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Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

(352) O Círculo do Conhecimento

Tempo estimado de leitura: 7 minutos.

 

“Círculo do conhecimento” é o que acontece sempre que ao querermos analisar o conhecimento, a resposta nos venha dada pelos próprios meios do conhecimento.

 

O autor raciocina em círculo ao dizer que temos a certeza de que percebemos clara e distintamente a verdade porque Deus existe. Mas, temos a certeza que Deus existe porque percebemos clara e distintamente que ele existe, Antoine Arnauld.

 

Um triângulo, que mesmo que não exista para além do pensamento, continua a ter uma essência ou forma que é imutável e eterna, não dependente do espírito, Descartes.

 

Um ateu não poderá nunca ter a certeza da verdade daquilo em que pensa.

 

A China é má. Portanto tudo o que eu ouço sobre ela é provavelmente verdadeiro.

 

 

 

 

As singularidades, quando bem observadas, não passam na maior parte dos casos de pontos de inflexão ou de passagem contidos num sistema que as envolve e absorve. E isso verifica-se quer seja a nível individual, quer seja a nível mais geral.

Um dos casos mais interessantes e representativos é o de Descartes (1596-1650) que apesar das vicissitudes (aristocráticas, evidentemente) por que passou, mantém sempre a intenção, manifestada desde cedo, de alterar a maneira de pensar todo o conhecimento.

Era seu grande objetivo de vida a substituição dos ensinamentos de Aristóteles vigentes nos livros de texto das universidades por um seu compêndio a que chamaria Le Monde de Descartes ou Le Traité du monde et de la lumiére, que acreditava ser a obra monumental e inovadora que abarcaria todos os campos do conhecimento, da filosofia ao método, da metafísica à física e à biologia.

 

Acontece que em 1633, Galileu, por ser suspeito de heresia, é condenado pela Inquisição Romana a prisão domiciliária. Descartes, que tinha já preparada essa sua grande obra, entende por cautela suspender a sua publicação (nela discutia, entre outras, as teses heliocêntricas de Galileu).

Nos quatro anos seguintes vai revê-la cuidadosamente, dividindo-a em quatro partes, decidindo começar inicialmente por publicar apenas a introdução à obra, a que chamou de Discours de la Méthode Pour bien conduire sa raison, et chercher la vérité dans les sciences, o posteriormente famoso Discurso do Método onde pela primeira vez aparece o célebre “Je pense, donc je suis”, que vai recorrentemente repetir por várias formas ao longo da sua obra.

 

Para apalpar o terreno em que a sociedade, os poderes, se moviam, o Discurso é primeiramente enviado a alguns conhecidos seus para que eles se pronunciassem, escrito em francês (à época, as obras científicas respeitáveis eram publicadas em latim, tal como hoje passados pouco mais de três séculos são publicadas em inglês, e provavelmente daqui por um século sejam publicadas em mandarim) e sem o nome do autor. Todo o cuidado era pouco.

 

Este método de apreciação (da obra e da sociedade) do trabalho tornou-se comum em Descartes, seguindo-o depois em outras obras. É assim que antes de publicar em 1641 as Meditações Metafísicas (Meditationes de prima filosofia, in quai Dei existentia et animae immortalitas demonstratur), as envia para algumas pessoas que considerava de valia intelectual para que as comentassem, comprometendo-se a responder individualmente a todas as objeções e a integrar essas críticas e as respetivas respostas a quando da publicação do livro em 1641, e outras surgidas posteriormente a quando da 2ª edição em 1642.

 

Uma das objeções mais interessantes, referida pela primeira vez nos comentários à publicação prévia, foi a de Antoine Arnauld:

 

“…o autor raciocina em círculo ao dizer que temos a certeza de que percebemos clara e distintamente a verdade porque Deus existe. Mas, temos a certeza que Deus existe porque percebemos clara e distintamente que ele existe. Portanto, antes de termos a certeza que Deus existe, temos de ter a certeza que tudo o que percebemos clara e distintamente é verdadeiro”.

 

Ou seja, se a veracidade da perceção clara e distinta do intelecto depende do nosso conhecimento de Deus, como é que então esse conhecimento de Deus pode ser inicialmente estabelecido?

 Se a resposta for que podemos provar a existência de Deus a partir de premissas que percebemos clara e distintamente, então entramos num pensamento circular, pois, como é que vamos provar que as nossas perceções claras e distintas são nessa altura verdadeiras?

Esta objeção acabou por se tornar num dos incontornáveis temas da filosofia (que, evidentemente, se estende também para todos os outros campos do saber), ficou conhecida como o “Círculo Cartesiano”.

                                                                

Sendo Descartes um filósofo extremamente cauteloso (como vimos pelos cuidados com que se rodeou para a publicação do Discurso do Método ao proceder ao envio prévio dos artigos a diversos conhecidos, ao fazê-lo em francês e sem indicação de autor),meticuloso (a sua escrita, além de clara, é sempre apoiada), como é possível que não se tenha apercebido do dilema resultante, ao construir um argumento que se serve da existência de Deus como prova para as premissas que considerava como evidentes, sendo simultaneamente estas como provas da existência de Deus?

Porque se de facto eram evidentes, não precisava de Deus para as provar, e, se não eram evidentes, eram inúteis para provarem a existência de Deus.

 

Descartes não escrevia ao acaso, já vimos que tinha um projeto e era metódico. Assim, nas Meditações Metafísicas, insere um “prefácio para o leitor” em que explica que no seu projeto iniciado com o Discurso do Método, “só aflorei os tópicos relacionados com Deus e o espírito humano”, mas que agora, finalmente, estava pronto a enfrentar-se com essas questões, pelo que é através das várias Meditações (da Primeira até à Sexta), que vai explicando os seus conteúdos e a razão de ser dessa ordenação.

 

 Na “Meditação Terceira” diz-nos que o argumento principal será o da existência de Deus. É a mais longa das Meditações, facto indicativo da importância e cuidado posto no assunto.

 Descartes vai partir da presença da ideia de Deus no pensamento (Cogito), para o próprio Deus enquanto autor dessa ideia. Começa por analisar extensivamente todas as outras possibilidades de seres supostamente reais (homens, animais, anjos) à procura de perfeições que não possa encontrar nele. Por fim, sobra apenas a ideia de Deus, que tendo mais perfeição do que a que ele possuía, não podia ter-se a ele como causa.

 

Na “Meditação Quinta”, Descartes propõe-se indagar sobre o grau de certeza da existência dos objetos materiais fora dele. Para tal, entende que deve começar por considerar as ideias dessas coisas, desde que elas existam no seu pensamento, e ver quais delas são distintas, e quais as que são confusas.

Nota que encontra dentro de si inúmeras ideias de coisas que mesmo que não existam em qualquer parte fora dele, não podem ser chamadas de “nada”, porque não sendo suas invenções, têm, no entanto, uma natureza verdadeira e imutável.

Dá como exemplo a imagem que tem de um triângulo, que mesmo que não exista para além do seu pensamento, continua a ter uma essência ou forma que é imutável e eterna, não dependente do seu espírito. E, a propósito, quase como só se lhe tivesse ocorrido naquela altura, pergunta-se:

 

 “Se o simples facto de eu produzir só pelo meu pensamento a ideia de qualquer coisa, significando que tudo aquilo que eu perceba clara e distintamente sobre essa coisa, pertença realmente a essa coisa, não será isto uma possível base para um outro argumento que sirva para provar a existência de Deus? A existência de Deus terá que ter o mesmo grau de certeza que o que tenho vindo a atribuir às verdades da matemática.”

 

 Depois, chama a atenção para dois falsos sofismas que podem resultar de uma deficiente apreensão daquela argumentação.

 O primeiro, resultante de habitualmente se distinguir entre existência e essência, o que pode conduzir à contradição que é “pensar Deus (que é um ser supremamente perfeito) sem existência (ou seja, faltando-lhe uma perfeição), como se pudéssemos pensar uma montanha sem um vale”.

O segundo, que pode conduzir a pensar que é o nosso pensamento que impõe a necessidade de qualquer coisa existir; pelo contrário, é a necessidade dessa qualquer coisa por si, nomeadamente a existência de Deus, que determina o meu pensamento a respeito da sua existência.

 

Tal demonstra que Descartes estava plenamente consciente das objeções que lhe foram e seriam levantadas, adiantando-se mesmo a algumas delas.

 

 Vejamos como responde à objeção de Arnauld:

 

 “Já dei uma explicação adequada sobre este assunto na minha resposta às Segundas Objeções, onde fiz uma distinção entre o que no momento percebemos com clareza e o que nos recordamos de ter percebido com clareza numa ocasião anterior. Temos a certeza que Deus existe porque levamos em consideração todos os argumentos que provam isso; subsequentemente, é suficiente para nós recordarmos que percebemos qualquer coisa com clareza, para termos a certeza que é verdadeiro. Contudo, só isto não seria suficiente se não soubéssemos que Deus existe e que não nos engana.”

 

Na primeira parte desta sua explicação, diz-nos que o seu “critério da verdade” (todas as perceções que sejam claras e distintas são verdadeiras) serve para nos reassegurar que as perceções claras e distintas que tivemos no passado eram, de facto, verdadeiras. E que as perceções claras e distintas que estamos a ter neste momento, mesmo que não tenham sido anteriormente provadas, são também verdadeiras.

A ser assim, não tem razão de ser a acusação de circularidade, pois a conclusão não necessita de ser assumida para que o argumento seja persuasivo, ele necessita apenas de se apoiar no facto de no momento, as nossas perceções serem claras e distintas.

Para percebermos a segunda parte (“… só isto não seria suficiente se não soubéssemos que Deus existe e que não nos engana.”), recordemos outra das respostas de Descartes:

 

“O facto de um ateísta ter claro conhecimento que três ângulos de um triângulo são iguais a dois ângulos retos é algo que não contesto. Mantenho, contudo, que esta sua certeza não é verdadeira ciência, pois nenhuma certeza sobre a qual possa haver dúvidas, deva ser chamada de ciência. Como estamos a supor que este indivíduo é um ateísta, ele não poderá ter a certeza que não está a ser enganado em matérias que para ele são evidentes (como já amplamente expliquei). E, muito embora esta dúvida possa não lhe ocorrer, ela poderá sempre ser levantada quer por ele ou por outra pessoa. Assim, ele nunca se libertará desta dúvida até reconhecer que Deus existe”.

 

 

Ou seja, para Descartes, Deus é um Deus que existe, é um Deus verídico, a quem repugna que nos enganemos sempre, e, sendo assim, um ateu não poderá nunca ter a certeza da verdade daquilo em que pensa.

 

Quando Descartes começou a escrever as Meditações, o seu objetivo era alargar e elaborar mais detalhadamente alguns dos temas já tratados no Discurso e menos explicitamente nas Regulae, de forma a poder estabelecer uma base firme e segura para o seu novo sistema filosófico.

Embora tivesse já concluído sobre a importância da existência de Deus no Discurso, percebe que para a afirmação do seu “critério da verdade”, no combate ao ceticismo, necessita da existência de Deus como “não enganador”: Deus não deixará sermos sistematicamente enganados.

 

Nas Meditações, Descartes vai fazer não uma, mas três demonstrações da existência de Deus, sempre por uma via de interioridade e de causalidade: a primeira, na “Meditação Terceira”, procedendo do efeito (a ideia da presença de Deus que se encontra na sua mente) para a causa (o Deus, que colocou essa ideia na sua mente); a segunda, também na “Meditação Terceira”, partindo da própria natureza do Cogito como ser imperfeito para Deus; a terceira, na “Meditação Quinta”, seguindo o raciocínio do argumento utilizado por St. Anselmo, de que Deus dependente apenas da apreensão da essência do que é um ser infinitamente perfeito, aparecendo como causa de si mesmo.

Com estes três argumentos, o seu “critério da verdade” tornava-se definitivamente seguro, a ponto de dizer:

 

“Agora, contudo, percebi que Deus existe, e ao mesmo tempo entendi que tudo depende dele, e que ele não engana; e sou levado também a concluir que tudo que perceba clara e distintamente é necessariamente verdade.”

 

Para além de tudo, não serão estes “círculos” comuns a toda a teoria do conhecimento? Não se trata sempre de analisar o conhecimento, dando-nos uma resposta pelos próprios meios do conhecimento?

 O que Descartes nos propõe é que para se sair do círculo, temos primeiro de ver Deus. Para Descartes, este argumento ontológico, funcionava como pedra de fecho do arco ogival de uma catedral do conhecimento, sem o qual nada se compreenderia: não o compreender, era ficar fora do edifício.

 

O artifício do “círculo do conhecimento”, embora não sendo correto como Descartes o demonstrou, tem sido muito utilizado como ferramenta para convencimento e controle das pessoas, em variados campos, do marketing à política. E funciona assim:

 

A China é má. Portanto tudo o que eu ouço sobre a China é provavelmente verdadeiro. Todos os que duvidem de qualquer dessas coisas têm uma tendência em favorecer a China. Como a China é má, ninguém pode ter essa tendência a não ser que esteja a ser comprado. E eu estou a pensar bem”.

 

 

 

Descartes, R, Meditations on First Philosophy with Selections from the Objections and Replies, Cambridge, Cambridge University Press, revised edition, 2010, tradução e edição de John Cottingham.

 

 

 

(351) Quem o feio ama bonito lhe parece

Tempo estimado de leitura: 4 minutos.

 

Quem não tem o que ama, ama o que tem, Bernard Shaw.

 

Uma das coisas mais penosas do nosso tempo é verificarmos que aqueles que têm certezas, são estúpidos, e aqueles que têm um mínimo de imaginação e compreensão estão cheios de dúvidas e indecisão, Bertrand Russel.

 

Quase todas as pessoas não acreditam que possam ser melhores jogadores de futebol que o Messi ou o Ronaldo, mas já no que diz respeito a discutirem sobre futebol, quase todas elas se sentem habilitadas para o fazer.

 

 

 

 

 

Uma das vantagens dos tempos em que vivemos, é que devido à grande expansão dos meios de comunicação social, aparecem-nos com maior nitidez algumas características esquecidas destes seres que são humanos falantes e conscientes, que são as pessoas. Não que essas características sejam só de agora, ou só deste local, uma vez que parece que sempre nos acompanharam.

 

Lembro-me sempre da história daquela senhora muito fina que com o seu filho teve de apanhar o comboio do Cais Sodré para Cascais, naquela época onde ainda havia carruagens de 1ª classe. Ocupado o seu lugar, notou que as pessoas se afastavam ou faziam o possível por não olhar para o miúdo, mostrando até uma certa repugnância. Incomodada, a senhora resolveu mudar de carruagem, indo para a 3ª classe.

Notou que ninguém se incomodava, e comentou com o filho: “Vês, aqui as pessoas do povo são muito mais simpáticas, tratam-nos bem”.

O homem que estava sentado no banco à frente dela, tirou o seu farnel e preparava-se para o começar a comer, não que sem antes, num gesto de boa educação, retirasse uma banana do seu saco, e a oferecesse à senhora, dizendo-lhe: “É para o seu macaquinho”.

 

É perfeitamente assumido como sendo normal que os nossos filhos sejam os mais lindos, os mais espertos, ao mais engraçados, para já não falar dos netos, esses que serão, pelo menos, duas vezes mais lindos, espertos e engraçados. Há mesmo um provérbio português que diz que “quem o feio ama, bonito lhe parece”.

Dito de outra forma mais cinicamente elaborada, Bernard Shaw observou que:

 

Quem não tem o que ama, ama o que tem.”

 

 

 

Em Pittsburgh, num dia de 1995, McArthur Wheeler, um homem de meia-idade, resolveu assaltar dois bancos em pleno dia. Não usou máscara nem qualquer outro disfarce. E antes de abandonar os bancos assaltados, fez questão de se voltar e sorrir para as câmaras de vigilância.

Ao ser preso pela polícia nesse mesmo dia à noite, mostrou-se bastante surpreendido pela rapidez com que fora identificado como sendo o assaltante. Quando lhe mostraram as gravações das câmaras de vigilância, incrédulo, disse: “Mas eu usei o sumo”.  

Wheeler estava convencido que se esfregasse sumo de limão na cara, tal torná-lo-ia invisível nas câmaras. Segundo disse, o sumo de limão era usado como tinta invisível, e desde que ele não se aproximasse de uma fonte de calor, permaneceria invisível.

A polícia assegurou-se que ele não estava debaixo da influência de drogas e que não era doido.

 

Tanta normalidade deixou perplexo David Dunning, psicólogo da Cornell University, que juntamente com um seu aluno finalista Justin Kruger, resolveram iniciar um estudo para tentarem perceber como é que alguém, aparentemente sociável e intelectualmente mediano, acreditava que as suas capacidades eram muito maiores do que as que na realidade tinha.

Num seu estudo inicial começaram com uma bateria de perguntas a estudantes universitários dos primeiros anos, sobre uma série de questões de gramática, lógica e de algumas piadas, pedindo-lhes para que depois de respondidas estimassem quais seriam as suas notas, não só as referentes às perguntas, mas, também, sobre as posições relativas em que ficariam face aos outros estudantes intervenientes no estudo.

Verificaram que os estudantes que obtiveram os resultados mais baixos foram os que mais sobrevalorizaram (mas mesmo em muito) as suas notas, entendendo ainda que os seus resultados deveriam ficar num patamar acima a dois terços dos estudantes. Uma autêntica “ilusão de confiança”.

 

O passo seguinte para Dunning e Kruger foi o de passarem do laboratório que era a sala de aulas para um ambiente mais normal da vida diária das pessoas. Escolheram uma carreira de tiro, onde interrogaram atiradores não profissionais sobre segurança das armas. Verificaram que, tal como tinha acontecido com os alunos, todos aqueles que menos tinham acertado nas perguntas feitas sobre segurança, eram os que mais estavam convencidos dos seus conhecimentos.

 

Conclusões preliminares permitiram-lhes afirmar que “indivíduos incompetentes … sobrevalorizam dramaticamente a sua capacidade e execução relativamente a um critério objetivo” e que se “mostram menos capazes de reconhecer competência quando a veem” (quer seja a deles ou a de outros). E que “se mostram menos capazes … de se aperceberem do seu verdadeiro nível de execução” quando a comparam com a de outros. Paradoxalmente, conseguem (têm a possibilidade de) melhorar a capacidade para reconhecerem a sua incompetência tornando-se mais competentes.

 

Verificaram também que esta “ilusão de confiança” (hoje conhecida como “efeito Dunning-Kruger”) não significava que todas as pessoas sobrestimassem os seus conhecimentos ou competência.

Quase todas as pessoas não acreditam que possam ser melhores jogadores de futebol que o Messi ou o Ronaldo, mas já no que diz respeito ao discutirem sobre futebol, quase todas elas se sentem habilitadas para o fazer.

Ou seja, em parte tudo parece depender do campo em que se autoavaliam: se for num campo em que elas possuam um conhecimento, teoria, ou experiência mínimas, isso levá-las-á à falsa crença de que são conhecedoras e competentes.

 

Estas investigações, até para a sua validação, foram sendo estendidas a outros meios, culturas, religiões, estratos sociais, géneros, e a outros campos como medicina, política, negócios, e têm conduzido sempre à mesma conclusão.

Por exemplo: um estudo publicado em 2018 indicou que os americanos que tenham poucos conhecimentos relativamente à política e governo, sobrevalorizam o seu conhecimento sobre esses tópicos. E essa tendência parece ser mais pronunciada dentro de contextos partidários, levando as pessoas a serem apoiantes mais ferranhas de um ou de outro partido.

 

Sendo um comportamento transversal à sociedade, em que a experiência de vida não parece ensinar a capacidade para a autoanálise, haverá maneira para se menorizar o problema?

Os mesmos Kruger e Dunning sugerem a utilização do ensino da lógica, que foi o que fizeram com aqueles alunos que não tinham capacidade para avaliarem as suas próprias atuações por forma a conseguirem distinguir as respostas corretas das incorretas. Ou seja, pelo aumento do conhecimento.

Explicadores de lógica, personal trainers (PT), para a maioria dos autoconvencidos. Nada que os atuais meios de comunicação social não façam bem.

 

Mas não será que esse comportamento que se reconhece como sendo transversal à sociedade, não seja ele próprio fundamental para a sobrevivência da sociedade? Ou seja, embora atrevida, a ignorância pode dar-nos alegrias. “I hnow”, grita a Mónica dos “Amigos” à hora combinada em que nos devemos rir.

 

Dizem os que o conseguem que o truque estará em não nos deixarmos ser enganados por ilusões de superioridade e sermos capazes de avaliarmos com precisão a nossa competência. Já um PT da Grécia Antiga nos dizia:

 

“Conhece-te a ti mesmo”.

 

 

 

 

(350) Melhor que estar morto é estar vivo.

Tempo estimado de leitura: 8 minutos.

 

Estar vivo é o contrário de estar morto, Lili Caneças.

 

Foi o acaso de um ato isolado que aconteceu mesmo apesar das poucas probabilidades que tinha de sucesso, que levou ao início da 1ª Grande Guerra.

 

A arrogância de se acreditar que qualquer um pode controlar ao longo de anos este mecanismo de segurança nuclear, é espantosa, Caitlin Johnstone.

 

O termo “guerra fria” foi pela primeira vez usado por George Orwell no seu artigo de 1945, “Você e a Bomba Atómica”, onde descrevia um mundo a viver à sombra da ameaça de uma guerra nuclear.

 

 

 

 

Vivemos em tempos em que sabemos que esta Terra, este Universo, têm os seus limites temporais contados (mais milhão, menos milhão de anos), e em que até sabemos algumas das causas que poderão levar a protelar, ou a antecipar, tal fim.

Entre as causas que poderão levar mais rapidamente a humanidade à extinção, incluem-se a colisão da Terra com um grande asteroide ou cometa, uma enorme erupção vulcânica, o aquecimento global, inteligência artificial descontrolada, experiências científicas desastrosas, cenários que envolvam múltiplas catástrofes, e uma guerra nuclear.

 

Conforme programada, a visita daquele alto dignatário iniciou-se com um cortejo automóvel de passeio pela cidade. O que ele não sabia é que alguns opositores tinham recebido armas, treino e indicações para que naquele dia fosse assassinado.

Para evitar falharem, dispuseram seis presumíveis assassinos ao longo do trajeto. O primeiro, assim que viu os carros, saltou para a frente deles e atirou uma granada para o carro do alto dignatário, ferindo apenas dois dos adjuntos, que foram de imediato transportados para o hospital. Os outros presumíveis assassinos viram as suas ações comprometidas e refugiaram-se na cidade.

Uma hora depois de visitar o hospital, o alto dignatário prosseguiu na sua visita, agora mais abreviada, e conduzida por outra rota. Só que o seu motorista não foi avisado, e entrou por uma rua sem saída, em que se viu forçado a parar para inverter a marcha, deixando inclusivamente o motor do carro ir abaixo. Acontece que num café dessa rua estava recolhido um dos assassinos que não quis acreditar na sua sorte: saiu para a rua, saltou para o carro e deu dois tiros de pistola, um no alto dignatário e outro na esposa acompanhante.  Dois tiros que foram fatais: ambos morreram.

Isto passou-se a 28 de junho de 1914, o alto dignatário era o Arquiduque Franz Ferdinand da Áustria, herdeiro do Imperador Franz Joseph da Áustria, que juntamente com a sua mulher, Sophia, Duquesa de Hohenberg, visitavam Sarajevo, capital das recém-anexadas províncias da Bósnia e Herzegovina.

Os assassinos pertenciam ao movimento da Jovem Bósnia, e julgavam assim que iriam libertar a Bósnia do jugo da Áustria. Gavrilo Princip, era o nome do jovem matador.

 

Foi assim, desta forma patética e trágica, digna em tudo de figurar num daqueles filmes mudos a três cores e aos saltinhos, que se acendeu o rastilho para o que veio a ser considerada como sendo a Grande Guerra, a “guerra que acabaria com todas as guerras”.

Como já foi há muito tempo (!) e a memória das pessoas quando não é ativada, propositadamente ou não, tende a diluir-se ou a retirar a importância aos acontecimentos, esta foi uma guerra onde morreram cerca de 8,5 milhões de combatentes e 13 milhões de civis, isto sem se considerar os vários genocídios,  as mortes resultantes da pandemia da gripe Espanhola de 1918, e os muitos horrores cometidos pelas forças em presença.

 

Que o clima de guerra há muito vinha sendo preparado (vulgarmente inscrito nos livros de história como “causas” ou “antecedentes”) ninguém tem dúvidas, muito embora a atribuição das culpas não seja tão unânime.

O que também ninguém tem dúvidas, embora nem sempre lhe atribua o devido significado, é que foi o acaso de um ato isolado, que aconteceu mesmo apesar das poucas probabilidades que tinha de sucesso, que serviu de pretexto, libertando todas as muitas forças que estavam contidas e que resultaram na cadeia de acontecimentos que levaram ao início da 1ª Grande Guerra.

 

Após a Segunda Guerra Mundial (1939 – 1945), o mundo apresentava-se bastante diferente, cabendo a meia-dúzia de nações, teoricamente com a mesma importância, a condução dos seus ócios e negócios. Na realidade, o mundo era muito mais bipolar que multipolar. Os grandes vencedores: os EUA e a URSS. O império britânico saía bastante enfraquecido e desmembrado. A China estava muito longe, e a resolver problemas internos.

Devido ao desenvolvimento dos respetivos arsenais nucleares, estas duas superpotências não tinham qualquer hipótese de se defrontarem, de ganharem uma guerra sobre a outra, pelo que se seguiu (1947 – 1991) um período considerado como Guerra Fria (que vai da Doutrina Truman, que estabelecia como principal objetivo da política externa americana a contenção da expansão geopolítica da URSS, até à dissolução da URSS em 1991) em que as confrontações foram feitas recorrendo à guerra psicológica, à propaganda, à espionagem, às guerras de proximidade por/em interpostos países, aos embargos, e às rivalidades desportivas e tecnológicas.

Em 1989, os EUA tinham alianças militares com 50 países, 526.000 militares estacionados em bases no estrangeiro, dos quais 326.000 na Europa e 130.000 na Ásia. Estima-se que os seus gastos militares durante este período ascenderam a 8 triliões de dólares, e que perto de 100.000 americanos morreram nas guerras da Coreia e do Vietname. Embora as perdas humanas da União Soviética sejam difíceis de estimar, sabe-se que os custos financeiros para a União Soviética foram muito superiores aos verificados pelos EUA.

 

Interessante notar que o termo “guerra fria” foi pela primeira vez usado por George Orwell no seu artigo de 19 de outubro de 1945 para o jornal Tribune, com o título “Você e a Bomba Atómica” (You and the Atomic Bomb), onde descrevia um mundo a viver à sombra da ameaça de uma guerra nuclear.

 

Após o desaparecimento da União Soviética, seguiu-se um período em que o vencedor julgou impor livremente a sua vontade, a sua lei. A complexidade da destruição rápida das estruturas socialistas, o assalto desenfreado do chamado neoliberalismo às principais fontes de produção económica, em resumo, a gula, o passo maior que a perna, tudo isso e mais, conduziram ao aparecimento de uma contestação interna que acabou por se traduzir na formação de um estado capitalista com interesses opostos aos americanos, competindo no mesmo mercado.

A resposta americana, a pressão americana, foi utilizar as forças armadas através da NATO (existem hoje mais forças militares nas fronteiras com a Rússia do que as usadas por Hitler na invasão da URSS), e a propaganda ( seja através dos meios de comunicação social, seja através da pressão económica), na perseguição do objetivo traçado: garantir que nenhuma superpotência rival pudesse aparecer na Europa, ou no território da ex-União Soviética.

 

Num documento elaborado pelo Pentágono emerge o conceito de “dominação benevolente” por uma só potência, rejeitando o internacionalismo coletivo que fora a estratégia seguida após a 2ª Guerra e que levara à criação da Nações Unidas para a mediação de disputas e outros casos de violência.

O documento previa ainda a criação de uma “força base” com 1 milhão e 600 mil militares nos próximos cinco anos (1992-97), um custo orçado em 1,2 triliões de dólares. Implicitamente, pretendia-se a criação de um consenso que evitasse que no futuro a Alemanha e o Japão entrassem numa corrida armamentista, pela sua “integração num sistema de segurança coletiva liderado pelos EUA, criando-se uma “zona de paz” democrática”.

Explícita aparece a intenção da utilização da força militar, sempre que necessário, para evitar a proliferação de armas nucleares ou outras armas de destruição de massa em países como a Coreia do Norte, Iraque, de repúblicas que sucederam à União Soviética e na Europa.

 

Com a recomposição do estado Russo, o enorme crescimento da China, a campanha para as eleições presidenciais americanas e a derrota das forças que apoiavam Hillary Clinton em 2016, tudo isto foram acontecimentos que vieram alterar relativamente o posicionamento do estado americano, incapaz de se rever num mundo que estava a deixar de ser unipolar sob o seu domínio, e que se lhe ia escapando.

Ao perderem as eleições, os democratas atribuíram à Rússia a interferência exercida a favor de Trump, fazendo dela o seu bode expiatório, origem de todos os males. Já Trump, acusado de privilegiar a Rússia, é mostrado como para compensar ter “preferido” apontar a China como seu alvo preferencial.

E, contudo, sabemos que na prática tal não se verificava: lembremos, por exemplo, que foi ele quem implementou a revisão de uma postura mais agressiva contra a Rússia no respeitante ao nuclear (inclusivamente permitindo a inclusão no arsenal americano de novas armas nucleares para uso tático), armou a Ucrânia, acabou com o Tratado do Céu Aberto, impôs mais sanções a cidadãos russos e à Rússia, obrigou médias russos a registarem-se como agentes estrangeiros, expulsou diplomatas russos, treinou combatentes polacos e lituanos para resistirem à agressão russa, recusou reconhecer a Crimeia como parte da Federação Russa, enviou 1000 militares para a Polónia, atacou os interesses do gás russo para a Europa.

A conclusão a tirar-se é que, independente de quem apareça como representante máximo do Estado, as verdadeiras forças que determinam o perfil da nação são as económicas, financeiras e militares, pelo que os objetivos perseguidos pouco ou nada se diferenciam.

 

Essa escalada de uma nova guerra fria contra a Rússia tornou-se agora mais complexa com a introdução de mais uma potência nuclear, a China, como fazendo parte do inimigo a conter.

A China tem vindo a aumentar o seu poder militar na antecipação de uma eventual confrontação com o império americano. As escolhas para o império americano são duas: deixar cair o seu objetivo de hegemonia unipolar e procurar um entendimento, ou orquestrar qualquer tipo de ataque massivo antes da China se tornar tão poderosa que se torne difícil de derrotar.

Ouçamos o que disse a este propósito o secretário de estado americano, Tony Blinken:

 

O nosso propósito não é conter a China, atrasá-la: o nosso propósito é o de manter esta ordem internacional com base em regras que a China está a tentar desmantelar […] Quem quer que atente contra essa ordem, vai ter que se defrontar connosco.” 

 

Em qualquer dos casos, talvez seja importante lembrar que essa “ordem internacional com regras” é responsável pela morte de 2,4 milhões de pessoas devido à invasão do Iraque, 1,2 milhões no Afeganistão e Paquistão, 250.000 na Líbia, 2 milhões na Síria, 650.000 na Somália, 175.000 no Iémen. Ou seja, em 16 anos de guerra, cerca de 6 milhões de mortes violentas, 6 países destruídos e alguns mais destabilizados. A que devemos juntar 37 milhões de deslocados.

Quanto aos custos monetários dessas intervenções só nos últimos 20 anos, o Watson Institute da Boston University no “The U.S. Budgetary Costs of the Post-9/11 Wars” estima conservadoramente terem sido de 8 triliões de dólares.

 

O problema que vivemos hoje, é que em vez de um “entendimento” (détente) para se minimizarem os problemas possíveis de aparecer nas relações internacionais entre estados (lembremos os muitos casos em que a iminência de guerra – nuclear close call - aconteceram), entramos num frenesim de propaganda de notícias dirigidas e provocações com a utilização de meios militares com armas nucleares, ao ponto de até organizações com crédito firmado como a que publica o boletim The Doomsday Clock (O Relógio do Fim do Mundo) no seu relatório de 2021 reconhecerem que:

 

Pela nossa estimativa, o potencial para que o mundo caia numa guerra nuclear – um perigo que esteve sempre presente nos últimos 75 anos – aumentou em 2020. Um falhanço global extremamente perigoso para identificar ameaças existenciais – que chamamos de “o novo anormal” em 2019 – ocorreu no ano passado, aumentando as possibilidades de catástrofe”.

 

Para quem julgue que por cada país com armamento nuclear há apenas um “Botão” que, após deliberação ponderada será premido dando origem a uma guerra nuclear, está enganado.  Há milhares de pessoas no mundo que controlam diferentes arsenais nucleares que podem independentemente iniciarem uma guerra nuclear. Milhares.

Como diz Caitlin Johnstone, “a arrogância de se acreditar que qualquer um pode controlar ao longo de anos este mecanismo de segurança, é espantosa.”

 

um estudo publicado na Earth’s Future que diz que basta uma detonação de 100 ogivas nucleares para que a escuridão provocada bloquei o sol por décadas, impedindo a fotossíntese das plantas. Quem não morrer pelas radiações, ou pela alteração do clima, morrerá de fome. A China tem centenas de armas nucleares, e a Rússia e os EUA têm milhares cada um.

As pessoas, mesmos as mais informadas, rapidamente se esqueceram que sobreviveram à crise dos mísseis em Cuba por uma pura sorte! Têm sido treinadas para isso, estão e continuam a serem treinadas para esquecerem, ignorarem.

Algumas são mesmo fanáticas de uma guerra nuclear como solução. E elas existem em todos as nações, de militares a civis, em cargos de responsabilidade. Como é, por exemplo, o caso do senador pelo Mississípi Roger Wicker, que faz parte da Comissão da Defesa, que numa recente (7 dezembro 2021) entrevista à Fox News entendia que no confronto com a Rússia na Ucrânia “não punha de parte a utilização dos soldados americanos em terra”, e que os EUA deviam considerar “o uso preventivo de uma ação nuclear”.

Contribuem certamente para estas convicções do senador, os estudos de organizações como o Pentágono que entendem ser possível ganhar uma guerra nuclear limitada.

Trata-se de um espírito de guerra sem sentido, mas enraizado. O próprio general Lloyd Austin, atual ministro da defesa, referia-se à Rússia como União Soviética: “No melhor cenário não veremos qualquer incursão da União Soviética  na Ucrânia”.

Estas mentalidades que propõem e não exitam em usar a guerra nuclear como forma de resolver conflitos, existem em qualquer das nações que detêm armamento nuclear. São milhares de botões prontos a serem carregados à sua disposição!

No caso americano, todos estes atos de intimidação, de propaganda, possíveis de se transformarem em ações militares concretas que podem ir até à guerra nuclear, estão iminentemente sempre ligados à manutenção da hegemonia unipolar, ou seja, ao domínio planetário sem oposição.

Esta é também a razão por detrás do que se vem passando com a China. Não tem nada a ver com a Ucrânia ou com Taiwan ou com os direitos humanos em Xinjiang, mas com o facto de a China ser a leader de um bloco em ascensão que não segue as políticas de submissão exigidas por Washington, ameaçando assim a hegemonia americana.

 

O que é exatamente a ‘Ameaça Chinesa’? A ‘Ameaça Chinesa’ é a existência da China. Os EUA não toleram a existência de um estado que não possa ser intimidade da mesma forma como a Europa é, que não siga as ordens dos EUA como a Europa faz, mas que mantenha antes o seu próprio caminho. E isso é uma ameaça”, Noam Chomsky para a Democracy Now.

 

Quando o declínio de um império coincide com uma doutrina imperial que afirma que se deve manter a dominação planetária seja porque meios for, e quando aparecem senadores do país na televisão nacional a falarem sobre a possibilidade de se lançar um ataque nuclear sem aviso à Rússia, o mundo está de certeza muito menos seguro.

 

 

 

 

 

A consultar:

The Coming War on China”, documentário de John Pilger no YouTube (https://www.youtube.com/watch?v=vAfeYMONj9E).

“O futuro da civilização humana”, 31 de julho de 2019 (https://otempoemquevivemosotempoemquevivemos.blogs.sapo.pt/226-o-futuro-da-civilizacao-humana-59419).

“O Antropoceno: de apagão em apagão”, 19 de fevereiro de 2020 (https://otempoemquevivemosotempoemquevivemos.blogs.sapo.pt/255-antropoceno-de-apagao-em-apagao-67702).

“Dois minutos para a meia-noite”, 06 de março de 2019 (https://otempoemquevivemosotempoemquevivemos.blogs.sapo.pt/205-dois-minutos-para-a-meia-noite-54195).

 

 

 

 

 

(349) Satíricon à americana

Tempo estimado de leitura: 11 minutos.

 

 Alguns são culpados, mas todos são responsáveis, Abraham Joshua Heschel.

 

Neste mundo degradado, meninas e mulheres são presas fáceis para chulos, pedófilos e violadores como Epstein e os seus cúmplices,

 

Uma classe dominante licenciosa, encharcada de dinheiro, moralmente falida e intelectualmente vazia, sem prestar contas a ninguém e livre para pilhar e atacar os fracos como abutres humanos, chega ao poder em sociedades em declínio terminal.

 

Epstein aparentemente disse a alguns dos membros de seu círculo científico que queria inseminar mulheres com o seu esperma para que dessem à luz os seus bebés, e que queria que a sua cabeça e o seu pénis fossem congelados.

 

 

 

 

 

Aqui deixo a tradução integral do artigo que Chris Hedges escreveu para o ScheerPost a 6 de dezembro de 2021, com o título “Hedges: American Satyricon”.

Chris Hedges é um jornalista vencedor do Prémio Pulitzer, foi correspondente no estrangeiro durante quinze anos para o The New York Times, onde atuou como Chefe do Escritório do Médio Oriente e Chefe do Escritório dos Balcãs. Anteriormente, trabalhou no exterior para o The Dallas Morning News, The Christian Science Monitor e NPR. Ele é o apresentador do programa indicado ao Emmy RT, America On Contact.

 

 

American Satyricon

 

O julgamento de Ghislaine Maxwell, que começou esta semana em Manhattan, não responsabilizará os homens poderosos e ricos que também são cúmplices de agressões sexuais de miúdas de 12 anos que Maxwell supostamente contratou para o bilionário Jeffrey Epstein.

 

Donald Trump, Bill Clinton, Bill Gates, o bilionário do fundo de risco Glenn Dubin, o ex-governador do Novo México Bill Richardson, o ex-secretário do Tesouro e o ex-presidente de Harvard Larry Summers, Stephen Pinker, o príncipe Andrew, Alan Dershowitz, o bilionário CEO da Victoria's Secret Les Wexner, o banqueiro do JP Morgan Jes Staley, o ex-primeiro-ministro israelense Ehud Barack, o magnata do mercado imobiliário Mort Zuckerman, o ex-senador do Maine George Mitchell, Harvey Weinstein e muitos outros que estavam pelo menos presentes e provavelmente participaram dos Bacanais perpétuos de Epstein, não estão no tribunal.

Os escritórios de advocacia e advogados caros, promotores federais e estaduais, investigadores privados, assistentes pessoais, publicitários, funcionários, motoristas e vários outros procuradores, às vezes mulheres, que tornaram os crimes de Epstein possíveis, não estão a serem investigados. Aqueles que nos mídia, na arena política e na indústria do entretenimento que agressivamente e muitas vezes cruelmente fecharam e desacreditaram as poucas vozes, incluindo as de um punhado de repórteres intrépidos, que procuraram iluminar os crimes cometidos por Epstein e seu círculo de cúmplices não estão no tribunal.

Os vídeos que Epstein aparentemente gravou dos seus convidados envolvidos em aventuras sexuais com garotas adolescentes e menores de idade com as câmaras que ele instalou nas suas residências opulentas e na sua ilha particular desapareceram misteriosamente, muito provavelmente no buraco negro do FBI, junto com outras evidências cruciais.

A morte de Epstein numa cela de prisão de Nova York, embora oficialmente considerada suicídio, é, aos olhos de muitos investigadores confiáveis, um assassinato. Com Epstein morto e Maxwell sacrificada, os oligarcas governantes mais uma vez escaparão da justiça.

 

O caso Epstein é importante porque, por mais que esteja sendo encoberto, é uma janela para o flagelo da violência masculina que explode em culturas decadentes, alimentada por disparidades cada vez maiores de rendimento, pelo colapso do contrato social e pelo grotesco direito que acompanha as celebridades, poder político e riqueza.

Quando uma elite governante perverte todas as instituições, incluindo os tribunais, em instrumentos que servem apenas para os interesses exclusivos dos titulares, quando deliberadamente negligência e abandona segmentos cada vez maiores da população, as raparigas e as mulheres são sempre as que sofrem desproporcionalmente.

A luta por salários iguais, distribuição igual de riqueza e recursos, acesso ao bem-estar, assistência jurídica que oferece proteção adequada perante a lei, serviços sociais, treinamento profissional, saúde e serviços de educação, foram tão degradados que quase não existem para os pobres, especialmente para as raparigas e mulheres pobres.

 

As mulheres, tradicionalmente sobrecarregadas com o cuidado das crianças, idosos e enfermos, privadas do controle sobre seus próprios corpos em estados que buscam negar os direitos reprodutivos, estão encurraladas, incapazes de ganhar a vida e garantir proteção legal. Este é sempre o objetivo do patriarcado. E neste mundo degradado, meninas e mulheres são presas fáceis para chulos, pedófilos e violadores como Epstein e os seus cúmplices. Esses homens olham para as suas vítimas não como crianças ou jovens em perigo, mas como lixo humano, não mais digno de consideração do que um escravo, o que de facto muitas dessas meninas e mulheres se tornam.

 

Uma classe dominante licenciosa, encharcada de dinheiro, moralmente falida e intelectualmente vazia, sem prestar contas a ninguém e livre para pilhar e atacar os fracos como abutres humanos, chega ao poder em sociedades em declínio terminal. Essa classe de parasitas foi parodiada de forma selvagem no romance satírico do primeiro século “Satíricon” de Gaius Petronius, escrito durante o reinado de Nero.

Epstein e os seus companheiros envolveram-se durante anos em perversões sexuais de proporções petronianas, como a repórter investigativa Julie Brown do Miami Herald, cujo jornalismo obstinado foi amplamente responsável por reabrir a investigação federal sobre Epstein e Maxwell, documentou no seu livro Perversão da Justiça: a História de The Jeffrey Epstein.

 

Como escreve Brown, em 2016 uma mulher anónima, usando o pseudónimo de "Kate Johnson", entrou com uma ação civil no tribunal federal na Califórnia, alegando que ela fora violada por Trump e Epstein quando tinha treze anos durante um período de quatro meses de junho a setembro de 1994. "Eu implorei em voz alta a Trump para parar", disse ela no processo sobre ter sido violada por Trump. "Trump respondeu aos meus apelos batendo-me violentamente no rosto com a mão aberta e gritando que poderia fazer o que quisesse." Brown escreve:

 

Johnson disse que Epstein a convidou para uma série de “festas sexuais de menores” na sua mansão em Nova York, onde ela conheceu Trump. Seduzida por promessas de dinheiro e oportunidades de modelo, Johnson disse que foi forçada a fazer sexo com Trump várias vezes, incluindo uma vez com outra garota, de 12 anos, que ela rotulou de "Marie Doe".

Trump exigiu sexo oral, diz o processo, e depois ele "afastou ambos os menores enquanto os repreendia com raiva pela 'má' qualidade do desempenho sexual", de acordo com o processo, aberto em 26 de abril no Tribunal Distrital dos Estados Unidos na Califórnia Central.

Depois, quando Epstein soube que Trump tinha tirado a virgindade de Johnson, Epstein supostamente "tentou bater na cabeça dela com os punhos fechados", com raiva por não ter sido o único a tirar sua virgindade. Johnson alegou que ambos os homens ameaçaram machucá-la e à sua família, se ela alguma vez revelasse o que havia acontecido.”

 

O processo afirma que Trump não participou das orgias de Epstein, mas gostava de assistir, muitas vezes enquanto "Kate Johnson", de treze anos, lhe batia uma punheta. Parece que Trump foi capaz de anular o processo comprando o seu silêncio. Entretanto ela já desapareceu.

 

Estas mediocridades, embriagadas com sua própria autoimportância, equiparam celebridade, poder e riqueza com sabedoria. O Trimalchio de Petronius, o arquetípico milionário que se fez sozinho, cuja vulgaridade e estupidez o tornam um dos grandes bufões cômicos da literatura, foi mais do que igualado por Epstein, que organizou jantares pretensiosos para aqueles do seu clube secreto de bilionários, que incluía Elon Musk, Bill Gates, Salar Kamangar e Jeff Bezos.

Epstein e os seus convidados, como no capítulo de Petronius, "Jantar com Trimalchio", criaram esquemas bizarros de engenharia social, incluindo o plano de Epstein para semear a espécie humana com seu próprio DNA, criando um posto infantil na sua extensa propriedade no Novo México. “Epstein também era obcecado pela criónica, a filosofia transumanista cujos seguidores acreditam que as pessoas podem ser reproduzidas ou trazidas de volta à vida depois de congeladas”, escreve Brown. “Epstein aparentemente disse a alguns dos membros de seu círculo científico que queria inseminar mulheres com o seu esperma para que dessem à luz os seus bebês, e que queria que a sua cabeça e o seu pénis fossem congelados”.

 

Epstein, que regularmente entretinha e financiava o trabalho do corpo docente de Harvard, foi nomeado bolsista visitante no Departamento de Psicologia de Harvard, embora não tivesse qualificações académicas que o tornassem elegível para o cargo. Recebeu um cartão-chave e uma senha, bem como um escritório, no prédio que abrigava o Programa de Dinâmica Evolucionária de Harvard. Ele referia-se a si mesmo nos seus comunicados à imprensa como "Science Philanthropist Jeffrey Epstein", "Education ativist Jeffrey Epstein", "Evolutionary Jeffrey Epstein", "Science patron Jeffrey Epstein" e "Maverick hedge fundder Jeffrey Epstein".

 

O sistema judicial, durante anos, trabalhou para proteger Epstein. As anomalias legais, incluindo o desaparecimento de grandes quantidades de provas incriminatórias de Epstein, fizeram com que Epstein evitasse acusações federais de tráfico sexual em 2007, quando os seus advogados negociaram no gabinete do procurador dos EUA em Miami um acordo secreto com Alex Acosta para se declarar culpado de acusações estaduais de solicitar um menor para a prostituição.

 

Os homens proeminentes acusados ​​de também se envolverem no carnaval de pedofilia de Epstein, incluindo o advogado e ex-professor de direito de Harvard Alan Dershowitz, mentem descaradamente e ameaçam qualquer um que ouse denunciá-los. Dershowitz, por exemplo, afirma que uma investigação, que ele se recusou a tornar pública, pelo ex-diretor do FBI Louis Freeh, prova que ele nunca teve relações sexuais com uma das vítimas de Epstein, Virginia Giuffre. Ele enviou ameaças repetidas a Brown e aos seus editores no Miami Herald. Brown continua:

 

 “[Dershowitz] sempre se referia a informações contidas em documentos selados. Ele acusou o jornal de não divulgar “factos” que disse estarem nesses documentos selados. A verdade é que, tentei explicar, os jornais simplesmente não podem escrever sobre as coisas só porque Alan Dershowitz diz que elas existem. Precisamos de os ver. Precisamos de os verificar. Então, só porque eu disse “mostre-me o material”, ele acusou-me publicamente de cometer um ato criminoso, ao pedir-lhe que apresentasse documentos que estavam sob sigilo judicial.

É assim que Dershowitz opera.

O que mais me perturba em Dershowitz é a maneira como os mídia, com poucas exceções, se abstém de o desafiar criticamente. Os jornalistas verificavam Donald Trump e outros da sua administração quase todos os dias, mas, na maior parte, os mídia parecem dar a Dershowitz uma borla na história de Epstein.

Em 2015, quando as alegações de Giuffre se tornaram públicas, Dershowitz apareceu em todos os programas de televisão jurando, entre outras coisas, que os registros do avião de Epstein o exonerariam. "Como é que você sabe disso?" perguntaram-lhe.

Ele respondeu que nunca estava no avião de Epstein durante a altura em que Virginia esteve envolvida com Epstein.

Mas se os mídia tivessem verificado, poderiam ter descoberto que ele constava de facto como passageiro do avião durante aquele período de tempo, de acordo com os registros.

Em seguida, ele testemunhou, num depoimento juramentado, que nunca fez nenhuma viagem de avião sem a sua esposa. Mas ele apareceu nos manifestos de passageiros como tendo viajado várias vezes sem a sua esposa. Durante pelo menos uma viagem, ele estava no avião com uma modelo chamada Tatiana.”

 

A capacidade dos poderosos em ignorar a lei, levanta questões importantes e diferentes para raparigas e mulheres sobre o papel do governo, da polícia e da lei. Retirar fundos à polícia não é uma solução. Desmilitarizar a polícia é. As mulheres precisam de proteção legal e precisam de uma polícia que funcione como polícia, como uma sanção com graves consequências contra a violência masculina.

Elas precisam de apoio social. Elas precisam de instituições robustas, incluindo tribunais, que as impeçam de serem chantageadas, intimidadas e abusadas. Desafiar a violência sexual, desafiar a objetificação, desafiar a hipersexualização cultural das mulheres, é estar sujeito a assassinatos de caráter, a ameaças, incluindo a ameaça de violação, e às vezes de morte. Levantar-se para proteger a água, para ajudar quem diz a verdade, se você for uma mulher, é enfrentar uma potencial miséria econômica. Levantar-se e nomear o seu agressor, como fizeram muitas das mulheres corajosas que se apresentaram no caso Epstein, é fazer com que equipes caras de advogados e investigadores particulares busquem todas as vias para a demonizar, desacreditar e destrui-la financeira e psicologicamente. Os recursos disponíveis para os poderosos, e a escassez de recursos disponíveis para os sem poder, inclina esta luta para o lado dos predadores. É assim por desígnio.

 

A luta pela libertação e justiça para as mulheres é central para a luta pela libertação e justiça para todos. Não iremos resistir ao mal radical que está diante de nós sem mulheres, se nos for negado o acesso às ideias e liderança das mulheres, e em particular das mulheres de cor. Portanto, embora devamos condenar a violência e a exploração contra todos os oprimidos, devemos também reconhecer que a violência masculina contra as mulheres - incluindo a prostituição e seu promotor, a pornografia - é uma forma especialmente traiçoeira de violência.

É uma ferramenta de dominação corporativa e do capitalismo. Está enraizado no racismo e na exploração do imperialismo e do colonialismo. Mas também existe fora das estruturas do capitalismo, imperialismo e colonialismo. Mais mulheres foram mortas pelos seus parceiros domésticos desde 2001 do que todos os americanos mortos no 11 de setembro e nas guerras no Iraque e no Afeganistão. O poder masculino predatório infecta tanto a esquerda como a direita, tanto os anticapitalistas quanto os capitalistas, os anti-imperialistas assim como os imperialistas e os antirracistas assim como os racistas. É o seu próprio mal. E se não for derrotado não haverá justiça para as mulheres ou para qualquer outra pessoa.

 

Os predadores sabem que o desespero obriga as raparigas e as mulheres, sem alternativas, a trocar sexo pelos produtos básicos da vida, incluindo comida e abrigo. Em todos os conflitos que cobri como correspondente de guerra, houve uma explosão de raparigas e mulheres prostituídas. E como estamos sobrecarregados com um número cada vez maior de migrantes ambientais - mais de um bilhão em 2050, segundo uma previsão - fugindo de secas, aumento do nível do mar, inundações, incêndios florestais e queda na produção de safras, essas trocas de sexo pelos elementos mais básicos que precisam para sobreviver, tornar-se-á mais comum. O flagelo da violência masculina está a crescer, não diminuindo.

 

 George Bernard Shaw acertou. Pobreza é:

 

    “[O] pior dos crimes. Todos os outros crimes são virtudes ao lado dela; todas as outras desonras são cavalheirescas em comparação. A pobreza destrói cidades inteiras, espalha horríveis pestes, mata as próprias almas de todos os que podem vê-la, ouvi-la ou cheirá-la. O que você chama de crime não é nada: um assassinato aqui e um roubo ali, um golpe agora e uma maldição depois. Que importância têm? Eles são apenas os acidentes e doenças da vida; não há cinquenta criminosos profissionais genuínos em Londres. Mas existem milhões de pessoas pobres, pessoas abjetas, pessoas sujas, pessoas mal alimentadas e malvestidas. Eles nos envenenam moral e fisicamente; eles matam a felicidade da sociedade; eles forçam-nos a acabar com as nossas próprias liberdades e a organizar crueldades antinaturais, por medo que se levantem contra nós e nos arrastem para o seu abismo. Só os tolos temem o crime; todos nós tememos a pobreza. ”

 

O rabino Abraham Joshua Heschel disse da sociedade que “alguns são culpados, mas todos são responsáveis”. O crime de pobreza é um crime comunitário. O nosso fracasso, como a nação mais rica do planeta, em fornecer comunidades seguras e saudáveis, onde todas as crianças tenham o suficiente para comer e um futuro, é um crime comunitário. O nosso fracasso em fornecer a todos, especialmente aos pobres, uma boa educação e moradia é um crime comum. O nosso fracasso em tornar os cuidados de saúde um direito humano, forçando os pais, sobrecarregados com contas médicas astronómicas, a falir para salvar os seus filhos ou filhas doentes, é um crime comum. O nosso fracasso em fornecer um trabalho significativo - em resumo, a possibilidade de esperança - é um crime comum. A nossa decisão de militarizar as forças policiais e construir prisões, em vez de investir nas pessoas, é um crime comum. O nosso fracasso em proteger as raparigas e as mulheres é um crime comum.

A crença equivocada na caridade e na filantropia, em vez da justiça, é um crime comunitário. “Vocês, cristãos, têm interesse em estruturas injustas que produzem vítimas, às quais podem abrir seus corações em caridade”, disse Karl Marx, zurzindo um grupo de líderes religiosos.

 

Se não trabalharmos para eliminar as causas da pobreza, o maior de todos os crimes, as estruturas institucionais que mantêm os pobres pobres, então somos os responsáveis. Existem questões de moralidade pessoal e são importantes, mas não significam nada sem um compromisso com a moralidade social. Somente aqueles que estiveram lá realmente entendem. Somente aqueles com integridade e coragem falam a verdade. E na vanguarda dessa luta estão as mulheres.

 

O sadismo sexual é alimentado pelo direito dos poderosos e por uma indústria da pornografia que erotiza imagens de raparigas e mulheres sendo abusadas fisicamente. Não é por acaso que muitas das imagens de Abu Ghraib se assemelham a fotos de filmes pornográficos. Há uma foto de um homem nu ajoelhado na frente de outro homem como se estivesse a fazer sexo oral. Há uma foto de um homem nu com uma coleira ao pescoço coleira, segurado por uma soldado americana. Existem fotos de homens nus acorrentados. Há fotos de homens nus empilhados uns em cima de outros numa pilha no chão. E há centenas de outras fotos confidenciais que supostamente mostram a masturbação forçada por prisioneiros iraquianos e o estupro de prisioneiros, incluindo meninos, por soldados americanos, muitos dos quais foram treinados nessas técnicas de tortura no nosso vasto sistema de encarceramento em massa.

 

A lista de suspeitos de abuso em torno de Epstein não foi segregada pela esquerda ou pela direita. Incluía republicanos, como Trump, e democratas, como Clinton. Incluía filantropos como Gates, o ex-primeiro-ministro de Israel, e acadêmicos de Harvard. Incluía celebridades, como David Copperfield, e os titãs das finanças e dos negócios. O denominador comum não era política ou ideologia, mas que eles eram homens poderosos e ricos.

 

A feminista Andrea Dworkin entendeu. Ela criticou a esquerda, que protestou contra os excessos do capitalismo, enquanto ignorava a exploração capitalista de raparigas e mulheres. Ela escreveu:

 

 “O capitalismo não é mau ou cruel quando a mercadoria é a prostituta; o lucro não é perverso ou cruel quando o trabalhador alienado é um pedaço de carne feminino; sugar sangue corporativo não é perverso ou cruel quando as corporações em questão, sindicatos do crime organizado, vendem cona; o racismo não é perverso ou cruel quando a cona preta ou amarela ou vermelha ou hispânica ou judia tem as pernas abertas para o prazer de qualquer homem; a pobreza não é má nem cruel quando é a pobreza das mulheres despossuídas que só têm a si mesmas para vender; a violência dos poderosos contra os impotentes não é perversa ou cruel quando é chamada de sexo; a escravidão não é má ou cruel quando é sexual; a tortura não é perversa ou cruel quando as atormentadas são mulheres, prostitutas, conas. A nova pornografia é de esquerda; e a nova pornografia é um vasto cemitério onde a esquerda foi para morrer. A esquerda não pode ter as suas prostitutas e também a sua política.”

 

A Terra e todas as formas de vida neste planeta devem ser reverenciadas e protegidas se quisermos perdurar como espécie. Isso significa inculcar uma visão diferente da sociedade humana. Significa construir um mundo onde a dominação e a exploração incessante, em todas as suas formas, sejam condenadas, onde a empatia, especialmente pelos fracos e pelos vulneráveis, seja tida como a maior virtude. Significa recuperar a capacidade de temor e reverência pelas fontes sagradas que sustentam a vida. Isso significa que raparigas e mulheres devem ter o poder de controlar os seus próprios destinos. Uma vez que defendemos essa ética de vida, uma vez que incluímos todas as pessoas, incluindo raparigas e mulheres, como parte integrante dessa ética, podemos construir um movimento de resistência bem-sucedido que pode desafiar o mal radical que está diante de nós. Mas não podemos fazer isso a menos que metade da população humana, raparigas e mulheres, esteja ao nosso lado. A luta delas é a nossa luta. A sua justiça é a nossa justiça. Uma vez que elas estejam livres, todos nós podemos ser livres.

 

 

 

 

348) Nunca mais chega 2050

Tempo estimado de leitura: 5 minutos.

 

Os seres humanos criam problemas que não conseguem compreender e/ou resolver.

 

A vida começa aos cinquenta, é verdade, desde que ela acabe aos quarenta, M. Houellebecq.

 

“Precário” é aquele que é mantido por favor e à medida dos gostos de outro, ou seja, incerto, Z. Bauman.

 

Em 2050 teremos uma nova classe de pessoas, as que não têm qualquer utilidade. Pessoas que não são apenas desempregadas, são mesmo não empregáveis, Yuval Harari.

 

 

 

 

 

 

Um sistema não pode ser simultaneamente consistente e completo. Se ele for consistente com os seus próprios princípios, aparecem problemas que ele não conseguir resolver. E se os tentar resolver, só o poderá fazer através da inconsistência das suas assunções de base.

Este é em síntese o célebre Teorema de Gödel. Ou seja, o que Gödel demonstrou matematicamente foi que os seres humanos criam problemas que não conseguem compreender e/ou resolver. Confrontado com esses problemas, a lógica humana arrisca-se a naufragar.

 

 

Esquematicamente, a tentativa de compreensão e resolução desses problemas poderá conduzir a um confronto entre duas posições impossíveis de reconciliar, a uma ‘dissonância cognitiva’, doença que normalmente conduz ao fundamentalismo religioso ou ao fundamentalismo científico.

Pelo fundamentalismo religioso faz-se com que o código moral fique imune à interferência humana, blindando as fontes alternativas de moralidade. Ou seja, incapazes de resolvermos os problemas que criámos que não conseguimos compreender, retiramo-los do quadro da razão e transportamo-los para uma região do conhecimento inacessível ao homem.

Pelo fundamentalismo científico introduz-se o medo através da incerteza permanente (há sempre mais perguntas a fazer, mais problemas para resolver). No entanto, é bom notar que o potencial criativo da ciência repousa no seu poder de crítica e refutação, e não no poder das suas provas.

 

Com o problema do desemprego sempre presente, nomeadamente agravado para as pessoas com mais de quarenta anos, há quem sugira que talvez o melhor fosse começar a receber a reforma mais cedo, aos quarenta anos.

Recordei-me de uma ideia básica, parva e utópica da minha juventude para alterar o esquema habitual em que se começa a trabalhar aos vinte anos, trabalha-se depois quarenta anos seguidos e reforma-se aos sessenta.

Em vez disso, apresentávamo-nos para trabalhar aos vinte anos, no dia seguinte entrávamos na reforma que receberíamos até aos cinquenta, e só depois começaríamos a trabalhar até morrermos. As contas bateriam certas na mesma e todos seríamos igualmente mais ou menos felizes.

 

É o sociólogo Z. Bauman que vai considerar a sociedade atual, quando comparada com a sociedade industrial que a precedeu, como sendo uma sociedade “líquida”, conforme nos explica no seu livro Tempos Líquidos, Vivendo numa Idade de Incerteza: vivemos numa sociedade em que as formações sociais e as instituições não dispõem de tempo suficiente para solidificarem por forma a poderem servir de referenciais para as ações humanas e para um planeamento a longo prazo, o que nos força a encontrar outras formas de organizarmos as nossas vidas.

Vamo-nos dividindo por um sem número de projetos de curta duração sem qualquer plano coerente, deixando de lado qualquer tipo de ambição como, por exemplo, a de “carreira” ou “progressão”.

Vidas fragmentadas que vão obrigar os indivíduos a serem flexíveis, adaptáveis, constantemente prontos e a quererem a mudança sem aviso prévio, abandonando compromissos e lealdades sem qualquer remorso, na procura de uma oportunidade.

Em substituição do proletariado e da classe média, estes tempos líquidos conduzem ao aparecimento de uma nova formação social, mais desintegrada, pulverizada e atomizada que o proletariado, vivendo numa incerteza existencial, numa mistura de ignorância, impotência e humilhação: o “precariato”.

“Precário”, é aquele que é mantido por favor e à medida do gosto de outro, ou seja, incerto.

E, contudo, este sofrimento não os une, pelo contrário, divide-os. Têm inveja ou medo uns dos outros. Poucos são os que respeitam os outros que são como eles.

O progresso, que era uma manifestação radical de otimismo, uma promessa de felicidade duradoura universal, passou a ser o oposto. Hoje, o progresso é sinónimo de um caminho ao qual não podemos escapar, sempre a atravessar uma crise contínua, onde não se pode ter qualquer momento de descanso.

 

E quando parecia que tudo isto já estava tranquilo (submisso) e integrado, que até já se aceitava este estado das coisas como fazendo parte do progresso, eis que aparece o filósofo Yuval Noah Harari a apontar-nos para o aparecimento futuro de uma nova classe, “não já a dos desempregados, mas a dos não empregáveis”.

Segundo Harari, a inteligência artificial ao ir substituindo cada vez mais os humanos no desempenho dos seus empregos, fará também aparecer um certo número de novas profissões que requerem maior criatividade e flexibilidade, pelo que se tornará muito difícil a adaptação dos desempregados substituídos a estas novas profissões.

Ou seja, o problema não será o de criar novos empregos, mas o de criar novos empregos que os humanos consigam desempenhar melhor que os algoritmos.

O que vai fazer que lá para 2050 irá surgir uma nova classe de pessoas, as que não têm qualquer utilidade: “Pessoas que não são apenas desempregadas, mas que são não empregáveis”.

 

Pode até acontecer que a tecnologia que venha a colocar os humanos como dispensáveis seja a mesma que venha a contribuir para os sustentar através do chamado rendimento básico universal.

Resolvido o problema do sustento, resta o outro: como manter essas multidões ocupadas e contentes ao longo dos dias em que nada fazem?

 Nada melhor que dar-lhes jogos, “pão e circo”, realidade virtual total, e é já para aí que aponta o Facebook, agora Meta, com o seu metaverso.

 

Para Harari, esta é a solução que vem sendo seguida desde sempre. Ao longo de milhares de anos, biliões de pessoas encontraram significado em jogos de realidade virtual: nas “religiões”.

As religiões inventaram leis que existem apenas na imaginação dos homens. Nenhuma lei natural exige a repetição de fórmulas mágicas (“repetir as mesmas orações um certo número de vezes ao dia”) ou proíbe comer-se porco ou vaca.

Muçulmanos e Cristãos passam a vida a tentarem ganhar pontos no seu jogo de realidade virtual favorito. Se orar todos os dias, ganham-se pontos. Se se esquecer de orar, perdem-se pontos. Se no fim da vida tiver obtido pontos suficientes, então depois de morrer passa para o próximo nível”.

 

Atualmente, com os smartphones é possível procurarem-se Pokémones por todo o lado, e encontrá-los. Basta que tenham um smartphone, e o jogo é exatamente o mesmo.

Mas atenção, não é só através dos smartbooks, os livros inteligentes tais como a Bíblia e o Corão, que se veem lugares santos e anjos. O consumismo é também um jogo de realidade virtual. Ganham-se pontos comprando carros novos, comprando marcas particularmente caras, fazendo viagens para o estrangeiro: se conseguir mais pontos que todos os outros, convence-se a si próprio que ganhou o jogo.

 

O curioso é que as pessoas gostam mesmo dos seus carros e das suas férias. E que os religiosos têm mesmo prazer em orar e nas suas cerimónias. E os miúdos em apanharem os Pokémon. Na realidade, tudo se passa no cérebro humano. Que interessa se os neurónios são estimulados pela observação dos pixéis de um computador, por olhar para fora através de uma janela nas Caraíbas, ou por ver o céu no seu espírito? O significado que atribuímos ao que vemos está na nossa mente. Não está “lá fora”.

Pelo que sabemos, a vida humana não tem significado. O significado da vida é sempre uma história ficcionada criada pelos próprios humanos.

 

Que em 2050 a maior parte das pessoas vivam mais imersas em complexos jogos de realidade virtual, nos seus mundos, perseguindo objetivos em que acreditam, obedecendo a leis imaginárias, preocupa-nos? Qual será a verdade? Qual é a realidade?

Harari responde pragmaticamente:

 

Bem, gostando-se ou não, é num mundo como esse que temos estado a viver durante milhares de anos”.

 

Mas a definição mais abrangente e sintética do que são os tempos em que vivemos e dos que se lhes seguem, continua a pertencer ao escritor M. Houellebecq, que, com o seu pensamento convenientemente classificado como sendo distópico, nos faz notar que:

 

A vida começa aos cinquenta, é verdade, desde que ela acabe aos quarenta.”

 

 

 

Leitura recomendada:

“A distopia do presente”, 04 de julho de 2015 (https://otempoemquevivemosotempoemquevivemos.blogs.sapo.pt/a-distopia-do-presente-2547).

“A vida é o preço que pagamos pela sobrevivência”, 19 de agosto de 2015 (https://otempoemquevivemosotempoemquevivemos.blogs.sapo.pt/a-vida-e-o-preco-que-pagamos-pela-4663).

“O perigo dos equívocos da técnica moderna”, 13 de julho de 2016, (https://otempoemquevivemosotempoemquevivemos.blogs.sapo.pt/o-perigo-dos-equivocos-da-tecnica-18131).

“Os últimos dos homens”, 07 de dezembro de 2016 (https://otempoemquevivemosotempoemquevivemos.blogs.sapo.pt/os-ultimos-dos-homens-24283)

 

 

 

 

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