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Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

(432) Sociedade sem chefes

Tempo estimado de leitura: 5 minutos.

 

As sociedades, sobretudo em situações de emergência, necessitem de uma figura que represente a autoridade.

 

Os gregos antigos socorriam-se de um método de escolha para as funções políticas pela seleção “à sorte” de um grupo de pessoas.

 

Os estados de intensa participação da democracia direta não duram e o cansaço acaba por se instalar.

 

Quando o amo desaparece, é substituído pelo chefe, pelo seu autoritarismo, e tarde ou cedo tudo isto acaba em fascismo, Roudinesco.

 

 

 

 

 

A obediência (blog de 30 de março de 2016) é o processo através do qual uma pessoa se vê a si própria como um instrumento para realizar os desejos de outra pessoa, e é isto que faz com que ela não se considere como sendo responsável pelas ações resultantes e por si praticadas. Uma vez feita esta pequena alteração (mas grande pelas consequências) de ponto de vista, seguir-se-ão todas as outras características essenciais da obediência, que fazem dela o cimento que liga os homens aos sistemas de autoridade.

Para Hobbes (1588-1679), esta obediência à autoridade era até encarada como uma virtude sem a qual não teria sido possível a existência da sociedade humana, pelo que mesmo quando os atos prescritos pela autoridade fossem diabólicos, era preferível acompanhá-los a fim de não se pôr em risco a estrutura da autoridade, pilar da sociedade.

A ser assim, não é de admirar que as sociedades, sobretudo em situações de emergência, necessitem de uma figura que represente a autoridade, um chefe, um amo. Como tem acontecido.

É, por exemplo, o caso de Margaret Thatcher quando aplicou inabalavelmente e sem vacilações o seu plano de liberalismo económico que ao princípio foi tido como lunático (recentemente a Tuss bem tentou, mas era uma imitação, não era o chefe) até acabar por ele se tornar aceite como um caminho económico normal.

E Thatcher sabia perfeitamente o que estava a fazer, porque quando lhe perguntaram sobre qual teria sido a sua maior conquista, disse: “O novo trabalhismo” (The new Labour). E tinha toda a razão, porquanto o seu triunfo foi os seus inimigos políticos adotarem as suas políticas económicas básicas. Como nota Zizek:

 

O verdadeiro triunfo não é a nossa vitória sobre o inimigo, mas antes que este comece a utilizar a nossa própria linguagem por forma a que as nossas ideias tenham imposto as regras de todo o campo de jogo”.

 

Sabe-se, desde há muito, que estas formas autoritárias de liderança, particularmente quando apropriadas por pessoas com personalidades perigosas, podem conduzir a ditaduras incontroláveis.

Cientes disso, os gregos antigos socorriam-se de um método de escolha para as funções políticas através da seleção “à sorte” de um grupo de pessoas. Assim, conseguiam assegurar que pessoas comuns estivessem representadas no governo, precavendo-se ainda (julgavam eles) contra a corrupção e roubo.

Para minorarem o risco de entregarem a responsabilidade a incompetentes, garantiam que as decisões fossem tomadas por grupos. Diferentes membros do grupo eram responsáveis por áreas diferentes, verificando assim as ações e comportamentos de cada um dos outros.

Para as decisões mais importantes, como no caso de se decidir ir para a guerra ou da escolha dos chefes militares ou da eleição dos magistrados, tal só era feito em assembleias magnas (Ekklësia) com milhares de participantes (exceto os do costume: mulheres, escravos, baixas posses, etc.).

Tinham ainda um outro mecanismo de proteção contra os recalcitrantes ou os que apresentavam perigo de corromper o sistema: a assembleia reunia-se anualmente para deliberar sobre a sua expulsão (ostracismo) da cidade por dez anos.

 

Face aos tempos que correm em que a democracia representativa, com o seu ritual eleitoral em que só de quatro em quatro anos se interrompe a passividade dos votantes, se mostra incapaz de resolver os problemas da sociedade, são muitos os que, conhecedores dessa solução grega, anseiam por instituir uma autogestão direta, em que a intensa participação coletiva das comunidades locais debatem e decidem sem intermediários e sem líder que os guie.

Acontece que esses estados de intensa participação não duram e o cansaço acaba por se instalar. E isto porque a grande maioria quer ser passiva, quer confiar num aparelho estatal que garanta o perfeito funcionamento de todo o edifício social, para assim continuar a prosseguir trabalhando em paz.

Vimos isso em todas as revoluções coloridas contemporâneas, e mesmo nas passadas, onde, por exemplo a mais importante acabou num partido leninista centralizado com um líder.

Contudo, ainda hoje temos um exemplo interessante da aplicação da democracia direta que é o da Suíça, com os seus múltiplos referendos, iniciativas populares locais, etc., mas onde juntamente com cada papel de voto distribuído onde o cidadão irá escrever a sua decisão é entregue um folheto onde o governo sugere o seu sentido de voto.

É assim que por exemplo, por esse sistema de voto de democracia direta as mulheres só tiveram direito de voto a partir de 1971 (e isto só em alguns Cantões), a construção de minaretes é proibida, bem como a nacionalização de trabalhadores imigrantes, etc.

Além de que, para as grandes decisões estratégicas esse sistema referendário local não é tido em consideração, porquanto elas são tomadas por uma assembleia que escapa ao debate e ao controle públicos. Evidentemente.

 

Apesar disto, ultimamente têm aparecido pensadores que continuam a acreditar na validade da forma da democracia direta usada na Grécia Antiga, sugerindo alternativas. Note-se que o sistema de tirar à sorte ainda hoje continua a ser parcialmente usado, como por exemplo na escolha dos jurados para os julgamentos nos tribunais.

Já outros pensadores, como é o caso de Alain Badiou e Elisabeth Roudinesco (“Appel aux psychoanalystes. Entretien avec Éric Aeschimann”), entendem que um sujeito necessita sempre de um Amo para se elevar acima do “animal humano”:

 

“ROUDINESCO: Como último recurso, o que se perdeu nas sociedades psicanalíticas foi a posição do Amo em proveito da posição dos chefinhos.

AESCHIMANN: O que quer dizer com “amo”?

ROUDINESCO: A posição do amo permite a transferência: o psicanalista “supõe-se que sabe” o que o analisado descobrirá. Sem este saber atribuído ao psicanalista, a procura da origem do sofrimento é quase impossível.

AESCHIMANN: Temos mesmo que passar pela reinstauração do amo?

BADIOU: O amo é o que ajuda o indivíduo a converter-se em sujeito. Quer dizer, se se se admite que o sujeito emerge da tensão entre o indivíduo e a universalidade, é então evidente que o indivíduo necessita de uma mediação, e, portanto, de uma autoridade, para poder avançar por esse caminho. A crise do amo é uma consequência lógica da crise do sujeito, e o psicanalista não escapa a isso. Há que renovar a posição do amo; não é certo que se possa passar sem ele, especialmente na perspetiva da emancipação.

ROUDINESCO: Quando o amo desaparece, é substituído pelo chefe, pelo seu autoritarismo, e tarde ou cedo tudo isto acaba em fascismo. Desgraçadamente, a história tem-lo demonstrado.”

 

Ou seja, para se conseguir despertar as pessoas do seu dogmático “adormecimento democrático”, da sua consciência cega nas formas institucionalizadas da democracia representativa, os chamamentos de uma organização autónoma direta não são suficientes: torna-se necessária uma nova figura do Amo.

 

 

Adenda:

 

Incluo duas passagens do blog referido logo no começo sobre “obediência”:

 

“Depois das suas famosas e controversas experiências sobre a indução no comportamento humano, e após ter lido as transcrições do episódio de My Lai e do julgamento de Eichmann, Stanley Milgram vai retirar algumas conclusões, publicadas no seu livro Obedience to Authority:

 

#. “Aparece sempre um conjunto de pessoas que faz o seu trabalho de forma meramente administrativa, sem qualquer consideração de ordem moral.”

#. “As ações praticadas são quase sempre justificadas com finalidades construtivas, à luz de um interesse maior ideológico. Na Alemanha, até mesmo para aqueles que se identificaram com a “solução final”, a destruição de judeus era encarada como um processo “higiénico” para eliminar “ervas daninhas”.”

#. “A obediência nunca levantava qualquer problema relacionado com a moral ou filosofia. Ela era relacionada com a envolvente maior das relações sociais, das aspirações de carreira, e das técnicas da rotina a aplicar.”

#. “Cada indivíduo possui, em maior ou menor grau, uma consciência que pode servir de barreira aos impulsos destrutivos dos outros. Mas, assim que uma pessoa se integra na estrutura de uma organização, perde parte dessas suas limitações de moralidade individual a favor das sanções da autoridade.”

#. “Mesmo em regimes democráticos, uma grande percentagem de pessoas faz aquilo que lhes dizem para fazer, sem grandes preocupações sobre o ato a cometer, sem grandes limitações de consciência, desde que percebam que a ordem venha de uma autoridade legítima.”

 

Considere-se ainda o que George Orwell escreveu sobre os ataques aéreos às cidades inglesas perpetrados pelos alemães:

 

 “Enquanto escrevo, seres humanos altamente civilizados sobrevoam a minha casa, tentando matar-me. Eles não sentem qualquer animosidade contra mim como indivíduo, nem eu contra eles. Eles estão apenas a “fazerem o seu dever”, como se diz. A maior parte deles, não o duvido, são boas pessoas obedientes à lei, que nunca pensariam em cometer um assassinato em toda a sua vida. Por outro lado, se um deles conseguisse com uma bomba bem colocada desfazer-me aos bocados, não seria por isso que deixaria de dormir tranquilamente.”

 

 

(431) Os espíritos familiares de Salem

Tempo estimado de leitura: 5 minutos.

 

A braços com uma greve generalizada de cartoonistas em 1941, o produtor Walt Disney (o da “Gata borralheira”, da “Branca de Neve” e do “Bambi”) chamou-a de “agitação comunista”.

 

Com a entrada dos EUA na Guerra, e a aliança com a União Soviética, as denúncias contra comunistas e judeus em Hollywood pararam.

 

A Motion Picture Association of America, anunciou o despedimento ou suspensão sem direito a pagamento desses profissionais de Hollywood, não podendo voltarem a ter emprego a não ser que declarassem não serem comunistas.

 

A culpa não residia em Elia Kazan, mas naqueles que o colocaram a ele e a outros numa posição em que a traição era apresentada como uma opção, Arthur Miller.

 

 

 

Em 1999, na 71ª cerimónia anual de distribuição de prémios da Academia de Cinema de Hollywood, o Óscar honorário foi atribuído a Elia Kazan, então com 89 anos.

A grande maioria dos que viram o espetáculo não se devem ter apercebido do propósito da insistência com que as câmaras foram focando certos grupos daquele público de artistas assistente, uns que aplaudiam e outros que ostensivamente o ignoravam. Por exemplo: Warren Beatty, Helen Hunt e Meryl Streep aplaudiam de pé; Steven Spielberg, embora aplaudindo, manteve-se sentado; Nick Nolte, Ed Harris e Amy Madigan, ficaram impavidamente sentados e não aplaudiam.

Considerado como sendo possivelmente o melhor realizador de cinema e teatro da sua época, e recordemos tão só a versão de cinema de “Um Elétrico Chamado Desejo” com Marlon Brando, “A Leste do Paraíso” com James Dean e “Esplendor na Relva” com Warren Beatty, não se percebe bem a atitude dos outros atores, realizadores, argumentistas que se recusaram a aplaudir, bem como a atitude do American Film Institute e do Los Angeles Film Critics Assn., que se recusaram a conceder-lhe prémios pela sua obra.

 

Tudo tem que ver com o dia 10 de abril de 1952 em que perante a Comissão de Atividades Antiamericanas do Congresso (House Un-American Activities Committee- HUAC), Elia Kazan denunciou oito dos seus grandes amigos e colegas do Grupo de Teatro (Group Theater) como sendo membros do Partido Comunista.

 

O HUAC era uma comissão criada em 1938 pelo Congresso dos EUA para investigar as atividades subversivas e deslealdade de cidadãos privados, funcionários públicos e de organizações específicas suspeitas de terem ligações fascistas e comunistas, passando a partir de 1945 a ser uma comissão permanente.

Estas investigações anticomunistas são normalmente associadas ao McCarthyismo devido ao envolvimento indevido do senador Joseph McCarthy. Para quem quiser mais informação para se situar sobre este período da história americana e as lutas entre McCarthy e o presidente Eisenhower, sugiro a leitura do capítulo 16 de A People’s History of the United States, de Howard Zinn, cobrindo o período que vai de 1945 a 1960.

Esta Comissão não apareceu só naquela altura, não é fruto da época, vem já no seguimento de outras anteriores, como a Comissão Overman de 1918 a 1919, criada para investigar as atividades de elementos Alemães e bolcheviques, da Comissão Fish de 1930, para investigar as atividades comunistas nos EUA, da Comissão McCormack-Dickstein de 1934 a 1937, para investigar a propaganda nazi e outras atividades de propaganda, e da Comissão Dies de 1938 a 1944, exatamente para o mesmo que todas as outras, mas com o foco especial em comunistas.

Em 1938, a Comissão Dies elabora um relatório em que afirmava que o comunismo tomara conta de Hollywood, mencionando uma lista de nomes de artistas, lista que “saltou” (fuga de informação de que ninguém é responsável e que atesta bem o imprescindível de uma informação livre) para a grande imprensa, em que figuravam, entre outros: Bogart, Cagney, Katharine Hepbburn, Frederic March. Acabaram ilibados.

A braços com uma greve generalizada de cartoonistas em 1941, o produtor Walt Disney (o da “Gata borralheira”, da “Branca de Neve” e do “Bambi”) chamou-lhe uma “agitação comunista”, o que levou posteriormente a uma investigação sobre a presença dos “vermelhos no cinema”.

Mas, com a entrada dos EUA na Guerra, e a aliança com a União Soviética, as denúncias pararam. Terminada a Guerra, voltaram as suspeitas e acusações contra comunistas e judeus de Hollywood.

Em 1946, a Hollywood Reporter, publica um artigo em que nomeia vários comunistas importantes a trabalharem no cinema, a chamada “lista de Billy”, pelo que em 1947 a Comissão de Atividades Antiamericanas chama para depor várias pessoas que trabalhavam na indústria do cinema de Hollywood. Disney, afirma não ter dúvidas sobre essa influência e nomeia várias pessoas. Reagan (já então Teflon), afirma que uma pequena minoria poderia usar táticas comunistas, mas não sabia se essas pessoas eram ou não comunistas.

A Comissão elaborou então uma lista de 43 pessoas, arroladas como testemunhas, das quais 19 disseram não pretenderem dar qualquer evidência. Dessas 19 foram chamadas 11 para serem ouvidas pela Comissão a 27 de outubro. Entretanto, Bertolt Brecht resolveu responder às perguntas da Comissão, tendo logo de seguida abandonado o país, indo para a Alemanha Oriental; as outras dez recusaram-se a responder à questão “Ainda é, ou alguma vez foi, membro do Partido Comunista?” (“Are you now, or have you ever been, a member of the Communist Party?”), sendo por isso formalmente acusadas de desrespeito para com o Congresso, tendo posteriormente sido condenados pelo Supremo a um ano de prisão e ao pagamento de multas pecuniárias.

A Motion Picture Association of America, logo de seguida declara (Waldorf Statement) o despedimento ou suspensão sem direito a pagamento desses dez (os dez de Hollywood), não podendo voltarem a ter emprego a não ser que declarassem não serem comunistas. Note-se que as várias listagens das várias Comissões nomeavam mais de 300 profissionais de Hollywood (Lista negra).

Em 1951, o controle do Congresso passou maioritariamente para os democratas, e a HUAC vai iniciar uma segunda investigação aos comunistas de Hollywood. E se algumas testemunhas mostraram relutância relativamente ao processo, outras fizeram-no de boa vontade, cooperando. Foi o caso de Elia Kazan que em abril de 1952 acabou com a carreira de alguns colegas.

 

Entretanto, o dramaturgo Arthur Miller, observava e procurava entender o que se estava a passar. Tendo a sua peça, Morte de um caixeiro viajante, contado com Lee J. Cobb como ator principal, Miller viu como durante dois anos Cobb resistira à Comissão, tendo finalmente acabado por referir nomes de colegas com receio que a sua carreira como ator terminasse.

Miller, começa a investigar para uma próxima peça, os acontecimentos que se passaram em 1692 em Salem, Massachusetts, quando várias mulheres foram enforcadas por bruxaria. Interessava-lhe a perseguição da caçada às bruxas como paralelo com a situação contemporânea.

Quando se dirigia para Salem, Kazan (de quem se tornara amigo e admirador desde que ele realizara em 1949 o filme da sua peça “Morte de um caixeiro viajante”) pede-lhe para se encontrarem. Miller desconhecia o teor da conversa que iriam ter: Kazan vai dizer-lhe que iria nomear pessoas na Comissão.

Durante o regresso de Salem, Miller ouviu no rádio do carro os nomes daqueles que Kazan tinha oferecido à Comissão naquilo que deveria ter sido uma audição secreta, da mesma forma que os nomes das consideradas bruxas de Salem tinham sido lidos em voz alta no tribunal em sessão aberta.

 

A 22 de janeiro de 1953, estreia-se na Broadway a peça de Miller “The Crucible” (As Bruxas de Salem), que, entendida pelo público que assistia como uma alegoria ao Macartismo que se vivia, teve uma receção fria. Posteriormente, acabou considerada uma das grandes obras de teatro, com aplicação mundial a todas as culturas e civilizações, da Revolução Cultural chinesa aos julgamentos de Moscovo, em todos os lugares em que fosse o poder do estado a definir a realidade.

Como que para demonstrar essa tese, a HUAC vai em 1956 chamar Miller para testemunhar. Recusando-se a indicar nomes, acabou por ser considerado pela Comissão como estando em desrespeito para com o  Congresso, sendo condenado a um ano de prisão e 1.000 dólares de multa. Miller apresenta recurso, e acaba mais tarde por ser ilibado.

 

Durante dez anos esteve sem falar com Kazan. A quando da entrega do prémio a Kazan em 1999, Miller suportou Kazan, pois, segundo ele, “a culpa não residia em Kazan, mas naqueles que o colocaram a ele e a outros numa posição em que a traição era apresentada como uma opção”.

 

Do seu casamento com Inge Morath em 1962, teve dois filhos, Rebecca (1962) e Daniel (1966). Daniel nasceu com síndroma de Down. Miller pô-lo à guarda de uma instituição em Roxbury, Connecticut, e nunca o visitou, nem dele fala na sua autobiografia de 1987. Para o fim da sua vida, visitou-o uma vez. Deixou-lhe em herança partes iguais à dos outros irmãos.

 

Em 1982, quando perguntado na Cinémathèque Française sobre Kazan, eis o que disse Orson Welles:

 

Chère mademoiselle, escolheu o realizador errado, porque Elia Kazan é um traidor. Ele é um homem que vendeu a McCarthy todos os seus colegas numa altura em que podia continuar a trabalhar em Nova Iorque com um alto salário, e que após os ter vendido todos a McCarthy, fez um filme chamado “Há lodo no cais” que é uma celebração do informador.”

 

 

 

 

(430) O outro candidato

Tempo estimado de leitura: 4 minutos.

 

É um crime que 62% dos trabalhadores americanos sem diploma universitário ganhem hoje menos do que há 40 anos, Robert Kennedy Jr.

 

É um ultraje que a maior parte dos americanos não possa mais comprar uma casa ou pagar uma educação universitária, tal como o é o já não poderem pagar os seus cuidados de saúde, RKJ.

 

Estou chocado com a noção de que as empresas farmacêuticas, por estatuto federal, não são responsáveis ​​por danos que possam causar no futuro. RKJ.

 

Os gastos públicos dos Estados Unidos com a saúde, a habitação e a educação, têm sido lamentavelmente inadequados. Para atingir o nível dos padrões de vida básicos dos canadenses ou dos europeus, os Estados Unidos precisam mais do que duplicar o seu nível de investimentos, RKJ.

 

 

 

Numa conversa com um pequeno grupo de amigos normalmente bem informados (ou seja, com muito tempo disponível para consultarem o que a comunicação social nos quer dizer) em que se discutia o tema das próximas eleições presidenciais americanas, estranhava-se que tendo já surgido vários candidatos republicanos até agora o único candidato democrata era Biden.

Acontece que isso não corresponde à verdade, mas pertence à realidade que a grande comunicação social nos tem induzido a crer, para o que lhe basta ignorar convenientemente o acontecimento (chamam-lhe o “critério jornalístico”).

É que há quase dois meses (a 19 de abril de 2023) que num comício em Boston, Robert F. Kennedy, Jr., anunciou a sua candidatura a Presidente dos EUA, concorrendo debaixo da seguinte plataforma:

 

PAZ

VAMOS TRAZÊ-LOS PARA CASA

 

“A longo prazo, a força de uma nação não vem dos seus exércitos. A América gasta tanto em armamento quanto as nove nações seguintes juntas, mas o país ficou mais fraco, não mais forte, nos últimos 30 anos. Mesmo reinando com sua suprema tecnologia militar, os Estados Unidos estão a esvaziar-se por dentro. Não podemos ser uma nação forte ou segura quando a nossa infraestrutura, indústria, sociedade e economia estão debilitadas.

 

Uma alta prioridade do governo Kennedy será tornar a América novamente forte. Quando um corpo está doente, ele retira a energia das extremidades para nutrir os órgãos vitais. É hora de acabar com o projeto imperial e cuidar de tudo o que foi negligenciado: as cidades em ruínas, as ferrovias antiquadas, os sistemas de abastecimento de água falidos, a infraestrutura decadente, a economia debilitada. Os gastos anuais relacionados com a defesa estão próximos de um trilião de dólares. Mantemos 800 bases militares em todo o mundo. O dividendo da paz que supostamente deveria vir depois da queda do Muro de Berlim nunca foi resgatado. Agora temos outra chance.

Como presidente, Robert F. Kennedy Jr., iniciará o processo de dissolução do império. Traremos as tropas para casa. Vamos parar de acumular dívidas impagáveis ​​para combater uma guerra após outra. Os militares regressarão ao seu devido papel de defender o nosso país. Vamos acabar com as guerras por procuração, campanhas de bombardeamento, operações secretas, golpes, paramilitares e tudo o mais que se tornou tão normal que a maioria das pessoas nem sabe o que está a acontecer. Mas o que está a acontecer, um constante esgotamento das nossas forças. É hora de voltar para casa e restaurar este país.

 

Na Ucrânia, a prioridade mais importante é acabar com o sofrimento do povo ucraniano, vítima de uma brutal invasão russa e também vítima das maquinações geopolíticas americanas que remontam pelo menos a 2014. Devemos primeiro deixar claro: É a nossa missão ajudar os bravos ucranianos a defenderem a sua soberania? Ou é para usar a Ucrânia como um peão para enfraquecer a Rússia? Robert F. Kennedy escolherá o primeiro. Ele encontrará uma solução diplomática que traga paz à Ucrânia e traga os nossos recursos de volta ao lugar a que pertencem. Oferecer-nos-emos para retirar as nossas tropas e mísseis com capacidade nuclear das fronteiras da Rússia. A Rússia retirará as suas tropas da Ucrânia e garantirá a sua liberdade e independência. As forças de paz da ONU garantirão a paz nas regiões orientais de língua russa. Vamos acabar com esta guerra. Vamos acabar com o sofrimento do povo ucraniano. Esse será o início de um programa mais amplo de desmilitarização de todos os países.

 

Temos que parar de ver o mundo em termos de inimigos e adversários. Como escreveu John Quincy Adams, “os americanos não vão para o exterior em busca de monstros para destruir”. Robert F. Kennedy reviverá um elo perdido do pensamento da política externa americana, aquele defendido pelo seu tio, John F. Kennedy, que, ao longo de seus 1000 dias no cargo se tornou num firme anti-imperialista. Ele queria sair do Vietnam. Ele desafiou o Estado-Maior Conjunto e recusou-se a bombardear Cuba, salvando-nos assim do Armagedon nuclear. Ele queria reverter as políticas imperialistas de Truman e Eisenhower, controlar a CIA e apoiar os movimentos de liberdade em todo o mundo. Ele queria reviver o impulso de Roosevelt de dissolver o império britânico em vez de assumi-lo.

 

A visão de John F. Kennedy foi tragicamente interrompida pela bala de um assassino. Mas agora temos outra chance. O país está doente, sim, mas por baixo ainda há vitalidade. A América é uma terra rica em recursos, criatividade e inteligência. Só precisamos levar a sério a cura da nossa sociedade, para nos tornarmos fortes novamente por dentro.

 

A América já foi uma inspiração para o mundo, um farol de liberdade e democracia. A nossa prioridade será nada menos do que restaurar a nossa liderança moral. Lideraremos pelo exemplo. Quando uma nação imperial guerreira se desarma por conta própria, ela estabelece um modelo para a paz em todos os lugares. Não é tarde demais para abandonarmos voluntariamente o império e, em vez disso, servirmos à paz, como uma nação forte e saudável.”

 

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Para melhor clarificar a posição de Robert Kennedy Jr. sobre alguns assuntos de interesse, eis alguns excertos de uma entrevista por ele dada ao jornalista Blake Fleetwood, e publicada a 27 de abril de 2023 no ScheerPost:

 

Pergunta: O que o inspira a concorrer à presidência agora?

 

RFK Jr.: A minha principal prioridade será acabar com o conluio corrupto entre estado e poder corporativo que arruinou a nossa economia, destruiu a classe média, poluiu as nossas paisagens e águas, envenenou os nossos filhos, roubou os nossos valores e liberdades e destruiu o sonho americano com o qual todos nós crescemos. Acredito que este país está ávido por mudanças, por um novo tipo de liderança, que não esteja tutelado por interesses especiais ou doadores corporativos, mas que realmente represente o povo deste país. Quero concorrer como um presidente FDR. É um crime que 62% dos trabalhadores americanos (aqueles sem diploma universitário) ganhem agora menos do que há 40 anos. O facto que a maior parte dos americanos não possam mais comprar uma casa ou pagar uma educação universitária é um ultraje, tal como o é o já não poderem pagar os seus cuidados de saúde. E isso, porquê? Por uma simples razão: por causa da tremenda influência do dinheiro; a voz do povo não se reflete mais na política. O presidente republicano Dwight D. Eisenhower acertou em cheio há mais de 60 anos quando avisou que o complexo militar-industrial devastaria a nossa democracia, empobreceria a nossa classe média, espalharia o caos por todo o mundo e destruiria a nossa autoridade moral. Hoje, ambos os partidos políticos são o partido da guerra.

 

Pergunta: A maioria da grande mídia considera-o Anti-Vacinas e perigoso.

 

RFK Jr.: Eu sou contra muitas coisas... Eu sou anti Monsanto por colocarem produtos químicos causadores de câncer em pesticidas que os jardineiros usam. Ganhei um julgamento de $290 milhões contra eles. Sou contra a terceirização dos nossos bons empregos para o exterior, contra a censura do governo nos mídia, contra os mandatos do governo, contra o capitalismo para os amigos, contra a guerra contra a classe média e trabalhadora, contra 50 anos depois a CIA esconder arquivos sobre os assassinatos de JFK e RFK, contra a ocultação de informações sobre testes de drogas, contra a censura antigovernamental das origens da Covid em Wuhan.

 

E sim, sou cético em relação a novos medicamentos. E não deveríamos todos ficar céticos quando a indústria farmacêutica conspira com os seus reguladores cativos n FDA para promover medicamentos não comprovados para que possam ganhar dinheiro? Não sabemos quais serão os efeitos a longo prazo de muitas dessas vacinas de MRNA. Ao contrário de todos os outros medicamentos, as vacinas não precisam passar por testes de segurança com placebos. Se algo der errado, as empresas farmacêuticas, por lei, não terão qualquer responsabilidade. Se você acabar tendo um derrame ou um ataque cardíaco ou outras complicações prolongadas da Covid por causa de uma vacina, não terá recurso. Estou chocado com a noção de que as empresas farmacêuticas, por estatuto federal, não são responsáveis ​​por danos que possam causar no futuro. No entanto, não sou anti vacina, só quero garantir que as vacinas sejam adequadamente testadas quanto à segurança e eficácia. Eu quero vacinas seguras. Todos os meus sete filhos foram vacinados. Eu apoio vacinas seguras. Quando éramos crianças, havia apenas três vacinas, agora as crianças precisam tomar 72 vacinas – nem todas são necessárias. 16 dessas vacinas são para muitas doenças que nem mesmo casualmente são contagiosas. Esta pandemia está a acabar, a nossa prioridade agora deve ser prepararmo-nos para a próxima pandemia e começar a testar medicamentos e tratamentos agora. Eu acredito na ciência.

[…]

Pergunta: A desigualdade de renda tem sido uma desgraça e muitos economistas acham que em breve ela vai piorar com uma inflação debilitante, altas taxas de juros, turbulência económica e uma iminente recessão. Estima-se que no próximo ano 15 milhões de pessoas perderão a elegibilidade da assistência médica concedida na pandemia. Para 30 milhões de americanos aproxima-se um “precipício da fome” porque a partir desta quarta-feira devem perder os seus benefícios do vale-refeição. Como pode isso ser resolvido através da nossa política partidária profundamente dividida?

 

 RFK Jr.: Como presidente, eu empenhar-me-ia em aumentar o salário mínimo para um salário digno, em investir em habitações acessíveis e em garantir que todos os americanos tenham acesso a saúde e educação de qualidade. Trabalharia também para reformar o nosso sistema fiscal para garantir que os ricos paguem a sua justa parte e para fechar as brechas fiscais corporativas que permitem que as empresas soneguem impostos. Os gastos públicos dos Estados Unidos com a saúde, a habitação e a educação, têm sido lamentavelmente inadequados. Para atingir o nível dos padrões de vida básicos canadenses ou europeus, os Estados Unidos precisam mais do que duplicar o seu nível de gastos. Como resultado, os americanos são muito mais doentes, menos instruídos, mais pobres e mais infelizes do que os cidadãos da maioria dos outros países industrializados. Foi criada uma enorme riqueza nova, mas essas novas riquezas da “Terceira Revolução Industrial” produziram um pesadelo distópico para a maioria. O dinheiro não “escorreu”. A desigualdade quebrou a promessa da Era de Ouro de progresso universal e os sonhos de mobilidade ascendente da classe média. Esta última reengenharia da América não está a funcionar para a maioria.

RFK Jr.: A desigualdade piorou exponencialmente nos últimos 40 anos. Elites poderosas manipularam o sistema. Durante as últimas quatro décadas, os 1% do topo roubaram uns impressionantes US$ 50 triliões aos 90% da base, de acordo com um estudo da altamente respeitada e apartidária Rand Corp. A Rand Corp descobriu que, se a distribuição de renda nas três décadas de 1945 a 1974 – um período glorioso de prosperidade – tivesse permanecido constante nas quatro décadas seguintes, a renda anual dos 90% mais pobres teria sido $ 2,5 triliões maior apenas no ano de 2018, de acordo com um estudo de Carter C. Price e Katheryn Edwards. […]

 

 

Talvez agora se perceba melhor o critério jornalístico.

(429) A importância do indivíduo na História: Lenine e a Ucrânia

Tempo estimado de leitura: 7 minutos.

 

Quando em junho de 1973, Luis Carrero Blanco é nomeado por Franco primeiro-ministro de Espanha, tudo indicava que a sucessão estava assegurada e o regime ditatorial franquista estava garantido.

 

A 21 de janeiro de 1924, Lenine morre. Ia fazer 54 anos. Durante a sua vida sofreu vários atentados, o mais grave dos quais ocorreu a 30 de agosto de 1918, quando Fanny Kaplan o atingiu com três tiros de pistola, perfurando-lhe o pulmão esquerdo.

 

Os povos da Rússia têm direito á autodeterminação, á secessão e á formação de um estado separado, Declaração dos Direitos dos Povos da Rússia de 2 de novembro de 2017.

 

O animal arranca o chicote das mãos do mestre e vergasta-se a si mesmo para se tornar mestre, sem saber que isso não passa de uma fantasia produzida por mais um nó no flagelo do mestre, Kafka.

 

 

 

 

Uma das dificuldades da teoria marxista da história tem que ver com o valor que é atribuído à importância da participação do indivíduo face à sociedade. Valor que pode influenciar o comportamento da sociedade ou é por ela influenciado, tanto pela sua participação como pela sua não participação. De certa forma, a sua única explicação continua a ser hegeliana ao evocar uma necessidade retroativa: depois de o acontecimento ter tido lugar, ele torna-se necessário. “Déjà vu”.

 

Quando em junho de 1973, Luis Carrero Blanco é nomeado por Franco como primeiro-ministro de Espanha, tudo indicava que a sucessão estava assegurada e o regime ditatorial franquista estava garantido.

Mas eis que a 20 de dezembro de 1973, quando Carrero Blanco que vinha da missa, passava no seu carro blindado pela Calle de Serrano, explodiu uma potente bomba, matando-o. Porque foi escolhido Carrero Blanco como alvo? Segundo declararam mais tarde os bombistas que conduziram esta operação (Operação Ogro), porque “[…] ele tornara-se no elemento chave do sistema, sendo uma peça fundamental do jogo político da oligarquia. Por outro lado, ele tornara-se também insubstituível no regime pela sua experiência e capacidade para manobrar e porque mais ninguém a não ser ele conseguiria manter o equilíbrio interno do Franquismo”.

Sucedeu-lhe como primeiro-ministro Carlos Arias Navarro, que, sem o acordo dos Falangistas fiéis, entendeu liberalizar o regime e incluir o direito á formação de associações políticas.

Ou seja, não fosse o assassinato de Carrero Blanco e provavelmente o regime franquista ainda hoje seria dominante em Espanha.

 

Quando o governo alemão, que se encontrava na altura (abril de 1917) em guerra com a Rússia, autorizou a passagem pelo seu território de um comboio pretensamente selado vindo da Suíça, onde seguiam Vladimir Lenine e mais 31 opositores políticos russos, em direção à Dinamarca, Suécia e Finlândia, tendo como destino final Petrogrado na Rússia, julgava com isso poder estar a contribuir para abreviar o fim da guerra, dadas as posições antiguerra daqueles conhecidos revolucionários (o que de facto veio a acontecer em 1918com o Tratado de Brest-Litovsk).

Na altura, já o Czar Nicolau II tinha abdicado e o Império convertido na República Russa. Chegado a Petrogrado, Lenine assume o controle dos Bolcheviques. A 25 de outubro de 1917 dá-se a chamada Revolução de Outubro com a posterior tomada de poder pelos bolcheviques.

Da sua governação imediata, são dignos de nota o decreto de limitação do tempo de trabalho a oito horas diárias para toda a Rússia; o decreto sobre Educação Popular que garantia a educação secular gratuita a todas as crianças e o início de campanhas de alfabetização; o decreto sobre a igualdade dos sexos, propiciando autonomia económica às mulheres, livre acesso ao divórcio, e legalização do aborto até ao fim dos primeiros três meses; o decreto da separação da igreja e do estado, e a proibição do ensino religioso nas escolas.

Logo a 2 de novembro de 2017, é publicada a importante Declaração dos Direitos dos Povos da Rússia que concedia liberdade de escolha a todos os territórios e nações que faziam parte do Império. Nela se proclamava a igualdade e soberania de todos os povos da Rússia; o direito dos povos da Rússia a uma livre autodeterminação, secessão e formação de um estado separado; a abolição de todos os privilégios nacionais e religiosos ou quaisquer restrições; e ao desenvolvimento de minorias nacionais e grupos etnográficos dentro do território da Rússia.

Não se deve esquecer que o Império herdado compreendia a Finlândia, Lituânia, Ucrânia, Moldova, Estónia, Bielorrússia, Polónia, Transcaucásia, etc.

 

É devido a essa Declaração dos Direitos que se pode afirmar que a idade de ouro da identidade nacional da Ucrânia não teve lugar debaixo da Rússia czarista, mas sim na primeira década da União Soviética.

 

Eis o que a Wikipedia diz sobre essa década na Ucrânia:

 

A revolução que levou ao poder o Partido Socialista devastou a Ucrânia, deixando mais de 1,5 milhões de mortos e centenas de milhar de pessoas sem casa; para além disso, a Ucrânia soviética teve de se enfrentar com a fome de 1921. Vendo a sociedade exausta, o governo soviético continuou a ser muito flexível durante a década de 1920. Assim, a cultura nacional e o idioma ucraniano desfrutaram de um renascimento, já que a “ucranização” se converteu numa aplicação local da política soviética da “indigenização”. Os bolcheviques também se comprometeram a focar a atenção na saúde, na educação e na segurança social, bem como no direito ao trabalho e na habitação. Os direitos da mulher incrementaram-se consideravelmente através das novas leis que pretendiam eliminar as desigualdades sociais. A maioria destas políticas foram bruscamente suprimidas nos inícios da década de 1930, após José Estaline ter começado gradualmente a consolidar o seu poder até se tornar no chefe do Partido Comunista e do ditador, de facto, da União Soviética”.

 

Em que se baseava essa política de “indigenização” seguida nesses primeiros anos soviéticos?

Relembremos o que Lenine escreveu nas suas Teses relativamente ao direito de autodeterminação das nações (“The Socialist Revolution and the Right of Nation to Self-Determination”):

 

O proletariado não pode deixar de se rebelar contra o facto de as nações oprimidas serem retidas pela força a permanecerem dentro dos limites de um determinado estado, e é isto que significa exatamente a luta pela autodeterminação. O proletariado deve exigir o direito a uma secessão política para as colónias e para as nações que a “sua própria nação oprime”. E se não o faz, então o internacionalismo proletário converter-se-á numa expressão sem sentido; a confiança mútua e a solidariedade de classe dos trabalhadores das nações opressoras e oprimidas será impossível.”

 

Esta foi a posição que Lenine sempre manteve. Recorde-se o seu desentendimento com Rosa Luxemburgo que defendia que se devia apenas conceder soberania plena ás pequenas nações onde as forças progressistas predominavam no estado. Para Lenine, o direito à secessão era incondicional, mesmo nos casos em que os adversários tomassem conta do poder do estado.

É isto que o faz também entrar em colisão com o projeto de Estaline sobre a formação de uma União Soviética centralizada, defendendo antes o direito incondicional das nações à secessão (como era nessa altura o caso da Geórgia), advogando a soberania plena das entidades nacionais que faziam parte do estado soviético, o que levou mesmo Estaline a enviar uma carta ao Politburo a 27 de setembro de 1922, onde acusava Lenine de “liberalismo nacional”. Para Estaline, devia-se proclamar de imediato o governo da Rússia soviética como o governo das outras cinco repúblicas (Ucrânia, Bielorrússia, Azerbaijão e Geórgia.

Nesses tempos iniciais difíceis que incluíam a brutalidade guerra civil (onde não se pode negligenciar a especial bestialidade do contrarrevolucionário Exército Branco, para o que basta citar o que o isento Christopher Hitchens escreveu em Arguably: “O general de divisão William Graves, que comandava a Força Expedicionária dos Estados Unidos durante a invasão da Sibéria em 1918 (acontecimento completamente eliminado de todos os livros de texto americanos) comentou nas suas memórias o antissemitismo dominante e letal que imperava na ala direita russa, acrescentando: “Duvido que a história nos mostre mais algum país no mundo em que nos últimos cinquenta anos se tenham cometido assassinatos com maior impunidade, com menos perigo de receber qualquer castigo, que na Sibéria durante a ditadura de Kolchak” […] [para Hitchens] a palavra mais habitual para se referir ao fascismo deveria ter sido russa e não italiana”), a falência da Revolução Socialista Mundial, a construção do socialismo num só país, as linhas de divisão dentro dos bolcheviques foram aparecendo.

 

Atente-se o que se diz no Relatório Político do Comité Central de 27 de março de 2022, especialmente no  que se refere à Nova Política Económica proposta por Lenine:

 

“Os capitalistas estão a trabalhar ao nosso lado. Estão a trabalhar como ladrões, fazem lucro; mas sabem fazer as coisas. […] Ao longo do ano que passou, demonstrámos muito claramente que não somos capazes de gerir a economia. Essa é a lição fundamental. Ou provamos o contrário no ano que se segue, ou o poder soviético não poderá existir.

[…] Temos poder político mais do que suficiente […] Então, o que falta? Obviamente, o que falta é cultura na camada de comunistas que desempenham funções administrativas […] Qualquer vendedor formado numa grande empresa capitalista sabe resolver uma questão dessas; mas 99 comunistas responsáveis em cada 100 não sabem. E recusam-se a compreender que não sabem que têm de aprender o bê-á-bá deste negócio.

[…] A caraterística principal é não termos as pessoas certas para os lugares certos; é terem sido atribuídas a comunistas responsáveis que combateram magnificamente durante a revolução, funções comerciais e industriais das quais nada sabem; é estarem a impedirem-nos de encarar a verdade, pois os malfeitores e os vigaristas escondem-se magnificamente por trás das suas costas.

[…] Aquilo que o camponês conhece e a que está habituado é ao mercado e ao comércio. Não fomos capazes de introduzir a distribuição direta comunista. Faltaram-nos fábricas e o equipamento para o fazer. Assim sendo temos de dar aos camponeses aquilo que eles precisam através do comércio, e temos de o fazer tão bem quanto os capitalistas o fizeram.

[…] A ideia de construir a sociedade comunista exclusivamente com mãos comunistas é infantil, absolutamente infantil. Nós, comunistas, não passamos de uma gota de água no oceano, uma gota no oceano do povo.

 

E no discurso de Encerramento do Relatório Político do Comité Central de 28 de março de 2022:

 

[…] Num congresso de comunistas, aprovámos uma decisão para que o capitalismo de Estado fosse permitido pelo Estado proletário, e nós somos esse Estado […] o capitalismo de estado é a forma de capitalismo mais inesperada e imprevisível pois ninguém poderia prever que o proletariado chegasse ao poder num dos países menos desenvolvidos, e começaria por tentar organizar a produção em grande escala e a distribuição para o campesinato, e, depois, vendo-se incapaz de cumprir essa tarefa, devido ao baixo nível de cultura, aceitasse os serviços do capitalismo. Ninguém alguma vez o previu, mas é um facto incontornável.”

 

A 24 de dezembro de 1922, sentindo a morte aproximar-se, Lenine envia uma carta ao Congresso onde, a propósito da preocupação com a estabilidade do regime, diz:

 

“[…] os principais fatores na questão da estabilidade são membros do Comité Central como Estaline e Trotsky. Penso que as relações entre eles constituem a maior parte do perigo de uma cisão […] O camarada Estaline, agora secretário-geral, concentra nas suas mãos uma autoridade ilimitada, e não tenho a certeza se ele será sempre capaz de usar essa autoridade com suficiente cautela. O camarada Trotsky, por seu lado, […] distingue-se não só pela sua competência […] mas tem revelado um excesso de autoconfiança e um excesso de precaução com os aspetos puramente administrativos do trabalho.”

 

E, numa adenda de 4 de janeiro de 1923 posterior à carta:

 

 “Estaline é demasiado mal-educado, e este defeito, embora seja perfeitamente tolerável entre nós e no trato entre nós […] torna-se intolerável num secretário-geral. É por isso que sugiro que os camaradas considerem uma maneira de afastar Estaline dessa função e indicar para o seu lugar, alguém que seja em todos os aspetos diferente do camarada Estaline […]”

 

A 21 de janeiro de 1924, Lenine morre. Ia fazer 54 anos. Durante a sua vida sofreu vários atentados, o mais grave dos quais ocorreu a 30 de agosto de 1918, quando Fanny Kaplan o atinge com três tiros de pistola, perfurando-lhe o pulmão esquerdo. Lenine sobreviveu, mas a sua saúde nunca mais recuperou do ataque, atribuindo-se a sua posterior incapacitação e causa de morte a esses tiros.

 

 

O transcurso dos acontecimentos vividos nesses tempos na parte oriental da Europa e setentrional da Ásia, podem encaixar perfeitamente numa frase interpretativa de Kafka, quando escreve:

O animal arranca o chicote das mãos do mestre e vergasta-se a si mesmo para se tornar mestre, sem saber que isso não passa de uma fantasia produzida por mais um nó no flagelo do mestre”.

 

 

 

 

 

 

 

 

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