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Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

(422) Matamo-nos uns aos outros

Tempo estimado de leitura: 11 minutos.

 

É “o tempo dos assassinos”, e não há possibilidade de engano. A política tornou-se negócio de bandidos, Henry Miller.

 

Armas não matam pessoas. Pessoas matam pessoas, bandeira da National Rifle Association (NRA).

 

As armas são agora a causa número 1 de morte entre as crianças americanas, Michael Moore.

 

Estou a pensar matar Michael Moore, Glenn Beck na Fox News.

 

 

 

 

 

É em 1946 em Big Sur, Califórnia, que Henry Miller vai escrever o prefácio de O Tempo dos Assassinos (The Times of the Assassins: a Study of Rimbaud), onde explica a razão de ser desse seu estudo:

 

Gostaria de deixar bem claro que este pequeno estudo, escrito há dez anos atrás, é consequência do fracasso de traduzir, da maneira desejada, Uma Estação no Inferno. Ainda não perdi a esperança de apresentar esse texto numa linguagem mais aproximada da língua “negra” de Rimbaud.”

 

No final do livro, apresenta a conclusão (coda) desse seu trabalho, de onde destaco o último parágrafo:

 

Que revolta, que desilusão, que ânsia! Nada a não ser crises, colapsos, alucinações e visões. Tremem os alicerces da política, da moral, da economia e da arte. O ar está cheio de avisos e profecias sobre o desastre que se aproxima – e este chega no século vinte! Já duas guerras mundiais e uma promessa de mais, antes que termine o século. Chagámos ao fundo? Ainda não. A crise moral do século XIX apenas cedeu lugar à bancarrota espiritual do século XX. É “o tempo dos assassinos”, e não há possibilidade de engano. A política tornou-se negócio de bandidos. Os povos estão marchando no céu, mas não cantam hossanas; os que estão em baixo marcham para a fila do pão. C’est – l’aube exaltée ainsi qu’un peuple de colombes …

 

 

 

A 24 de março de 2023, numa intervenção na plataforma Substack, o cineasta americano Michael Moore, a propósito da comemoração dos vinte anos sobre o seu filme/documentário “Bowling for Columbine”, vem dizer o seguinte:

 

“Numa noite vinte anos atrás, a 23 de março de 2003, o nosso filme, “Bowling for Columbine”, recebeu o Oscar da Academia para o Melhor Documentário do ano.

Mas essa noite foi também a quinta noite de um dos maiores crimes de guerra do novo século — a invasão ilegal e o bombardeamento do Iraque por George W. Bush e pelo povo dos Estados Unidos da América. Uns incríveis 72% da população americana apoiaram Bush e a guerra, assim como a maioria dos Democratas no Senado dos Estados Unidos. Os comparsas de Bush - Dick Cheney, Donald Rumsfeld, Elliott Abrams, etc. - desesperados para assumirem o controle do petróleo do Iraque e eliminar Saddam Hussein, inventaram uma mentira alegando que o Iraque estava envolvido no ataque terrorista de 11 de setembro e que agora possuía armas de destruição massiva.

 

É claro, o Iraque não teve nada a ver com o 11 de setembro (Osama bin Laden e mais 15 dos 19 sequestradores eram da Arábia Saudita). E, claro, a força de invasão dos EUA nunca encontrou uma única arma de destruição massiva. Mas conseguiram aniquilar centenas de milhares de civis iraquianos, um assassinato em massa de seres humanos que nunca ameaçaram nenhum americano. Quase 5.000 soldados americanos enviados para matar os iraquianos, acabaram por ser enviados para a sua própria morte sem sentido. Até hoje, aos seus pais e familiares, nunca lhes foi dada qualquer razão pelo qual eles morreram, nunca lhes foi endereçado nenhum pedido de desculpas por Bush por egoisticamente ter sacrificado as suas vidas por absolutamente nada além de sua própria vingança pessoal.

 

A tristeza absoluta por este crime de guerra premeditado é até hoje sentida. Bush e Cheney nunca foram indiciados pelo Tribunal Penal Internacional e continuam livres para fazer o que quiserem. Poucos Democratas pediram desculpa por serem os seus facilitadores. Acho difícil comemorar hoje o aniversário por termos “ganho um Óscar” quando a única coisa que devemos considerar lembrar sobre o que aconteceu nesta semana há 20 anos é esse crime contra a humanidade, cometido em nosso nome contra o povo iraquiano.

 

Mas vou usar este momento “Bowling for Columbine” na Substack  para mais uma vez exigir que nós, o povo, paremos e examinemos por que temos tanta sede de violência, um desejo de matar os nossos “inimigos” e um medo insano do “ outro” — o que nos leva a possuir quase 400 milhões de armas nas nossas casas.

 

Quem não viu “Bowling for Columbine” pode pensar que é um filme sobre armas. Não é. É sobre nós. Americanos. Sim, eu sei que o título faz referência ao que foi, na época, o pior massacre de uma escola na nossa história. Nunca houve um tiroteio em massa como aquele. Os policias do Colorado que apareceram naquela manhã na Columbine High, temendo pelas suas vidas, recusaram-se a entrar na escola enquanto ocorria o massacre. Durante horas eles permaneceram hirtos do lado de fora. O que fez com que alunos feridos e um professor sangrassem até a morte. Centenas de pais compareceram - mas nenhum deles invadiu a escola para impedir o massacre dos filhos. Eles obedeceram à polícia, que lhes disse para ficarem como ovelhas atrás da fita amarela “NÃO ULTRAPASSAR”. O tio de uma criança quebrou a linha da polícia para correr para a escola. Os policias placaram-no e arrastaram-no para longe.

 

Não havia um plano de ação, ninguém sabia o que fazer porque tal nunca antes tinha acontecido. Em 1999, um tiroteio em massa numa escola não era “uma coisa”. Era inexistente. Eu não disse "raro". Eu disse inexistente – não havia tiroteios em massa em escolas nos Estados Unidos antes de 1999.

 

Naquela tarde, a minha equipe e eu (que estávamos a trabalhar na nossa série semanal para a TV, The Awful Truth) parámos a produção e sentámo-nos para conversar sobre o choque que estávamos a testemunhar. Decidimos que deveríamos agir, começar a colecionar imagens, para descobrir o que deveríamos fazer. De uma coisa tínhamos certeza: este podia ser o primeiro tiroteio de grande dimensão numa escola nos EUA, mas também conhecíamos o país em que vivíamos - e sabíamos que não seria o último. Decidimos imediatamente começar a fazer um filme que, com sorte, impediria que algo assim acontecesse novamente. Liguei para o estúdio canadiano que estava a financiar a nossa série de TV para lhes perguntar se eles financiariam um filme sobre a loucura americana por armas - e eles nem esperaram 30 segundos antes de dizer sim e dar-nos todo o orçamento de que precisávamos para fazer o que se tornaria “Bowling for Columbine”.

 

(Nota: durante os meus primeiros 20 anos como cineasta, nenhum estúdio ou financiador americano concordaria em ser o principal financiador de um único dos meus filmes ou programas de TV, mesmo apesar do meu primeiro filme, “Roger & Me”, ter sido desde sempre o documentário que mais dinheiro deu. Pedimos ajuda aos canadianos para fazer “o filme sobre armas” porque vivíamos num país onde Democratas e liberais tinham medo da National Rifle Association e recusavam-se a enfrentá-la a qualquer nível - inclusive em Hollywood. Já os canadianos, estavam com receio de viverem ao lado de uma nação de loucos por armas, assassinos e invasores de países do Terceiro Mundo. Eles tinham dado refúgio aos nossos refratários ao recrutamento para o Vietnam, recusaram-se a acompanhar-nos na invasão do Iraque, e financiaram o nosso filme.)

 

Como eu disse, decidimos que “a arma” não seria a estrela do nosso filme. Na verdade, de certa maneira concordámos com a linha de propaganda da NRA - “Armas não matam pessoas. Pessoas matam pessoas.” Só que decidimos mudar para dizer a verdade: “Armas não matam pessoas - Americanos matam pessoas”. Porque somos o único país na Terra que mata tantos dos seus próprios dessa maneira. E porque é que isto acontece? Porque nós? O que é que há especificamente sobre nós? Era do nosso DNA americano? Assim como nós, porém, muitos neste planeta cometeram genocídios em massa. Há um enorme problema de doença mental em todo o mundo. Os adolescentes de todos os países assistem a filmes violentos, jogam videogames violentos. Por que não eles? Porque não se matam eles como nós fazemos? Porque não têm eles milhões de armas nas suas casas?

 

Pensamos que, se pudéssemos responder a essa pergunta de “o que há de errado connosco”, talvez pudéssemos ajudar a consertar essa loucura. A nossa loucura.

 

Decidimos, por isso, fazer um documentário que pedia ao público que se juntasse a nós na tentativa de responder a essa pergunta crucial. O filme nunca alcançou o seu primeiro objetivo - fazer de Columbine o primeiro e o último desses tiroteios em massa, esses tiroteios nas escolas. Agora temos, em média, mais de 1 tiroteio em massa por dia nos EUA. As armas são agora a causa número 1 de morte entre as crianças americanas. Mais que o câncer. Mais do que os acidentes de carro. Armas. E, no entanto, ninguém aqui baixa a cabeça com vergonha. Só esperamos que na nossa escola, o nosso filho, não seja o próximo. E, se forem, bem, milhões de americanos certamente enviar-nos-ão os seus pensamentos e orações.

 

Então, hoje à noite, na comemoração deste aniversário em que os nossos colegas cineastas nos estavam a entregar uma estátua de ouro enquanto as nossas bombas choviam em Bagdad, vou sentar-me em casa e assistir ao “Bowling for Columbine” e pensar novamente sobre o que mais posso fazer para ajudar a consertar a nossa alma americana.

 

Eu gostaria de convidá-los a juntarem-se a mim. Não tenho espaço suficiente na minha sala para todos vocês, mas posso disponibilizar-vos gratuitamente o filme, aproveitando para convidar outras pessoas, para compartilhá-lo gratuitamente em qualquer lugar. Basta clicarem aqui e é vosso para hoje, esta noite e durante o fim de semana. Eu gostaria que vocês assistissem comigo. Vão, eu acho, não sei, sentirem-se melhor. Menos sozinhos tentando entender. Menos sozinhos em agir para fazer algo.

 

Neste mês, desde o tiroteio em massa na Michigan State University, não escrevi sobre isso. Eu praticamente cumpri a minha promessa de 2013 após o massacre de Sandy Hook de recusar aparecer na TV, “o tipo do Bowling for Columbine”, para discutir o último tiroteio na escola. Fiz isso durante 11 anos entre “Bowling for Columbine” e Sandy Hook, e então uma noite, estava eu com o Piers Morgan, que substituiu o Larry King na CNN. Sentado, discutindo sobre os 20 alunos mortos da primeira série (e mais 6 funcionários da escola para adultos), senti-me mal por saber o que sabia sobre a tragédia, a maneira como as crianças realmente morreram, a dor devastadora dos seus pais que talvez verdadeiramente nunca se recuperem, o assassino cujo pai era vice-presidente da General Electric (a imprensa nunca quis manchar a narrativa relatando esse facto insignificante), e nenhum dos seus repórteres querendo ir a apenas cinco quilômetros da escola e ousar entrar pelas portas do sede nacional da associação de fabricantes de armas, eufemisticamente chamada de National Shooting Sports Foundation, o principal grupo de lobby corporativo que impede a aprovação de leis sobre o controle de armas nos Estados Unidos. Eles são o principal grupo responsável por manter a espingarda de assalto AR-15 – a arma de escolha para a maioria dos tiroteios em massa em escolas, igrejas e locais de trabalho – prontamente e facilmente disponíveis. O seu QG do mal, na mesma rua da escola onde 26 almas jaziam mortas.

 

Pouco depois de Sandy Hook, o estado de Connecticut aprovou literalmente uma lei dirigida especificamente a mim, porque eu algures dissera que iria fazer um filme sobre Sandy Hook. Então, eles consideraram que eu incorreria num crime se tentasse mostrar a verdade e passá-la para você e para o público americano. Eu realmente não quero dizer mais nada sobre isso, porque a outra verdade é que passei um tempo nos últimos dez anos a trabalhar em algo... e, bem, vou terminar aqui dizendo que você pode passar as “leis” que quiser, mas se você sabe agora alguma coisa sobre mim é que não há como impedir que eu ou a minha equipe transmita ao povo americano o que você não quer que eles vejam ou saibam. Desculpe. É assim que as coisas são. Eu sou um americano. Liberdade. Imprensa. Verdade. A maioria de nós (70%) não possui uma arma, a grande maioria (79%) quer leis mais fortes de controle de armas e muitos, muitos de nós sabemos que nada disso mudará até que todos mudemos como americanos - e acredito que a maioria de nós não se contentará com nada menos. Nós, a maioria, agora rejeitamos a América Violenta, aquela que matou os Primeiros Povos que viveram aqui, a América Violenta que foi construída nas costas de humanos escravizados que foram repetidamente estuprados e forçados a dar à luz, que foram torturados e linchados, e que agora não devemos ensinar esta história aos nossos filhos. Continuamos a ser a América Violenta porque mentir às crianças e impor-lhes ignorância e estupidez é um ato de violência. Todo racismo, misoginia e homofobia é um ato de violência. Destruir a Terra é violência. O rico ficando mais rico à custa do pobre é violência. Capitalismo é violência. Ganância é violência. Silêncio é violência!

A nossa equipe nacional de ginástica feminina ser agredida e estuprada por um médico universitário e ninguém ouvir essas jovens, ISSO é violência. A violência está por toda parte. Sim, eu sei, está em todo o mundo. Mas a violência americana vem de si própria. É porque descobrimos como normalizá-la, para torná-la não algo que apenas fazemos, mas para torná-la exatamente quem somos. Aceitar simplesmente que todos sabemos que hoje haverá pelo menos um tiroteio em massa, e amanhã, e depois de amanhã e ad infinitum é imoral. “EU SOU A SUA RETRIBUIÇÃO!!” é o que nos é prometido. Apenas sai da boca para fora. Um dia, alguns anos atrás, Glenn Beck começou um segmento no seu popular programa de rádio com esta frase: “Estou a pensar matar Michael Moore”. Ele então iniciou a sua intervenção fantasiando sobre como me iria matar, perguntando se se pudesse safar e se usasse uma pulseira dizendo: "O que faria Jesus?" talvez conseguisse arranjar coragem para realmente me matar E sugeriu que por essa vez talvez Jesus lhe pudesse conceder uma isenção.

 

Ou no dia em que, em direto, um apresentador da Fox News disse que estava a pensar: “Como é que Michael Moore ainda está vivo?”

 

Estado de Michigan. Eles são a única universidade que me daria um diploma. Não um que eu o tenha merecido. Eu sou um desistente da faculdade. Mas eles deram-me um diploma honorário. Um doutoramento! Alguns direitistas em Michigan ficaram chateados quando souberam que isso iria acontecer, então a MSU foi forçada a dar também um ao colunista conservador George Will. Quando foi a minha vez de falar no jantar de honra, ele levantou-se do seu lugar no estrado e saiu à frente diante de todo o público. Um mês depois, um repórter local de investigação publicou um artigo revelando que, para conseguir que Will aceitasse o seu diploma honorário, ele disse à MSU que lhe teriam que pagar $ 47.500 para vir a East Lansing se quisessem ter o privilégio da sua presença. Claro, não recebi nenhum dinheiro nem jamais o pediria. Consegui o diploma que os meus pais sempre quiseram que eu tivesse!! Entregar secretamente a George Will a sua recompensa exigida para aplacar os que me odeiam em Michigan, bem, isso também é uma forma de violência.

 

Não consegui escrever sobre o tiroteio na MSU porque, na noite em que aconteceu, tornou-se pessoal para mim por motivos que não posso discutir aqui porque, bem, por motivos que você provavelmente pode descobrir. Existem 50.000 alunos no estado de Michigan. Isso significa que, por uma a três longas e cansativas horas naquela terrível noite do mês passado, 100.000 pais experimentaram um terror sagrado de não conseguirem entrar em contato com os seus filhos ou filhas. O meu filho é um daqueles que foram baleados? Ela está... morta? Quantos desses pais se foram simplesmente abaixo? Quantos apenas se partiram em dois, temendo o pior? Soluços incontroláveis, gritos, correr para o carro para dirigir a 80 mph para chegar a East Lansing para salvar o seu bebé. Essas 50.000 crianças também tinham 4 avós (a maioria ainda viva), então são quase 200.000 avós ouvindo a notícia e entrando em choque. A maioria dos alunos da MSU têm irmãos, estão em contato com outras 100.000 pessoas que sabiam exatamente como era, porque esta é a Geração Columbine e eles não sabiam nada além dos “Active Shooter Drills” (Exercícios de Atirador Ativo) nos quais foram forçados a participar desde que estavam no infantário. Portanto, contando apenas os familiares imediatos que foram afetados pelo terror naquela noite na MSU, obtem-se um total de quase meio milhão de pessoas. E enquanto eu pensava no que eles estavam a passar... naquele momento tudo que eu podia fazer era chorar. Ninguém num país livre deveria experimentar o trauma e o terror daquela noite.

 

Há 96 anos, em 18 de maio de 1927, o meu avô, que era o médico da vila em Hadley, Michigan, recebeu um telefonema urgente, um dos muitos que estavam a ser feitos para todos os médicos num raio de 40 milhas. O meu avô era um imigrante canadiano fazendeiro que se tornou professor e decidiu que queria ser médico, mas na década de 1890 em Ontário não havia escola de medicina por perto. Era mais perto Saginaw, Michigan, e naquela época você podia ensinar aos alunos tudo o que se sabia sobre medicina em cerca de um ano. Depois de se formar, ele decidiu ficar em Michigan.

 

Naquele dia de 1927, a pessoa que ligou disse que havia ocorrido um acidente. Um prédio desabou, ou talvez uma fuga de gás tenha causado uma explosão. Houve muitas baixas e foram necessários médicos. Pronto. O meu avô pegou na sua maleta médica e guiou 40 milhas até Bath, um vilarejo localizado a apenas alguns quilómetros da Michigan State University. Quando chegou, foi uma visão que ele nunca havia testemunhado antes. Cadáveres por toda parte, principalmente crianças. Era uma escola nova - construída 5 anos antes para as crianças de Bath e das terras agrícolas vizinhas. O tesoureiro do conselho escolar estava zangado porque os seus impostos sobre a propriedade tinham aumentado para pagar o prédio. Estava também chateado por ele, um graduado do estado de Michigan, ter perdido a recente eleição para se tornar secretário municipal. Então decidiu fazer explodir a escola de Bath. Colocou dinamite sob o chão e na cave e ligou os fios a um despertador que estava programado para tocar 15 minutos após o início da aula. A explosão matou 45 pessoas, quase 40 delas crianças em idade escolar. Dois professores e o superintendente também foram mortos. Outros 58 ficaram feridos e foram tratados pelos médicos como o meu avô. Os que ainda estavam vivos foram levados para o Lansing's Sparrow Hospital, um hospital financiado pelo tio da esposa do assassino, o principal executivo da General Motors que dirigia a Oldsmobile na vizinha Lansing. O Sparrow Hospital foi para onde os oito alunos da MSU baleados no campus no mês passado foram levados na tentativa de salvar as suas vidas. Três, infelizmente, estavam mortos à chegada.

O Massacre da Escola de Bath, Michigan, foi, e continua a ser até hoje, o maior massacre escolar da história americana.

 

Somos um povo violento, mas a maioria de nós está farta. O que faremos? Livrarmo-nos das armas? Livrarmo-nos do nosso lado escuro? Parar de enviar armas ao redor do mundo sem a exigência de que as negociações de paz devam começar. Forçar as partes em conflito para a mesa! Insistir para que cada um de nós acabe com o medo e o ódio que nos rodeia, o ódio que obriga a pegar e usar uma arma. Sim, estou a falar da polícia. Mas estou a falar do seu tio, do seu irmão. Estou a falar de qualquer um de vocês que está deprimido e que já pensou em matar-se. Peça ajuda (9-8-8). Pense em mim e saiba que eu me importo e amo você. Existe uma maneira diferente. Tem que haver.

 

Isto não é um exercício.

 

 

Notas

 

É claro que para Michael Moore não existe diferença entre a invasão de um país autocrático por um país democrático e a invasão de um país democrático por um país autocrático.

 

 

Recomendo a leitura do blog de 14 de março de 2018, “As máscaras das oligarquias”.

(421) O homem novo

Tempo estimado de leitura: 6 minutos.

 

No fim do nosso progresso encontramo-nos tal como Adão e Eva estiveram: estamos todos perante a questão moral, Max Frisch.

 

O nosso tempo pensa em termos de ‘saber como fazer’, mesmo quando não houver nada para ser feito, Karl Jaspers.

 

A cultura transformou-se numa espécie de “casino cósmico” onde tudo é calculado “para ter o máximo impacto e obsolescência instantânea”, George Steiner.

 

Vivemos hoje num mundo muito mais fragmentado, descontínuo e inconsequente. A única regra certa com que se pode contar é que as regras mudarão muitas vezes até ao fim do jogo, Z. Bauman.

 

 

 

 

 

Partindo do princípio que têm existido grandes transformações nos seres humanos e nas culturas e civilizações que foram construindo ou onde foram vivendo, os estudiosos foram-se atarefando na busca dos marcos que poderiam confirmar e definir essas alterações e seus consequentes momentos de rutura.

Por outro lado, muitos desses estudos permitiram identifica melhor essas balizas, quer aumentando-lhes a área quer retirando-lhes a importância. É assim que vimos o modelo de organização do mundo helénico-romano (o Cosmo), que se supunha único e incompatível com outros congéneres, ser absorvido pelo Cristianismo.

 Era o modelo de um mundo ordenado, finito, disposto em círculos concêntricos dependentes do valor ou da perfeição, começando com o de mais baixo valor, progredindo para o de maior perfeição, onde se encontrava estabelecida uma hierarquia em que os próprios lugares dos seres correspondiam aos graus da sua perfeição, numa escala que ia da matéria para Deus.

Neste Cosmo, todas as coisas tinham o seu lugar determinado pelo grau do seu valor, daí a tendência para procurarem o seu lugar para nele repousarem (à ciência caberia revelar essas tendências). Nesse Cosmo, a Terra ocuparia o centro.

 

Esta cosmologia antiga vai ser totalmente estilhaçada, e como a Igreja se apegara a ela para defender posições que nada tinham que ver com a religião (a idade da Terra, a sua situação relativamente ao Sol, a data de nascimento do homem, etc.), vai também ser fortemente questionada.

Quando Copérnico, na sua astronomia em 1543, De Revolutionibus Orbium Coelestium (As Revoluções dos Orbes Celestes), retira a Terra do centro do mundo, para a colocar no céu entre os outros planetas, vai minar os alicerces da ordem cósmica tradicional. Seguiram-se-lhe as teses de Galileu em 1632, o Dialogo sopra i due massimi systemi del mondo (Diálogo sobre os Dois Maiores Sistemas do Mundo), os Principia Philosophiae (Princípios de Filosofia) de Descartes em 1644, e os Principia Mathematica de Newton em 1687.

Quando Galileu consegue com o seu telescópio ver que a Lua tinha montanhas (o que o levou a concluir que a Lua seria feita de idêntico material ao da Terra), que Júpiter tinha satélites, que Vénus tinha fases, e que o Sol produzia manchas solares (o que significava que a sua matéria era alterável), vai desacreditar toda a astrologia Aristotélica, provocando, ao que dizem, uma enorme perturbação nos espíritos por pôr em causa a imutabilidade celeste, um dos dogmas que presidia ao mundo de então: a de que a perfeição absoluta do cosmos vinha do facto de ele ser eterno e imutável, em que nada poderia ser alterado.

Eram essasantigas conceções que davam ao homem a certeza do saber” que foram destruídas.

As próprias ciências são vãs, incertas: Não se sabe nada, nada se pode conhecer, nem o mundo nem a nós próprios. O que leva um desses espíritos perturbados, Michel de Montaigne (1533 – 92) a concluir que se nada era seguro, só o erro será certo!

E faz o balanço:” O homem nada sabe, porque o homem não é nada. Para além da dúvida, instalava-se o pessimismo.

Eis como Alexandre Koyré nos resume esse estado de espírito da época:

 

“O universo infinito da nova cosmologia, infinito na duração e na extensão, no qual a matéria eterna, de acordo com leis eternas e necessárias, se move sem fim e sem objetivo no espaço eterno, havia herdado todos os atributos ontológicos da divindade. Mas somente estes: quanto aos outros, Deus, ao partir do mundo, levou-os com Ele”.

 

A primeira Globalização dos descobrimentos e comércio, o Iluminismo, os grandes avanços científicos, a industrialização, tudo isso foi mascarando e substituindo essa partida de Deus. Passara-se a viver num mundo que se tornara incerto, onde nada era seguro, mas em que ao mesmo tempo onde tudo era possível.

Só finalmente a partir de Einstein, é que o universo passou de novo a ser considerado curvo e finito, não só sobre o ponto de vista espacial,mas também sobre o ponto de vista temporal, calculando-se a sua duração em quinhentos mil milhões de anos!

 

Poderíamos ter descansado, mas as guerras, as bombas atómicas, a segunda Globalização e outros, vêm alterar de novo as balizas do possível a que cada um de nós já se tinha agarrado. Vivemos hoje num mundo muito mais fragmentado, descontínuo e inconsequente.

O “emprego”, antes visto como sendo para a vida, é agora, na melhor das hipóteses, temporário, podendo desaparecer virtualmente sem qualquer aviso, o mesmo acontecendo com as empresas, escritórios, e bancos que o forneciam.

As “habilitações” requeridas pelos empregos, envelhecem rapidamente, tornando-se até de um dia para o outro num empecilho.

Ser-se “prudente” e “previdente”, pensando no futuro, torna-se cada vez mais difícil pois não se sabe quais as qualificações em que investir por poderem mais tarde virem a ser consideradas desnecessárias, o mesmo se passando com as poupanças de dinheiro que podem vir a ser reduzidas a zero.

Ou seja, vive-se hoje num mundo em que os jovens não conseguem saber quais serão as regras que os nortearão num futuro, mesmo no mais próximo. A única regra certa com que podem contar é que as regras mudarão muitas vezes até ao fim do jogo.

Num mundo assim é sábio e prudente não fazer planos a longo prazo, nem investir num futuro distante, nem se amarrar firmemente a qualquer lugar, grupo de pessoas, causas, nem mesmo à imagem que se tenha de si próprio, porque pode vir a encontrar-se desancorado e à deriva sem nada a que se agarrar.

Ou seja, ser-se “previdente” hoje em dia é evitar o “comprometimento”, para que quando a oportunidade chegar se encontrar livre para zarpar.

O mundo é hoje apresentado como uma coleção de fragmentos e episódios, onde uma imagem se segue a outra imagem que a substitui, ela própria a ser substituída momentos depois.

As celebridades surgem e desaparecem diariamente, muito poucas deixando qualquer impressão. A toda a hora surgem problemas que despertam a nossa atenção, para logo de seguida mal tenham aparecido, desapareçam. A atenção tornou-se um mais escasso dos recursos.

Como escreveu George Steiner, a nossa cultura transformou-se numa espécie decasino cósmico” onde tudo é calculado “para ter o máximo impacto e obsolescência instantânea”: máximo impacto, dado que a imaginação ao ser constantemente chocada tornou-se blasé; e obsolescência instantânea, uma vez que a atenção tem capacidade limitada pelo que tem de se fazer espaço para absorver as novas celebridades, modas e ‘problemas’.

Quando Marshall McLuhan nos vem dizer que “o médium é a mensagem” querendo com isso significar que qualquer que seja o conteúdo da mensagem, as qualidades do médium que a transporta são elas mesmo a mensagem (ainda que escondida e sub-reptícia), leva-nos a concluir que ao alterarmos o meio que transporta a mensagem, o conteúdo da mesma é alterado.

Aplicando à alteração da nossa sociedade, fixemo-nos no exemplo entre a utilização do papel fotográfico (médium de antes) e a gravação de vídeo (médium de agora).

O papel fotográfico só pode ser usado uma vez. Mas, uma vez usado, conserva o assunto (foto, traço) por muito tempo, praticamente para sempre. Pense-se no que significava o álbum de fotografias da família, de cada um de nós, das nossas férias, etc.

O vídeo atual é feito para ser apagado, voltar a ser usado e reusado de novo, para fixar algo que no momento pareceu interessante ou divertido, mas não mais do que isso: é feito para desaparecer.

Ou seja, enquanto o papel fotográfico carreia a mensagem de que as coisas têm importância, tendem a durar e a terem consequências, tendem a manterem-se juntas e afetam umas às outras, o vídeo transporta a mensagem de que todas as coisas existem por elas próprias e só contam até serem substituídas por outras, que cada episódio é em si estanque e sejam quais forem as suas consequências estão destinadas a serem apagadas.

A diferença entre estas duas mensagens, é que uma delas pode ser definida pela palavracriaçãoe a outra pela palavra reciclagem”.

Da mesma forma que o material de construção de antes era o aço e o concreto, o de hoje é o plástico biodegradável. Da mesma forma que para o homem peregrino do antes o seu espaço temporal era o da “peregrinação-através-do-tempo”, o do homem atual é o do “turista-através-do-tempo”.

No primeiro caso, o itinerário dos peregrinos é traçado com antecedência tendo em conta o destino que se pretende alcançar e tudo aquilo que fizerem é calculado por forma a se aproximarem cada vez mais do objetivo. O peregrino é consistente na escolha dos passos a dar, consciente que cada passo importa e que a sua sequência não pode ser revertida.

Os homens de hoje, mesmo que quisessem, não poderiam encarar as suas vidas como uma peregrinação. Só é possível planear a vida como jornada para um destino, apenas num mundo em que se possa, com uma certeza mínima, acreditar que o mundo pouco mudará durante a vida, o que não é o caso do mundo atual.

Daí que a vida dos homens de hoje seja mais a dos turistas-através-do-tempo, que não podem decidir com antecedência quais os lugares a visitar e com que sequência ou se se vão continuar a deslocar, nunca sabendo se o sítio a que chegaram constitui o seu destino final. Daí que nunca desenvolvam raízes profundas com os lugares nem criem ligações sólidas com os habitantes locais. Tratarão cada lugar como uma estadia temporária, dependente da satisfação que o lugar lhes ofereça, mas estando sempre prontos para partirem de novo assim que a satisfação diminuir ou novas pastagens se lhes apresentarem.

Esta necessidade que lhes é imposta (e aceite) de apetência contante por novo espaço temporal, ao impedir a responsabilização e ao afastar maiores inter-relações humanas, neutralizando assim parte da existência humana, é contrária a qualquer postura moral.

E esta não é uma situação que possa ser corrigida pelo recurso a pregadores de moral, porquanto ela tem raízes profundas no contexto da vida dos homens contemporâneos, constituindo como que uma “adaptação racional” para as novas condições na qual a vida é vivida. É como se esta vida se emancipasse dos constrangimentos morais.

Pelo que a sociedade contemporânea coloca de novo o homem só.

Como escreveu Max Frisch:

 

Podemos agora fazer o que quisermos e a única questão é saber o que afinal queremos? No fim do nosso progresso encontramo-nos tal como Adão e Eva estiveram: estamos todos perante a questão moral.

 

Toda esta observação sobre a sociedade contemporânea encontra-se num ensaio de Zygmunt Bauman, escrito em 1996, Alone Again, Ethics After Certainty.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

(420) A cultura do esforço

Tempo estimado de leitura: 3 minutos.

 

Você tem que trabalhar, isso é bom. Não trabalhar, é mau.

 

O problema da juventude é que lhe falta a cultura do esforço, Dias Ayuso.

 

A cruzada pela ética do trabalho é a batalha para impor o controle e a subordinação, Zigmunt Bauman.

 

O proselitismo associado à cultura do esforço é agora feita a partir de palestras motivacionais, livros de autoajuda empresarial e sermões políticos.

 

 

 

Quando um respeitado meio de comunicação social publica um artigo sobre matérias que normalmente têm vindo a serem tratadas em meios mais restritos, tal pode significar que esses assuntos são entendidos como tendo já uma aceitação pelo grande público.

É o caso deste artigo de Sergio C. Fanjul, licenciado em Astrofísica e mestre em Jornalismo, publicado no El País,Por qué lo llaman cultura del esfuerzo cuando quieren decir injusticia y precariedade”, que aborda, de um modo muito sintético, simples, mais vivido e conjuntural, algumas das matérias que tenho vindo a desenvolver neste blog. (1)

 

Se nos seus inícios a ética do trabalho era utilizada para domesticar o proletariado que se formava vindo do campo, hoje continua a ser utilizada para justificar um sistema falido e injusto. E, se antes se defendia desde os sermões da igreja, agora a homilia assume a forma de palestras motivacionais, livros de autoajuda empresarial e discursos políticos.

 

Não sei se devo acreditar na cultura do esforço. Veja: Amancio Ortega tem 5.300.000 vezes mais dinheiro do que eu. Eu sei que ele se esforçou muito mais, mas com as mesmas 24 horas que o dia tem para nós dois, duvido que ele tenha tentado 5.300.000 vezes mais. É muito esforço: Amancio teria explodido (ele mesmo, quero dizer).

 

Isto é brincadeira, já me explicaram que essa não é uma lei exata ou linear e que, às vezes, se mistura com a fé, com a fé em si mesmo, de facto. Mas também é verdade que a chamada cultura do esforço tem sido frequentemente usada para fins obscuros. Outro dia, a pornográfica e pouco trabalhadora Isabel Díaz Ayuso, presidente da Comunidade de Madrid, disse que o problema da juventude é que lhe faltava cultura do esforço. E que os profissionais de saúde de Madrid eram preguiçosos.

 

O termo lembra a ética do trabalho, que também tem a sua história, como explica Zigmunt Bauman em seu livro Trabalho, Consumismo e os Novos Pobres (Gedisa). Tudo começa na Inglaterra da Revolução Industrial quando, fechando as terras comuns, os camponeses acabam por ser convertidos em mão de obra para as fábricas incipientes das cidades enfumaçadas da época. Foi uma mudança radical: de um trabalho que se fazia ao seu ritmo, em benefício próprio, em ambiente familiar; os novos proletários tiveram que ir trabalhar para fábricas insalubres, durante turnos quilométricos e pré-fixados, trabalhando para outros por salários de miséria. Não parecia um bom plano, por isso muitos camponeses, que não entendiam nada do que se estava a passar, ignoravam o assunto e resistiam. Mas o capitalismo tinha que ser posto de pé de alguma forma.

 

A ética do trabalho tornou-se um lubrificante para a proletarização da população. Tem duas premissas, segundo Bauman: a primeira, de que para viver e ser feliz é preciso fazer algo que os outros considerem valioso e digno de remuneração, ou seja, trabalhar. A segunda é que é tolice e moralmente condenável contentar-se com o que já foi conquistado e é preciso esforçar-se para conseguir sempre mais. Segundo isto, “o trabalho é um fim em si mesmo, uma atividade nobre e hierarquizadora”, nas palavras do sociólogo polonês. Você tem que trabalhar, isso é bom. Não trabalhar, isso é mau.

 

Sob a ética do trabalho, já não importava o gosto que se tinha pelo que se fazia, o orgulho do ofício ou o fim que se perseguia com o trabalho: era preciso trabalhar pelo trabalho, ideia muito útil nas fábricas onde os trabalhadores da rotina mecânica não entendiam muito bem o que faziam, para quê ou para quem.

 

A cruzada pela ética do trabalho era a batalha para impor o controle e a subordinação”, escreve Bauman, “foi uma luta pelo poder em tudo menos no nome; uma batalha para obrigar os trabalhadores a aceitar, em homenagem à ética e à nobreza do trabalho, uma vida que não fosse nem nobre nem conforme aos seus próprios princípios morais”, continua o autor. Para promover a ética do trabalho, multiplicaram-se os sermões nas igrejas, as histórias moralizadoras e as escolas dominicais para os jovens.

 

A atual cultura de esforço não é diferente, apenas agora o proselitismo associado é feito a partir de palestras motivacionais, livros de autoajuda empresarial e sermões políticos, para fazê-los comungar com as rodas do moinho da precariedade. Se nos seus primórdios a ética do trabalho, tão semelhante à cultura do esforço, servia para domesticar o proletariado que se formava no campo, hoje continua a ser utilizada para justificar um sistema falido e injusto, como se a culpa do seu declínio fosse de suas vítimas. Em tempos difíceis, em vez de se procurarem soluções entre todos para construir um mundo melhor, há quem continue a apelar à luta individual contra uma inércia invencível, à competição de todos contra todos.”

 

Nota 1:

Alguns assuntos afins versados neste meu blog

As Mónicas e os Mónicos de, que cuidam de nós”, 13 de agosto de 2015.

Fazer ou não fazer é sempre fazer”, 29 de setembro de 2015.

O Estado social dos ricos”, 14 de junho de 2015.

Cristianismo como barreira à barbárie”, 28 de junho de 2015.

A economia está bem, o País é que está mal”, 10 de julho de 2015.

Quem corre por gosto…”, 10 de fevereiro de 2016.

Autoridade: o pilar da sociedade”, 30 de março de 2016.

Do ‘biopoder’ ao ‘psicopoder’”, 5 de outubro de 2016.

 “Elogio dos preguiçosos”, 26 de setembro de 2018.

Vestir a camisola”, 12 de dezembro de 2018.

O elogio da preguiça”, 24 de agosto de 2022.

(419) Em defesa de Benjamin Netanyahu

Tempo estimado de leitura: 3 minutos.

 

Israel não é um Estado de todos os seus cidadãos, mas o Estado-nação dos judeus e apenas deles, B. Netanyahu.

 

O carapau grande era sempre para mim!

 

A destruição étnica da cidade de Canaã (e muitas outras) com recurso ao genocídio tinha como objetivo dar lugar a uma etnicidade única: a israelita.

 

“E os filhos de Israel apropriaram para si mesmos todos os despojos; chacinaram todo o povo com a boca da espada, … e não deixaram nem um único ser com vida.” (Josué, 11-14)

 

 

 

Recordo a história daqueles dois jovens que tendo acabado o secundário resolveram dar uma de homem e ver até que ponto suportariam passar sem comer. Ao fim de dois dias, já não podendo aguentar mais, entraram numa tasca e, com o pouco dinheiro que tinham, pediram apenas meia-dose do prato do dia: carapau frito.

Vieram dois carapaus, um grande e um pequeno. Um dos amigos atirou-se logo ao carapau grande e ia começar a comê-lo quando o outro lhe diz:

- Eh! Pá! Tu és muito mal-educado!

-Porquê?

- Devias antes ter-me perguntado se eu queria servir-me primeiro!

-Ok! Mas tu és bem-educado, não és?

-Sou.

-Então o carapau grande era sempre para mim!

 

 

É no livro do “Génesis” (17:8), da Bíblia, Antigo Testamento, que pela primeira vez Deus promete a Abraão a terra de Canaã para os seus descendentes:

 

E te darei a ti, e à tua semente depois de ti, a terra das tuas peregrinações, toda a terra de Canaã, em perpétua possessão, e ser-lhes-ei o seu Deus.”

 

 E o que aconteceria aos povos que já lá habitavam? A resposta vem no livro “Deuteronómio” (20:16-17):

 

Porém, das cidades destas nações, que o Senhor, teu Deus, te dá em herança, nenhuma coisa que tem fôlego deixarás com vida;

Antes destruí-las-ás totalmente: aos heteus, e aos amorreus, e aos cananeus, e aos perizseus, e aos heveus, e aos jebuseus, como te ordenou o Senhor, teu Deus.”

 

Este extermínio de outros povos autorizado pelo Senhor, encontra-se minuciosamente relatado nos livros de “Josué” e de “Juízes” (livros que narram a conquista de Canaã e territórios limítrofes pelos israelitas).  Aí podemos aperceber que a destruição étnica da cidade de Canaã (e muitas outras) com recurso ao genocídio, tinha como objetivo dar lugar a uma etnicidade única: a israelita.

E que as conquistas contadas como milagrosas incluíam sempre a matança de todos os seres vivos, humanos (desde homem a mulher, jovem a velho) e animais (desde vitelo a animal de carga), a apropriação de bens, e as variadas formas de tortura, como o empalamento - “E Josué incendiou a cidade com fogo: fê-la um amontoado inabitável até ao dia de hoje. E enforcou o rei de Gai numa árvore dupla e ele ficou na árvore até à noite…e o lançaram à porta da cidade … “ (Josué, 8-29) - e a amputação dos dedos das mãos e dos pés - “e cortaram-lhe as pontas das mãos e dos pés” (Juízes, 1-6) -, reduzindo o inimigo ao estatuto de animal, dado que deixava de se poder alimentar como ser humano ao ter de apanhar a comida com a boca como um cão.

A fórmula final contada do ataque às cidades termina invariavelmente com:

 “E os filhos de Israel apropriaram para si mesmos todos os despojos; chacinaram todo o povo com a boca da espada, … e não deixaram nem um único ser com vida.” (Josué, 11-14)

Tal como o Senhor ordenara a Moisés, Seu escravo, assim Moisés ordenara a Josué; e assim Josué procedeu … “(Josué, 11-15).

 

 

Independentemente dos problemas que Netanyahu possa ter com a Justiça ou com as forças políticas e sociais, ele é reconhecidamente um crente devoto, um Josué menor que pretende levar a bom porto os preceitos políticos e religiosos que norteiam o Estado de Israel.

Recordemos que o extermínio total dos habitantes de Canaã – exigência atribuída a Deus em Deuteronómio 20:16-17 – não foi feito, está por ser feito, razão porque ainda existem povos não israelitas a viver ao lado com israelitas.

Recordemos ainda, que pela lei em vigor, Israel define-se como a “pátria histórica do povo judaico” e, que nela, o povo judaico tem um “direito exclusivo à autodeterminação”, que “Jerusalém é a sua capital”, e que “o hebraico é a única língua oficial”, ignorando os povos palestinos locais.

O que Netanyahu sintetizou desta forma:

 

 “Israel não é um Estado de todos os seus cidadãos, mas o Estado-nação dos judeus e apenas deles”.

 

 

Atente-se no que Frederico Lourenço escreve na “Nota introdutória a Josué” (Bíblia, Antigo Testamento, Os livros históricos, tomo I):

“A mensagem clara do livro de Josué é que Deus autoriza, por amizade a um povo, o extermínio de outros povos”.

E lembra que John Collins (A Short Introduction to the Hebrew Bible) considera que esta narrativa foi a que serviu de justificação religiosa para o massacre de populações indígenas nas Américas e em África, às mãos de conquistadores com a “religião” certa.

 

 

 

 

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