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Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

(360) A vida encontra sempre um caminho

Tempo estimado de leitura: 5 minutos.

 

A vida contém comportamentos surpreendentes imediatamente abaixo da superfície, estando apenas à espera de serem descobertos.

 

Em finais de 2021 foi revelada a existência de robôs vivos (xenobots) que podiam por si próprios multiplicarem-se como se tratassem de organismos biológicos.

 

São células de rã a replicarem-se de uma forma completamente diferente do que é habitual nas rãs. Nenhum animal ou planta conhecidos se replicam desta maneira,  Sam Kriegman.

 

O genoma, uma vez liberto do desígnio natural de vir a ser uma rã, consegue proactivamente encontrar uma nova maneira de sobreviver.

 

 

 

 

 

 

Em finais de 2021 foi revelada a criação de robôs vivos (xenobots), concebidos por IA (Inteligência Artificial), que podiam por si próprios multiplicarem-se como se tratasse de organismos biológicos.

A comunicação foi feita pelos mesmos cientistas que em 2020 tinham conseguido criar a partir de células embrionadas de uma rã (Xenopus laevis)algo que não era nem um robô tradicional nem uma espécie animal conhecida, mas um organismo vivo programável, a que deram o nome de xenobots  (‘bot’, abreviatura de robot, é um programa de computador que executa certas tarefas pré-determinadas automática e repetitivamente, podendo imitar ou substituir o comportamento de um utilizador humano).

 

Agora deram o passo seguinte: com a ajuda de um programa de IA conseguiram fazer com que esses minúsculos organismos concebidos pelo computador se deslocassem, apanhassem células estaminais perdidas (células indiferenciadas que ainda não passaram pelo processo de diferenciação celular) e montassem os seus xenobots dentro deles próprios. Após um período de gestação de alguns dias, os novos xenobots apareciam e eram iguais aos seus “pais”, comportando-se da mesma maneira, podendo inclusivamente replicarem-se a eles próprios, até ao infinito.

 

Este estudo publicado a 7 de dezembro de 2021, pela revista PNAS (Proceedings of the National Academy of Sciences of the United States of America), foi feito por quatro cientistas americanos (Sam Kriegman, Douglas Blackiston, Michael Levin, e Josh Bongard), debaixo do título meramente técnico “Kinematic sel-replication in reconfigurable organisms” (Auto-replicação cinemática em organismos reconfiguráveis).

 

Os resultados obtidos excederam os previstos pelos investigadores quando começaram a ver que os bio-bots eram capazes de executar tarefas simples, e mais espantados ficaram quando constataram que eles, por si próprios, encontraram uma forma para se reproduzirem.

Isso parece indicar que o genoma, uma vez liberto do desígnio natural de vir a ser uma rã, consegue proactivamente encontrar uma nova maneira de sobreviver.

Como confirmou Sam Kriegman: “Estas são células de rã a replicarem-se de uma forma completamente diferente do que é habitual nas rãs. Nenhum animal ou planta conhecidos se replicam desta maneira.”

Como o estudo diz: “a vida contém comportamentos surpreendentes imediatamente abaixo da superfície, estando apenas à espera de serem descobertos.

 

O programa de IA serviu para testar rapidamente biliões de formatos para que de acordo com um “algoritmo evolucionário” se encontrasse uma forma que permitisse que as células fossem mais efetivas na replicação. Foi assim que se chegou à estranha forma de um pequeno C, um Pac-Man de “boca aberta”. Encontrado o “feitio” correto, estes xenobots conseguem movimentar-se, procuram/encontram células, e constroem cópias de si próprios.

 

Para Bongard, estas pequenas máquinas vivas de um milímetro podem, por exemplo, serem usadas para aumentar a velocidade para encontrar soluções para as múltiplas variantes do coronavírus, para retirar microplásticos das águas, ou para criar novos medicamentos:

Se soubermos como dizer a coleções de células o que devem fazer, teremos medicina regenerativa como solução para ferimentos traumáticos, defeitos de nascença, câncer e velhice.”

Estes problemas ainda existem porque nós não sabemos como predizer e controlar que grupos de células é que vão construir. Os xenobots são uma nova plataforma que nos vai ensinar a fazer isso.”

 

Num webinar sobre xenobots realizado a 1 de dezembro de 2021 promovido pela Tufts University e pela Harvard University,  os cientistas, em resposta a perguntas que lhes foram feitas, deram ainda algumas indicações muito interessantes:

 

Estamos perante uma nova forma de conhecimento? O seu comportamento coletivo mostra sinais de inteligência?

A resposta é que, por definição, toda a vida tem uma forma e um certo grau de conhecimento. Não se sabe ainda qual o grau de conhecimento, ou de que tipo de conhecimento os xenobots têm. O que se sabe é que eles têm capacidade para resolver problemas de configuração dentro do espaço anatómico, no espaço comportamental e no espaço metabólico, ou seja, têm um certo tipo de inteligência que é bastante interessante. E como disse uma das cientistas, “isto é apenas o princípio”.

 

Até que ponto é que estas simulações em computador podem ser transpostas para o ambiente físico?

O simulador é especialmente pobre quando se trata de representar a biologia: as células são extremamente complexas e, neste caso, os biólogos ainda não resolveram o sistema a nível molecular.

Por outro lado, a maior parte das simulações são abstrações, e o objetivo não é o de modelar a física de cada possível subunidade, mas de conseguir capturar o nível mais elevado do comportamento do sistema. E nesta perspetiva, “as predições do simulador são na sua grande parte nascidas do sistema biológico”.

 

Poderá esta técnica vir a ser utilizada correntemente?

Qualquer pessoa pode encomendar ovos fertilizados de várias espécies a partir de um catálogo público, e a partir daí apenas um conjunto mínimo de instrumentos são necessários para se efetuarem experiências semelhantes. Podem certamente ser feitas em casa ou nas aulas de ciências dos liceus”.

 

Não lhes parece que poderão estar a antropomorfizar um pouco demais essas células?

O conceito de antropomorfizar tem dois significados. Um é o da atribuição de propriedades específicas dos humanos a outras coisas. Não creio que o tenhamos feito, nós não dissemos que os xenobots (ou as suas células) se comportavam minimamente como humanos. O outro conceito, mais profundo, é o constatar que uma outra qualquer forma de vida tem uma espécie de uma versão simples de uma propriedade que está bem desenvolvida nos humanos. Se abordarmos seriamente a evolução, isso é inevitável, na medida em que todas as propriedades humanas vêm de algum lado, pela modificação gradual de versões mais simples. Por exemplo, a memória: até a mais simples bactéria tem uma forma de memória muito simples (que é evolucionariamente relacionada com, mas não como, a memória humana e a metacognição). Por esta perspetiva, que é a de ter variações simples de funções que são mais complexas nos humanos, os xenobots partilham certas propriedades de toda a vida. Apesar disso, não dissemos nada sobre as propriedades cognitivas dos xenobots, porquanto isso está ainda a ser investigado, daí nada termos dito sobre isso.”

 

Sem pretender entrar na controvérsia sobre o que é a investigação e a ciência hoje, a tecnologia, os subsídios, os empregos, as empresas farmacêuticas e as militares, a ética e a bioética, não deixei de notar a tranquilidade, a segurança e confiança dos investigadores na abordagem da inevitabilidade do futuro presente que nos espera, ao mesmo tempo eximindo-se de qualquer responsabilidade, o que me fez lembrar aquela citação do “Jurassic Park”: “A vida encontra sempre um caminho”.

Mas, qual vida e qual caminho? Definidos por quem?

 

Lembrei também, a chamada “lei” de Murphy que numa das suas versões nos faz notar que se, por qualquer razão houver uma possibilidade das coisas poderem correr mal, vão correr mal; se houver a possibilidade de algo ser mal feito, aparece sempre alguém capaz de o fazer. Se alguma coisa puder dar para o torto, acabará por dar (If anything can go wrong, it will).

Na melhor das hipóteses o que nos dizem é que nada vai correr mal, ou seja, que na pior das hipóteses a vida encontra sempre um caminho.

Felizmente que nós temos aquele aforismo: “Fia-te na Virgem e não corras, e vais ver o trambolhão que apanhas”.

Mas correr dá tanto trabalho. E cansa.

 

 

Adenda

Junto a abstrata do estudo “Kinematic self-replication in reconfigurable organisms”:

 

 

“Todos os sistemas vivos se perpetuam através do crescimento dentro ou fora do corpo, seguido de divisão, gemiparidade ou nascimento. Descobrimos que os conjuntos multicelulares sintéticos também se podem replicar cinematicamente movendo e comprimindo células dissociadas no seu ambiente em autocópias funcionais. Essa forma de perpetuação, nunca vista em qualquer organismo, surge espontaneamente ao longo de dias, em vez de evoluir ao longo de milénios. Também mostramos como os métodos de inteligência artificial podem projetar montagens que adiam a perda da capacidade replicativa e realizam um trabalho útil como efeito colateral da replicação. Isso sugere que outros fenótipos únicos e úteis podem ser rapidamente alcançados a partir de organismos do tipo selvagem sem seleção ou engenharia genética, ampliando assim a nossa compreensão sobre as condições sob as quais surge a replicação, plasticidade fenotípica e como máquinas replicativas úteis podem ser realizadas.”

 

 

(359) Correr para ficar no mesmo sítio

Tempo estimado de leitura: 5 minutos.

 

Ora vê, aqui tens de correr o mais que puderes para te manteres no mesmo sítio, em Alice do Outro Lado do Espelho.

 

O coelho corre mais depressa que a raposa, porque o coelho corre para salvar a vida e a raposa apenas pelo seu jantar, glosando Esopo.

 

As espécies necessitam de evoluir constantemente, não para vencer, mas apenas para se manterem vivas, Leigh Van Valen.

 

A probabilidade de extinção de quaisquer grupos mantém-se essencialmente constante ao longo dos tempos, Lei da Extinção Constante.

 

Olha o robô! Lena d’Água.

 

 

 

 

Alguns assuntos, conceitos, que há meio século eram apenas do domínio de poucos entendidos, fazem hoje parte do chamado conhecimento geral. Especialmente no campo da biologia, talvez devido ao grande avanço dos meios técnicos da comunicação visual (fotografias, documentários) e da sua agradabilidade, conceitos como “mutualismo”, “parasitismo”, “comensalismo”, “ecossistema”, têm hoje não só aceitação, como fazem parte da realidade que se pode ver a cores e em movimento e que já se viu nem que seja uma vez.

Quem não viu os pequenos pássaros pendurados nos dorsos dos mamíferos que lhes retiram carraças e outros parasitas, ou os que bebem o sangue de gaivotas, ou os que retiram comida entre os dentes da boca aberta dos crocodilos, ou ainda os pequenos peixes que tiram a pele morta de outros peixes maiores que circulam à espera de vez, ou outros pequenos peixes que se especializam em arrancar pedaços da carne dos clientes injetando um veneno anestésico para que depois não sejam agredidos ou comidos.

Quem não viu os cucos que enganam outras aves pondo os seus ovos nos ninhos delas, “obrigando-as” a criarem os filhotes que não são delas, ou certas orquídeas que pelo cheiro e forma induzem as abelhas a copularem com elas, ou ainda as macacas que enganam o macaco chefe e vão dar uma voltinha com outro macaco às escondidas, etc. etc.

 

A observação dos animais, do seu comportamento e comparação com os humanos, vem de longe. Recordemos Esopo, um dos maiores contadores de histórias e de fábulas, que se supõe ter vivido na Grécia entre 620 e 564 antes de Cristo. Não se tendo encontrado obras escritas possíveis de lhe serem atribuídas, ficaram as referências de alguns seus contemporâneos célebres que as foram reproduzindo, acabando elas por passarem de século para século, atualizando-se e até acrescentando-se.

Contos e fábulas que constituem exemplo de uma das matrizes do que até aqui tem sido o ser humano, percorrendo o tempo e as culturas aparentemente incólume, ao ponto de o seu autor ainda hoje continuar a ser citado por conhecidas e respeitáveis personalidades.

É assim que até Richard Dawkins, na obra de 1976, O Gene Egoísta (The Selfish Gene), nos vai lembrar o que Esopo já muito antes dissera numa das suas fábulas sobre o coelho e a raposa:

 

 “O coelho corre mais depressa que a raposa, porque ao passo que o coelho corre para salvar a vida, a raposa corre apenas pelo seu jantar.

 

Mais atentamente, os biólogos foram tentando compreender o porquê destes comportamentos, aceitando hoje que o mecanismo da evolução compreende em si uma longa luta em que as espécies evoluem em resposta umas às outras (coevolução).

Por exemplo, se um predador terrestre e uma presa, espécies diferentes, corressem com a mesma velocidade, nenhuma teria vantagem. Mas se ao longo do tempo a presa começasse a desenvolver cascos, as suas patas ao criarem menor fricção possibilitariam alcançar maior velocidade que o predador. Então, para vir a conseguir apanhar a presa, o predador teria de evoluir, por exemplo passando a ter garras não retráteis como a chita.

O aumento de velocidade nem sempre será a única solução. Outras alternativas foram aparecendo. Por exemplo, os antílopes springbok utilizam aqueles saltos totalmente improváveis como parte da sua manobra evasiva.

 

De posse destes conhecimentos e talvez inspirado pela Alice do Outro Lado do Espelho (obra que Lewis Carroll publicara em finais de 1871, onde a Rainha Vermelha vai explicar à Alice o que era a natureza da terra do outro-lado-do-espelho: “Ora vê, aqui tens de correr o mais que puderes para te manteres no mesmo sítio. Se quiseres chegar a outro sítio, tens de correr pelo menos duas vezes mais depressa.”),  o biólogo americano Van Valen (1935-021), vai escrever em 1973 o seu estudo “A new evolutionaty law”, em que postula que as espécies necessitam de evoluir constantemente, não para vencer, mas apenas para se manterem vivas:

 

Para um sistema evolucionário, torna-se necessário que continue a desenvolver-se para que consiga manter a sua performance relativamente aos sistemas com quem evolua conjuntamente.”

 

Nesse seu estudo, Van Valen visava especialmente teorizar sobre o problema mais geral da extinção das espécies, tendo concluído, contrariamente ao esperado, que a probabilidade de extinção de quaisquer grupos se mantinha essencialmente constante ao longo dos tempos.

Esta conclusão foi tão inesperada e inovadora que esse estudo, hoje um clássico, não foi aceite para publicação das revistas científicas mais conceituadas como a Nature, o que levou Valen a criar uma nova publicação, Evolutionary Theory, cujo primeiro número foi evidentemente o seu estudo.

 

Na primeira parte, Valen incidiu sobre as datas de extinção de vários grupos de fósseis, de Foraminíferos a Amonoides a repteis e a mamíferos, estabelecendo as respetivas curvas de extinção. Concluiu que, ao longo dessas curvas, todos eles mostram a mesma probabilidade de se extinguirem, independentemente do maior ou menor tempo a que cada uma das espécies se tivesse originado. A isto chamou de “lei da extinção constante”.

 Até aí, julgava-se que quanto maior fosse o tempo em que as espécies se tivessem originado maior seria o tempo que levariam até à sua extinção. O que esta lei vinha dizer era que, por exemplo, espécies modernas de mamíferos extinguir-se-ão da mesma forma que as dos seus antepassados de 200 milhões de anos atrás, obedecendo exatamente à mesma probabilidade.

 Ou seja, tal como com o urânio a radioatividade vai decaindo constantemente e da mesma forma, independentemente de se tratar de urânio antigo ou novo, o mesmo sucede com as espécies e a sua extinção: mais antigas ou menos antigas, todas elas se vão extinguindo segundo a mesma constante.

 

É para conseguir entender isto que na segunda parte do estudo se vai socorrer da hipótese a que chamou da “Rainha Vermelha”, pela qual cada espécie ao tentar melhorar a sua performance vai com isso modificar as respostas evolucionárias dos seus parceiros (que também vão mudar), o que por si irá espoletar outras respostas na espécie inicial.

Quando muitas espécies estiverem envolvidas, a situação vai tornar-se muito mais complexa, com consequências inesperadas, o que vai fazer que neste jogo da evolução cada um vá acabar por necessitar de continuar sempre a mudar.

Para aumentar a complexidade, acontece ainda que devido a constrangimentos biológicos, estas mudanças não se podem dar indefinidamente, pelo que as espécies que não forem capazes de mudar, desaparecem. Nada fácil.

 

Estudos posteriores e atuais sobre evolução, predizem que estas dinâmicas da Rainha Vermelha só se aplicam quando estivermos a tratar com períodos de tempo curtos, e que para escalas maiores de tempo e espaço temos de considerar outros fatores, como a variabilidade do clima ou da dinâmica tectónica, como condicionadores da evolução.

 

E isto é muito interessante, porquanto o mesmo se passa na física que tem duas teorias para explicar a realidade: uma para o mundo do ultrapequeno (física quântica) e outra para o mundo visível e dos grandes espaços.

E o mesmo para as pessoas: emocionamo-nos pela criança que caiu no poço em Marrocos (aqui perto de nós), mas não pelas crianças mortas ao tentarem atravessar o mediterrâneo ou outras fronteiras (lá longe de nós). Para estas racionalizamos sobre a ilegalidade e a proteção das nossas fronteiras.

Neste jogo (que é sempre de soma zero) entre emoção e razão (mesmo que não haja razão sem emoção), joga-se permanentemente o futuro do que é, vai ser, o ser humano.

A insensibilização parece voltar a ser a aposta atual, uma neutralização que permite uma mais fácil circulação das poucas ideias que se quer que tenhamos, o que aponta para uma maior racionalização. Para que tudo esteja ligado a tudo, qualquer constrangimento dificulta, impedindo a circulação. “Olha o robô!”, Lena d’Água.

 

 

 

 

(358) Chamam-lhe o Novo Normal

Tempo estimado de leitura: 4 minutos.

 

Progresso, era os filhos viverem melhor que os pais, não era?

 

Uma gravidez é um roubo de tempo produtivo disponível feito ao patrão.

 

O Novo Normal, não é Novo nem Normal.

 

O Novo Normal exige que façamos mais com menos, ou que morramos tentando. Esta última opção parece ser a favorita da classe que nos dirige, Helen Buyniski.

 

 

 

 

Independentemente da consideração sobre a perenidade ou eternidade dos valores, sobre a sua interioridade ou exterioridade, vivemos tempos em que os ataques aos valores, que até aqui têm sido geralmente aceites como normativos, se sucedem, muitas vezes até vindos donde menos se suspeitaria (no caso vertente, a origem é de uma grande organização de uma democracia avançada cristã), pondo em risco a própria estrutura da sociedade, e apresentados debaixo do eufemismo de “progresso” como única forma de sobrevivência da economia.

 

O percurso normal da pessoa é feito através da passagem da infância para a adolescência, e desta para o estado adulto, significando este na nossa sociedade o tempo dos primeiros namoros mais a sério, dos primeiros empregos, da compra de carro, do casamento, da compra de casa, filhos, enfim, o caminho que conhecemos.

Mas, se até agora este percurso era incentivado, propagandeado como sonho possível de realizar, começam a aparecer fortes sinais contrários que os meios de comunicação social, quais arautos da formatação e conformação do futuro próximo, não se cansam de reproduzir e repetir, e a que por isso mesmo devemos prestar especial atenção.

Neste caso é exemplar o artigo "Não, casar em sempre é financeiramente benéfico" (No, Getting Married Isn't Always Financially Beneficial), publicado pela muito americana Bloomberg, cuja boa intenção é a de "avisar/informar" a nova rapaziada trabalhadora, que isto de se criar uma família é muito complicado, perigoso, arriscado e prejudicial. Quer social, quer individualmente. Pelo que deve ser muito bem pensado.

 

Começa logo por lembrar que uma gravidez representa para o patrão um roubo de tempo produtivo disponível, chamando também a atenção para a absorção quase total que os filhos fazem do tempo disponível dos pais.

Vai ao pormenor de se preocupar com os reflexos que o ter filhos irá provocar na pegada de carbono na medida em que sendo os recursos da Terra limitados, a partir de certa altura (e parece que é agora), ter mais filhos irá aumentar a pegada de carbono, pelo que ter filhos é prejudicial para o clima.

O consequente aumento das despesas com a família  vai ainda impedir a realização daquele sonho de independência e de bem estar que nos inculcaram que é a compra de casa, que deixará de poder ser realizado porquanto as grandes corporações imobiliárias disfarçadas de fundos de pensões, ao comprarem todos os imóveis para os arrendar, obrigam o preço das casas a subir, forçando ao recurso do aluguer até ao fim da vida precária.

 

Preocupa-se também com o problema de se terem filhos em tempo de pandemia (notando que várias outras se seguirão no futuro) porque tal é aumentar-lhes as probabilidades de sofrerem riscos psicológicos (nas raparigas adolescentes as tentativas de suicídio aumentaram 51 por cento, os sintomas de depressão aumentaram 25 por cento e os de ansiedade 20 por cento) e físicos (as máscaras para crianças adotadas pelos vários governos podem provocar lesões).

 

Por outro lado, existindo hoje uma enorme quantidade e diversidade de cuidados de saúde, de ensino e de divertimento, devendo o bem-estar dos filhos constituir a maior preocupação dos pais, a grande maioria deles não terá um rendimento que seja compatível com a possibilidade de propiciar todos esses melhores cuidados, que são altamente recomendados e propagandeados nos meios de comunicação social.

E passam a explicar: basta que a pequena minoria que constituem os ‘influenciadores’ da opinião que pululam diariamente nos mídia demonstrem e aconselhem a todas as horas, o que se deve comprar, o que se deve fazer, para os pais se sentirem na obrigação de o fazer. Como na grande maioria dos casos não o conseguem fazer, tal contribuirá para o aumento dos prejuízos que irão provocar no futuro dos filhos.

 

Os novos trabalhadores que, como já vimos, não têm condições para ter casa própria, pelo que, na melhor das hipóteses, serão sempre permanentemente inquilinos. E, se quiserem viver um pouco melhor e tentarem alcançar a vida que os pais lhes prometeram (afinal não era isso o progresso? Os filhos viverem melhor que os pais) verificarão que com o que ganham não o conseguem fazer sem caírem na armadilha da dívida bancária.

O encaminhamento social pretendido deste Novo Normal, debaixo da consideração que se preocupa com as pessoas, visa instilar nelas a convicção de que não reúnem as mínimas condições para constituir família e que só os bem instalados podem criar filhos como devem ser criados. Uma outra forma de dizer que “o Novo Normal exige que façamos mais com menos, ou que morramos tentando. Esta última opção parece ser a favorita da classe que nos dirige, Helen Buyniski.

Uma bem-intencionada e caritativa eugenia psicológica, que fica sempre melhor nos tempos que correm que uma diminuição da população por outros meios coercivos.

 

Mas atenção: este Novo Normal, não é Novo nem Normal.

 

Esta ideia de progresso contínuo tão propagandeada e a que se propõe regressar, só apareceu a partir da Revolução Industrial. Até aí, pode-se dizer que, com exceção das elites que detinham a terra e o poder político, todos os outros viviam pobremente, quase miseravelmente, duma agricultura de subsistência, onde não se vislumbravam grandes diferenças entre as gerações que iam passando. Pais e filhos na mesma miséria.

Só o grande desenvolvimento que a Revolução Industrial possibilitou é que originou o aparecimento da ideia de “progresso contínuo”, permitindo criar uma descontinuidade entre as gerações, ao alimentar a ideia de que os filhos teriam uma melhor vida do que os pais. Isto é o que nos disseram que era “progresso”.

 

Não é certamente a este “progresso” que o Novo Normal se refere, pois ele já não o comporta. Já não o comportava antes. Pior, neste Novo Normal presente, os jovens trabalham com menos direitos, com mais precariedade, e recebem menos pelo mesmo trabalho, do que os trabalhadores mais velhos. E com mais incerteza sobre a segurança social que lhes caberá ter. É mais um Regresso ao Passado que a um Novo Normal. E veremos a que passado.

 

(357) A racionalidade da irracionalidade

Tempo estimado de leitura: 7minutos.

 

A experiência humana é paradoxal.

 

Qualquer teoria do mundo não pode simultaneamente ser completa e calculável sem ser inconsistente, K. Gödel.

 

Num mundo que por si é inconsistente, a consistência não é uma virtude.

 

A tarefa sobre o que todos veem, não é tanto ver-se o que ninguém até aí viu, mas pensar o que ninguém até aí pensou, Schrödinger.

 

Não se oferece uma ética a Deus, Simone de Beauvoir.

 

 

 

Como nós não somos Deus (que pela sua própria condição, essência, natureza ou definição, não necessita de quaisquer argumentos para saber qual é a verdade, até porque todas as verdades são aparentes perante ele - como notava Simone de Beauvoir: “Não se oferece uma ética a Deus”) e o mundo não é perfeito, para errarmos o menos possível nas nossas escolhas, necessitamos de um guia que nos permita vislumbrar ou dar um certo sentido ao mundo, mesmo quando ele parece sem sentido.

 

A lógica, com o seu encadeado de argumentos, vai ser o guia que nos irá permitir adivinhar o que se vai seguir partindo das coisas nas quais já acreditamos, permitindo deste modo tornearmos as nossas limitações falíveis e finitas.

Acontece que, ao longo da vida, vamos encontrando acontecimentos, emoções, realizações, não possíveis de encaixar na lógica estabelecida, e que nos fazem ver que a experiência humana é normalmente paradoxal. Como foram os nossos pensadores encarando esta condição?

 

O plano racionalista-matemático de Descartes, partia do princípio que o mundo tinha sentido e que era possível descobrir esse sentido, uma vez que a nossa capacidade para raciocinar era suficiente para descobrir as razões inteligíveis porque as coisas existiam. Numa das suas obras, La Géométrie (1637), estudou a possibilidade de o mundo aparecer representado por uma quadrícula tão fina e precisa que permitisse reduzir a geometria à análise, qual GPS de alta definição com leitura facial apoiado na IA da Google.

Baruch Espinosa, na sua Ética (1677), explicitava o seu entendimento da Natureza e do homem através da utilização de uma série de proposições numeradas sequencialmente.

E G. W. Leibniz (1679), vai inventar uma linguagem matemática que obedecia a regras algébricas precisas (caracteristica universalis) através da qual conseguia expressar todos os pensamentos, o que permitiria usá-la para encontrar respostas para perguntas formuladas, qual computador da época atual.

 

Parecia, pois, aberto o caminho para que através da validação dedutiva matemático-lógica se encontrasse a certeza absoluta, e obter-se assim, uma teoria completa e consistente do mundo.

 

Entre 1893 e 1903, Gottlob Frege, ao publicar As Leis Básicas da Aritmética, julga finalmente ter conseguido descobrir essa tão procurada notação concetual matemática perfeita que permitiria alcançar esse objetivo.

Na sua “Lei Básica V”, vai definir ‘Conjuntos’ como:

 

Conjuntos, são coleções de coisas que possuam uma mesma propriedade.

 

Isto queria dizer, por exemplo, que o conjunto de todos os triângulos compreendia todos e apenas os que possuíssem a propriedade de serem triângulos.

Para Frege, isto era suficientemente óbvio ao ponto de assumir esta lei como básica por ser uma verdade lógica autoevidente.

Amigo e grande admirador de Frege, Bertrand Russell, vai, no entanto, fazer-lhe notar a existência de uma contradição:

 

Seja P a coleção de todas as coisas com a propriedade de ‘não ser um membro-próprio’ (por exemplo, o conjunto dos triângulos não é em si mesmo um triângulo, mas é um P). Mas se P é P, então não é, por definição parte de P; se P não está contido em P, então é porque é P, de novo por definição. Devia ser um ou outro, mas é ambos: P está contido em P, e P não está contido em P, sendo membro próprio e não sendo, o que é uma contradição.

 

Este enunciado ficou conhecido como o Paradoxo de Russell, desacreditando toda a construção de Frege. A existência de uma só contradição era o suficiente para que o sistema fosse considerado como sendo inconsistente e, portanto, absurdo. Sem nexo.

Russell, juntamente com A. N. Whitehead, vai publicar entre 1910 e 1913, três volumes dos Principia Mathematica, onde o paradoxo continua sem ser resolvido eficazmente. Muitos outros matemáticos o intentaram depois resolver, igualmente sem encontrarem uma solução totalmente satisfatória.

 

Em 1931, um jovem matemático de 25 anos, Kurt Gödel, apresenta os chamados Teoremas da Incompletude, onde vai demonstrar que não é possível haver uma teoria do mundo que seja ao mesmo tempo completa, consistente e calculável. Segundo ele, qualquer teoria não podia ser simultaneamente completa e calculável sem ser inconsistente.

Ou seja, devemos desistir de compreender completamente o mundo em que vivemos por tal ser impossível.

 

 Para além desta conclusão ser racionalmente muito difícil de lidar, acresce ainda que a prática diária da vida de cada um a desmente, pois acontecem continuadamente contradições que vão sendo resolvidas e a vida vai continuando.

Vejamos um exemplo trivial: suponhamos que estamos à espera de um amigo, com quem nos devíamos de encontrar às 13:00. São já 13:05. Está atrasado. Mas passam apenas 5 minutos da hora marcada, portanto ainda não está atrasado. Devemos chamá-lo? Ainda é cedo, ou talvez não seja … o que faz com que ele esteja ao mesmo tempo atrasado e não esteja atrasado. O facto é que o que ele não está é ao mesmo tempo atrasado e não atrasado, porquanto eu é que estou ali parado à espera dele e ele claramente ainda não chegou.

 

Se aplicássemos a lógica clássica, em que como vimos o deparar-se com uma simples contradição em algo que se assume como sendo óbvio, faz com que todo o sistema passe a ser considerado como inconsistente, inútil, então este pequeno facto (estar ou não ao mesmo tempo atrasado e não estar) levar-nos-ia a invalidar todo um processo de raciocínio, e a nem sequer podermos considerar o nosso amigo como sendo nosso amigo. E não deixa de ser nosso amigo.

O mesmo também se passa nos campos da ciência e filosofia em que os desacordos sobre qual é a teoria correta são correntes, sendo resolvidos através de debates constantes. Já Khunn notara em 1962 que “o conhecimento científico não crescia de modo cumulativo e contínuo, e nem sempre progredia em linha reta, e mais, que sendo a ciência obra de comunidades científicas, era essa comunidade que definia não só o meio de solucionar os problemas, como também os problemas que convinha resolver.

 

Daí que alguns pensadores começassem a sugerir que talvez fosse errado pretender que uma simples contradição pudesse levar a considerar-se o sistema como inconsistente, pelo que tal consideração não deveria fazer parte da teoria da lógica. A inconsistência não deveria ser erradicada ou “resolvida”, mas ser aceite, o que levou ao desenvolvimento de teorias matemático-lógicas chamadas paraconsistentes.

Os seus iniciadores, os matemáticos e filósofos Newton da Costa e Graham Priest, consideram estes estudos conducentes a uma abertura do racionalismo como extremamente importantes, importância idêntica à do Iluminismo, ao apontarem para “um racionalismo que acomoda racionalmente alguma aparente irracionalidade”.

 

 

As críticas à utilização destas teorias são várias: por um lado, parece tratar-se de uma forma de escamotear o problema, pretendendo pôr de lado o esforçado trabalho filosófico e científico anterior; por outro, esta lógica paraconsistente ao permitir que nos sintamos mais à vontade com os assuntos, retira-nos o esforço para melhorarmos. Ou seja, é como se nos oferecessem uma maneira fácil para evitar problemas difíceis, ou para manter à superfície teorias falhadas mesmo depois de serem desacreditadas.

Respondem os lógicos paraconsistentes com a afirmação genericamente aceite que uma teoria é tanto mais virtuosa quanto melhor representar o mundo. Servem-se dos exemplos históricos de Aristóteles e de David Hume, para os quais em igualdade de circunstâncias a melhor teoria seria a que fosse mais simples, pois seria a que melhor representaria a simplicidade do mundo.

Ora, num mundo que por si é inconsistente, então a consistência não é uma virtude. Se o mundo é inconsistente, se há uma contradição na sua base lógica, então é porque uma teoria que seja consistente deixa alguma coisa de fora.

 

Mas em que casos, e como, é que determinaríamos que uma dada contradição num contexto determinado possa ser racionalmente aceitável? Ou seja, quando é que podemos decidir pela aplicação de uma teoria inconsistente?

Priest, numa entrevista em 1983:

“Nesta fase, uma resposta preliminar é que necessitamos de considerar os méritos de cada um dos casos por si.”

 

O que vai tornar a lógica paraconsistente muitíssimo mais difícil de trabalhar do que a lógica clássica. A construção de argumentos válidos neste novo sistema que é muito mais permissivo, é extremamente trabalhosa.

Estamos a falar de um sistema com regras precisas e efetivas, que responda a quaisquer questões possíveis sobre a descrição completa do mundo, mas em que por vezes o próprio sistema ultrapassa as respostas da lógica clássica, dizendo para além do Sim ou Não, SIM e NÃO. E isto porque por vezes a resposta será ao mesmo tempo SIM e NÃO.

 

De acordo com a filosofia atual, isto significa aceitar que a visão do mundo possa incluir alguma falsidade (falso, significando uma negação verdadeira). Como é que se pode aceitar uma teoria falsa? Se a falsidade for possível, a consistência deixa de ser inviolável e então tudo é possível. Como nota um filósofo tradicionalista:

Uma teoria inconsistente não permite obter qualquer boa explicação sobre seja o que for.”

Na procura do ponto de apoio que lhes permita alicerçar os seus sistemas pra resolver todos os problemas da filosofia, todos estes grandes filósofos, lógicos, matemáticos, acabam por encontrar os limites do que nós podemos entender, o que constitui uma própria contradição. O que os leva a encarar essa contradição como uma falha.

 ‘Forçados’ a uma falsa escolha entre o misticismo que lhes permite uma visão de certa maneira abrangente do mundo, e uma teoria racional rigorosa e precisa, mas que se revelava incompleta e inadequada, pode até dar-se o caso de terem encontrado aquilo que procuravam e que não o tivessem reconhecido.

 

Wittgenstein chegou mesmo a escrever:

 

“A proposição que se contradiz a si mesma, ficará como um monumento (tal cabeça de Janus) sobre as proposições da lógica”.

 

Mas só Schrödinger (o do gato ao mesmo tempo vivo e morto) conseguiu entender perfeitamente o problema:

 

“A tarefa sobre o que todos veem, não é tanto ver-se o que ninguém até aí viu, mas pensar o que ninguém até aí pensou.”

 

Na realidade, vivemos já num mundo que aceita como normal a existência de notícias falsas, agrupando-se muitas vezes em torno delas tentando impô-las aos outros como instrumento de dominação. Desde a vida corrente vivida diariamente até às teorias e avanços “científicos” que os próceres encartados nos querem fazer crer apenas por aparecerem nos órgãos ditos também serem de comunicação social.

Mas, a nível científico, temos também já a utilização cada vez mais corrente dos computadores quânticos, em que as partículas de “quanta” se podem movimentar para à frente e para trás no tempo e existir em dois locais ao mesmo tempo.

Ao passo que os computadores clássicos executam as suas operações utilizando os valores de ‘um’ e ‘zero’ (os bits) para representarem os dois estados (o SIM e o NÃO) que permitem seguir o sentido das decisões sobre os dados analisados, os quânticos utilizam os qubits (quantic bits), que para além dos ‘uns’ e dos ‘zeros’ têm ainda a possibilidade da superposição que lhes permite representar o ‘um’ e o ‘zero’ ao mesmo tempo (ou seja, conseguem representar quatro cenários ao mesmo tempo, o que pelo menos irá reduzir enormemente o tempo para resolver um problema).

 

Os pensadores que se despachem, porque correm o risco de quando finalmente se pronunciarem sobre a sociedade já ela não ser aquela sobre que se pronunciaram.

 

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