência que nos faz acreditar que o real é racional e que acredita que o sistema estabelecido, apesar de tudo, distribui os bens; que os indivíduos encontram no aparelho de produção um agente efetivo de pensamento e de ação, perante o qual os pensamentos próprios pessoais e as ações próprias pessoais se devem submeter.

Acontece que ao longo desta transferência (submissão), o aparelho de produção começa progressivamente a desempenhar a função de agente moral.

Pelo que deixa de haver lugar para a culpabilidade. Um só homem pode com apenas um sinal aniquilar centenas ou milhares de homens e depois, declarar que não sente qualquer remorso e chegar apesar disso a viver feliz. É por isso que vemos forças antifascistas que derrotaram o fascismo no campo de batalha não terem o mínimo escrúpulo em utilizarem com grande proveito próprio, sábios, generais e engenheiros nazis: elas são as herdeiras históricas do fascismo.

Mas não só: Repare-se que hoje se pode ouvir um padre defender que os princípios cristãos não são minimamente ofendidos se se impedir por todos os meios a entrada de um nosso vizinho no nosso abrigo atómico. Mas pode-se também ouvir outro padre cristão defender que se devia deixar entrar o vizinho no nosso abrigo em nome dos princípios cristãos. Quem tem razão?

Esta racionalidade tecnológica que parece assim situar-se para além da política, e que nos aparece como verdadeira e inevitável, é falsa, porquanto em qualquer destes dois casos trata-se de uma política de dominação.

Escutemos E. Ionesco:

 

O mundo dos campos de concentração […] (não constitui) uma sociedade excecionalmente monstruosa; vimos nela a imagem, como que uma «quintessência», do mundo social e infernal no qual nos encontramos mergulhados desde sempre.”

 

Escutemos o reconhecido cientista Herman Kahn, que num escrito para a RAND Corporation (Research and Development Corporation) vai sugerir que se fizesse um estudo das populações que tivessem sobrevivido em meios comparáveis aos dos abrigos sobrepovoados, como por exemplo nos campos de concentração ou nas carruagens de mercadorias que os alemães usavam para transportar pessoas em massa, etc.  Só assim se poderiam retirar princípios para serem aplicados num programa sobre os abrigos.

 

Parece, pois, que mesmo os atos mais odiosos podem ser reprimidos por forma a que deixem de ser um perigo para a sociedade. E se esses atos provocarem problemas funcionais a nível individual, tal não afetará o funcionamento da sociedade. O seu tratamento deverá ser encaminhado para um hospital psiquiátrico.

 

A consciência feliz não tem limites, chegando ao ponto de organizar jogos em que se joga com a morte e a desfiguração, onde o trabalho em equipe, o divertimento e a importância estratégica se unem numa harmonia lucrativa.

Olhemos para um jogo com o título: “Mais vale estar «Seguro» que arrepender-se mais tarde”, que a RAND (Random News, vol. 9, Nº 1) incentiva a ser jogado por todos os seus empregados:

 

                                   JOGAR «SEGURO»

 

Para compreender o jogo é preciso participar pois a compreensão «nasce da experiência».

Como os jogadores deste jogo que se chama «Seguro» (SAFE - Strategy and Force Evaluation) vêm de quase todos os departamentos da RAND e das Forças Aéreas, pode-se sempre encontrar uma equipe composta por um físico, um engenheiro, um economista, etc. pertencentes à equipe Azul. O mesmo acontecerá com uma outra equipe, a Vermelha.

O primeiro dia será passado a ganhar contacto com o jogo, a estudar as regras, com todos os jogadores presentes. O jogo começa quando a árbitro der a cada equipe o seu regulamento. Esses regulamentos, normalmente preparados por um membro do grupo de controle fornecem uma estimativa da situação mundial naquele momento, algumas informações sobre a política da equipe oposta, os objetivos que a equipe deve alcançar e o limite do que pode gastar. Os regulamentos são alterados para cada jogo, para assim permitir explorar um grande número de possibilidades estratégicas.”

 

O relatório dos jogos é escrito num estilo de grande leveza e popularidade, “ingenuidade”, como se tratasse de um assunto trivial, um entretenimento: Os foguetes “silvam”, a bomba H “aguarda” e os engenhos espaciais estão “em voo”; o problema proposto é o seguinte: «como proteger a nação e o mundo livre?»

 Os militares estão ansiosos porque “como sabemos as chances, se fizermos uma experiência e cometermos uma falta, isso pode sair-nos muito caro”. É então que a RAND entra na cena, em socorro, com o aparecimento de slogans tais como: “a RAND salva”.

Nessa cena, o mundo é apresentado numa carta, os mísseis são simples símbolos e as guerras são simples planos, com alguns cálculos simples na parte de baixo. Nessa representação, a RAND transfigurou o mundo num jogo tecnológico interessante e que se pode parar para os especialistas militares beneficiarem dessa experiência “sintética feita sem qualquer risco”. (1)

Na cena seguinte aparece um quadro a anunciar: “café, bolos, ideias”. Intervalo. O jogo continua nas épocas seguintes. Então, os Azuis e os Vermelhos enterram os mísseis e sentam-se lado a lado para tomarem café e comerem bolos, período chamado de “post mortem”!

 

Um jogo destes é por si só a evidência que na era da consciência feliz não há lugar para o sentimento de culpabilidade, o cálculo toma o lugar da consciência. Quando tudo está em jogo, não há crime, o crime não tem importância. O crime, a culpabilidade, o sentimento de culpabilidade, são assuntos privados. Os que se identificam com a totalidade estabelecida, os que estão aos comandos, os defensores, podem cometer faltas, mas não podem cometer um crime – eles não são culpados. Em rigor, eles podem vir a serem tidos como culpados quando já se não identificarem com a totalidade estabelecida, quando já lá não estiverem.

 

Tudo isto escreveu Marcuse há 60 anos.

 

 

(1) Recomendo o blog de 25 de novembro de 2015, “O ‘achatamento’ como dominação.

 

 

 

 

(433) A cultura de guerra como desculpa

Tempo estimado de leitura: 6 minutos.

 

A guerra é um negócio altamente lucrativo para alguns poucos.

 

A Rússia vê o alargamento e a presença da NATO nas suas fronteiras como uma ameaça direta; os EUA e a NATO veem-nos apenas como uma preparação prudente.

 

24 de fevereiro de 2022 – A Rússia invade a Ucrânia, iniciando a Guerra Rússia-Ucrânia.

 

As potências nucleares devem evitar os confrontos que levem o adversário a escolher entre uma retirada humilhante ou uma guerra nuclear, J. F. Kennedy.

 

 

 

Que a Terra não é plana, que o Universo não é chato, que há mais do que duas dimensões, parecem-nos hoje ensinamentos/conhecimentos que, embora até sejam já coloquialmente aceites têm, cada vez mais, menos aplicação na prática diária onde tudo nos pretende empurrar para o pensamento único, plano, chato, e unidimensional que diziam ser mau quando expresso no livrinho vermelho de Mao. E isto acontece porque vivemos numa “cultura de guerra” que serve como desculpa para tudo. É mesmo disso que se trata: a guerra como desculpa.

Acontece que a realidade é um pouco mais complexa e, de onde e quando menos se espera, surge um pequenino grão com potencial para iluminar a engrenagem, como bem o demonstra este artigo/anúncio publicado a 16 de maio de 2023 na página 5 do New York Times, com o título de The U.S. Should Be a Force for Peace in the World, subsidiado pela Eisenhower Media Network e assinado por vários reputados especialistas americanos em segurança nacional. Segue a tradução integral:

 

 

 

OS EUA DEVEM SER UMA FORÇA PARA A PAZ NO MUNDO

 

A Guerra Rússia-Ucrânia foi um desastre absoluto. Centenas de milhares foram mortos ou feridos. Milhões foram deslocados. A destruição ambiental e económica tem sido incalculável. A devastação futura pode ser exponencialmente maior à medida que as potências nucleares se aproximam cada vez mais da guerra aberta.

 

Lamentamos a violência, os crimes de guerra, os ataques indiscriminados com mísseis, o terrorismo e outras atrocidades que fazem parte desta guerra. A solução para esta violência chocante não é mais armas ou mais guerra, com a garantia de mais mortes e destruição.

 

Como americanos e especialistas em segurança nacional, instamos o presidente Biden e o Congresso a usar todo o seu poder para encerrar a Guerra Rússia-Ucrânia rapidamente por meio da diplomacia, especialmente devido aos graves perigos de uma escalada militar que pode sair do controle.

 

Sessenta anos atrás, o presidente John F. Kennedy fez uma observação que é crucial para nossa sobrevivência hoje. “Acima de tudo, enquanto defendemos nossos próprios interesses vitais, as potências nucleares devem evitar os confrontos que levam o adversário a escolher entre uma retirada humilhante ou uma guerra nuclear. Adotar esse tipo de curso na era nuclear seria apenas evidência da falência de nossa política – ou de um desejo coletivo de morte para o mundo”.

 

A causa imediata desta guerra desastrosa na Ucrânia é a invasão da Rússia. No entanto, os planos e ações para expandir a NATO para as fronteiras da Rússia serviram para provocar temores russos. E os líderes russos defenderam esse ponto durante 30 anos. Uma falha na diplomacia levou à guerra. Agora a diplomacia é urgentemente necessária para acabar com a Guerra Rússia-Ucrânia antes que ela destrua a Ucrânia e coloque a humanidade em perigo.

 

O Potencial para a Paz

 

A atual ansiedade geopolítica da Rússia é informada pelas memórias da invasão de Carlos XII, Napoleão, Kaiser e Hitler. As tropas dos EUA fizeram parte de uma força de invasão aliada que interveio sem sucesso contra o lado vencedor na guerra civil da Rússia pós-Primeira Guerra Mundial. A Rússia vê o alargamento e a presença da NATO nas suas fronteiras como uma ameaça direta; os EUA e a NATO veem apenas uma preparação prudente. Na diplomacia, deve-se procurar enxergar com empatia estratégica, buscando compreender os adversários. Isso não é fraqueza: é sabedoria.

 

Rejeitamos a ideia de que os diplomatas, em busca da paz, devam escolher um lado, neste caso a Rússia ou a Ucrânia. Ao favorecer a diplomacia, escolhemos o lado da sanidade. Da humanidade. Da paz.

 

Consideramos a promessa do presidente Biden de apoiar a Ucrânia “pelo tempo que for necessário” uma licença para perseguir objetivos mal definidos e, em última instância, inatingíveis. Pode ser tão catastrófico quanto a decisão do presidente Putin no ano passado de lançar sua invasão e ocupação criminosa. Não podemos e não iremos endossar a estratégia de lutar contra a Rússia até o último ucraniano.

 

Defendemos um compromisso significativo e genuíno com a diplomacia, especificamente um cessar-fogo imediato e negociações sem quaisquer pré-condições desqualificantes ou proibitivas. Provocações deliberadas resultaram na Guerra Rússia-Ucrânia. Da mesma forma, a diplomacia deliberada pode acabar com isso.

 

As Ações dos EUA e a Invasão da Ucrânia pela Rússia

 

Com o colapso da União Soviética e o fim da Guerra Fria, os líderes dos EUA e da Europa Ocidental garantiram aos líderes soviéticos e russos que a NATO não se expandiria em direção às fronteiras da Rússia. “Não haveria extensão da NATO uma polegada a leste”, disse o secretário de Estado dos EUA, James Baker, ao líder soviético Mikhail Gorbachev em 9 de fevereiro de 1990. Garantias semelhantes foram dadas por outros líderes dos EUA, bem como por líderes britânicos, alemães e franceses confirmaram ao longo da década de 1990.

 

Desde 2007, a Rússia advertiu repetidamente que as forças armadas da NATO nas fronteiras russas eram intoleráveis ​​– assim como as forças russas no México ou no Canadá seriam intoleráveis ​​para os EUA agora, ou como os mísseis soviéticos em Cuba em 1962. A Rússia destacou ainda a expansão da NATO para a Ucrânia como sendo especialmente provocatória.

 

 

Vendo a Guerra pelos Olhos da Rússia

 

A nossa tentativa de entender a perspetiva russa na sua guerra não endossa a invasão e a ocupação, nem implica que os russos não tiveram outra opção a não ser esta guerra.

 

No entanto, assim como a Rússia tinha outras opções, os EUA e a NATO também tinham antes deste momento.

 

Os russos deixaram claras as suas linhas vermelhas. Na Geórgia e na Síria, eles provaram que usariam a força para defender essas linhas. Em 2014, a sua tomada imediata da Crimeia e o seu apoio aos separatistas de Donbas demonstraram que eles estavam comprometidos com a defesa dos seus interesses. Por que isso não foi entendido pela liderança dos EUA e da NATO não está claro; incompetência, arrogância, cinismo ou uma mistura traiçoeira dos três provavelmente são fatores contribuintes.

 

Mais uma vez, mesmo com o fim da Guerra Fria, os diplomatas, generais e políticos dos EUA alertavam sobre os perigos de expandir a NATO para as fronteiras da Rússia e de interferir maliciosamente na esfera de influência da Rússia. Os ex-funcionários do gabinete, Robert Gates e William Perry, emitiram essas advertências, assim como os venerados diplomatas George Kennan, Jack Matlock e Henry Kissinger. Em 1997, cinquenta especialistas seniores em política externa dos EUA escreveram uma carta aberta ao presidente Bill Clinton aconselhando-o a não expandir a NATO, chamando-o de “um erro político de proporções históricas”. O presidente Clinton optou por ignorar esses avisos.

 

O mais importante para a nossa compreensão da arrogância e do cálculo maquiavélico na tomada de decisões dos EUA em torno da Guerra Rússia-Ucrânia é a rejeição das advertências emitidas por Williams Burns, o atual diretor da Agência Central de Inteligência (CIA). Num telegrama para a secretária de Estado Condoleeza Rice em 2008, enquanto servia como embaixador na Rússia, Burns escreveu sobre a expansão da NATO e a adesão da Ucrânia:

 

“As aspirações da Ucrânia e da Geórgia à NATO não apenas tocam um ponto sensível na Rússia, como também geram sérias preocupações sobre as consequências para a estabilidade na região. A Rússia não apenas percebe o cerco e os esforços para minar a sua influência na região, mas também teme consequências imprevisíveis e descontroladas que afetariam seriamente os interesses de segurança russos. Especialistas dizem-nos que a Rússia está particularmente preocupada que as fortes divisões na Ucrânia sobre a adesão à NATO, com grande parte da comunidade de etnia russa contra a adesão, possam levar a uma grande divisão, envolvendo violência ou, na pior das hipóteses, guerra civil. Nessa eventualidade, a Rússia teria que decidir se iria intervir; uma decisão que a Rússia não quer ter que enfrentar”.

 

Por que persistiram os EUA em expandir a NATO, apesar de tais advertências? O lucro das vendas de armas foi um fator importante. Face à oposição à expansão da NATO, um grupo de neoconservadores e altos executivos dos fabricantes de armas dos EUA formaram o Comité dos EUA para Expandir a NATO. Entre 1996 e 1998, os maiores fabricantes de armas gastaram US$ 51 milhões (US$ 94 milhões hoje) em lobby e outros milhões em contribuições de campanha. Com essa generosidade, a expansão da NATO rapidamente se tornou um negócio fechado, após o que os fabricantes de armas dos EUA venderam biliões de dólares em armas aos novos membros da NATO.

 

Até agora, os EUA enviaram para a Ucrânia US$ 30 biliões em equipamentos militares e armas, com uma ajuda total à Ucrânia superior a US$ 100 biliões. A guerra, já foi dito, é um negócio altamente lucrativo para alguns poucos.

 

A expansão da NATO, em suma, é uma característica fundamental de uma política externa militarizada dos EUA caracterizada pelo unilateralismo com mudança de regime e guerras preventivas. Guerras fracassadas, mais recentemente no Iraque e no Afeganistão, produziram massacres e mais confrontos, uma dura realidade criada pelos próprios Estados Unidos. A Guerra Rússia-Ucrânia abriu uma nova arena de confronto e matança. Esta realidade não é inteiramente da nossa autoria, mas pode muito bem ser a nossa ruína, a menos que nos dediquemos a forjar um acordo diplomático que interrompa a matança e diminua as tensões.

 

Vamos fazer da América uma força para a paz no mundo.

 

Leia mais em www.EisenhowerMediaNetwork.org

 

 

 

ASSINATURAS

 

Dennis Fritz, Diretor, Eisenhower Media Network; Sargento Chefe do Comando, Força Aérea dos EUA (aposentado)

Matthew Hoh, Diretor Associado, Eisenhower Media Network; Ex-oficial do Corpo de Fuzileiros Navais e oficial do Estado e da Defesa.

William J. Astore, tenente-coronel, Força Aérea dos EUA (aposentado)

Karen Kwiatkowski, tenente-coronel, Força Aérea dos EUA (aposentada)

Dennis Laich, major-general, Exército dos EUA (aposentado)

Jack Matlock, embaixador dos EUA na URSS, 1987-91; autor de Reagan e Gorbachev: Como terminou a Guerra Fria

Todd E. Pierce, Major, Juiz Advogado, Exército dos EUA (aposentado)

Coleen Rowley, Agente Especial, FBI (aposentado)

Jeffrey Sachs, professor universitário da Universidade de Columbia

Christian Sorensen, ex-linguista árabe, Força Aérea dos EUA

Chuck Spinney, Engenheiro/Analista aposentado, Gabinete do Secretário de Defesa

Winslow Wheeler, conselheiro de segurança nacional de quatro Estados republicanos e democratas

Lawrence B. Wilkerson, Coronel, Exército dos EUA (aposentado)

Ann Wright, Coronel, Exército dos EUA (aposentada) e ex-diplomata dos EUA

 

LINHA DO TEMPO

 

1990 – Os EUA garantem à Rússia que a NATO não se expandirá em direção à sua fronteira “… não haveria extensão da… NATO uma polegada a leste”, diz o secretário de Estado dos EUA, James Baker.

 

1996 – Os fabricantes de armas dos EUA formam o Comité para Expandir a NATO, gastando mais de US$ 51 milhões em lobby no Congresso.

 

1997 – 50 especialistas em política externa, incluindo ex-senadores, oficiais militares aposentados e diplomatas, assinam uma carta aberta afirmando que a expansão da NATO é “um erro político de proporções históricas”.

 

1999 – A NATO admite a Hungria, a Polônia e a República Tcheca. Os EUA e a NATO bombardeiam a Sérvia, aliada da Rússia.

 

2001 — Os EUA retiram-se unilateralmente do Tratado de Mísseis Antibalísticos.

 

2004 – Mais sete nações da Europa Oriental juntam-se à NATO. As tropas da NATO estão agora diretamente na fronteira da Rússia.

 

2004 – O parlamento da Rússia aprovou uma resolução denunciando a expansão da NATO. Putin respondeu dizendo que a Rússia “construiria a nossa política de defesa e segurança de forma correspondente”.

 

2008 – Os líderes da NATO anunciaram planos para trazer a Ucrânia e a Geórgia, também nas fronteiras da Rússia, para a NATO.

 

2009 - Os EUA anunciaram planos para colocar sistemas de mísseis na Polônia e na Romênia.

 

2014 — O presidente ucraniano legalmente eleito, Viktor Yanukovych, fugiu da violência para Moscou. A Rússia vê a expulsão como um golpe dos Estados Unidos e das nações da NATO.

 

2016 – EUA iniciam o reforço de tropas na Europa.

 

2019 – EUA retiram-se unilateralmente do Tratado de Forças Nucleares Intermediárias.

 

2020 – EUA retiram-se unilateralmente do Tratado de Céus Abertos.

 

2021 – A Rússia apresenta propostas de negociação enquanto envia mais forças para a fronteira com a Ucrânia. Autoridades dos EUA e da NATO rejeitam as propostas russas imediatamente.

 

24 de fevereiro de 2022 – A Rússia invade a Ucrânia, iniciando a Guerra Rússia-Ucrânia.

 

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