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Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

(347) “Separados, mas iguais!”

Tempo estimado de leitura: 5 minutos.

 

Segundo a tradição, sempre que a humanidade, representada pelo povo eleito, se desviava muito dos seus fins (a criação do reino de Deus na Terra), Deus intervinha para nos pôr no caminho certo.

 

Podemos ter democracia ou podemos ter riqueza concentrada em poucas mãos, mas não podemos ter ambas as coisas”, Louis Brandeis, Juiz do Supremo Tribunal Americano.

 

A ‘liberdade de escolha’ erigida como direito fundamental poderá vir a dar origem à destruição da liberdade de todos, sempre em nome da proteção aos direitos individuais.

 

 

 

Muito recentemente, a chefe do grupo parlamentar do PS, Ana Catarina Mendes, escreveu no The Guardian um artigo em que procurava justificar a legislação aprovada pelo Parlamento sobre a  regulamentação do teletrabalho,  e com a qual se tentava impedir que os empregadores pudessem contactar os empregados em casa fora dos horários fixados.

 O artigo quase que surgiu como resposta a uma muito infeliz conversa/reportagem/opinião/entretenimento do apresentador do The Daily Show, para o qual a medida aprovada é mostrada como um primeiro exemplo que a ser seguido poderia levar a uma diminuição das horas de trabalho, e do próprio trabalho, numa altura em que ele tanto se torna necessário para a ‘recuperação económica’. Felizmente para o mundo, como ele diz, Portugal não produz nada. Riam-se todos.

No seu escrito, Mendes refere especificamente o seguinte pensamento do padre francês Henri Dominique Lacordaire (século XIX):

 

Entre o forte e o fraco, entre o rico e o pobre, entre o senhor e o escravo, é a liberdade que oprime e a lei que liberta”.

 

Segundo a tradição, sempre que a humanidade, representada pelo povo eleito, se desviava muito dos seus fins (a criação do reino de Deus na Terra), Deus intervinha para nos pôr no caminho certo. Começou desde logo a Sua intervenção com a criação, primeiro (evidentemente) a do homem e depois a da mulher, a que se seguiu o aviso meteorológico a Noé, a destruição de Sodoma e Gomorra, a entrega das pedras dos Mandamentos, e finalmente com a colocação do Seu Filho na Terra, para desgosto do povo eleito.

 

Muitas foram as interrogações e as querelas relacionadas com estas intervenções: sendo Deus tão perfeito, para que precisava de ter criado o homem? Sentia-Se sozinho? Sendo o universo infinito e criação Sua, para quê preocupar-Se com o homem? Sabendo tudo o que iria acontecer, porque não o criou de forma a impedir os seus desvios? Qual o Seu grau de preocupação com o homem? Quando intervém? Porque teve de mandar o Seu Filho à Terra?

 

Interrogações como estas, e muitas outras, deram origem a diversas interpretações, heterodoxias, religiões, filosofias, muitas guerras e muitas atrocidades. De certa forma todas elas tinham, contudo, em comum a crença na existência de um Poder superior, que de certa maneira estaria atento ao que se passava cá em baixo, pronto a intervir, muito embora não se soubesse quando, até porque os desígnios do Senhor são insondáveis e não compreensíveis pelas nossas mentes limitadas. Não é possível ao limitado compreender o ilimitado. Há que ter fé.

 

Como a intervenção divina foi sendo, para além dos casos citados, cada vez mais escassa, esparsa e avulsa, limitando-se a pequenas intervenções localizadas, tal fez com que no início da Idade Moderna os povos se julgassem abandonados e entregues a si próprios.

 Os povos viram-se forçados a preencher esse vazio, substituindo a fé numa intervenção divina por regulamentos normativos, e a insegurança existencial pelo estado de direito, tentando garantir a todos os membros da sociedade uma segurança contra os riscos de vida, protegendo ainda individualmente todos aqueles que fossem menos afortunados.

 A Revolução Americana e a Revolução Francesa fizeram parte desse enorme esforço no sentido de construir laços de união entre os seres humanos, lançando as bases para uma solidariedade social.

Devido às enormes conquistas territoriais e ao aparecimento da indústria para as massas, tornou-se necessário, em nome desses ‘interesses vitais’ da sociedade, a criação de um ‘exército de reserva’ de soldados e trabalhadores que pudessem garantir sempre que necessário o funcionamento sem sobressaltos desses sistemas.

 Bismarck (1815 – 1898) na Alemanha e Lloyd-George (1863 – 1915) na Inglaterra, favoreceram a solução que iria permitir que os soldados na reserva e os trabalhadores desempregados pudessem vir a serem rapidamente reintegrados, quer nas fábricas quer nos exércitos.

 A solução passava pelo pagamento de uma pequena contribuição que permitiria aos trabalhadores e soldados fora de serviço não passarem fome, mantendo-se regulamente alimentados, de boa saúde, e viverem em condições minimamente decentes. Foi assim que se deu o aparecimento do ‘estado social’, que até hoje, em maior ou menor escala, ainda se encontra presente nas sociedades humanas desenvolvidas.

 

Um estado é ‘social’ quando promove o princípio de comunidade, de segurança coletiva contra o infortúnio pessoal e suas consequências.

 Uma sociedade só é uma comunidade se proteger efetivamente os seus membros contra a miséria e indignidade, contra o terror de virem a ser excluídos e de serem considerados como lixo.

 

Em 2004, podia-se ler no programa do partido social-democrata da Suécia:

 

Há sempre uma altura em que uma pessoa é frágil. Por isso necessitamos uns dos outros. Vivemos a nossa vida entre o aqui e agora, juntamente com outros, apanhados no meio de mudanças. Todos seremos mais ricos se permitirmos que todos participem não deixando ninguém ficar fora. Todos nós seremos mais fortes se houver segurança para todos e não somente para alguns”.

 

Hoje em dia, decorridos pouco mais de uma quinzena de anos, estas declarações parecem relíquias de um passado longínquo. Hoje em dia, tudo isso está de novo a ser substituído por uma ‘cultura de caridade, humilhação e estigma’.

 

Os pobres (ou seja, todos os consumidores falhados numa sociedade de consumidores, e onde são incluídos os desempregados e os reformados) são ostracizados por não terem as capacidades que deviam de ter, por serem preguiçosos, e essencialmente por serem um peso para o sistema que assim não pode avançar ou não avança tão rapidamente como poderia fazer se não os tivesse (na linha daquela sinistra teoria levada à prática contra judeus, ciganos, deficientes, comunistas, pretos, etc.).

Os organismos estatais e paraestatais encarregados de lidar com o problema da pobreza são cada vez mais agências de registo, de vigia e de disciplina, que mantêm os pobres identificados, isolados e separados do resto da sociedade.

Como foi isto possível? Para além da habitual e previsível ganância do sistema económico, há um outro fator que tem, sabiamente e sabidamente, andado a ser promovido: a ideia da ‘liberdade de escolha’.

 

Num recente artigo (Segregação extrema no Estado de Nova Iorque) de Gary Orfield e John Kucsera publicado pela UCLA (Universidade da Califórnia – Los Angeles) conclui que, 60 anos depois da grande vitória legal (Brown x Board of Education) contra a separação nas escolas entre negros e brancos, as escolas americanas estão hoje mais segregadas que há 40 anos, sendo a progressista Nova Iorque o epicentro dessa segregação racial educativa!

Segundo Orfield, “estamos perante um problema legal, político e institucional que determina uma enorme diferença de oportunidades entre uns e outros estudantes” proveniente de uma falta de vontade em assumir essa profunda desigualdade e a ausência de um trabalho sério a favor da integração.

Atualmente, 64% dos estudantes negros de Nova Iorque têm aulas em escolas muito segregadas (uma escola diz-se ‘segregada’ se tiver 50% a 100% de alunos negros; ‘muito segregada’ se tiver 90% a 100%; e ‘escola apartheid’ se tiver 99% a 100%).

Embora o Tribunal tenha dito que a separação escolar por raças não era legal, nada impede que, pela ‘liberdade de escolha’ individual, uma escola possa ter 100% de alunos negros!

A possibilidade de escolher aumenta a segregação. Mas as pessoas sentem-se cómodas com isso. Mesmo sabendo (?) que essa separação conduzirá fatalmente a uma desigualdade. É um regresso à ideia de ‘separados, mas iguais’. Só que a igualdade nunca é alcançada!

 

Kenneth Galbraight (1908 – 2006) já notara que, à medida que os direitos sociais se foram universalizando, começaram a aparecer cada vez maior número de utilizadores dos direitos políticos que, através dos seus votos, têm tendência a aderirem e a apoiarem iniciativas individuais que vão contra os projetos comuns da sociedade, originando com isso um aumento da desigualdade.

Para esta ‘maioria’ de pessoas contentes com o sistema, com a possibilidade de o poderem cavalgar, confiantes nos seus próprios recursos, o ‘estado social’ aparece-lhes como um estorvo e não como uma segurança.

Esta ‘liberdade de escolha’ erigida como direito fundamental poderá vir a dar origem à destruição da liberdade de todos, sempre em nome da proteção aos direitos individuais.

Torna-se agora mais fácil de entender a insistência na ‘liberdade de escolha’ como Graal da liberdade: é por aí que está a ser desconstruído o ‘estado social’, sempre em nome da defesa da liberdade individual.

 

É assim que, em nome dessa liberdade de escolha, vemos com bons olhos, por exemplo, a separação entre os interesses dos negócios e os das instituições socioculturais que os deviam eticamente supervisionar.

Aceitamos pacificamente que os negócios, independentemente de outros valores, devam visar apenas a maximização do lucro sem quaisquer restrições.

E, tal como já se passou anteriormente, os resultados serão os mesmos: aumento rápido da miséria, pobreza, famílias destruídas, esfacelamento dos laços humanos, e o aparecimento de uma nova ‘terra de ninguém’ livre de quaisquer regulamentações e supervisão administrativa, salvo a presença esporádica de um ou outro ‘xerife’ de organismos internacionais interessados exatamente em manter essa ‘ordem’.

Como já notara Z. Baum:

 

O ´faroeste’ como ideal e espaço de liberdade para quem saiba manejar as pistolas”.

 

Na realidade, o que nos vão propondo através da liberdade de escolha é a imposição de uma nova regulamentação da desregulamentação, a instalação de um Faroeste para sempre.

 

 

 

(346) O telefone móvel esperto: um amigo

Tempo estimado de leitura: 5 minutos.

 

Ao ser tão amistoso torna invisível a sua intenção de domínio. O sujeito submetido nem sequer está consciente do seu submetimento. Imagina-se livre.

 

Como aparelho de submissão, o smartphone assemelha-se ao rosário, que é também tão móvel e manejável como ele. O like é o amén digital: quando carregamos no like, submetemo-nos ao aparelho de dominação, Byung-Chul Han.

 

Através do tato do dedo tudo pode ser consumível. O outro ao alcance do dedo passa também a objeto de consumo, daí que na comunicação digital a forma de nos dirigirmos a outros vai desaparecendo.

 

 

 

Todos os anos centenas de novas palavras e conceitos são incluídos nos dicionários e enciclopédias existentes. Pelo que uma das formas para se verificar se uma língua, uma cultura, uma civilização, estão a evoluir (bem ou mal é outro problema) será a de comparar a quantidade e a qualidade dessas novas introduções.

Por exemplo, no respeitante aos termos de marinharia, o português tem todas as palavras e conceitos, tendo até sido inovador em alguns deles. Não há nenhum termo estrangeiro que não encontre tradução na nossa língua. Já no respeitante à indústria, à aviação, aos foguetões, aos computadores (e relacionados) é um desastre: até os poucos termos que aportuguesamos acabam por não serem usados.

 Tudo isso já anteriormente se vinha verificando, mesmo para pequenas expressões do dia-a-dia, como quando, entre muitos outros, em vez do popular ‘abajur’ (do francês abat-jour) o intentámos substituir por ‘quebra-luz’, ‘envelope’ por ‘sobrescrito’, ‘evento’ por ‘acontecimento’, etc. Atualmente já nem nos preocupamos em traduzir. Há, evidentemente, razões para tal.

Mas orgulhemo-nos por sermos dos poucos povos no mundo que utilizamos para os dias da semana um racional avançado: embora ainda correspondendo às feiras, ordenamo-las numericamente, fugindo a qualquer complicação astrológica, de 2ª, 3ª, 4ª, 5ª à 6ª. Religiosamente incluímos depois o sábado e o domingo.

 

Longe vão os tempos em que, segundo as regras de etiqueta, antes de se chamar uma pessoa por telefone, ou seja antes de a importunar, se deveria enviar previamente um postal dos correios indicando a data e hora em que tal chamada seria efetuada.

O telefone era aquela coisa grande e preta existente apenas em algumas das casas mais importantes, normalmente instalado num grande corredor obscurecido, com um toque estridente. Quando tocava, era porque algo importante se passava e todos ficavam dele dependentes.

Não é de admirar que o atual smartphone com a sua pequenez, leveza e mobilidade, nos dê uma sensação de liberdade. O seu som não assusta, não nos sentimos intimidados por ele, ninguém está à mercê da voz do outro.

Byung-Chul Han, filósofo e ensaísta nascido na Coreia Sul, escreveu um artigo muito interessante sobre o smartphone. Diz ele:

 

“Os contínuos pequenos toques e deslizamentos sobre ele, são um gesto quási litúrgico que massifica a relação com o mundo. A informação que não me interessa apago-a num instante. Já os conteúdos que me interessam, posso-os ampliar com os dedos. Tenho o mundo completamente debaixo de controle. O mundo tem que cumprir comigo. O smartphone reforça o egocentrismo. Ao tocar na sua pantalha (ecrã), submeto o mundo às minhas necessidades. O mundo parece estar digitalmente à minha inteira disposição”.

 

Através do tato do dedo pedem-se comidas e outros artigos, transformando tudo o que toca em forma de mercadoria. Através do tato do dedo tudo pode ser consumível. O outro ao alcance do dedo passa também a objeto de consumo, daí que na comunicação digital a forma de nos dirigirmos a outros vai desaparecendo.

Já não se chama para falar. Prefere-se escrever mensagens de texto em vez de chamar, porque ao escrever estamos menos expostos ao contacto direto: e assim, o outro desaparece como voz.

A comunicação através do smartphone é uma comunicação sem corpo e sem visão do outro. A digitalização faz desaparecer o outro como olhar. Esta ausência de olhar é grande responsável pela falta de empatia na era digital.

 

A grande diferença do smartphone para o telefone móvel convencional, é que para além de ser um telefone também combina imagens e informação. A câmara e a pantalha são os elementos mais importantes do smartphone porque forçam a conversão do mundo em imagem. As imagens digitais transformam o mundo em informação disponível. O passo seguinte será converter o mundo em imagem, recriar o mundo a partir de imagens, ou seja, produzir uma realidade hiper-real.

 

Hoje levamos o smartphone a todos os sítios, e delegamos nele as nossas perceções. Percebemos a realidade através da pantalha. A janela digital dilui a realidade em informação, que de imediato registamos. Não há contacto com as coisas. Privamo-las da sua presença. Ao reduzir as coisas do mundo a informação, o smartphone escamoteia-as, tornando-as supérfluas. Não nos apercebemos do que elas são. A perceção torna-se incorpórea. O smartphone irrealiza o mundo.

 

O smartphone é também um informador muito eficiente que vigia permanentemente o seu dono. Ele controla-nos e programa-nos. Não somos nós que utilizamos o smartphone, mas é o smartphone que nos utiliza a nós próprios.

A contínua acessibilidade que nos fornece não se distingue da servidão que nos impõe. E é também um certo visor pornográfico, em que nos desnudamos voluntariamente. Como se fosse um confessionário portátil.

Como aparelho de submissão, o smartphone assemelha-se ao rosário, que é também tão móvel e manejável como ele. O like é o amén digital: quando carregamos no like, submetemo-nos ao aparelho de dominação.

 

As plataformas como Facebook ou Google são os novos senhores feudais. Incansáveis, lavramos as suas terras e produzimos dados valiosos, dos quais eles logo retiram o proveito. Sentimo-nos livres, mas somos completamente explorados, vigiados e controlados. Num sistema que explora a liberdade, não se produz nenhuma resistência. A dominação consuma-se no momento em que concorda com a liberdade.”

 

E é assim porque “o poder smart não funciona com imposições ou proibições. A sua intenção não é tornar-nos dóceis, mas antes dependentes e aditos. Em vez de tentar quebrar a nossa vontade, serve as nossas necessidades. Quer comprazer-nos. É permissivo, não repressivo. Não nos impõe o silêncio. Antes pelo contrário, incita-nos e anima-nos continuamente a comunicar e a partilhar as nossas opiniões, preferências, necessidades e desejos. E até a contar as nossas vidas. Ao ser tão amistoso, quer dizer, smart, torna invisível a sua intenção de domínio. O sujeito submetido nem sequer é consciente do seu submetimento. Imagina-se livre.”

 

 

É na novela da escritora japonesa Yoko Ogawa, A polícia da memória, que fala duma ilha sem nome onde inexplicavelmente começam a desaparecer coisas irrecuperáveis: laços para o cabelo, perfumes, esmeraldas, rosas, pássaros, ao ponto de os habitantes acabarem por deixar de saber para que serviam essas coisas.

Ogawa situa a ilha debaixo de um regime totalitário que com a ajuda de uma polícia do pensamento despoja brutalmente a população das suas coisas e das suas recordações. Os que guardam em segredo recordações são perseguidos, presos e até assassinados pela polícia da memória.

O mundo vai-se assim esvaziando sem parar. Inclusivamente começam a desaparecer partes do corpo. Por fim, restam apenas vozes sem corpo que flutuam no ar, sem rumo.

 

Nos tempos em que vivemos é o frenesim de comunicação e informação que faz com que as coisas desapareçam. A informação interpõe-se à frente das coisas e fá-las empalidecer. A digitalização desmaterializa e descorporiza o mundo. Em vez de guardar recordações, armazena imensas quantidades de dados. Os meios digitais substituem a polícia da memória, fazendo o mesmo trabalho por forma não violenta e sem muito esforço.

Hoje vivemos num mundo que se vai esvaziando das coisas e das recordações perdidas, mas por outro lado se vai enchendo de uma informação tão inquietante como essas vozes sem corpo que Ogawa descreve.

Ao falsear os acontecimentos, a informação vive à custa do estímulo da surpresa. Como esse estímulo dura pouco, a necessidade é criar novos estímulos, pelo que nos habituamos a perceber a realidade como fonte de estímulos, e surpresas.

Como caçadores de informação, tornamo-nos cegos para as coisas silenciosas, discretas, incluindo as habituais, as pequenas ou as comuns, que não nos estimulam mas que são as que nos ancoram no ser”.

 

Mesmo sabendo tudo isto, vi-me forçado a comprar um smartphone para minimamente poder fazer a minha vida normal sem grandes restrições numa cidade relativamente pós-pandémica, ou seja, numa cidade do futuro.

Sei que se tomarmos todos os cuidados para evitar sermos detetados pelas googles e associadas privadas e governamentais, acabaremos, tarde ou cedo, por sermos, exatamente por isso, identificados como grupos de risco para o sistema, o que poderá vir a ter ainda piores consequências. O que nos querem com isto dizer é que não há escapatória. “É assim a vida!” A que eles fizeram ser a nossa, evidentemente. “Presos por ter cão, e presos por não ter”.

 

Quando acabou a Segunda Guerra Mundial, milhões de soldados americanos regressaram ao seu país. Para os receber foram construídas enormes quantidades de habitações, criando aquilo que ficou conhecido como os subúrbios. Para se deslocarem para os empregos nas cidades foram feitas inúmeras autoestradas. Todas estas casas e autoestradas foram largamente comparticipadas pela iniciativa privada: Ford, GM, etc. na previsão (certeza) de virem a ganhar com a venda de automóveis e similares. O carro individual passou a fazer parte do progresso, do desenvolvimento, do futuro, do bem-estar. Poderia ter-se optado por redes de transporte público, ou por localizações diferenciadas, ou por forma diferente de integração, mas não foi essa a opção.

O mesmo se passa agora com o smartphone. Criam mecanismos sociais que só podem ser navegados, utilizados por quem o tenha. E depois chamam progresso à servidão que criaram. Como se dizia nos velhos policiais franceses: “Cherchez la femme”, ou como se diz nos novos policiais anglófilos: “Follow the money”. Se conseguirem.

(345) O jogo escondido

 

Tempo estimado de leitura: 5 minutos.

 

Muitos prodígios há; porém nenhum maior do que o homem […] mas logo a perde quem por audácia incorre no erro, Sófocles.

 

Andam a convencer-nos a gastar triliões de dólares numa transição para uma Quarta Revolução Industrial que não se sabe bem o que vai dar, mas a que todos seriamos obrigados.

 

Encanam a perna à rã quando nos vendem que passando a não bebermos por palhinhas, aumentando a produção de carros elétricos, ou plantando biliões de árvores, vamos conseguir deter o aquecimento global.

 

Sem ignorar, naturalmente, as exigências científicas e profissionais específicas de cada contexto, peço-vos que zelem para que a humanidade seja servida pela riqueza e não governada por ela, Papa Francisco.

 

 

 

 

 

É na Antígona que Sófocles vai por o Coro a “exaltar a capacidade do homem, um ser suscetível de pôr a Natureza ao seu serviço, de organizar a vida em sociedade – mas que precisa de saber observar simultaneamente as leis divinas e humanas” (Maria Helena da Rocha Pereira, na introdução à edição da Fundação Calouste Gulbenkian). Ouçamos:

 

“Muitos prodígios há; porém nenhum maior do que o homem.

Esse, co’o sopro invernoso do Noto, passando entre as vagas fundas como abismos, o cinzento mar ultrapassou.

E a terra imortal, dos deuses a mais sublime, trabalha a sem fim, volvendo o arado, ano após ano, com a raça dos cavalos laborando.

 

E das aves as tribos descuidadas, a raça das feras, em côncavas redes a fauna marinha, apanha-as e prende-as o engenho do homem.

Dos animais do monte, que no mato habitam, com arte se apodera; domina

o cavalo de longas crinas, o jugo lhe põe, vence o touro indomável das alturas.

 

A fala e o alado pensamento, as normas que regulam as cidades sozinho aprendeu; da geada do céu, da chuva inclemente e sem refúgio, os dardos evita, de tudo capaz.

Ao Hades somente não pode escapar. De doenças invencíveis os meios de escapar já com outros meditou

 

Da sua arte o engenho subtil p’ra além do que se espera, ora o leva ao bem, ora ao mal; se da terra preza as leis e dos deuses na justiça faz fé, grande é a cidade; mas logo a perde quem por audácia incorre no erro.”

 

 

 

 

Quando em 1991 a União Soviética deu lugar à Rússia, e o planeamento estatal foi substituído pelos mercados livres, todos os próceres (políticos e economistas) eram unânimes em augurar o aparecimento de uma nova Suécia do Leste. Boris Yeltsin inundou o aparelho do estado (e não só) com quadros de especialistas ocidentais nas “terapias de choque” económicas que conduziriam o país na transição esperada. Um salto em frente que serviria de modelo (e exemplo) para todos os outros países em situação idêntica.

Resultado: nesses anos de 90, 20 a 25 biliões de dólares saíram do país todos os anos e o PIB caiu 40%. E só graças às exportações de combustíveis fósseis e armamentos, é que a que era a segunda maior economia do mundo ocupa hoje o décimo lugar atrás da Itália e da Índia. Um terço dos russos ficou abaixo do limiar de pobreza, deu-se um declínio na esperança de vida (de 63 anos em 1990 passou para 58 anos em 2000), ao ponto de só 27% da população pensar que a sua situação económica é hoje melhor que a que tinham nos tempos da União Soviética (o que não significa que apoiem o sistema em que viviam).

 

Dir-se-á que tais falhas foram devidas ao total colapso do império soviético, a décadas de decadência económica, ao triunfalismo do Ocidente, à venalidade dos oportunistas locais (Russos, evidentemente). Mas então não estava tudo isso previsto nos cálculos dos especialistas?

A resposta a esta pergunta tem tanto mais importância quanto os mesmos especialistas nos virem agora convencer a gastar triliões de dólares numa transição de uma economia baseada em combustíveis fósseis para uma economia baseada numa Quarta Revolução Industrial que não se sabe bem o que vai dar, mas a que todos seriamos evidentemente obrigados!

 

Juntos, os computadores, a Inteligência Artificial, a robótica, a Internet das Coisas, os veículos autónomos, a nanotecnologia, a impressão 3-D, a biotecnologia, a ciência dos materiais, a computação quântica, o armazenamento de energia, a energia limpa, os painéis solares, as turbinas de vento, a energia barata, a diminuição da crise ambiental, o trabalho à distância, não mais empregos pesados e sujos, o Norte Global a ajudar o Sul Global a alcançar a meta do futuro Verde e, acima de tudo a governança universal por empresas privadas éticas (ou na sua impossibilidade, por forças pró-militarizadas, como disse o príncipe Carlos),  consumarão por fim a Quarta Revolução Industrial preconizada pelo Fórum Económico Mundial (e ajudada pela pandemia, seus confinamentos e certificados de vacina), enfim, um capitalismo ético onde as grandes empresas seriam responsabilizadas enquanto as elites e os sistemas já existentes continuariam convenientemente como estão.

 

Exemplo bem à vista do que são o cumprimento dos grandes compromissos internacionais é o que passa com os planos e as metas para a descarbonização, acordados há seis anos na conferência de Paris. Todos os países falharam por muito (a única exceção: a Gambia!), e pior, só dois países se preparam para uma dramática transformação.

Os outros encanam a perna à rã ao nos venderem que passando a não bebermos por palhinhas, aumentando a produção de carros elétricos, ou plantando biliões de árvores, vamos conseguir deter o aquecimento global.

Nem mesmo a proposta “fair-share” que propõe a transferência de triliões de dólares para o Sul Global resolverá o problema. Basta ver o que se passa com as transferências acordadas para a distribuição das vacinas do Covid-19, e com as dotações contidas nos respetivos orçamentos nacionais. A única transferência de triliões que se mantém constante, sempre a correr, sem precisar de proposta, é a que segue para os paraísos fiscais (sempre legal e legítima, e que evidentemente não precisa de compromisso orçamental).

É o tal problema da mulher de César: como acreditar que se tomam estes problemas a sério e depois, quando se visita o Papa no Vaticano antes de se seguir para a conferência sobre o clima, se se faz acompanhar de um cortejo de oitenta e cinco carrões? Ou os que saem dos seus iates para voarem até à conferência que visa reduzir as emissões de carbono? Ou que na última Conferência em Glasgow a maior delegação (503 Oil and Gas lobbyist at the UN Climate Conference) fosse das empresas petrolíferas? Tudo legal, tudo dentro dos seus direitos, só que não é esse o problema da mulher de César.

 

Entretanto, os países ricos que prometem diminuir a sua pegada de carbono, continuam a manter o seu estilo de vida de grande consumo de energia: são computadores, ares-condicionados, SUV elétricos, etc., tudo isso à custa do Sul Global. O Norte Global arrecada um benefício anual de 2,2 triliões de dólares pelo trabalho mal pago e mercadorias originárias do Sul Global, valor idêntico ao que se “arrecadava” na era colonial.

Acrescente-se agora o cobalto e o lítio necessários para as baterias dos carros elétricos, o gálio e o telúrio para os painéis solares, os elementos raros para as turbinas de vento que vêm todos predominantemente do Sul onde ficam todos os custos ambientais associados.

 

Tal como na transição da União Soviética para a Rússia apareceram os “capitalistas vermelhos”, agora aparecem os “capitalistas verdes” para se aproveitarem dos enormes lucros da chamada economia pós-carvão: Musk no mundo dos carros elétricos, Robin Zeng e Huang Shilin com as baterias de ião-lítio, Aloys Wobben (recentemente falecido) com as turbinas de vento. E já na calha com os projetos do “hidrogénio azul” e da” mineração do fundo do mar”.

 

Do que não se fala nesta transição tão aguardada, desejada e imposta, é das habitações, dos empregos, dos salários dos empregos, da assistência médica, da educação, dos transportes, etc. Bem sei, os carros do Musk virão com espaço para que uma família lá possa viver, o porta bagagem virá com compras do mercado renováveis automaticamente, os banhos não serão tidos em consideração pois fazem mal, as sanitas vêm incorporadas nos assentos, como no SpaceX. Como o carro é elétrico, não gasta nada: basta ter um certificado de vacinação atualizado. E são sorteados entre os que pagarem a entrada para irem aos vários encontros da rede (Web Summits). Além disso, como último recurso, tal como no carro do Bond, vêm com um botão para ejetar as pessoas para o espaço, onde parece que a vida é boa, barata e saudável. E quando chegarem (se) cá abaixo, o Bezos recebe-os com um espumante e televisão.

 

A transformação necessária para se conseguir lidar com o desafio da alteração climática é enorme; será pelo menos comparável com a da revolução agrária e da industrial.  Só que neste caso, as perdas humanas que se verificarão serão muitíssimo maiores.

Aliás, o receio de que se não consiga lá chegar utilizando os meios utilizados para a exploração normal (“business as usual”) está bem explícito pela inquietação revelada pelos “teóricos e especialistas envolvidos” que clamam já por uma alteração das regras da democracia (“pode ser necessário pôr a democracia em espera por algum tempo”), quer através de uma governança mundial feita por empresas, quer por uma obviamente necessária militarização da sociedade.

Claro que também não dizem como escolhem essas empresas, ou os empresários, ou os cientistas, ou os militares que vão tomar as decisões, com que autoridade, legitimidade, etc.

Não sei se têm notado, mas vivemos já num mundo em que as empresas levam os estados a tribunal por meros conflitos comerciais, argumentando que devido às políticas ambientais e climáticas que os governos e seus parlamentos democraticamente eleitos impõem, os seus lucros são afetados, o que consideram ser ilegal e atentatório das suas liberdades.

 

Já estamos habituados, melhor, já nos habituaram a isso: quando apertados, sem solução, lá vem a justificada e democrática ditadura civil ou militar, ou ambas. E alguns aplaudem: finalmente os comboios vão andar ao horário!

 

 

Nota:

Reler o blog de 24 de fevereiro de 2021 sobre “O Grande Recomeço” (https://otempoemquevivemosotempoemquevivemos.blogs.sapo.pt/308-o-grande-recomeco-88658).

 

(344) Pensamentos sobre a Revolução Industrial

Tempo estimado de leitura: 8 minutos.

Era muito mais importante para a coroa (mais impostos), para os comerciantes (mais divisas) e para os senhores (o império) manter vivas as ovelhas do que a população nos campos.

 

Todos, salvo os idiotas, sabem que se devem manter pobres as classes baixas, caso contrário nunca trabalhariam, Arthur Young.

 

Uma vantagem ainda maior que possuem as pessoas em situação inferior é a facilidade com que sustentam os filhos, Arquidiácono Paley.

 

O contrato de trabalho é aquele em que o trabalhador “concorda em obedecer às diretivas do empregador”, Ronald Coase.

 

Mussolini não era um ditador, porque os italianos podiam sempre emigrar.

 

 

 

Na edição de 11 de março de 1776, a Birmingham Gazette publicava:

 

Na última sexta-feira, uma máquina a vapor construída segundo os novos princípios do Sr. Watt foi posta em funcionamento em Bloomfield Colliery […] na presença de alguns homens de ciência cuja curiosidade fora estimulada pela possibilidade de ver os primeiros movimentos de uma máquina tão singular e poderosa […] inventada pelo Sr. Watt, após muitos anos de estudo e grande variedade de experiências custosas e trabalhosas.”

 

Vinte e quatro anos depois, em 1800, a máquina a vapor já era usada em 30 minas de carvão, 27 minas de cobre, 28 fundições, 17 cervejarias e 8 fábricas de algodão (o referencial é sempre a Inglaterra, onde se iniciou a Revolução Industrial).

Uma das grandes vantagens da máquina a vapor foi a de libertar da necessidade de localizar as fábricas junto às quedas de água. Bastava que estivessem junto a minas de carvão, o que veio originar o crescimento rápido de muitas vilas, que até aí não tinham qualquer importância, tornando-se cidades. Em 1770 a população rural de Inglaterra era de 40%; em 1841, era de 26%. Manchester em 1801 tinha 35.000 habitantes, e em 1841 tinha 353.000; Leeds, 53.000 para 152.000; Sheffield, de 46.000 para 111.000.

Mas este crescimento rápido das populações nas cidades tem essencialmente que ver com outros acontecimentos económico-sociais: o aparecimento dos cercados (enclosures) das terras do rei e dos senhores.

À época, para além das terras senhoriais, existiam muitas terras comunais que eram utilizadas como reserva para o autoabastecimento dos aldeões nos tempos de penúria. Os cercados acabaram com quase todas estas terras, convertendo-as antes em pasto para as ovelhas, essenciais para as crescentes exportações de lã inglesa.

Era muito mais importante para a coroa (mais impostos), para os comerciantes (mais divisas) e para os senhores (o império) manter vivas as ovelhas.

Como resultado, muitos dos jornaleiros que subsistiam graças às terras comunais, foram obrigados a deslocarem-se para as cidades, aumentando o número dos pobres.

A situação era tal que levou Isabel I a decretar a primeira das Leis dos Pobres, Poors Law, criando os asilos, as casas de trabalho (workhouses). Todo o pobre que fosse fisicamente útil teria de se acolher obrigatoriamente na workhouse da paróquia em que estivesse registado. Ali, eram obrigados a trabalhar a troco de um salário de subsistência.

Eis algumas pérolas do pensamento das elites da época para a resolução do problema:

A fome domesticará os animais mais ferozes, ensinará aos mais perversos a decência, a obediência e a sujeição. No geral, só a fome poderá levar a ajoelhar (os pobres) e a obrigá-los a trabalhar”, Joseph Townsed, na Dissertation on the Poor Laws.

Se se lhes fizer a vida impossível, o número de mendigos reduzir-se-á: um método ainda mais rápido é pela utilização de arsénico, que seria até uma forma mais suave se fosse permitido”, Thomas Carlyle.

 “Pôr os pobres a trabalhar é um dever do homem para com Deus e a Natureza’’, segundo o bem-intencionado Josiah Child.

 “Todos, salvo os idiotas, sabem que se devem manter pobres as classes baixas, caso contrário nunca trabalhariam”, Arthur Young.

 

O ritmo que a máquina a vapor imprimia, ‘obrigou’ ao nascimento do sistema fabril em grande escala (organização eficiente e correspondente divisão de trabalho), com o consequente aumento de produção. As máquinas, que poderiam ter tornado mais leve o trabalho, fizeram-no pior.

Os proprietários sabiam que tinham de arrancar tudo da máquina o mais depressa possível, porque com as novas invenções elas podiam tornar-se logo obsoletas. E os operários tinham de acompanhar o ritmo das máquinas. Os dias de trabalho eram de 16 horas.

Quando os trabalhadores conseguiram o direito de trabalhar em dois turnos de 12 horas, a satisfação foi imensa.

Mas, mais do que o tempo de trabalho (nas suas vidas estavam habituados a trabalharem o mesmo), a maior dificuldade que tiveram foi a de se adaptarem à disciplina da fábrica: entrarem a horas certas nuns dias e a outras horas noutros, manter o ritmo de movimento das máquinas sob as ordens e supervisão de um capataz.

Os fiandeiros de uma fábrica perto de Manchester trabalhavam 14 horas por dia a uma temperatura de 26 a 29 graus, sem permissão para irem ou mandarem buscar água para beberem. Estavam sujeitos a multas por deixarem a janela aberta, por estarem sujos, por se lavarem no trabalho, por deixarem o gás aceso para além do tempo, por assobiarem.

Os salários eram os menores possíveis. E como as mulheres e crianças podiam cuidar das máquinas, ganhando menos que um homem, estes acabaram por ficar em casa sem trabalho. No princípio os donos das fábricas iam buscar as crianças pobres aos orfanatos. Mais tarde, como os salários do pai e da mãe já não eram suficientes para manter a família, as crianças que tinham casa viram-se obrigadas a trabalhar nas fábricas e minas.

Eis um relatório da Comissão para o Emprego das Crianças (First Report of the Central Board of His Majesty’s Commissioners on Employment of children in Factories, 1833), sobre o depoimento de Thomas Clarke, de 11 anos, que ganhava 4 xelins por semana (com a ajuda do irmão) como emendador de fios:

Sempre nos batiam se adormecíamos […] Eu costumava ir para a fábrica um pouco antes das 6, por vezes às 5, e trabalhar até às 9 da noite. Certa vez, trabalhei toda a noite […] Nós mesmo escolhíamos isso. Queríamos ter algum dinheiro para gastar. Tínhamos trabalhado desde as 6 da manhã do dia anterior […] Continuamos a trabalhar até às 9 da noite seguinte […] O meu irmão faz o turno comigo. Ele tem 7 anos. […] Levo-o comigo às 6 e fica comigo até às 8.”

 

Era mau para as crianças não irem à escola e trabalharem 14 horas por dia?

Eis o pensamento de alguns benfeitores da época:

Nada mais favorável para a moral que o hábito, desde cedo, da subordinação, da indústria e regularidades”, G. A. Lee, dono de uma tecelagem onde o horário das crianças era das 6 da manhã às 8 da noite.

Dar educação às classes trabalhadoras pobres […] seria na realidade prejudicial à sua moral e felicidade; aprenderiam a desprezar a sua sorte na vida ao invés de fazer deles bons servos na agricultura e outros empregos laboriosos, a que a sua posição na sociedade os destina […] Permitir-lhes-ia ler folhetos sediciosos […] e torná-los-ia insolentes para com os seus superiores”, S. Giddy, presidente da Royal Society.

Para os descontentes da classe trabalhadora, o Arquidiácono Paley recordava-lhes:

Algumas das necessidades que a pobreza impõe não constituem durezas, mas prazeres. A frugalidade em si, é um prazer. É um exercício de atenção e controle que produz contentamento. Este perde-se no meio da abundância. Uma vantagem ainda maior que possuem as pessoas em situação inferior é a facilidade com que sustentam os filhos. Tudo de que o filho de um pobre necessita está encerrado em duas palavras, ‘indústria’ e ‘inocência’.

E para os pobres que invejavam a ociosidade dos ricos: “Outra coisa que o pobre inveja no rico é a sua ociosidade. Trata-se de um engano total. A ociosidade é a cessação do trabalho. Não pode, portanto, ser gozada, ou mesmo provada, exceto pelos que conhecem a fadiga. O rico vê, e não sem inveja, o prazer e a recuperação que o repouso proporciona ao pobre.”

 

Face à tentativa para limitarem o dia de trabalho para 10 horas, o Arquidiácono Paley, o Dr Ure e os industriais de Gloucester, consideraram que tal “seria uma interferência na liberdade dos súbditos, que nenhuma outra legislatura da Cristandade teria tolerado por um momento. Os industriais de Gloucester caraterizaram, com justiça, esta proposta como digna da pior idade média”.

Essa proposta interferia na liberdade que tinha o operário de trabalhar tanto quanto desejasse o patrão. Este argumento, de que a limitação das horas de trabalho interferia na liberdade natural do homem, ainda hoje é usado.

 

No livro Rebels Against the Future, um trabalhador da indústria de lã sintetiza muito bem o que se passava em 1840:

 

‘Temos de trabalhar de catorze a dezasseis horas diárias e apesar de todo esse esforço não somos capazes de obter os meios de vida suficientes para subsistir. Quando pela noite deixamos o trabalho, a nossa capacidade sensorial encontra-se extenuada pela fadiga … Não temos tempo para sermos sensatos, nem tempo livre para sermos bons: estamos deprimidos, afundados, castrados, enervados pelo esforço, incapazes de virtude, sem forças para nada que se suponha vir a ser benéfico para nós mesmos quer no presente quer em qualquer período futuro’.

 

 

A Revolução Industrial está ligada ao aparecimento da máquina a vapor e ao crescimento da população, e veio possibilitar, reforçar e expandir enormemente o mundo das coisas, afastando-nos mais da natureza e das artes e ofícios.

Quando escrevemos que a revolução industrial nos afastou mais das artes e ofícios, tínhamos em atenção o facto de ela vir a alterar radicalmente a ideia igualitária da pequena empresa.

Os patrões, ao trabalharem lado a lado com os seus trabalhadores, fazendo o mesmo trabalho, no mesmo espaço, ensinando as mesmas técnicas aos seus aprendizes, não podiam impor um ritmo de trabalho superior ao executado por eles, nem imporem locais de trabalho sem o mínimo de condições de segurança ou climatéricas em que eles próprios também trabalhariam. A confraternização teria forçosamente de existir.

 Com a Revolução Industrial tudo isto se alterou, aumentando a separação entre empregados e empregadores. Os patrões já não faziam o mesmo tipo de trabalho que os empregados faziam. O trabalho mental separou-se do trabalho manual. As hierarquias multiplicaram-se. Os principais executivos, grande parte das vezes, nem no mesmo edifício trabalhavam. Tudo isto deu origem a uma severa degradação das condições de trabalho.

Os empregadores, em vez de beberem ou comerem com os empregados, passaram a pregar temperança, pontualidade, disciplina, aumentando grandemente ao mesmo tempo as horas e o ritmo de trabalho e baixavam os salários.

 As economias de escala impõem-se às economias dos pequenos proprietários, substituindo-os por grandes empresas que empregavam muitos trabalhadores. A própria natureza do trabalho e as relações entre os patrões e os trabalhadores das manufaturas, são alteradas, criando um maior afastamento entre eles.

 

Estas novas condições, degradantes quando comparadas com as que tinham tido os artesãos, levaram os mais radicais a apelidarem-nas como representantes do “salário da escravidão”. Já os liberais as consideravam como representantes do “trabalho livre”.

 Para os ‘liberais’, o trabalho era considerado como ‘livre’ porque, prevendo o contrato a possibilidade de admissão e saída do emprego, os trabalhadores tinham os mesmos direitos que os empregadores. Além disso, era regulado pelo mercado. Já os ´radicais’ focalizavam-se antes nas condições atuais de trabalho a que o contrato obrigava, que colocavam os trabalhadores numa relação de profunda subordinação para com os seus empregadores.

 

Pode-se constatar que o sonho inicial igualitário a favor da existência do mercado, acabou por falhar, em parte devido às economias de escala. As alterações tecnológicas impulsionaram a Revolução Industrial no sentido da necessidade de uma enorme concentração de capital. Para fazer funcionar uma fundição de aço, uma fábrica de cimento ou química, uns caminhos de ferro, ou uma fábrica de tecidos de algodão, necessitavam-se de muitas mãos.

O mesmo se passa hoje com aeroportos, hospitais, laboratórios farmacêuticos, fábricas de montagem de computadores e, a um nível de menor exigência técnica, parques de diversão, distribuidores, etc.

A maior eficiência de produção obtida usando grandes e invisíveis capitais, explica porque é que poucos trabalhadores individuais podem ter hoje capital próprio para sustentar as suas empresas. E explica também, porque é que a maior parte das grandes empresas responsáveis pela grande maioria da produção não são propriedades de um só dono.

 

Em 1937, o economista britânico Ronald Coase, publica um artigo que mais tarde (1991) vai contribuir para o seu Prémio Nobel em Ciências Económicas, onde explica as razões para o aparecimento de firmas , “The Nature of the Firm” (http://www3.nccu.edu.tw/~jsfeng/CPEC11.pdf), e onde diz que o contrato de trabalho é aquele em que o trabalhador “concorda em obedecer às diretivas do empregador.”

Segundo ele, “a essência do contrato deve apenas declarar os limites dos poderes do empregador”. O problema é que na grande maioria dos casos, salvo no contexto dos grandes acordos coletivos ou para os cargos de topo, estes limites não são aclarados nem declarados. Então, o que é que determina e limita a autoridade do empregador?

 

O Estado, que através de um complexo sistema de leis acaba por conferir ao empregador, salvo raras exceções, grande autoridade legal sobre o empregado. É como se o empregador viesse a ser o substituto do governo no local de trabalho.

A filosofia que serve de base a esta teoria é a que proclama que a relação de trabalho é livre, porque os trabalhadores são livres para, se e quando quiserem, deixarem, terminarem o contrato. Portanto, não existia nenhuma imposição de autoridade.

 É como dizer que Mussolini não era um ditador, porque os italianos podiam sempre emigrar.

 

Uma achega:

Paul Virilio (1932-), na obra Un paysage d’événements, chama-nos a atenção para um outro problema ligado aos progressos da técnica:

 

Inventar o navio é inventar o ‘naufrágio’, inventar a máquina a vapor, a locomotiva, é inventar o ‘descarrilamento’, a catástrofe ferroviária. Também para a aviação, os aviões implicam o ‘embate’ com o solo, a catástrofe aérea. E, sem falar do automóvel e dos ‘choques’ em cadeia a grande velocidade, da eletricidade e da electrocução, nem sobretudo dos ‘riscos tecnológicos’ maiores resultantes do desenvolvimento das indústrias químicas ou nucleares […] cada período da evolução técnica traz, juntamente com os seus instrumentos e máquinas, o aparecimento de acidentes específicos, reveladores «em negativo», do desenvolvimento do pensamento científico.

 

 

 

Notas

  1. Uma obra fundamental para este período: Friedrich Engels, A Situação da Classe Trabalhadora em Inglaterra.
  2. Ajuda a leitura dos blogs de 17 de julho de 2019 “A albarda e os donos”, de 28 de junho de 2017 “Donos da inevitabilidade”, o de 2 de novembro de 2016, “Lá vamos, cantando e rindo, …” e o 13 de julho de 2016 “Os equívocos da técnica”.

 

 

 

 

 

 

 

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