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Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

(395) Gasoduto ao fundo!

Tempo estimado de leitura: 10 minutos.

 

Para os inquiridores de muitas e vastas coisas com o objetivo de tentar explicar o mundo.

 

A massa do aço do gasoduto é equivalente a quase 500 vezes o peso de aço da Torre Eiffel (que pesa cerca de 10.000 toneladas), correndo ao longo de uma distância 4.000 vezes a altura da Torre.

 

A era do gás barato na Europa está definitivamente encerrada após este ataque energético.

 

A competitividade chinesa será impulsionada por este gás que agora recusamos. No futuro seremos solicitados a compensar essa falta de competitividade reduzindo as nossas conquistas sociais.

 

 

 

 

 

Mesmo quando o termo Pré-socráticos apareceu no século XIX, numa tentativa para melhor se definir a separação entre aqueles pensadores da antiga Grécia que se preocupavam principalmente com a especulação cosmológica e física e os outros que apareceram depois de Sócrates (o que até nem era correto na medida em que alguns deles foram contemporâneos de Sócrates e de Platão) particularmente interessados com os problemas morais (o que também não era correto porque alguns deles se debruçaram sobre questões de ética e da melhor maneira de se viver a vida), talvez o mais importante do que essa diferenciação para efeitos de catalogação seja o que os une: inquiridores de muitas e vastas coisas com o objetivo de explicar o mundo.

Para tal, necessitavam todos eles de estarem imersos no mundo, para dele receberem o maior número de influências possível. Tal como hoje, para se tentar compreender o mundo, ter uma ideia sobre o que se passa nele, passa por quebrar as barreiras entre filosofia, política, economia, ciência.

Como escreveu Magalhães-Vilhena num comentário às Teses para Feurbach, “não é apenas o pensamento do homem, mas o homem inteiro, com o pensamento e todo o seu corpo material: com o cérebro e as mãos – pensa agindo e age pensando.”

É com essa intenção que aqui transcrevo um recente artigo de  Oliver Berruyer, “O atentado ao Nord Stream: vão as nossas economias resistir ao choque?” sobre um dos acontecimentos que maior impacto virá a ter nas nossas vidas.

 

Começa assim:

 

A 26 de setembro de 2022, a Europa assistiu ao pior atentado energético da sua história com uma indiferença quase geral, devido à cobertura insuficiente dos meios de comunicação social. Mais orientada para a procura dos culpados sem o menor elemento de prova, a imprensa esqueceu-se de explicar o essencial: o que este grande acontecimento vai fazer mudar concretamente para nós, o nosso abastecimento energético e a nossa sobrevivência económica. […]

 

 

Nord Stream: o equivalente a 500 Torres Eiffel submersas

 

Para entender a sequência dos acontecimentos, é preciso primeiro conhecerem-se as características deste gasoduto submarino. Ele é construído montando e soldando segmentos de aço de 12 metros de comprimento, com um pouco mais de 1 metro de diâmetro e 4 cm de espessura, cada um deles pesando 12 toneladas. São muito grossos e sólidos, para poderem suportar as pressões internas muito altas no gasoduto. Depois são recobertos com uma camada de betão de 8 cm de espessura, também pesando 12 toneladas, o que permite torná-los suficientemente pesados para que se afundem e permaneçam no fundo.

Esses segmentos têm cada um 12 metros de comprimento para poderem ser transportados por um meio-trailer.

Como o gasoduto tem 1.220 km de extensão, cada tubo é feito pela junção de aproximadamente 100.000 segmentos, pesando, portanto na totalidade, 2.400.000 toneladas.

Os 4 tubos que constituem o Nord Stream pesam assim, cerca de 10 milhões de toneladas no total, contando já com os 5 milhões de toneladas de aço. Esta única massa de aço é equivalente a quase 500 vezes o peso de aço da Torre Eiffel (que pesa cerca de 10.000 toneladas), correndo ao longo de uma distância igual a 4.000 vezes a altura da Torre.

 

Os segmentos são depois transportados para o barco de montagem especializado. Eles são soldados uns aos outros no barco e descarregados continuamente a uma velocidade de quase 3 km por dia (ou seja, 1 segmento colocado a cada 7 minutos) e vão descendo para o fundo do mar unicamente pela ação do seu peso. [Ver imagem HD aqui e vídeo aqui]

Se a água tiver menos de 14 metros de profundidade, o gasoduto é enterrado; para além disso, assenta simplesmente no fundo – o que obviamente o torna muito vulnerável em caso de sabotagem.

 

A sabotagem do Nord Stream

 

A 26 de setembro de 2022, foram detetadas por sismógrafos dinamarqueses e suecos às 2h03 e 19h03, duas explosões muito fortes, a priori duplas, de magnitude 2,3 e 2,1 na escala Richter.

Em seguida foram detetados nos tubos Nord Stream 3, e logo de seguida quatro grandes fugas de gás de 200 metros de largura. Parece que as quatro explosões afetaram apenas três dos quatro tubos: as linhas A e B do Nord Stream 1 e a linha A do Nord Stream 2, que, portanto, teriam sido atingidas duas vezes; a linha B deste último foi poupada. As primeiras estimativas falavam de 500 a 700 quilos de explosivos.

Nos dias seguintes o fluxo foi secando gradualmente, tendo a água invadido parcialmente os tubos substituindo o gás, sendo o fornecimento de gás cortado. Evaporaram-se milhões de metros cúbicos de gás.

 

Os gasodutos Nord Stream afetados estarão provavelmente perdidos para sempre

 

Muitas pessoas pensam que para consertar essas fugas será suficiente isolar as secções. Na verdade, é bastante mais complicado. Este gasoduto foi concebido para ser muito resistente e para durar pelo menos 50 anos sem qualquer intervenção, tendo em conta a probabilidade de acontecer 1 acidente por cada 100.000 anos. Mas tudo isso sem contar com ataques. Não foi, portanto, concebido qualquer dispositivo que permita isolar seções.

O grande problema é que um gasoduto é muito sensível à água do mar, por uma simples razão: a parede interna dos tubos é feita de aço cru, muito sensível à oxidação e à corrosão. Essas paredes nuas são necessárias para que seja possível realizar a soldagem dos tubos nos barcos especializados.

Após a soldagem, a superfície externa passa por um tratamento anticorrosivo e é isolada. Mas não a superfície interna, que permanece em aço cru, aço que não é inoxidável. Normalmente, isso não constitui um problema, a menos que a água salgada penetre no tubo. A corrosão seria então rápida, podendo ocasionar risco de rutura, dadas as altas pressões internas.

Além disso, o gasoduto serpenteia a profundidades entre os 20 e os 200 metros. O ataque ocorreu numa área pouco profunda, cerca de 70 metros de profundidade. Dependendo dos efeitos de sifão, a água infiltrar-se-á por dezenas (se não centenas) de quilómetros, danificando irreparavelmente as bordas de cada tubo.

No melhor dos casos, seria necessário agir muito rapidamente nas secções alagadas para secá-las, o que constitui um trabalho colossal dependendo da distância. Após algumas semanas de inundação, essas seções provavelmente teriam que ser removidas e essas partes do gasoduto reconstruídas. Para isso, seria então necessário ter duas coisas:

 

- em primeiro lugar, equipamentos pesados ​​e altamente especializados; ora como estes gasodutos estão sob sanções ocidentais, tal afugentou todos os industriais não-russos;

 

- em segundo lugar, enormes meios financeiros que só poderiam, portanto, serem russos. É evidente, porém, que a Rússia, encontrando-se atualmente em guerra, está numa situação que não é compatível para suportar um investimento de vários milhares de milhões em gasodutos que, aliás, certamente nunca obteriam as autorizações necessárias para funcionarem, e, ainda por cima, para o fornecimento de gás para um cliente que dentro de poucos de anos deixaria de o necessitar.

 

Em resumo, é, portanto, muito provável que, na sequência desta sabotagem, três das quatro linhas dos gasodutos Nord Stream se percam definitivamente, e com elas 82 Gm3 (se não 110) de capacidade de transporte. O fornecedor russo perdeu pelo menos 15 biliões de euros neste ataque, o que equivale, por exemplo, ao preço de cinco porta-aviões. A era do gás barato na Europa está, portanto, definitivamente encerrada após este ataque energético.

 

Após o ataque: o que está realmente a acontecer?

 

Atualmente, o nosso abastecimento a partir da Rússia tem vindo a cair acentuadamente desde março. As entregas pelos gasodutos estão atualmente a 15% do nível de janeiro. Com efeito:

- o gasoduto Yamal não transporta gás desde maio de 2022, tendo a Polónia colocado a Gazprom sob sanções em 26 de abril, o que levou a Gazprom a interromper as suas entregas;

- o gasoduto Brotherhood reduziu as suas entregas para a Europa, tendo a Ucrânia, após a invasão russa, bloqueado o trânsito num dos ramais;

- o gasoduto Nord Stream 1 não estava em operação desde o início de setembro. Os russos indicaram que uma fuga de óleo exigia intervenção na turbina. Surgiram então desacordos. Por um lado, a Rússia alegou que não poderia resolver o problema das turbinas devido a problemas técnicos e legais devido às sanções que afetam os equipamentos operacionais, e declarou-se pronta para fornecer gás após o fornecimento de uma nova turbina pelo Ocidente. Por outro lado, a Europa criticou a Rússia por não querer entregar o gás por motivos políticos e para pressionar os europeus.

 

Devido à crise, a União Europeia armazenou muito gás durante o verão (antecipando este inverno), mas será mais difícil alcançar os níveis necessários em 2023 para o inverno seguinte, porque a procura mundial de gás provavelmente excederá em muito a oferta...

A Europa terá, portanto, de recorrer à Noruega - membro da NATO que se recusa a vender-nos o seu gás a um preço moderado -, à Argélia e aos países exportadores de Gás Natural Liquefeito (GNL).

 

GNL americano: a nova dependência energética?

 

As exportações globais de GNL (gás natural liquefeito) têm aumentado acentuadamente desde 2015, em particular devido ao crescimento das exportações da Austrália e dos Estados Unidos. As exportações globais de GNL agora representam o mesmo volume que as exportações de gasodutos.

No entanto, os recursos de GNL estão longe de ser infinitos. Isso significa que haverá acirrada concorrência global para comprar gás, e que o seu preço permanecerá permanentemente alto, em benefício dos países produtores e em detrimento dos países consumidores.

 

Enquanto o gás vendido por gasoduto é geralmente objeto de contratos vinculantes de longo prazo, a um preço fixado por períodos largos, o GNL, por outro lado, especialmente o americano, é vendido ao preço de mercado, quase no dia a dia, o que torna os preços altamente voláteis e a concorrência ainda mais acirrada.

 

Esta concorrência irracional do GNL é perfeitamente ilustrada com o exemplo do navio transportador de GNL Hellas Diana. Partindo dos Estados Unidos no final de novembro de 2021 para vender o seu gás na Ásia, este transportador de GNL fez meia-volta em 20 de dezembro (perdendo, portanto, um milhão de dólares em pedágios ao ter de cruzar de novo o Canal do Panamá na direção oposta) para ir vender o seu gás … na Inglaterra, onde um novo comprador havia superado a oferta – efetivamente privando a Ásia desse gás.

 

Esta crise energética revelar-se-á, portanto, muito lucrativa para alguns países, a começar pelo Qatar, Reino Unido e sobretudo Estados Unidos, que vendem o seu gás à União Europeia a 4 vezes o preço que cobram às suas próprias indústrias.

 

Após os ataques, os americanos nem esconderam a alegria diante desse novo mercado que se abria:

 

    “[Esses ataques contra o Nord Stream] também são uma grande oportunidade. Esta é uma tremenda oportunidade para erradicar a dependência da energia russa de uma vez por todas e, assim, privar Vladimir Putin de utilizar a energia como arma de guerra como meio de promover os seus desígnios imperiais. Isso é muito importante e oferece uma tremenda oportunidade estratégica para os próximos anos.” [Anthony Blinken, Secretário de Estado, 30/09/2022]

 

De facto, se os ataques contra o Nord Stream permitem que a Europa ponha fim à sua dependência da energia russa, eles recriam imediatamente uma nova dependência para com o GNL americano ao mesmo tempo muito caro e não sem consequências ambientais. Mas está claro que nossos "amigos" americanos parecem mais interessados ​​na atração do lucro do que no sombrio futuro económico do nosso continente...

 

Consequências políticas e climáticas importantes

 

No mercado de gás, além da Europa, os Estados Unidos têm outros clientes para satisfazer. Atualmente, vendem metade de seu gás (desta vez por gasoduto) para o Canadá e México, representando a Europa menos de 20% de suas exportações.

 

Além disso, a curto prazo, a Rússia não tem meios físicos para exportar para outros lugares todo esse gás que a UE não pode e não quer mais receber. A Rússia ficará, portanto, temporariamente excluída da possibilidade de vender uma das suas principais riquezas.

Mas mais, além do preço, o gás suplementar que será entregue à Europa para compensar a perda de gás russo, pelos Estados Unidos ou outros países, irá necessariamente faltar em outros países, o que provavelmente lhes causará importantes problemas econômicos e políticos. Todas as previsões de trocas futuras estão, portanto, obsoletas, pelo que as cartas terão de ser dadas de novo.

 

Existirão, também, consequências climáticas. As quantidades em falta, quando não são substituídas por carvão, que está a passar por um renascimento dramático, serão substituídas por GNL, que é quase 3 vezes mais poluente do que o gás entregue por gasoduto. Obviamente, as questões ecológicas ficam em segundo plano para os belicistas...

 

China, a grande beneficiária da crise energética?

 

A médio e longo prazo, a Rússia já anunciou o seu plano: voltar-se cada vez mais para a China. Em maio de 2014, assinou um contrato de 30 anos com a China, no valor de 400 biliões de dólares, e construiu o seu primeiro gasoduto Força Siberiana ligando-a à China. Este gasoduto, inaugurado em 2019, entregará cerca de 40 Gm3 em 2023 e 60 Gm3 em 2025, mais que o Nord Stream 1.

Em julho de 2022, foi anunciado o lançamento do projeto “Força Siberiana 2” para ligar a Sibéria Ocidental à China. O histórico gasoduto “Yamal – Europa” será assim substituído pelo “Yamal – China”. Como os alemães indicaram em fevereiro que se recusavam a autorizar que o Nord Stream 2 ficasse operacional, os russos finalmente declararam que ele seria substituído pelo "Força Siberiana 2" para vender o seu gás para a China e não para a Europa.

Em 22 de setembro de 2022, a Rússia anunciou a iminente assinatura de um acordo com a China para a entrega de 50 Gm3 por ano por meio deste gasoduto, que será iniciado em 2024 e estará operacional em 2030.

 

Também deve ser lembrado que em 4 de fevereiro de 2022, a Rússia e a China assinaram um contrato de energia no valor de quase US$ 120 biliões ao longo de 25 anos. Desse montante, quase 40 biliões corresponderam à venda de 10 Gm3, a US$ 0,15 por m3 por 25 anos. Para colocar em perspetiva, 15 cêntimos é 2 a 3 vezes menos que o preço da compressão-transporte-descompressão do GNL. Este último vale mais de 2,5 euros por m3 (na Europa em 2022), ou seja, 15 vezes o preço negociado com a China. E mesmo que descesse para 1€, ainda seria 7 vezes mais caro que o preço chinês.

 

A competitividade chinesa será assim impulsionada por este gás que agora recusamos. Aposto que seremos solicitados, no futuro, a compensar essa falta de competitividade reduzindo as nossas conquistas sociais...

 

Tudo isso é em parte consequência da esquizofrenia diplomática europeia, como demonstram as palavras da Presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, ao declarar em 4 de fevereiro de 2022: “O nosso pensamento estratégico é o seguinte: queremos construir o mundo de amanhã como democracias com parceiros que pensam da mesma forma”. Poderia dizer da mesma forma sem um sorriso: “Muitos países mostram interesse numa boa cooperação de longo prazo com a Europa. Falamos em princípio com todos, começando com a Noruega […] mas também com o Qatar, o Azerbaijão e o Egito” – três democracias bem conhecidas de todos, e especialmente dos arménios invadidos…

 

Quais as consequências económicas para a França e para a Europa?

 

Ao contrário do problema da quantidade de gás – que, embora onipresente no meio dos mídia, não deve trazer problemas muito grandes – é de facto a questão do preço do gás que é muito preocupante, pelo impacto que terá nas nossas vidas.

Com efeito, este gás importado será muito caro, o que afetará diretamente não só os orçamentos das famílias europeias consumidoras de gás, mas também as finanças públicas de todos os países que procurarão limitar os aumentos, como a França, mas também a Alemanha, que acaba de anunciar um plano de 200 biliões de euros que está a destruir a UE. Os países afetados verão os seus défices aumentar substancialmente, o que terá um efeito cascata nas taxas de juro pagas pelo Estado. Portanto, o financiamento dos déficits públicos e da dívida pública pode-se tornar insustentável, como explicámos neste artigo.

 

Note-se também que as políticas neoliberais de desregulamentação levadas a cabo durante 15 anos levaram três quartos das habitações a abandonar os preços regulados do gás, a lançar-se nos braços do mercado livre supostamente mais interessante – exceto, por exemplo, em caso de uma crise…

A loucura da desregulamentação de Bruxelas também forçou a França a aprovar uma lei em 2019 abolindo os preços regulados do gás... a partir de 30 de junho de 2023!

 

Esta é de facto a última etapa da desregulamentação, após a destruição do campeão europeu francês de energia EDF-GDF, e o fim dos preços regulados do gás – uma decisão que, no entanto, coloca tantos problemas para as empresas francesas hoje…

Depois das famílias, esse aumento do preço do gás afetará muito mais fortemente (na ausência de um forte apoio público) as contas operacionais das empresas e a sua competitividade. Essa situação vai levá-los a:

- aumentar o seu preço, o que aumentará a inflação;

- reduzir as suas compras não essenciais e, portanto, penalizar o crescimento;

- reduzir a contratação de pessoal, ou mesmo a despedi-los, o que agravará o desemprego;

- falir na pior das hipóteses, especialmente se estiverem sujeitos a uma forte concorrência não europeia.

 

Estes efeitos serão transfronteiriços devido à forte interdependência do comércio europeu: as empresas francesas estão menos expostas do que as empresas alemãs, mas sendo a Alemanha o seu primeiro cliente estrangeiro, os problemas no Reno terão consequências em França.

 

Estas questões de preços não se limitam ao gás e ao petróleo. Irão também afetar o preço da eletricidade devido a um estúpido regulamento europeu que, de facto, liga o seu preço ao do gás. Como a simples observação do mix de eletricidade na Europa mostra, esta regulamentação é ainda mais inepta em França, uma vez que a grande maioria da nossa produção de eletricidade depende da energia nuclear, de barragens e de outras energias renováveis.

 

Nada, absolutamente nada, justifica aumentos significativos no preço da eletricidade, exceto a mortífera ideologia neoliberal. O funcionamento deste mercado é tão disfuncional que até o governo francês o considera agora “aberrante”.

 

Por último, todos estes problemas de preços irão obviamente reduzir a procura de gás e, provavelmente, de energia. No entanto, existe uma relação direta entre a produção económica (PIB) e o consumo de energia. Se a eficiência energética aumentou, é verdade que não sabemos produzir mais com menos energia...

Este problema será, portanto, somado aos outros e deverá desacelerar significativamente o crescimento do PIB, ou mesmo reduzi-lo.

 

Para concluir

 

Para concluir, o atentado energético que levou à destruição dos gasodutos Nord Stream marca tragicamente o culminar de um processo do afundamento pela Europa de uma das suas maiores vantagens competitivas, a energia a gás barata. Este afundamento tem vindo a ser realizado há vinte anos através da liberalização deste sector, tendo resultado num funcionamento aberrante.

Pela nossa parte, vamos pagar um alto preço, importando gás muito mais caro, mais poluente, sacrificando empregos e poder aquisitivo prejudicados pela inflação, sofrendo até talvez interrupções no fornecimento de gás e eletricidade.

Os nossos vizinhos alemães e italianos, que não sacrificaram a sua indústria, sofrerão ainda mais (porque são mais dependentes de energia produzida em seu solo), e os seus problemas espalhar-se-ão por contágio até nós, por causa da interdependência das nossas economias. Os próximos anos serão difíceis.

 

 

 

 



(394) Os homens da primeira cidade

Tempo estimado de leitura: 6 minutos.

 

Há 7.900 anos a. C., em pleno Neolítico, Çatalhöyük na Anatólia, foi a primeira cidade construída e habitada por seres humanos.

 

O seu abandono após 2.500 anos, quer tenha sido por conquista (derrota), por doença, por endogamia, por alteração climática, por inadequação do regime social, por desenvolvimento tecnológico, por outras causas, parece ser o indicador do que foi acontecendo às sociedades humanas que se lhe têm sucedido.

 

Permanências de sobrevivência ou de vivência, transmitidas ou adquiridas não se sabe bem como, que aparentemente são por enquanto as nossas.

 

 

 

É em A história começa na Suméria, que o conhecido arqueólogo Samuel Noah Kramer nos vai explicar a importância e as vantagens de poder  trabalhar com os vestígios de uma primeira sociedade humana organizada. Segundo Kramer, só assim se consegue saber:

 

Quais foram, por exemplo, as primeiras ideias morais e as primeiras conceções religiosas que o homem fixou por escrito? Quais foram os seus primeiros raciocínios políticos e mesmo filosóficos? Como se apresentavam as primeiras crónicas, os primeiros mitos, as primeiras epopeias e os primeiros hinos? Como foram formulados os primeiros contratos jurídicos? Quem foi o primeiro reformador social? Quando teve lugar a primeira redução de impostos? Quem foi o primeiro legislador? Quando se reuniu, e com que intenção, o primeiro parlamento com duas câmaras? Como foram as primeiras escolas, a quem e por quem era ministrado o ensino e segundo com que programa?

 

Tudo isto escrito a propósito da descoberta no quinto milénio antes de Cristo da existência na Suméria de algumas localidades já com uma organização social capaz de comportar dezenas de milhar de habitantes, ou seja, de cidades como Uruk (cerca de 60.000 em 4.900 a. C.) e Lagash (em 3.500 a. C.), o que vinha alargar e alterar o conhecimento que se tinha sobre o início do povoamento humano da Terra. Anteriormente, só se sabia de Mênfis, no rio Nilo, Harappa, no vale do Indo e Liangzhu, no baixo Yangtzé.

Essa região compreendida entre os rios Tigre e Eufrates (a Mesopotâmia) em que se encontraram várias grandes cidades (como as citadas Uruk, Lagash, e as famosas Babilónia e Nínive), vai ser apelidada de “crescente fértil” (por poder garantir o sustento a tanta população), e por inerência, vai também ser chamada de “berço da humanidade”.

 

Mas eis que em 1961, o controverso arqueólogo inglês, James Mallart, descobre nas escavações que estava a empreender na Anatólia, Turquia, uma cidade que teria sido fundada aproximadamente há 7.900 anos a. C., com uma extensão de 130.000 metros quadrados, com mais de 150 habitações, com uma população aproximada de 5.000-8.000 pessoas. Localizada em Çatalhöyük, era a primeira cidade conhecida, construída e habitada por seres humanos. Uma cidade do período neolítico.

 

Caraterísticas da sua cultura: sendo uma cidade constituída só por habitações praticamente idênticas, sem edifícios públicos ou outros que pudessem parecer moradias de reis ou de hierarquia religiosa, tal sugere a existência de uma sociedade igualitária.

As habitações eram construídas com tijolos de lama e palha, lado a lado, parede com parede, com aberturas por cima (entradas e saídas pelos telhados planos -terraços - por onde se circulava e comunicava com os vizinhos) com uma estrutura tipo colmeia (ver fotos e desenhos ). Divisões interiores rebocadas e conservadas escrupulosamente limpas. Descobriram-se fornos comunitários construídos no cimo das plataformas dos telhados.

Parece também não ter existido uma distinção social baseada no género, uma vez que homens e mulheres recebiam alimentos, utensílios de cozinha e outras artefactos de pedra em quantidades iguais, o que aliás era típico das culturas do Paleolítico.

Devido ao aparecimento de várias estatuetas de mulheres sentadas há quem sugira tratar-se de uma sociedade matriarcal. Contudo, várias interpretações são possíveis, não conclusivas.

Após cerca de dois mil anos de ocupação, por volta de 5.700 a. C. a cidade foi abandonada. Desconhecem-se as causas.

 

Ou seja: para além da importância (como Kramer explicitou) que tem o encontrar-se a primeira cidade que os humanos habitaram, acrescenta-se ainda o facto de tal descoberta ter feito da Anatólia o lugar onde pela primeira vez se iniciou a grande revolução neolítica, que inclui o viver em comunidades fixas, a aparição da agricultura e da domesticação de animais, e o início do trabalho com metais.

 

Importante também notar, ao que parece, o ter sido possível viver-se numa sociedade igualitária, sob o ponto de vista social e de género, durante cerca de dois mil anos.

O seu abandono, quer tenha sido provocado por conquista (derrota), por doença, por endogamia, por alteração climática, por inadequação do regime social, por desenvolvimento tecnológico, por outras causas, parece ser o indicador do que foi acontecendo às sociedades humanas que se lhe têm sucedido, exatamente quase pelos mesmos motivos.

 

Há, contudo, algumas caraterísticas muito particulares e singelas das civilizações/culturas que não figuram ou não são visíveis nas grandes escavações, nem nos atributos dos grandes períodos históricos, nem nas grandes literaturas ou ciclos literários, nem mesmo nos processos tecnológicos, e que, no entanto, parecem perdurar.

Tomemos alguns pequenos exemplos, observados em quase todas as sociedades, a começar pelo chamado princípio do nome, que é o que diz que uma coisa só existe quando tem um nome (mais refinadamente, o problema da existência e do significado).

É assim que no Genesis, após a criação dos animais, Deus fá-los desfilar diante de Adão para que lhes fossem atribuídos nomes que os identificassem. Platão, no Crátilo, diz que os seres possuem uma designação natural cuja propriedade é representá-los, o que levou depois a filosofia medieval escolástica a concluir que os nomes são a consequência das coisas.

O nome da pessoa ou da coisa é o seu substituto mental. É assim que quem o tem, quem o usa, se faz conhecer e se torna conhecido. E a partir daí torna possível o haver uma ação sobre ele: o facto de se conhecer o nome de uma pessoa confere um determinado poder sobre ela, daí que haja um certo cuidado em esconde-lo.

 Sumérios, egípcios, assírios, depois de darem um nome a uma criança, tratavam-na sempre por um nome diferente durante o resto da vida, para assim evitarem que os deuses que eram quase todos violentos, falsos, vingativos (talvez numa representação das sociedades que os conceberam), se pudessem apoderar (mau olhado) dela. Ainda hoje, na nossa sociedade, ninguém gosta que, para o chamarem, o seu nome seja gritado na rua.

 

Também a escolha do nome se torna importante, na medida em que o nome implica para a pessoa as qualidades que enuncia. Já na Mesopotâmia, um “bom nome” equivalia a um bom destino, que faria do seu detentor a possibilidade de gozar desse benefício a vida inteira: o nome aparece como uma aspiração, uma afirmação do favor divino, uma bênção.

O nome tem um significado para além da simples enunciação. Vejamos alguns nomes de reis do antigamente: Sargão é o “rei estável, legítimo”; Senaquerib, “o deus Sin aumenta o número de irmãos”; Assurbanípal, “Assur é criador do filho”; Nabucodonosor, “Ó Nabu, protege a descendência”. Hoje temos Eusébio ou Ronaldo se quiseres que o teu filho venha a ser futebolista, Maria, Vitória, Pio, Deolinda, Anastácio, Eugénio, Jesus, Gaspar, Carneiro, etc.

 

Foi na Mesopotâmia que se começou a vulgarizar a atribuição de números aos sinais do silabário, por forma a permitir que todo o nome pudesse ser expresso por um algarismo. Quando mandou construir o palácio de Korsabad, eis o que diz Sargão: “Fiz o circuito da sua muralha com 16.283 côvados, número do meu nome”.

Os gregos e os romanos, irão mais longe: possuindo uma escrita alfabética, vão adicionar o valor das letras de uma palavra e compará-lo ao valor de outras, procurando a existência de relações entre elas. Por exemplo: Nero estava predestinado a matar a mãe porque a soma das letras do seu nome era igual à da palavra matricida. Os gnósticos e padres das igrejas, ampliam o conceito: o Espírito Santo manifestou-se no batismo de Cristo sob a forma de uma pomba, peristera, cujo número é 801. Mas o valor das letras alfa e ómega é também 801. Logo, a afirmação “Eu sou o alfa e o ómega”, representa a Trindade.

Jogos de palavras ainda hoje plenamente atuais.

 

O exorcismo, ainda tão correntemente praticado, tem por base a convicção que o doente é um possesso, umas vezes no sentido vulgarizado na Idade Média, outras vezes por torturado por um demónio, causa da sua afeção. Quando a doença é indeterminada não trazendo assim a assinatura do demónio que a produziu, como todo o doente é um pecador, convém descobrir o pecado em que incorreu.

Segundo os antigos mesopotâmios, por meio da leitura da lista dos pecados conscientes ou inconscientes que o doente poderá ter cometido, o pecado acabará por ser nomeado, exercendo assim domínio sobre o demónio (o problema do nome). Então o sacerdote poderá pronunciar o seu exorcismo, seguido depois de uma terapêutica antidemoníaca destinada a expulsar o demónio. É o papel desempenhado pelas substâncias nauseabundas, apodrecidas e excrementais que os médicos antigos conheciam.

O diagnóstico estabelece-se muitas vezes considerando certos sintomas como presságios, enquanto que mais tarde, melhor interpretados, serão verdadeiramente os elementos de um diagnóstico.

 

Para os cientificamente avançados Sumérios, o dia era dividido em doze horas duplas, com começo à meia-noite, e o calendário comportava 12 meses de trinta dias e mais um mês intercalado no fim do primeiro ou do segundo semestre. Tinham também catalogado as estrelas que podiam ver, agrupando-as em constelações, distinguindo entre planetas e estrelas fixas, calculando a distância que as separava. Os seus cálculos astronómicos pouco diferiam dos atuais e, no entanto, nunca consideraram que a Terra andasse à volta do Sol.

Quando muitos séculos mais tarde se constatou que afinal não era o Sol que andava à volta da Terra, mas a Terra que andava à volta do Sol, o que constituiu grande escândalo para a alta intelectualidade e que suporia uma grande transformação de mentalidades, pouco ou nada aconteceu. Passaram-se mais uns séculos, vamos para o espaço, passámos o perigoso ano 2.000 que tudo avariaria, e continuamos a dizer de manhã que o sol nasceu e à tardinha que o sol se pôs, exatamente como se fazia antes do heliocentrismo. E como dizia aquele famoso basquetebolista americano, a Terra não podia ser esférica porque quando ele ia de carro de Chicago para S, Francisco ia sempre a direito.

Na realidade, ninguém pensa que por uma mínima alteração da gravidade e da velocidade de rotação sempre possível, todos cairíamos da Terra, ou que fosse mesmo a Terra a cair. Alguém pensa, evidentemente.

 

Permanências de sobrevivência ou de vivência, transmitidas ou adquiridas não se sabe bem como, que aparentemente são por enquanto as nossas. Aquisições que não sei se ainda serão necessárias para os tempos futuros que nos estamos a preparar.

 

 

 

Adenda:

Podem consultar em pdf o livro original de James Mellaart, Catal-huyuk. A Neolithic Town in Anatoli.

Sugiro ainda o blog de 09 de novembro de 2016, “Gilgamesh, o turista-mor” https://otempoemquevivemosotempoemquevivemos.blogs.sapo.pt/gilgamesh-o-turista-mor-23277;

O de 28 de fevereiro de 2018, “A destruição do mundo finito”, https://otempoemquevivemosotempoemquevivemos.blogs.sapo.pt/152-a-destruicao-do-mundo-finito-40466;

O de 03 de outubro de 2018, “A burca, segundo Platão”, https://otempoemquevivemosotempoemquevivemos.blogs.sapo.pt/183-a-burca-segundo-platao-48394;

E o de 03 de junho de 2020, “Os bárbaros já cá estão”, https://otempoemquevivemosotempoemquevivemos.blogs.sapo.pt/270-os-barbaros-ja-ca-estao-71830.

 

 

 

 

 

 

 

(393) O rabo de fora dos gatos escondidos

Tempo estimado de leitura: 4 minutos.

 

Nos dias de hoje, só nas pequenas notícias aparentemente inócuas poderemos entrever o que verdadeiramente por aí vai.

 

Quando para chefes máximos da raça pura alta e loura em construção se aplaudia como referência ideal um homem com um só testículo (Hitler) e um coxo (Goebels), então qualquer conceito pode ser defendido.

 

Já viu o que seria se ele viesse com a minha beleza e a sua inteligência? Bernard Shaw.

 

 

 

A comunicação social foi quase sempre desde o seu aparecimento apropriada e controlada por um número muito restrito de entidades. Então em determinados períodos, como aquele em que atualmente vivemos, esse controle torna-se quase absoluto, transformando-a ainda mais numa comunicação “sucial” onde a bem ou a mal se pretende regular o que deve ser o nosso pensamento sobre os acontecimentos já de si e por si escolhidos, pelo que só nas pequenas notícias aparentemente inócuas poderemos entrever o que verdadeiramente por aí vai.

Atente-se, por exemplo, nas recentes notícias sobre o  Prémio Nobel da Medicina, atribuído ao biólogo sueco Svante Pääbo, pelo seu trabalho relativo ao genoma dos hominídeos extintos e a evolução humana.

Não está em causa o trabalho, mas o modo como as suas conclusões foram apresentadas pela quase totalidade dos órgãos de comunicação social . Isso sim que é interessante e importante, pelo que disseram, pelo que não disseram e pelo que sugeriram.

 

Para a comunicação social, Pääbo mostrou que os neandertais se misturaram com outros hominídeos seus contemporâneos, "deixando um rasto genético nos europeus e asiáticos, mas não nos africanos". E por aqui se ficaram.

Para os que advogam a pureza da raça, a não miscigenação, será que serão levados a concluir que os africanos, por terem menos misturas, são afinal os mais puros? Ou será que poderão concluir que neste caso, exatamente por não se misturarem com os outros que afinal eram os ‘bons’, não ‘evoluíram’ tão bem?

Em qualquer dos casos, é assunto que não deve ser levantado: convém passar despercebido. Ou não; quando para chefes máximos da raça pura alta e loura em construção se aplaudia como referência ideal um homem com um só testículo (Hitler) e um coxo (Goebels), então qualquer conceito pode ser defendido, combatido ou ignorado. O tal problema dos cegos e dos que não querem ver como característica humana.

 

Pääbo também descobriu a existência de uma espécie humana desconhecida, os denisovanos, (da gruta de Denisova), exclusivamente a partir do DNA. A sequência genética foi conseguida de “um pequeno osso do dedo de uma menina que viveu na Sibéria há 50.000 anos”.

Este genoma denisovano revelou que eles tiveram descendência com os sapiens passando-lhes genes chaves, como os que permitiam viver a grande altitude. Foi também assim que os neandertais nos passaram genes que melhoraram o funcionamento do sistema imunitário e de outros genes que podem tornar mais graves algumas doenças, como a covid.

Note-se que Sibéria é Rússia asiática, pelo que Pääbo teve sorte da sua descoberta ter sido feita em 2018, quando os russos ainda eram bons. Fosse agora e o Nobel ficaria possivelmente congelado até os russos voltarem a não serem maus.

 

Nada tendo que ver com o assunto que me propus tratar, não posso, contudo, deixar de o aflorar por ser importante: há uns 200.000 anos, existiam pelo menos oito espécies de grupos humanos diferentes (além dos anteriormente citados vêm os Homo longi, Homo de Nesher Ramla, Homo Luzonensis, Homo floresiensis, Homo erectus, Homo daliensis). Todos formavam parte do género Homo a que também o Homo Sapiens pertence.

Ao longo do tempo todos foram desaparecendo exceto o nosso, o que parece acontecer pela primeira vez: o existir apenas um grupo na Terra. Como desapareceram os outros grupos? Naturalmente (doenças, alterações climáticas, etc) ou por extinção provocada por outros (guerras)? Porque ficou apenas o nosso grupo?

 

Até agora não existem respostas conclusivas. Aventam-se hipóteses: da mesma forma que temos vindo a dar cabo de imensas espécies, fizemos o mesmo com os outros grupos; os outros grupos não foram suficientemente grandes para ultrapassarem o problema provocado pelos ‘casamentos’ dentro dos mesmos grupos (endogamia), o que os levou ao enfraquecimento ao longo de gerações; outras causas.

 

Voltemos às peças jornalistas sobre Pääbo onde se o apresenta como filho de um bioquímico sueco, Sune Bergström, que em 1982 "também ganhou o Nobel da Medicina". Casado e já com um filho, envolveu-se com uma química que trabalhava com ele, e de quem veio a ter outro filho (o nosso Pääbo), que conservou o apelido da mãe. Bergström visitava-o aos fins de semana e o filho do casamento só se inteirou da situação pouco antes da morte do pai.

Esta insistência no filho de um Nobel também ganhar um Nobel, sem se querer saber mais, apenas para sugerir, confirmar que a inteligência, a bondade, todas as boas caraterísticas são transmissíveis e que a linhagem é importante e justificada, e daí a insistência na necessidade do apuramento da raça, fazem-me lembrar os comentadores das transmissões das provas equestres com a sua enorme erudição sobre os familiares, descendentes e ascendentes dos cavalos e as suas propensões e qualidades para os saltos e corrida (tal como os africanos para as provas de fundo, depois para as de velocidade, ainda não para a equitação ou para a dança aquática).

Lembro ainda a pequena história que contam passada entre a lindíssima bailarina Isadora Duncan e o intelectual notoriamente reconhecido como feio  Bernard Shaw, quando durante um encontro Isadora lhe sugeriu a hipótese de terem um filho juntos: “Já viu o que era trazer ao mundo um ser com a sua inteligência e a minha beleza?” Ao que rapidamente Bernard retorquiu: “Pois é. Mas já viu o que seria se ele viesse com a minha beleza e a sua inteligência?

 

A primeira página do The New York Times do dia 5 de outubro dava relevo a um interessante artigo intitulado “Os EUA acreditam que os ucranianos estiveram por trás de um assassinato na Rússia”, onde segundo as mesmas agências credenciadas de recolha de informação americanas que tinham alertado com dois meses de antecedência sobre a eventualidade da invasão russa, vinham agora dizer que o assassinato de Daria Dugina, filha de um proeminente nacionalista russo, ocorrido em agosto em Moscovo devido à colocação de uma bomba no carro, tinha sido perpetrado pelos serviços ucranianos, e mais, que os americanos não só não estavam envolvidos na ação como ainda admoestaram os ucranianos sobre esse assassinato que fora feito com o conhecimento do presidente Zelensky.

Numa altura em que já ninguém se lembrava do assassinato, é muito estranho que tal notícia seja plantada por acaso nos maiores órgãos de comunicação social. Trata-se da primeira crítica aberta a operações militares ucranianas e diretamente ao presidente Zelensky.

Muitas podem ser as razões que se escondem por detrás desta publicação: os americanos não querem ser envolvidos em ações que visem diretamente o assassinato de civis, receiam retaliações do mesmo nível sobre o seu pessoal, não foram antecipadamente informados sobre tal ação, houve um deslise no passar da informação para a comunicação social, há negociações a correr entre as partes envolvidas, a filha do nacionalista russo era amiga de uma americana importante, os pais conheciam-se, etc., etc…

O que me parece é que se trata de uma maneira explícita para dizer a Zelensky e/ou a parte dos seus apoiantes que não podem fazer tudo que lhes apeteça sem autorização prévia de quem os sustenta, e que não se importam de levar ao conhecimento do mundo quaisquer ações que não respeitem o acordado. Chama-se a isto, “Pô-lo no seu lugar”.

 

 

Tudo isto, aparentemente, não passa de uma conversa de alhos e bugalhos. Parole, parole, parole …

 

(392) Porque existe o mundo?

Tempo estimado de leitura: 9 minutos.

 

Fazemos coisas e fazemos coisas e ninguém realmente tem a mínima ideia porque o fazemos, John Updike em Rabbit, Run.

 

O mito cosmogónico narra como o mundo se iniciou.

 

A ideia do nada como o estado natural, é um vestígio do judaísmo-cristianismo inicial para justificar que Deus tinha criado o mundo a partir do nada, Grunbaum

 

Não acredito que estejamos agora, ou que jamais estaremos, perto de entender tudo o que existe, David Deutsch.

 

 

 

O filósofo, escritor e ensaísta americano Jim Holt há muito que andava com a angústia motivada pela seguinte interrogação: Porque é que existe algo em vez de nada?

Pergunta aparentemente simples, daquelas que apenas ocorre às crianças e, contudo, tão profunda que só surge aos metafísicos. Resolveu então fazer essa pergunta a alguns conhecidos filósofos, físicos, teólogos e escritores atuais, visitando-os nos seus locais habituais, de Oxford ao Café de Flore em Paris, reunindo em 2013 as respostas que obteve, no livro: 

Why Does the World Exist? An Existential Detective Story.

 

Mas antes, e para comparação, parece-me ser importante começar por rever o que o pensamento antigo grego tinha a dizer sobre o assunto, ou seja, sobre o mito cosmogónico. Mito cosmogónico é aquele que narra como o mundo se iniciou. É, portanto, o mito fundador de tudo, de todo o sentido, de toda a racionalidade atual e possível. É o mito principal de qualquer povo.

 

Para os helenos, no princípio havia algo mais primordial de tudo, e que era o Caos. O Caos era uma espécie de “espaço” absoluto, em que tudo está numa forma informe: ele é a total confusão de tudo, onde a discernibilidade é impossível, onde, portanto, não é possível uma qualquer racionalidade, um qualquer «logos».

Mas mesmo sendo o que é, o Caos é o absoluto que contraria o nada, é ele que impede que exista o nada. Pelo que tudo o que seja possível tem nele a sua origem. Ou seja, o fundamento primeiro de tudo é o Caos, realidade primordial fonte infinita de tudo.

Há, contudo nele, algo muito profundo e inexplicável que faz com que ele não seja totalmente amorfo. Há nele uma força, um impulso para a cessação da confusão, um impulso para a distinção. Este impulso é Eros, que vai fazer surgir a partir do Caos a primeira forma real e distinta:  Terra (Geia ou Gaia). Estamos perante o primeiro momento da emergência da possibilidade de um sentido, de um “logos”.

O que significa que no mito existe já uma noção da necessidade de explicação fundamental do mundo, que corresponde ao nascimento de uma forma própria de racionalidade que vai estar presente ao longo de toda a história do pensamento: a tensão entre um aparente absoluto de desordem e uma necessidade de uma qualquer ordem.

 

Retomando agora o livro de Holt:

A primeira pessoa que se propõe visitar é o físico ex-soviético, agora americano, promotor da teoria da ‘inflação caótica do multiverso’ (inflationary multiverse and eternal chaotic inflation), Andrei Linde, que sucintamente lhe transmite que para ele o universo foi criado num laboratório por um hacker, que evidentemente seria um físico. E por aí se ficou.

 

Visita depois o filósofo alemão-americano, ateu e crítico da religião, Adolf Grunbaum, que entende que a questão está malposta, é um falso problema. Para ele, a ideia de que o mundo precisa de uma explicação pressupõe que sem essa explicação o nada prevaleceria. Porque é que apenas os desvios do nada precisam de explicação? Porque não pode o algo ser o estado natural?

 Grunbaum acredita que a ideia do nada como o estado natural, veio da doutrina teológica da criação ex nihilo – é um vestígio do judaísmo-cristianismo inicial para justificar que Deus tinha criado o mundo a partir do nada.

 Segundo ele, não há qualquer razão para nos surpreendermos com a existência do mundo em comparação com o nada. O nada não era mais provável de existir do que o algo. “O que poderia ser mais comum empiricamente do que o algo ou o outro existir?”

Grunbaum também recusa a ideia de que o nada seja uma explicação mais simples ou um estado de coisas mais natural do que o seu oposto - portanto, não há necessidade de explicar o algo.

 

O próximo entrevistado é o professor emérito de filosofia da Universidade de Oxford, o inglês Richard Swinburne, apologista cristão, que sustenta que o deus cristão é a explicação mais simples e adequada para a existência do universo. O seu argumento é que o deus do teísmo tradicional é infinitamente bom e preocupado com o mundo, ao contrário das outras conceções de deuses.

 Mas, se é tão bom e tão preocupado, por que há tanto mal? Swinburne explica que o mal é necessário para que certos bens sejam possíveis, principalmente o bem do livre-arbítrio. “Um bom pai permite que os seus filhos sofram, às vezes para o bem deles, às vezes para o bem de outras crianças.”  Para Swinburne a existência do seu deus invisível é um facto. Ainda assim, ele afirma: “Sobre por que Deus existe, não posso responder a essa pergunta…

 

Em seguida, Holt entrevista David Deutsch, um físico israelita da Universidade de Oxford, que rejeita qualquer fundamento para a nossa existência. Deutsch acha que nunca descobriremos uma explicação definitiva para tudo, pois, se o fizéssemos, não saberíamos por que é essa a explicação verdadeira - portanto, o problema da explicação definitiva é insolúvel. Como diz Deutsch, “não acredito que estejamos agora, ou que jamais estaremos, perto de entender tudo o que existe”.

 

O físico teórico americano vencedor do Prémio Nobel, Steven Weinberg, passou grande parte da sua vida a procurar uma “teoria de tudo”. Weinberg acredita que uma teoria final talvez pudesse esclarecer por que existe alguma coisa - talvez as leis da natureza o ditem -, mas mesmo assim ainda poderíamos perguntar por que é que as leis são assim e não de outra maneira.

 Também argumenta que a crença num deus não ajuda. Se acreditarmos que o nosso deus é algo muito definido - digamos, bondoso, gentil ou ciumento -, então devemos de conseguir responder por que é que o nosso deus é assim e não de outro modo. E se não quisermos dizer algo definido sobre Deus, então porque usamos a palavra?

Além disso, Weinberg não acha que saibamos o suficiente sobre física para responder a essas questões fundamentais. No final, diz que “estamos perante um mistério que não temos possibilidade de entender”. Segundo ele: “A ciência não torna impossível o acreditar em Deus, torna é possível o não acreditar em Deus”. Mas também acha que a nossa procura pela verdade é nobre. “O esforço para entender o universo é uma das poucas coisas que eleva a vida humana acima do nível da farsa, e que lhe dá um pouco da graça da tragédia.”

 

Holt conversa depois com o físico e matemático inglês, o platónico e relativista Roger Penrose, fundador da gravidade quântica. Penrose postula a existência de três mundos: o mundo físico, o mundo que consiste na consciência e o mundo platónico das formas puras. E acredita que há uma conexão entre o mundo físico e as nossas mentes, que nos ligam ao mundo platónico através da matemática. “O mundo platónico está lá fora, e podemos ter acesso a ele. Em última análise, os nossos cérebros físicos são construídos de material que está intimamente relacionado ao mundo platónico da matemática”.

Para Penrose, esse mundo platónico é mais real do que o físico, e que o nosso mundo surgiu de pedaços de matemática, embora seja um mistério como é que isso aconteceu. Ou seja, é a matemática que dá origem à vida e é a lógica que garante a existência do mundo platónico ou que nos assegure que a realidade emane desse mundo.

 

Já o filósofo canadiano John Leslie acredita que há algo em vez de nada porque é melhor que haja alguma coisa. Ele chama à sua ideia de ‘axiarquismo’, posição metafísica segundo a qual tudo o que existe, incluindo o universo, existe por uma boa razão. “As coisas são como são porque é assim que devem ser”, ou seja, é a visão de que os valores governam ou explicam a ordem natural.

 A bondade, ou o valor, cria o mundo a partir de um número infinito de possibilidades lógicas; o mundo existe por causa de uma necessidade de bondade. E Leslie continua: “Na minha grande visão… o cosmos consiste num número infinito de mentes infinitas, cada uma das quais conhece absolutamente tudo o que vale a pena conhecer”. Leslie afirma que o nosso universo físico - e todos os outros universos logicamente possíveis - resultam da contemplação de apenas uma dessas mentes.

Mas isto põe a questão de saber por que é que de um número infinito de universos possíveis, existe um como o nosso – com a sua quantidade arbitrária de bondade e maldade. Dito de outro modo, porque é que uma mente infinita cria um universo tão imperfeito como o nosso?

Leslie responde com uma analogia. O Louvre alberga pinturas de várias qualidades, não apenas múltiplas réplicas perfeitas da Mona Lisa, e é isso torna o Louvre um museu mais interessante.

Mas porque é que a bondade dá origem a mentes infinitas em primeiro lugar? Porque é que o ‘dever de existir’, implica existir? Leslie responde: “A bondade é uma existência necessária, num sentido não trivial”. A evidência para esta sua visão, é o fato da existência do mundo clamar por uma explicação. Estamos em presença de um argumento circular — a bondade cria o mundo e a existência do mundo é evidência da bondade.

 

O último filósofo com quem Holt fala é o inglês Derek Parfit, um dos grandes da filosofia contemporânea. Parfit começa por considerar que a realidade poderia ter sido diferente – poderia ter sido como a realidade em que vivemos ou poderia ter sido uma outra realidade. Há um número infinito de possibilidades. A cada uma dessas diferentes possibilidades, Parfit vai chamar de possibilidades “locais”, e a todo o conjunto dessas possibilidades, vai chamar de possibilidades “cósmicas”. Pelo meio há um número infinito de possibilidades, tais como: existirem apenas 58 universos, existirem apenas universos bons, existem apenas mundos que obedecem à teoria das cordas, existirem apenas mundos maus, apenas existirem mundos vermelhos, etc. De todas essas possibilidades cósmicas, pelo menos uma delas deve vingar. Então a pergunta é: qual e por quê?

 

Parfit acredita que a hipótese nula é a mais simples e a menos intrigante, já que não precisaríamos responder à pergunta de porque é que algo apareceu. Mas a existência da nossa realidade contradiz essa hipótese. Isso leva Parfit a concluir que a hipótese da existência de todos os mundos é a menos arbitrária, já que com qualquer outra hipótese é preciso fazer mais perguntas, como por exemplo, porque existem apenas mundos bons ou maus, ou mundos que obedecem à teoria das cordas?

Quanto à nossa própria realidade, ela pode ser parte dos mundos ‘axiárquicos’ ou bons, ou dos mundos da teoria das cordas, ou dos mundos maus, ou de algum outro mundo. Parfit conclui que a hipótese nula é a mais simples, a hipótese de todos os mundos a mais completa, a hipótese axiárquica a melhor e assim por diante. E isto leva Parfit a interrogar-se se a existência de uma possibilidade cósmica não implicaria o ter uma característica especial como plenitude, simplicidade ou bondade. Agora, e se for essa caraterística a escolher a realidade? Se isso acontecer, Parfit o chama-a “seletora”.

Se a possibilidade cósmica obtida fossem os 58 mundos ou os mundos todos vermelhos, tal pareceriam arbitrários. Mas se a possibilidade cósmica obtida fosse a mais completa, mais simples ou melhor, isso sugeriria que tal não fora devido ao acaso. Em vez disso, a possibilidade cósmica tornou-se realidade porque tinha a característica de plenitude, bondade ou qualquer outra coisa. Então, nesses casos, a realidade tinha que ser de uma forma ou de outra por uma questão de necessidade lógica, e o seletor apenas faria pender o resultado para uma ou outra forma.

Mas qual seletor? Com o seletor nulo já descartado, Parfit passa a escoriar a ideia de que a bondade seja o seletor: “Podemos duvidar que o nosso mundo possa ser a parte menos boa do melhor Universo possível”. Parfit conclui que o seletor mais provável para a nossa realidade é que estamos entre os universos possíveis que são governados por leis relativamente simples.

Isto levanta a questão de saber se há alguma explicação mais profunda para a existência de um seletor em vez de outro. Existe um meta-seletor e um meta-meta-seletor ad infinitum?

Parfit reconhece que o seletor final teria que ser um facto bruto inultrapassável – para parar a regressão infinita –e que isso era melhor do que nenhuma explicação. Mas Parfit também acredita que a possibilidade explicativa mais simples no meta-nível é que não haja seletor! Isso não significa que não haveria nada – esse seria um resultado especial melhor explicado pela simplicidade como seletor. Em vez disso, nenhum seletor leva a um universo medíocre sem nada de especial – a maneira como as coisas aconteceriam seria aleatória. “A realidade não é um Nada imaculado nem um Tudo totalmente fecundo.”

 

A última pessoa que Holt visita é o romancista americano John Updike. Diz Updike: “Sou parte daqueles que pensam que a existência do mundo é uma espécie de milagre”. Para Updike, as questões últimas estão para além de nós, assim como a ideia de um motor de combustão interna está para além de um cão. Mas ele transmite a sensação de que não é assim tão mau não sabermos todas as respostas. Para Updike, nada parece ser um grande problema.

Acaba a conversa com Holt dizendo-lhe como fica sem fôlego quando brinca com os netos. E nesse capítulo, Holt termina assim: “Alguns meses depois, Updike foi diagnosticado com cancro de pulmão. Em menos de um ano falecia.”

 

O capítulo final tenta unir a discussão filosófica que se pretendia com a morte. Holt admite que o pensar na morte lhe faz pavor, e parece concordar com aquilo que os filósofos chamam de ‘teoria depravacionista da morte’ – a morte é má porque nos priva das coisas boas da vida. Mas admite que outros filósofos não achem a morte preocupante, e que inclusivamente alguns, como os budistas, pensem na morte e no estado próximo do quase nada como o melhor estado. Holt conclui que o ponto final da jornada da nossa vida parece ser... o nada. O seu livro termina com um relato comovente do seu testemunho das horas finais da mãe:

 

A respiração da minha mãe estava a ficar mais leve. Os seus olhos permaneceram fechados. Ela ainda parecia em paz, embora de vez em quando fizesse um pequeno ruído ofegante.

Então, enquanto eu continuava de pé diretamente sobre ela, ainda a segurar a sua mão, os olhos da minha mãe arregalaram-se, como se estivesse em alarme. Era a primeira vez naquele dia que eu os via. Ela parecia estar olhando para mim. Ela abriu a boca. Eu vi a sua língua contrair-se duas ou três vezes. Ela estava a tentar dizer alguma coisa? Dentro de alguns segundos, a sua respiração parou.

Inclinei-me e sussurrei que a amava. Então fui para o corredor e disse à enfermeira: “Acho que ela acabou de morrer”.

… Eu tinha acabado de ver a transição infinitesimal do ser para o nada. O quarto tinha contido dois seres; agora, continha só um.”

 

 

Para finalizar, transcrevo o início do “Primeiro Livro de Moisés” do Génesis:

 

No princípio, criou Deus os céus e a terra. E a terra era sem forma e vazia; e havia trevas sobre a face do abismo; e o Espírito de Deus se movia sobre a face das águas.

E disse Deus: Haja luz; e houve luz.

E viu Deus que era boa a luz; e fez Deus separação entre a luz e as trevas.

E Deus chamou à luz Dia; e às trevas chamou Noite. E foi a tarde e a manhã o dia primeiro.”

 

 

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