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Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

(339) Genocídios maus, os assim-assim, e os outros.

Tempo estimado de leitura: 7 minutos.

 

O genocídio é um processo que se desenvolve ao longo de dez fases que são previsíveis, mas não inexoráveis, Gregory Stanton.

 

Cientificamente não há raças, embora haja racismo.

 

O judeu é um homem que os outros homens dizem ser judeu, Jean-Paul Sartre.

 

Os estados tornam-se genocidas quando se organizam por forma a excluírem parte dos seus cidadãos.

 

 

 

 

As dez fases do genocídio” é uma obra de 2013, inicialmente publicada em 1996 como “As oito fases do genocídio”, escrita por Gregory H. Stanton, professor na University of Mary Washington.  Explica-nos ele:

 

 “O genocídio não pode ser cometido por um indivíduo ou por um pequeno grupo; ele necessita da cooperação de um grande número de pessoas e do estado. O processo inicia-se com um preconceito que não para de crescer. Se conseguirmos saber as várias fases porque o genocídio passa, os cidadãos ficam melhor preparados para identificar os sinais de aviso e assim impedir o processo de continuar.

Segundo ele:

[…] O genocídio é um processo que se desenvolve ao longo de dez fases que são previsíveis, mas não inexoráveis. Em cada fase, medidas preventivas podem fazer pará-la. O processo não é linear. A fases podem ocorrer simultaneamente. Logicamente, as fases posteriores devem ser precedidas pelas fases anteriores. Mas, todas as fases continuam a existir ao longo de todo o processo.”

 

Quais são, então, as 10 fases do genocídio que Stanton considera?

 

  1. Classificação: As pessoas são divididas entre “nós” e “eles”.
  2. Simbolização: As pessoas são obrigadas a identificarem-se.
  3. Discriminação: As pessoas começam a confrontarem-se com uma discriminação sistemática.
  4. Desumanização: As pessoas são equiparadas a animais, vermes ou doenças.
  5. Organização: O governo cria grupos especiais (polícia/militar) para fazer cumprir as suas políticas.
  6. Polarização: O governo emite propaganda para voltar a população contra um grupo.
  7. Preparação: Começa a ação oficial para remover/recolocar pessoas.
  8. Perseguição: Começam os assassinatos, roubo de propriedade, julgamento de massacres.
  9. Exterminação: Eliminação ad hoc do grupo. É considerado como “exterminação” e não assassinato porque as pessoas não são consideradas como sendo humanos.
  10. Negação: O governo nega que tenha cometido qualquer crime.

 

 

Assassinatos e matanças coletivas indiscriminadas contra outros grupos, não constitui novidade na história da humanidade. E tal vem já de muito longe: basta relembrar a fossa neolítica recentemente descoberta em Talheim na Alemanha, onde se encontraram grande número de esqueletos humanos, homens, mulheres, crianças e bebés, assassinados por outros humanos.

Estamos perante um exemplo claro da aniquilação de um grupo por outro grupo, acontecido 20-30.000 anos atrás, que mostra que o instinto (ou o que seja) para o assassinato em massa de grupos acompanha de muito perto o aparecimento da raça humana.

É como se grupos humanos considerassem a destruição de outros grupos (nacionais, étnicos, raciais, religiosos ou outros) como um instrumento político à sua disposição. E, contudo, esse tipo de crime não fazia parte do nosso vocabulário, não existia nenhum nome para o descrever: era “um crime sem nome”.

Foi o assassinato sistemático de milhões de pessoas no Holocausto, com a intenção deliberada de exterminar grupos, na sua totalidade ou parte, que forçou esse reconhecimento.

 

O termo “genocídio” foi inventado pelo advogado Raphael (Rafat) Lemkin. Trabalhando há mais de duas décadas numa nova codificação e identificação de crimes internacionais que envolvessem atrocidades cometidas contra populações civis vulneráveis, e isto porque as leis internacionais em vigor não consideravam crimes cometidos pelas próprias nações dentro dos seus territórios contra os seus nacionais, Lemkin e outros, propunham que se reconhecessem como crimes internacionais todos os que representassem violações sérias dos direitos humanos.

Apesar das suas propostas não terem sido todas acolhidas na Convenção Para a Prevenção e Repressão do Genocídio, Lemkin foi um fervoroso apoiante da Convenção que acabou por ser unanimemente adotada a 9 de dezembro de 1948 na Assembleia Geral das Nações Unidas:

 

Na presente Convenção, genocídio significa qualquer um dos seguintes atos abaixo cometidos, com a intenção de destruir, no todo ou em parte, um grupo nacional, étnico, racial ou religioso, como tal:

(a) Matar membros do grupo;

(b) Causar sérios danos físicos ou mentais a membros do grupo;

(c) Infligir deliberadamente condições de vida ao grupo calculadas para levarem à sua destruição física por completo ou em parte;

(d) Impor medidas destinadas a evitar nascimentos dentro do grupo;

(e) Transferir à força crianças do grupo para outro grupo.

 

A adoção desta Convenção sobre genocídio foi feita um dia antes de ter sido também adotada a Declaração Universal dos Direitos Humanos. Contudo, as dificuldades para a sua aprovação foram muitas, pelo que ainda hoje as ambiguidades e interpretações se mantêm, como, por exemplo, as que dizem respeito à própria definição de genocídio, às instituições sobre quem recai a responsabilidade da sua prevenção e à determinação das normas legais que definam a intenção de o praticar.

 

Embora se entenda a inclusão em 1948 do termo “grupos raciais” na definição do documento da ONU, numa altura em que cada grupo étnico ou nacional era chamado de “raça”, sabe-se hoje que a diferenciação das pessoas com base na cor da pele é incorreta, até dando indevidamente suporte ao racismo.

Cientificamente, não há raças, o que não significa que não haja racismo. O DNA veio demonstrar que todos os humanos provêm da mesma origem, ou seja, há só uma raça humana. A cor da pele e as formas do corpo têm origem no desenvolvimento de pequenas mutações que foram acontecendo.

O racismo desenvolveu-se a partir do século XV, com a chegada das potências coloniais Ibéricas a África. Sabemos a história: os negros eram escravizados, normalmente por outros negros, vendidos a mercadores árabes de escravos, que por sua vez os vendiam aos mercadores brancos da costa africana. Daí eram transportados em horríveis condições para o Novo Mundo. Para justificar essas ações, desenvolveu-se uma ideologia que permitia, com base na cor da pele, estabelecer as diferenças entre os escravos e os seus torcionários. Até aí, nem romanos, nem cristãos, tinham estabelecido qualquer diferenciação ou exclusão pela cor da pele. Este comportamento racista é, inclusivamente, legalizado quando a Espanha publica a norma sobre  limpiezza de sangre, segundo a qual as pessoas de origem Judia ou Árabe não podiam ocupar posições importantes na Igreja e no Estado.

 

Outra das ambiguidades da definição da Convenção tem que ver com o problema da “intenção”. Como se pode provar que houve intenção quando os arquivos estão fechados, desapareceram, ou quando as ordens para matar são dadas oralmente? Hitler nunca deu nenhuma ordem para matar todos os judeus.

O passado tem demonstrado que o genocídio só ocorre quando há um beneplácito, tácito ou ativo, conferido pelos estados. Os estados identificam as “ameaças” e agem de acordo, com o uso do assassinato em massa como parte da resposta pretendida pelas elites poderosas que acreditam que o genocídio é a melhor forma para resolverem os problemas e as ameaças, reais ou imaginárias.

Mas o genocídio não é irracional. Há razões para os estados serem genocidas, a primeira das quais se prende com a aquisição e conservação do poder. Para os seus mandantes, o genocídio aparece-lhes como perfeitamente razoável. No entanto, ele é um processo disfuncional a partir da altura em que o estado exclui parte dos seus cidadãos dos direitos humanos que o próprio estado se responsabilizou por proteger. Os estados tornam-se genocidas quando se organizam por forma a excluírem parte dos seus cidadãos.

 

O conceito de genocídio aparece quase conjuntamente com o de crimes contra a humanidade, no rescaldo do após-guerra para se julgarem as atrocidades nazis, pelo que se torna por vezes difícil de separá-los. Daí que os participantes da Comissão das Nações Unidas para Crimes de Guerra, reunida a partir de novembro de 1943, e a Conferência de Londres, reunida a partir de fins de agosto de 1945 para prepararem o julgamento de Nuremberga dos maiores criminosos de guerra, tenham optado por usarem nas acusações o termo “crimes contra a humanidade” umas vezes, e outras o termo “genocídio” como se fossem quase sinónimos.

Contudo, nas atas do Tribunal Militar Internacional não aparece a palavra genocídio, nem nas do julgamento final realizado a 30 de setembro e 1 de outubro de 1946, utilizando-se antes o conceito de crimes contra a humanidade.

O problema é que a definição de crimes contra a humanidade utilizada em Nurembergue só se aplicava a atrocidades cometidas numa guerra de agressão. Tal só se pode ter sido intencional por parte de quem controlava e detinha o poder sobre as acusações, os então quatro grandes, Estados Unidos, Reino Unido, França e União Soviética.

Percebe-se que estender a lei internacional de crimes de guerra que se verificassem no campo de batalha e a perseguição de civis num território ocupado por forma a cobrir as atrocidades cometidas por um governo contra a sua própria população civil, era não só uma novidade sem precedentes como poderia ameaçar os vários estados que organizavam os processos de acusação e condenação.

Eis o que disse sobre o assunto o representante dos EUA, Robert Jackson, na Conferência de Londres a 23 de julho de 1945:

 

Tem sido um princípio geral da política externa do nosso governo desde tempos imemoriais que os assuntos internos de outro governo normalmente não são da nossa conta; isto é para dizer que, a maneira como a Alemanha trata os seus habitantes, ou qualquer outro país trata os seus habitantes não é problema nosso, da mesma forma que seria um outro governo interpor-se nos nossos problemas.

A razão pela qual este programa de extinção dos judeus e destruição dos direitos das minorias se torna uma preocupação internacional é esta: por ser uma parte de um plano para fazer uma guerra ilegal. A menos que consigamos estabelecer uma ligação com uma guerra, acho que não existem bases para lidar com atrocidades. Elas faziam parte da preparação para a guerra ou para a condução da guerra, e na medida em que ocorreram dentro da Alemanha isso faz com que não seja nossa preocupação.”

 

Falando do crime proposto de “atrocidades, perseguições e deportações por motivos políticos, raciais ou religiosos terras ligeiras”, que em breve seria renomeado de “Crimes contra a humanidade”, Justice Jackson indicou a fonte das persistentes preocupações do seu governo:

 

Normalmente, não consideramos que os atos de um governo para com os seus próprios cidadãos justifique a nossa intervenção. Nós mesmos temos por vezes algumas circunstâncias lamentáveis ​​ no nosso próprio país em que as minorias são tratadas injustamente.”

 

No seu julgamento final, o Tribunal Militar Internacional fez uma distinção entre a perseguição aos judeus alemães antes da guerra, e a política alemã seguida durante a guerra nos territórios ocupados, pelo que nenhum dos acusados foi considerado culpado por atos praticados antes de 1 de setembro de 1939 (ano do início da guerra).

 

 

Até 1979, nunca nenhum tribunal nacional tinha condenado qualquer pessoa por genocídio. Só nesse ano é que foi condenado o tirano da Guiné Equatorial, Macias Nguema. Aliás, o primeiro caso a ser apresentado em tribunal foi a queixa da Índia contra o Paquistão, em 1971, pelo genocídio no Bangladesh, mas que acabou por ser resolvido por meios diplomáticos.

Não é de admirar que os lutadores pelo reconhecimento do que na realidade são os genocídios, como Lemkin e Stanton, tenham continuado a sua luta: Stanton funda em 1999 a Vigia do Genocídio (Genocide Watch), primeira organização internacional com a intenção de predizer e prevenir os custos de um desenvolvimento genocida à escala mundial que, numa coligação global com a Campanha Internacional para Acabar com o Genocídio (International Campaign to end Genocide) engloba já cinquenta organizações em cinco continentes.

Muito importante também, a sua publicação referida sobre as dez fases do genocídio, porquanto permite, até a título individual, rapidamente identificar, e até prevenir, a eclosão e desenvolvimento de genocídios. Basta segui-las para determinar a fase em que nos encontramos, no próprio país ou em outros países.

 

 

Mas atenção, pode ser que o genocídio faça parte da natureza humana, quer individualmente, quer do seu desenvolvimento possível como sociedade, quer ainda como possível desígnio exterior. E isso conduzir-nos-ia a uma outra história: a nossa.

 

 



 

 

 

(338) A fabricação de iluminados

Tempo estimado de leitura: 16 minutos.

 

Ashraf Ghani é o exemplo clássico das elites neoliberais que o império dos Estados Unidos escolhe, cultiva e instala no poder para servir os seus interesses. Mas o seu histórico não deve ser tomado como um exemplo isolado.

 

Digitando nos seus escritórios herméticos da rua K de DC (Distrito de Columbia), eruditos estudiosos ajudaram a fornecer a justificação política e intelectual para se prosseguir com a ocupação militar estrangeira de duas décadas no Afeganistão. Os grupos de reflexão que lhes proporcionaram empregos pareciam ver a guerra como uma missão civilizacional neocolonial voltada para a promoção da democracia e do esclarecimento para um povo “atrasado”.

 

Permitam-me primeiro homenagear o povo americano, as administrações americanas e o Congresso dos Estados Unidos, e particularmente, o contribuinte americano pelos seus sacrifícios em sangue e tesouro, Ashraf Ghani.

 

 

 

O conceituado jornalista de investigação americano Ben Norton, publicou a 2 de setembro de 2021 na The Grayone, o artigo “How elite US institutions created Afghanistan’s neoliberal Presidente Ashraf Ghani, who stole $169 million from his country” (Como as instituições dos EUA criaram o neoliberal Presidente Ashraf Ghani, que roubou $169 milhões do seu país), que aqui apresento numa tradução livre e não totalmente completa (menos extensa), por me parecer um ponto de vista importante para a compreensão do mundo em que vivemos.

 

Não há indivíduo mais emblemático como representante da corrupção, criminalidade e podridão moral no cerne dos 20 anos da ocupação americana no Afeganistão do que o presidente Ashraf Ghani.

Ghani nasceu numa família rica e influente no Afeganistão. O pai tinha trabalhado para a monarquia do país, encontrando-se politicamente bem relacionado. Ainda jovem, Ghani deixou a terra natal e foi para o Ocidente.

Quando se dá a invasão pelos Estados Unidos em outubro de 2001, Ghani vivera já metade da sua vida nos Estados Unidos, onde estabelecera carreira como burocrata académico ao serviço do Império.

Cidadão dos EUA até 2009, Ghani só decidiu renunciar à cidadania americanaa para concorrer à presidência do Afeganistão.

Um simples olhada à sua biografia, é quanto basta para mostrar como ele foi concebido numa placa Petri das instituições de elite dos EUA.

O cultivo de Ghani pelos Estados Unidos começou quando ele ainda estava no secundário em Oregon, onde se formou em 1967. De lá, foi estudar para a American University em Beirute, onde, como disse o The New York Times, “gostava de Praias do Mediterrâneo, frequentou bailes e conheceu ” a sua esposa libanesa-americana, Rula”.

Em 1977, voltou para os Estados Unidos, onde passaria os próximos 24 anos de sua vida. Completou um mestrado e doutoramento na Columbia University de Nova York. Área de estudos? Antropologia - uma disciplina grandemente infiltrada pelas agências de espionagem dos Estados Unidos e pelo Pentágono.

Na década de 1980, Ghani encontrou facilmente empregos nas melhores escolas: University of California, Berkeley e Johns Hopkins. Tornou-se também uma presença regular nos mídias públicos britânicos, estabelecendo-se como um importante comentarista dos serviços de tradução de afegão (dari e pashtum) ligados à agência de inteligência da BBC. Em 1985, o governo dos Estados Unidos ofereceu a Ghani uma prestigiosa bolsa Fulbright, para estudar escolas islâmicas no Paquistão.

Em 1991, Ghani decidiu deixar a academia para entrar no mundo da política internacional. Ingressou na principal instituição que reforça a ortodoxia neoliberal em todo o mundo: o Banco Mundial. Como demonstrou o economista político Michael Hudson, essa instituição serve como braço virtual das forças armadas dos Estados Unidos.

 

Ghani trabalhou no Banco Mundial durante uma década, supervisionando a implementação dos devastadores programas de ajuste estrutural, medidas de austeridade e privatizações em massa, principalmente no Sul Global, mas também na ex-União Soviética.

Regressado ao Afeganistão em dezembro de 2001, foi rapidamente nomeado ministro das finanças do governo fantoche criado pelos EUA. Como ministro das finanças até 2004 e, posteriormente, presidente de 2014 a 2021, ele empregou os conhecimentos e modos de atuação que tinha desenvolvido no Banco Mundial para conseguir impor na sua terra natal o consenso de Washington.

O regime que Ghani ajudou os Estados Unidos a construir era tão caricaturalmente neoliberal que, inclusivamente, criou uma pasta a ser ocupada por um alto funcionário chamada de “CEO do Afeganistão”.

Na década de 2000, com o apoio de Washington, Ghani planeou gradualmente o seu caminho para vir a conseguir alcançar o totem político. Em 2005, inicia um rito de passagem tecnocrático onde, numa palestra viral no TED, prometeu ensinar ao seu público a “Como reconstruir um estado falido”.

A palestra permite-nos um vislumbre transparente da mente do que é um burocrata imperial treinado pelo Banco Mundial. Ghani ecoou o argumento do "fim da história" de seu mentor Fukuyama, insistindo que o capitalismo se tornou a forma incontestável de organização social do mundo. A questão não era mais sobre qual o sistema que um país queria, argumentou ele, mas sim "qual forma de capitalismo e qual o tipo de participação democrática".

 

Nesse mesmo ano, Ghani proferiu uma palestra na European Ideas Network Conference, na qualidade de novo presidente da Universidade de Cabul, na qual expôs mais alargadamente a sua visão de mundo.

Elogiando o “centro-direita”, Ghani declarou que as instituições imperialistas como a OTAN e o Banco Mundial devem ser fortalecidas para defender a “democracia e o capitalismo”. Insistiu que a ocupação militar americana do Afeganistão era um modelo que poderia ser exportado para todo o mundo, como "parte de um esforço global".

Na palestra, Ghani também refletiu afetuosamente sobre a época em que conduzira a "terapia de choque" neoliberal de Washington na ex-União Soviética: "Na década de 1990 ... a Rússia estava pronta para se tornar democrática e capitalista e acho que o resto do mundo fracassou. Tive o privilégio de trabalhar na Rússia por cinco anos durante esse tempo.”

Ghani estava tão orgulhoso do seu trabalho com o Banco Mundial em Moscovo que, na sua biografia oficial no site do governo afegão, gabou-se de "trabalhar diretamente no programa de ajuste da indústria de carvão da Rússia" – por outras palavras, privatizar as enormes reservas de hidrocarbonetos do gigante da Eurásia.

Enquanto Ghani exibia os seus feitos na Rússia pós-soviética, a UNICEF publicou um relatório em 2001 em que constatou que a década de privatizações em massa impostas à Rússia recém-capitalista causou impressionantes 3,2 milhões de mortes em excesso, reduziu a expectativa de vida em cinco anos e arrastou 18 milhões de crianças para uma pobreza extrema, com “altos níveis de desnutrição infantil”. A principal publicação médica, Lancet, também descobriu que o programa econômico criado pelos EUA, aumentou as taxas de mortalidade dos homens adultos na Rússia em 12,8%, em grande parte devido ao impressionante desemprego masculino de 56,3% que desencadeou.

 

Dado esse histórico odioso, talvez não constitua surpresa que Ghani tenha deixado o Afeganistão com taxas crescentes de pobreza e miséria.

O acadêmico Ashok Swain, professor da Universidade de Uppsala sobre paz e pesquisa de conflitos e da cadeira da UNESCO sobre cooperação internacional da água, observou que, durante os 20 anos de ocupação militar EUA-NATO, “O número de afegãos que vivem na pobreza duplicou, e as áreas de cultivo de papoila triplicaram. Mais de um terço dos afegãos não tem comida, metade não tem água potável e dois terços não tem eletricidade.

O remédio da receita do mercado livre que o presidente Ghani enfiou na garganta do Afeganistão foi tão bem-sucedido quanto a terapia de choque neoliberal que ele e seus colegas do Banco Mundial impuseram à Rússia pós-soviética.

Mas o óleo de cobra económico de Ghani encontrou um público ávido na chamada comunidade internacional. E em 2006, o seu perfil global tinha atingido tal altura que chegou mesmo a ser considerado possível substituto para o secretário-geral Kofi Annan nas Nações Unidas.

Enquanto isso, Ghani recebia grandes somas de dinheiro dos países da NATO e de fundações apoiadas por bilionários para criar um grupo de reflexão cujo nome ficará para sempre tingido de ironia.

 

Em 2006, Ghani aproveitou a sua experiência da implementação de políticas “pró-negócios” na Rússia pós-soviética, para na sua própria terra natal fundar um grupo de reflexão chamado Institute for State Effectiveness (ISE).

 

O ISE apresenta-se a si próprio numa linguagem que poderia ter sido extraída de um folheto do FMI: “As raízes do trabalho do ISE encontram-se num programa do Banco Mundial do final da década de 1990, que visava melhorar as estratégias do país e a implementação do programa. Concentrou-se na construção de coligações para a reforma, implementação de políticas em grande escala e treino da próxima geração de profissionais de desenvolvimento”.

O slogan do grupo de reflexão (think tank) pode ser hoje lido como uma paródia do cliché tecnocrático: “Abordagens centradas no Cidadão para o Estado e o Mercado”.

Além de seu papel para promover reformas neoliberais no Afeganistão, o ISE tem executado programas semelhantes em 21 países, incluindo Timor Leste, Haiti, Quénia, Kosovo, Nepal, Sudão e Uganda. Nesses estados, o grupo de reflexão dizia que fora criado uma “estrutura para compreender as funções do estado e o equilíbrio entre governos, mercados e pessoas”.

 

Legalmente sediado em Washington, o Institute for State Effectiveness é financiado por um Quem é Quem de financiadores de think tank: Governos ocidentais (Grã-Bretanha, Alemanha, Austrália, Holanda, Canadá, Noruega e Dinamarca); instituições financeiras internacionais de elite (Banco Mundial e OCDE); e fundações corporativas apoiadas por bilionários ligadas à inteligência ocidental (Rockefeller Brothers Fund, Open Society Foundations, Paul Singer Foundation e Carnegie Corporation de Nova York).

O cofundador de Ghani foi o entusiasta do mercado livre Clare Lockhart, ex-banqueiro de investimentos e também veterano do Banco Mundial que passou a servir como conselheiro da ONU para o governo afegão criado pela NATO e membro do conselho de curadores da Fundação Ásia, apoiada pela CIA.

A visão obcecada pelo mercado do ISE de Ghani e Lockhart vai fundir-se numa parceria formada em 2008 com o instituto de pesquisas neoliberal Aspen Institute. Segundo o acordo, Ghani e Lockhart lideraram a “Iniciativa de Construção de Mercado” do Aspen, com o fim de “criar o diálogo, estruturas e engajamento ativo para apoiar os países na construção de economias de mercado legítimas”, “visando estabelecer as cadeias de valor e sustentar a credibilidade instituições e infraestrutura para permitir que os cidadãos participem dos benefícios de um mundo globalizado. ”

 

A cereja no topo do absurdo veio em 2008, quando Ghani e Lockhart detalharam a sua visão tecnocrática do mundo, num livro intitulado “Fixing Failed States: A Framework for Rebuilding a Fractured World”.

O primeiro texto que aparece na folha de capa do livro é uma sinopse do guia ideológico de Ghani, Francis Fukuyama, o erudito que declarou de forma infame que, com a queda da União Soviética e do Bloco Socialista, o mundo tinha chegado ao "Fim da História" e que a sociedade humana fora sendo aperfeiçoada devido à ordem democrática liberal capitalista liderada por Washington.

Após o elogio de Fukuyama, segue-se um brilhante endosso do economista peruano de direita Hernando de Soto, autor do tratado "O mistério do capital: Por que o capitalismo triunfa no Ocidente e falha em todos os outros lugares" (spoiler: de Soto insiste que não é o imperialismo). Este Chicago Boy elaborou as políticas neoliberais da terapia de choque aplicadas pelo regime ditatorial de Alberto Fujimori no Peru.

 

A terceira sinopse do livro de Ghani foi composta pelo vice-presidente da Goldman Sachs, Robert Hormats, que insistiu que o livro "fornece uma análise brilhantemente elaborada e extraordinariamente valiosa".

"Consertando Estados Falidos" é uma leitura irritantemente chata e reiterando ao longo de 265 páginas a tese de Ghani: a solução para praticamente todos os problemas do mundo são os mercados capitalistas, e o Estado existe apenas para gerir e proteger esses mercados.

Ghani e Lockhart escreveram: “O estabelecimento de mercados funcionais levou à vitória do capitalismo sobre os seus concorrentes como um modelo de organização económica, aproveitando as energias criativas e empreendedoras de um grande número de pessoas como partes interessadas na economia de mercado.”

 Os leitores deste soporífero neoliberal teriam aprendido o mesmo folheando qualquer panfleto do Banco Mundial.

Além de empregar algumas variações da palavra "mercado" 219 vezes, o livro apresenta 159 usos das palavras "investir", "investimento" ou "investidor". Está também repleto de passagens desajeitadas repetidas maquinalmente, como as seguintes:

 “Embarcar nesses caminhos de transição exigiu esforços para superar a perceção de que o capitalismo é necessariamente explorador e que a relação entre governo e corporações é inerentemente de confronto. Governos bem-sucedidos estabeleceram parcerias entre o estado e o mercado para criar valor para seus cidadãos; essas parcerias são lucrativas financeiramente e sustentáveis ​​política e socialmente.”

 

Destacando o seu fanatismo ideológico, Ghani e Lockhart chegaram ao ponto de afirmar uma "incompatibilidade entre capitalismo e corrupção". Ironicamente, Ghani iria provar o quão absurda era essa declaração, vendendo o seu país para empresas americanas nas quais os seus familiares haviam investido, fornecendo-lhes acesso exclusivo às reservas minerais do Afeganistão e, em seguida, fugindo para uma monarquia do Golfo com 169 milhões de dólares  em fundos estatais roubados.

 

Mas entre as elites, o risível livro foi celebrado como uma obra-prima. Em 2010, “Fixing Failed States” concedeu a Ghani e Lockhart o cobiçado 50º lugar na lista dos 100 maiores pensadores globais da Foreign Policy. A estimada revista descreveu seu Instituto para a Eficácia do Estado como "o think tank (grupo de reflexão) de construção de Estado mais influente do mundo".

O Silicon Valley também se rendeu. A Google convidou os dois para a sua sede de Nova York para apresentarem as conclusões do livro.

 

 

Digitando nos seus escritórios herméticos da rua K de DC (Distrito de Columbia), eruditos estudiosos ajudaram a fornecer a justificação política e intelectual para se prosseguir com a ocupação militar estrangeira de duas décadas no Afeganistão. Os grupos de reflexão que os empregaram pareciam ver a guerra como uma missão civilizacional neocolonial voltada para a promoção da democracia e do esclarecimento para um povo “atrasado”.

Foi nesse ambiente isolado de grupos de reflexão e de universidades americanas politicamente interligadas, que, ao longo dos seus 24 anos nos Estados Unidos, de 1977 a 2001, nasceu o político Ghani.

 

A poderosa Brookings Institution estava apaixonada por ele. Escrevendo no Washington Post em 2012, o diretor intervencionista liberal da pesquisa de política externa do grupo de reflexão, Michael E. O’Hanlon, elogiou Ghani como um "mago da economia".

Mas, entre as organizações que impulsionaram a ascensão de Ghani, a principal foi indubitavelmente o Atlantic Council, o verdadeiro grupo de reflexão da OTAN no DC.

As influências e patrocinadores de Ghani foram claramente evidenciadas na sua conta oficial no Twitter, onde o presidente afegão seguiu apenas 16 perfis. Entre eles estavam a OTAN, a sua Conferência de Segurança de Munique e o Conselho do Atlântico.

O trabalho de Ghani com esse grupo de reflexão remonta a quase 20 anos. Em abril de 2009, Ghani deu uma entrevista bajuladora com Frederick Kempe, presidente e CEO do Atlantic Council. Kempe revelou que os dois eram amigos íntimos e colegas desde 2003:

 

Quando eu vim para o Atlantic Council, nós construímos um Conselho Consultivo Internacional, de presidentes e CEOs de empresas globalmente significativas, e membros do Gabinete - ex-membros do Gabinete de alguns renomados países importantes. Naquela altura, não era tanto que eu estivesse determinado a ter o Afeganistão representado no Conselho Consultivo Internacional, porque nem todos os países do Sul da Ásia o são. Mas eu estava determinado a ter Ashraf Ghani.”

 

Kempe revelou que Ghani não era apenas membro do Conselho Consultivo Internacional, mas também parte de um influente grupo de trabalho do Atlantic Council denominado Strategic Advisors Group. Juntando-se a Ghani no comité estavam ex-altos funcionários de governos ocidentais e oficiais militares, bem como líderes de grandes corporações dos Estados Unidos e da Europa.

Como parte do Grupo de Consultores Estratégicos do Conselho Atlântico, Kempe afirmou que ele e Ghani ajudaram a criar a estratégia da administração de Barack Obama para o Afeganistão:

 

Foi assim que falei com Ashraf pela primeira vez, e conversamos sobre como as metas de longo prazo não eram realmente conhecidas. Apesar de todos os recursos que estávamos a investir no Afeganistão, os objetivos de longo prazo não eram óbvios”, explicou Kempe.

Nessa altura, tivemos a ideia de que deveria haver uma estrutura de 10 anos para o Afeganistão. Mal sabíamos que estávamos a desenvolver e a implementar uma estratégia - porque sempre foi pensada para ser apenas uma estratégia para implementar. Mas, de repente, tínhamos um plano de Obama, ao qual teríamos de colocar essa estratégia de implementação”.

 

Ghani publicou esta estratégia no Atlantic Council em 2009, sob o título “Uma Estrutura de Dez Anos para o Afeganistão: Executando o Plano Obama ... e Além”.

 

Em 2009, Ghani também foi candidato às eleições presidenciais do Afeganistão. Para ajudar a administrar sua campanha, Ghani contratou o consultor político americano James Carville, conhecido pelo seu papel como estratega nas campanhas presidenciais democratas de Bill Clinton, John Kerry e Hillary Clinton.

Na época, o Financial Times descreveu favoravelmente Ghani como "o mais ocidentalizado e tecnocrático de todos os candidatos nas eleições afegãs".

O povo afegão não ficou tão entusiasmado. Ghani acabou derrotado na corrida, ficando com um triste quarto lugar, com menos de 3% dos votos.

 

Quando após a eleição o amigo de Ghani, Kempe, o convida em outubro para uma entrevista, o presidente do Conselho do Atlântico insistiu:

“Algumas pessoas diriam que você fez uma campanha mal sucedida; Eu diria que foi uma campanha de sucesso, mas você não ganhou. ”

Kempe elogiou Ghani, chamando-o "um dos servidores públicos mais capazes em qualquer lugar do planeta" e "concetualmente brilhante".

Kampe também observou que o discurso de Ghani "deve ser considerado provocador para o governo Obama", e que contava com o Conselho do Atlântico para ajudar a formular suas políticas.

Antes da eleição você teria vindo aqui como um americano e afegão com passaporte duplo, mas um dos sacrifícios que você fez para se candidatar foi desistir de sua cidadania americana, pelo que estou horrorizado em saber que você está aqui apenas com um visto de entrada único EUA-Afeganistão”, acrescentou Kempe. “Portanto, o Conselho do Atlântico trabalhará nisso, mas certamente temos que retificar isso.”

 

Ghani continuou a trabalhar em estreita colaboração com o Atlantic Council nos anos que se seguiram, dando constantemente entrevistas e aparecendo em acontecimentos com Kempe, nas quais o presidente do grupo de reflexão afirmou: “No interesse da divulgação completa, devo declarar que Ashraf é um amigo, um amigo querido . ”

Até 2014, Ghani permaneceu um membro ativo do Conselho Consultivo Internacional do Conselho Atlântico, ao lado de vários ex-chefes de estado, o planificador imperial dos EUA Zbigniew Brzezinski, o apóstolo económico neoliberal Lawrence Summers, o oligarca bilionário libanês-saudita Bahaa Hariri, o magnata dos mídia da direita Rupert Murdoch e os CEOs da Coca-Cola, Thomson Reuters, Blackstone Group e Lockheed Martin.

Mas naquele ano, a oportunidade apareceu e Ghani viu sua ambição finalmente ao seu alcance. Ele estava prestes a tornar-se presidente do Afeganistão, cumprindo o papel para que as instituições de elite dos EUA o tinham preparado ao longo de décadas.

 

O primeiro líder pós-Talibã do Afeganistão, Hamid Karzai, tinha-se inicialmente mostrado como um fantoche ocidental leal. No entanto, no final do seu reinado em 2014, Karzai tornara-se um "crítico severo" do governo dos EUA, como disse o Washington Post, "um aliado que se tornou um adversário durante os 12 anos de sua presidência".

Karzai começou a criticar abertamente as tropas dos EUA-NATO por matarem dezenas de milhares de civis. Ele estava enfurecido pela forma como era controlado e procurava maior independência, lamentando:

"Os afegãos morreram numa guerra que não é a nossa".

 

Washington e Bruxelas tinham um problema. Tinham investido no Afeganistão biliões de dólares ao longo de uma década na criação de um novo governo à sua imagem, mas a marionete escolhida estava a começar a querer ter o controle.

Do ponto de vista dos governos da NATO, Ashraf Ghani seria o substituto perfeito para Karzai. Ele era o retrato de um tecnocrata leal e tinha apenas uma pequena desvantagem: os afegãos odiavam-no.

Em 2009, Ghani concorreu abertamente como candidato do Consenso de Washington, obtendo menos de 3% dos votos na eleição. Ele só teve o apoio de algumas elites em Cabul.

Então, para a corrida presidencial de 2014, Ghani e seus assessores ocidentais utilizaram uma abordagem diferente, vestindo Ghani com roupas tradicionais e enchendo os seus discursos com retórica nacionalista.

O New York Times insistiu que ele finalmente encontrara o ponto ideal: “Tecnocrata para populista afegão, Ashraf Ghani transforma-se”. O artigo relatou como Ghani passou de um "intelectual pró-ocidental" que conduzia "conversa fiada num vernáculo melhor descrito como tecnocrata (pense em frases como 'processos consultivos' e 'estruturas cooperativas')" para uma cópia ruim de "populistas que fazem acordos com os seus inimigos, ganham o apoio dos rivais e apelam ao orgulho nacional afegão”.

A estratégia de reajustamento ajudou Ghani a ficar em segundo lugar na primeira volta da eleição de 2014. O seu rival, Abdullah Abdullah, obteve 45% contra 32% de Ghani, com quase 1 milhão de votos a mais.

Na segunda volta de junho, no entanto, a situação mudou de repente. Os resultados foram atrasados ​​e, quando terminaram, três semanas depois, Ghani tinha ganho com uns impressionantes 56,4% contra 43,6% de Abdullah.

Abdullah afirmou que Ghani roubou a eleição por meio de fraude generalizada. As acusações estavam longe de serem infundadas, pois havia evidências substanciais de irregularidades sistemáticas.

Para resolver a disputa, o governo Obama enviou o secretário de Estado John Kerry para Cabul para intermediar as negociações entre Ghani e Abdullah.

A mediação de Kerry levou à criação de um governo de unidade nacional em que o presidente Ghani, pelo menos inicialmente, concordou em dividir o poder com Abdullah, que ocuparia uma função recém-criada, cujo nome refletia de forma transparente a agenda neoliberal de Washington: Chief Executive Officer, ou CEO da Afeganistão.

 

Um relatório publicado em dezembro por observadores eleitorais da União Europeia concluiu que houve, de fato, uma fraude desenfreada nas eleições de junho. Mais de 2 milhões de votos, representando mais de um quarto do total, vieram de assembleias de voto com irregularidades evidentes.

Se Ghani realmente ganhou ou não a segunda volta, era nebuloso. Mas ele conseguiu ultrapassar a linha de chegada, e isso era tudo o que importava. Ele agora era presidente. E os seus patronos imperiais em Washington ficaram mais do que felizes em varrer o escândalo para debaixo do tapete.

 

A aparente manipulação da eleição de 2014 fez pouco para manchar a imagem de Ashraf Ghani nos mídia ocidentais. A BBC caracterizou-o com três termos - “reformador”, “tecnocrata” e “incorruptível” - que se tornariam as descrições favoritas da imprensa para um presidente que abandonou seu país com 169 milhões de dólares e com o rabo entre as pernas.

Num artigo emblemático do retrato de Ghani, o New Yorker afirmou que ele era "incorruptível", saudando-o como um "tecnocrata visionário que pensa vinte anos à frente".

Em março de 2015, Ghani voou para Washington para o seu momento de glória final. O novo presidente afegão fez um discurso numa sessão conjunta do Congresso dos EUA. Foi celebrado como um herói que desbloquearia a magia do mercado livre para salvar o Afeganistão de uma vez por todas.

Os grupos de reflexão e os seus amigos na imprensa não se cansavam de Ghani. Naquele mês de agosto, o diretor sénior de programas da organização de mudança de regime financiada pelo governo dos Estados Unidos, Democracy International, Jed Ober, publicou um artigo na Foreign Policy que refletia o caso de amor do Governo Federal para com o seu homem em Cabul.

 

    “Quando Ashraf Ghani foi eleito presidente do Afeganistão, muitos membros da comunidade internacional se alegraram. Certamente, um ex-funcionário do Banco Mundial com reputação de reformador era o homem certo para consertar os problemas mais flagrantes do Afeganistão e reparar internacionalmente a posição do país. Não havia melhor candidato para levar o Afeganistão a uma nova era de boa governança e começar a expandir os direitos e liberdades que muitas vezes têm sido negados a muitos dos cidadãos do país.”

 

Imperturbável pelas alegações documentadas de fraude eleitoral, o Conselho do Atlântico homenageou Ghani em 2015 com seu "prêmio de distinção de liderança internacional", celebrando o seu "compromisso altruísta e corajoso para com a democracia e a dignidade humana".

O Conselho do Atlântico notou com entusiasmo que Ghani “aceitou pessoalmente o prêmio, que lhe foi entregue pela ex-secretária de Estado Madeleine Albright, em 25 de março em Washington, perante uma audiência de líderes, embaixadores e generais da OTAN”.

Albright, que uma vez defendeu publicamente a morte de mais de meio milhão de crianças iraquianas por sanções lideradas pelos EUA, glorificou Ghani como um "economista brilhante" e afirmou "ele ofereceu esperança ao povo afegão e ao mundo".

A cerimônia oficial do Conselho do Atlântico foi realizada posteriormente em abril, mas Ghani não pôde comparecer, então sua filha Mariam recebeu o prêmio em seu nome […]

 

[…]O marketing do Atlantic Council em nome do presidente Ghani acelerou após a cerimônia. Em junho de 2015, o grupo de reflexão publicou um artigo no seu blog “New Atlanticist” intitulado “IMF: Ghani has Shown Afghanistan is ‘Open for Business’”.

O principal funcionário do Fundo Monetário Internacional no Afeganistão, Chefe da Missão Paul Ross, comunicou ao Conselho do Atlântico que Ghani "sinalizou para o mundo que o Afeganistão está aberto aos negócios e que a nova administração está determinada a prosseguir com as reformas".

O burocrata declarou que o FMI estava "otimista quanto ao longo prazo", sob a liderança de Ghani.

Ghani e seu regime fantoche dos EUA tinham uma espécie de porta giratória com o Conselho do Atlântico, na verdade. O seu embaixador nos Emirados Árabes Unidos, Javid Ahmad, atuava simultaneamente como membro sénior do grupo de reflexão. Ahmad explorou a sua sinecura ali para colocar artigos de opinião nos principais meios de comunicação retratando o seu chefe como um reformador moderado que pretendia "restaurar o debate civil na política afegã".

A Foreign Policy emprestou a Ahmad espaço na sua revista para publicar um de anúncio mal disfarçado de campanha para Ghani em junho de 2014. O artigo elogiava-o como “uma alternativa intelectual, pró-ocidental e altamente educada ao antigo sistema de corrupção e senhorio da guerra do Afeganistão.”

 

À época, Ahmad era coordenador de programa para a Ásia no grupo de lobby da guerra fria financiado pelo governo ocidental, o German Marshall Fund dos Estados Unidos. Os editores da Foreign Policy aparentemente não notaram que o artigo de Ahmad tinha passagens que são quase uma cópia, palavra por palavra, da biografia oficial de Ghani.

 

Na Cimeira da NATO de 2018, o Conselho do Atlântico acolheu mais uma entrevista bajuladora com Ghani. Ostentando os seus supostos “esforços de reforma”, o presidente afegão insistiu, “o setor de segurança está a transformar-se completamente, devido aos esforços contra a corrupção”. Ele acrescentou: “Há uma mudança geracional a ocorrer nas nossas forças de segurança, e em todas as áreas, que considero realmente transformadora”.

 

Essas afirmações cheias de bazófia não envelheceram exatamente bem.

O jornalista que deu a entrevista foi Kevin Baron, editor executivo do site da indústria de armamento, Defense One. Embora a corrupção sistémica e a natureza ineficaz e abusiva do exército afegão fossem bem conhecidas, Baron não contraditou.

No acontecimento, Ghani prestou homenagem ao grupo de reflexão que por tanto tempo serviu como a sua fábrica de propaganda pessoal. Comemorando o CEO do Atlantic Council, Fred Kempe, Ghani disse: “Você tem sido um grande amigo. Tenho grande admiração tanto pela bolsa conquistada como pela sua gestão.”

O caso de amor do Conselho do Atlântico com Ghani continuou até ao vergonhoso fim de sua presidência.

Ghani foi um convidado de honra na Conferência de Segurança de Munique (MSC), apoiada pelo Conselho do Atlântico e patrocinada pelo governo alemão, em 2019. Lá, o aristocrático presidente afegão fez um discurso que faria corar até o mais cínico pseudo-populista, declarando:

“A Paz precisa de ser centrada no cidadão, não centrada na elite.”

O Atlantic Council recebeu Ghani pela última vez em junho de 2020, num acontecimento copatrocinado pelo Instituto da Paz dos Estados Unidos, vinculado à CIA e pelo Fundo Rockefeller Brothers. Seguindo o elogio de Kempe como uma "voz principal pela democracia, liberdade e inclusão", o ex-diretor da CIA, David Petraeus, elogiou Ghani, enfatizando "que privilégio foi trabalhar com [ele] como comandante no Afeganistão".

 

Só depois de Ghani ter roubado abertamente e fugido em desgraça do seu país, em agosto de 2021, é que o Conselho do Atlântico finalmente se voltou contra ele. Depois de quase duas décadas promovendo, cultivando e celebrando-o, finalmente o grupo de reflexão reconheceu que ele era um “vilão escondido”.

Foi uma reviravolta dramática de um grupo de reflexão que conhecia Ghani melhor do que talvez qualquer outra instituição em Washington. Mas ecoou também as tentativas desesperadas de salvar a face por muitas das mesmas instituições de elite dos EUA que transformaram Ghani no assassino econômico neoliberal que ele era.

 

A ilusão de que Ashraf Ghani era um génio tecnocrático continuou até o final de seu desastroso mandato.

A 25 de junho, poucas semanas antes do colapso de seu governo, Ghani encontrou-se com Joe Biden na Casa Branca, onde o presidente dos Estados Unidos garantiu ao seu homólogo afegão o apoio constante de Washington.

Vamos ficar com você”, Biden assegurou a Ghani. “E vamos fazer o nosso melhor para garantir que você tenha as ferramentas de que precisa.”

 Um mês depois, a 23 de julho, Biden reiterou a Ghani num telefonema, que Washington continuaria a apoiá-lo. Mas sem milhares de soldados da NATO a proteger o seu regime vazio, os Talibãs avançavam rapidamente - e tudo desmoronou em questão de dias, como um castelo de areia atingido por uma onda.

 

A 15 de agosto, Ghani tinha fugido do país com sacos de dinheiro roubado. Foi uma refutação surreal da narrativa, repetida ad nauseam pela imprensa, que Ghani era, como a Reuters escrevera em 2019, “incorruptível e erudito”.

As elites em Washington não podiam acreditar no que estava a acontecer, negando o que estavam a ver bem diante de seus olhos.

Até mesmo o lendário ativista anticorrupção progressista Ralph Nader estava em negação, referindo-se a Ghani em termos afetuosos como um "ex-cidadão americano incorruptível".

Poucas figuras representaram melhor a podridão moral e política da guerra de 20 anos dos EUA no Afeganistão do que Ashraf Ghani. Mas seu histórico não deve ser tomado como um exemplo isolado.

 

Foi a oficial Washington, o seu aparelho de grupos de reflexão e o seu exército de repórteres bajuladores que fizeram de Ghani quem ele era. Este foi um facto que ele mesmo reconheceu numa entrevista de junho de 2020 no Atlantic Council, na qual Ghani expressou a sua maior gratidão aos seus patronos:

Permitam-me primeiro homenagear o povo americano, as administrações americanas e o Congresso dos Estados Unidos, e particularmente, o contribuinte americano pelos seus sacrifícios em sangue e tesouro. ”

 

 

 

 

(337) Quem imita quem?

 

Tempo estimado de leitura: 9 minutos.

 

A imitação é uma tendência essencialmente caraterística dos vertebrados.

 

Com o envelhecimento, as fêmeas colibris vão perdendo aquelas cores brilhantes da juventude que as tornam tão atrativas para os colibris macho. A retaliação dos machos a esta perca de colorido não se faz esperar.

 

Não há papéis fixos e determinados entre os seres vivos, o que se pode constatar, por exemplo, na divisão de tarefas para a criação dos filhos, nos variados casos de poliandria e poliginia, e ainda na sua dinâmica comunicativa.

 

Evolução é algo que vai transcorrendo sem uma finalidade adivinhada ou imposta, resultante de um intenso processo de adaptação inter-relacional entre o ser vivo e o meio, processo totalmente aberto e que, além do mais, decorre sempre no presente.

 

 

 

 

É no primeiro episódio da série francesa de televisão “Homem 2.0: Vida melhorada? T1 Ep1 R-Evolução”, que nos é apresentada uma das visões possíveis do futuro da família, hoje presente ainda em número reduzido na sociedade atual: trata-se de uma família constituída por duas mulheres que vivem maritalmente cada uma com um filho obtido através de inseminação artificial, mas com o cuidado do sémen ser do mesmo dador oficial, para que assim as crianças possam ser biologicamente irmãs.

Segundo os estudiosos, para finais deste século, este tipo de solução pode vir a ser bastante comum.

 

Algumas gaivotas, por os locais de nidificação se tornarem muito povoados, são levadas a procurarem outros locais. Um grupo dessas gaivotas optou por uma praia afastada, só que o grupo era composto por poucos machos, o que punha um problema, uma vez que para alimentarem os filhotes seriam necessárias duas gaivotas em permanência (uma no ninho, outra na procura de alimentos).

Assistiu-se então ao reagrupar das gaivotas com casais formados por duas gaivotas fêmeas, juntando-se num ninho em que cada uma punha um ovo em que um seria rejeitado. Estava assim assegurada a alimentação do novo filhote.

 

Um estudo intitulado “Male-like ornamentation in female hummingbirds results from social harassment rather than sexual selection”, publicado na Current Biology de 26 de agosto de 2021, apresenta o caso das fêmeas  colibris (aqueles pequenos passarinhos multicoloridos que parecem parar no ar enquanto chupam o néctar das flores, por isso vulgarmente chamados de ‘beija-flores’) que com o envelhecimento, vão perdendo aquelas cores brilhantes da juventude que as tornam tão atrativas para os colibris macho.

 A retaliação dos machos não se faz esperar: perseguem-nas e afastam-nas violentamente dos locais de comida, o que lhes limita a sobrevivência.

Acontece que neste estudo se verificou que as fêmeas colibris começaram a conservar a sua pelagem colorida durante mais tempo, o que lhes tem permitido serem menos agredidas pelos machos, mantendo-se assim nos locais de comida durante mais tempo sem serem incomodadas.

 

No Journal of Experimental Biology de 6 de julho de 2021, um estudo efetuado na República Checa, “Methamphetamine pollution elicits addiction in wild fish”, chama a atenção para a alteração do comportamento verificado nas trutas selvagens, nomeadamente dependência e decréscimo de tempo de vida, devido aos despejos efetuados para os rios contaminados com drogas.

Verificaram que o consumo agudo e imediato da metanfetamina aumentava a atividade no cérebro dos peixes por um período curto de tempo, e que durante os períodos de abstinência a atividade cerebral diminuía. A recompensa proporcionada pela droga substituia as recompensas naturais provenientes da procura de comida e de acasalamento.

Como consequência, após os dias de abstinência, os peixes afetados tornavam-se menos ativos que os outros, o que lhes diminuía as possibilidades para sobreviverem e para se reproduzirem.

Um parêntesis para quem se interesse por este grave assunto da poluição das águas pelas drogas, para aconselhar um estudo publicado na Environmental, Science & Technology, de agosto de 2016, Ocurrence and Potential Biological Effects of Amphetamine on Stream Communities, que, entre outros, demonstra que expostas às anfetaminas, a produção de  algas parava: as produtoras primárias da bio película faziam pior a fotossíntese, pelo que cresciam menos, o que constitui uma má notícia para os organismos que dependem das bio películas para se alimentarem. As implicações são grandes para a cadeia alimentar.

 

 

Estes são apenas alguns dos muitos casos semelhantes em que o comportamento dos seres humanos se assemelha ao dos outros seres, ou vice-versa, o que pode levar a concluir numa primeira abordagem que é a imitação que estará na base dos comportamentos.  Outros verão nisto apenas uma coincidência, repetível ou não. Outros concluirão que se trata do normal mecanismo da evolução. E aqui teremos de ter cuidado: que mecanismo, e que evolução?

 

Socorro-me da analogia que Humberto Maturana, utilizou na Árvore do Conhecimento para descrever o processo da evolução humana:

 

“Imaginemos uma colina de cimo estreito. Do alto desse cume, lançamos umas gotas de água sempre na mesma direção, ainda que a mecânica do lançamento cause variações no seu modo de cair. Imaginemos que as gotas de água sucessivamente atiradas, deixam marcas sobre a superfície do terreno, que servirão como registos da sua queda. Claro que ao repetirmos várias vezes a experiência, obteremos resultados ligeiramente diferentes. Algumas gotas cairão diretamente para baixo, na direção escolhida, enquanto outras encontrarão obstáculos que contornarão de maneiras diferentes, dependendo das suas pequenas diferenças de peso e impulso, desviando-se para um ou outro lado. Mudanças na direção do vento talvez forcem algumas gotas para caminhos mais sinuosos, afastando-as da direção inicial. E assim indefinidamente. Os caminhos que obtivermos representam adequadamente as múltiplas derivas naturais das gotas de água sobre a colina, resultados dos seus diferentes modos individuais de interagirem com as irregularidades do terreno, dos ventos e assim por diante.”

E, prossegue, ligando agora esta analogia aos seres vivos:

“O cume e a direção inicial escolhida equivalem ao organismo ancestral comum, que dá origem a descendentes com ligeiras variações estruturais. A repetição múltipla equivale às muitas linhagens que surgem a partir desses descendentes. A colina é todo o meio circundante dos seres vivos, que muda segundo o vir-a-ser das linhagens” […] “A analogia mostra-nos que a deriva natural só ocorrerá seguindo os cursos que são possíveis a cada instante, muitas vezes sem grandes variações na aparência dos organismos, e muitas vezes com múltiplas ramificações, dependendo dos tipos de relação organismo-meio que se conservam.

Organismos e meio variam de forma independente: os organismos em cada etapa reprodutiva, e o meio segundo uma dinâmica distinta. Do encontro dessas duas variações surgirão a estabilização e a diversificação fenotípicas, como resultado do mesmo processo de adaptação e da autopoiese, dependendo de quando o encontro acontece: estabilização quando o meio se transforma lentamente; diversificação e extensão quando a mudança é abrupta”.

 

Trata-se, portanto, de algo que vai transcorrendo sem uma finalidade adivinhada ou imposta, resultante de um intenso processo de adaptação inter-relacional entre o ser vivo e o meio, processo totalmente aberto e que, além do mais, decorresse sempre no presente. Uma “deriva”, uma “deriva natural”.

É deste jogo entre as condições históricas em que as linhagens ocorrem e das propriedades intrínsecas dos indivíduos que as constituem, que a constância e a variação das linhagens dependem.

Não é, pois, de estranhar que não haja papéis fixos e determinados entre os seres vivos, o que se pode constatar, por exemplo, na divisão de tarefas para a criação dos filhos, nos variados casos de poliandria e poliginia, e ainda na sua dinâmica comunicativa.

 

Em muitos animais que requerem um aparelho sexual para a reprodução, os filhotes precisam de receber algum cuidado dos pais, mormente na sua geração e criação. Os humanos criados numa cultura patriarcal tendem a pensar que o natural é ser a fêmea a cuidar dos filhos e o macho a sustentá-los e proteger. Provavelmente, fundamos essa suposição no facto de sermos mamíferos, em que nos períodos de amamentação a criança precisar de ficar necessariamente ligada à mãe (não existe nenhuma espécie de mamíferos em que a amamentação seja responsabilidade do macho).

No entanto, esta divisão de papéis que parece tão nítida, está longe de ser universal.

Por exemplo, entre os pássaros encontramos uma grande variedade de condutas. A fêmea da Jaçanã, uma ave sul-americana, vai definir um território mais ou menos amplo em que irá preparar vários ninhos, estabelecendo, entretanto, relações sexuais com vários machos (poliandria), tantos como os ninhos preparados. Depois de fertilizada, ela vai colocar um ovo em cada ninho, reservando só um para um ninho dela. Assim, tanto a fêmea como os machos poderão gozar do prazer de criarem os passarinhos.

Já no caso das avestruzes sul-americanas, o macho acasalará com um harém de fêmeas (poliginia), indo depois cada uma delas depositar um ovo dentro de um mesmo ninho, ficando o macho a tomar conta deles todos.

Os pinguins, que também são aves, resolvem o problema de outra forma. Como se torna necessária a participação dos dois progenitores para que a alimentação dos filhotes seja assegurada, os adultos que ficam em terra permanecem em redor do grupo de filhotes, protegendo-os, formando uma verdadeira creche.

 

Também nos peixes deparamos com variedades de conduta, algumas até surpreendentes. No caso do esgana-gata, é o macho que constrói o ninho, seduz a fêmea e a expulsa logo a seguir à desova. Expulsada a fêmea, o macho passará dias a sacudir a cauda cuidadosamente, para fazer circular a água à volta dos ovos, até os peixinhos nascerem. Depois, dedica-se a cuidar dos filhotes até eles se tornarem independentes. A sua relação com a fêmea dura o tempo da corte e da desova.

 

Os insetos sociais tendem a resolver o problema de outra forma, evidenciando um maior grau de rigidez e inflexibilidade, uma vez que eles se organizam com base numa armadura exterior de quitina, movimentada por músculos interiores. Esta arquitetura impõe um limite máximo ao tamanho dos insetos, e, por consequência, ao tamanho do seu sistema nervoso. Daí que os insetos não se distingam individualmente pela sua variedade comportamental e pela sua capacidade de aprendizagem.

No grupo bastante estudado das formigas mirmiceas, as formas dos vários indivíduos participantes diferem consoante as atividades que realizam na colónia. Com exceção de uma, todas as outras fêmeas são estéreis, realizando tarefas que vão da coleta de alimentos, a defesa, o cuidado dos ovos e a manutenção do formigueiro. Os machos nunca saem, ficando reclusos no interior, ao serviço da única fêmea fértil, a rainha. A reprodução está, pois, restrita à rainha e aos machos. Contudo, todos os indivíduos do formigueiro se encontram ligados numa estrutura fisiológica.

Como se consegue este ‘mecanismo’ que permite a ligação entre as formigas do formigueiro? Através de um intercâmbio de substâncias químicas, oriunda de um fluxo contínuo de secreções entre os membros da colónia: trocam os seus conteúdos estomacais cada vez que se encontram, o que podemos ver quando observamos uma fila de formigas.

Este intercâmbio químico contínuo (trofolaxes) resulta na distribuição por toda a população, de uma certa quantidade de substâncias, entre elas hormônios, que são responsáveis pela diferenciação e especificação de papéis. A rainha é o que é, não por hereditariedade, mas pelo modo como é alimentada. Se a retirarmos do seu lugar, provoca-se de imediato um desequilíbrio hormonal que irá provocar uma mudança na alimentação de algumas larvas que se desenvolverão como rainhas.

 

Os vertebrados, que possuem já um esqueleto interno revestido pelos músculos, não sofrem uma limitação tão severa de tamanho, sendo ainda capazes de um crescimento prolongado. Tal permite-lhes organismos maiores, com mais células, com maiores sistemas nervosos, o que possibilita uma maior diversidade de estados e de condutas.

Por exemplo, com os antílopes, que vivem em terrenos montanhosos, verificamos que animais distintos cumprem funções distintas, permitindo que os membros do rebanho se relacionem em atividades que não lhes seriam possíveis como indivíduos isolados. Se nos tentarmos aproximar do rebanho, vamos verificar que todo ele foge, tentando alcançar um topo mais elevado, de onde ficam a observar o intruso.

Mas, se tiverem de passar por um vale que lhes impeça a visão do intruso, então o rebanho desloca-se todo com o macho dominante à frente, seguido das fêmeas e filhotes. A fechar, seguem os restantes machos do rebanho, um dos quais fica para trás, sobre o topo mais próximo, vigiando o intruso enquanto os demais descem. Logo que eles chegam à nova elevação, junta-se a eles.

 

Já no caso dos babuínos das savanas africanas, em que a ligação intergrupal tende a estabelecer uma hierarquia de dominação entre os machos, quando o grupo migra, os machos e fêmeas dominantes vão no centro, junto com os filhotes, enquanto os outros machos e fêmeas se posicionam estrategicamente à frente e atrás.

Contudo, outros grupos de primatas, revelam modos e estilos de interação diferentes, como são os exemplos das hamadrias do norte de África, habitualmente muito agressivas, com hierarquias de dominação bastante rígidas e dos chipanzés, que têm uma organização grupal muito mais fluída e variável, criando grupos familiares extensos que permitem uma maior mobilidade individual.

 

Esta enorme variedade de comportamentos, verifica-se também no campo da comunicação, entendendo-se por “comunicação, uma classe particular de condutas que ocorrem, com ou sem a presença do sistema nervoso, no operar dos organismos em sistemas sociais”.

 

Vejamos alguns casos: Os pássaros que habitualmente vivem nas selvas, como dificilmente podem manter contacto visual, comunicam-se através do canto: macho e fêmea encontram-se e acasalam estabelecendo um canto comum. Inicialmente parece que cada ave canta uma melodia completa, mas, pela análise mais detalhada, o que se verifica é que cada pássaro constrói uma frase que o outro continua, ou seja, cantam um dueto. Tal melodia é exclusiva de cada par, e assim se vai manter. Até os filhotes de cada par, quando acasalarem, darão origem a melodias que serão diferentes das dos seus pais.

Quando em Inglaterra foram introduzidas as novas tampas de alumínio, em substituição das tampas de papelão, para as garrafas de leite, aconteceu que poucos dias depois desta introdução, as cotovias aprenderam a picotar essas embalagens para se alimentarem da camada superior de nata. O interessante é que esta conduta se expandiu daí para todas as ilhas britânicas, e em pouco tempo todos os pássaros haviam aprendido o truque.

A imitação é uma tendência essencial caraterística dos vertebrados. No caso acima, o que começou como uma conduta localizada, expandiu-se rapidamente. Se os filhotes dos pássaros não fossem capazes de imitar, o hábito de furtar a nata das garrafas teria de ser reinventado a cada geração.

Mas há outros casos de permanência transgeracional de uma conduta adquirida:

Quando, como procedimento de pesquisa numa reserva de macacos situada num arquipélago do Japão, os investigadores espalharam batatas e trigo sobre a areia da praia como forma de atrair os macacos a saírem da selva e virem para o mar, verificaram que uma das fêmeas começou a lavar na água as batatas, retirando-lhes assim a areia que as tornava desagradáveis de comer. Em poucos dias os outros macacos, especialmente os jovens, já a imitavam, lavando as suas batatas. E, com o passar de meses, esta nova conduta já se havia estendido a todas as colónias vizinhas.

Mais tarde, esta mesma macaca, Imo de seu nome cristão, descobriu também a forma de retirar a areia dos grãos de trigo, mergulhando na água a mão cheia de cereais com os dedos entreabertos. Esta invenção expandiu-se também gradualmente pelas colónias da ilha, sendo mais lentos na sua utilização os mais velhos.

 

Estas configurações comportamentais adquiridas na dinâmica comunicativa de um meio social, mantidas estáveis através de gerações, são, efetivamente, condutas culturais. Elas permitem uma certa invariância na história do grupo, para além da história particular dos indivíduos participantes.

A imitação e a continua seleção comportamental entre os grupos desempenham um papel essencial que se expressa no fenómeno cultural. A conduta cultural aparece, assim, como um caso particular de conduta comunicativa, o que faz da dinâmica social um fenómeno biológico.

 

Percebe-se agora melhor que ao longo desta deriva natural dos seres vivos, não seja de admirar que haja muitas extinções, muitas formas surpreendentes e outras que podemos imaginar como possíveis, mas que nunca veremos surgir.

 

Grande parte do acima escrito, foi publicado no blog de 15 de junho de 2016, com o título “O caso da deriva das gaivotas lésbicas” (https://otempoemquevivemosotempoemquevivemos.blogs.sapo.pt/o-caso-da-deriva-das-gaivotas-lesbicas-16920), que começava assim:

 

“A caminhada” era o título que inicialmente tinha pensado para este artigo, só que tal título suporia uma ideia de direção, sentido, finalidade proposta, implicando um fechamento conceitual contrário ao que pretendia. O “caminhar que se faz caminhando” não passa de uma expressão literariamente bonita e moralmente reconfortante, por a todos nos ligar à suposta caminhada do ser humano rumo a qualquer coisa, situada sempre no futuro que ‘terá’ de existir e que por si só acabará por justificar, ou justificará, essa tal caminhada.

 

Percebe-se agora porque não é possível utilizar o conceito de ‘caminhada’.

(336) A intimidade possível

Tempo estimado de leitura: 6 minutos.

 

Aceitar a intimidade é aceitar a possibilidade de que outra pessoa não nos entenda e nos fira, Sally Rooney.

 

Iniciar uma relação é abrir a porta a mudanças e a transformações.

 

 Reconhecer o outro não é uma luta para dele se apoderar.

 

Se faltar intimidade no nosso relacionamento com os outros, aquilo que estamos a fazer é tratá-los como objetos.

 

Acontece que na contemporaneidade dominam os valores empresariais.

 

 

 

 

 

A jovem escritora irlandesa Sally Rooney, autora afamada de Gente normal (livro e série de televisão), deu recentemente uma entrevista onde aflora um dos temas mais importantes para a vivência e convivência humana na nossa sociedade:

 

Deixar que uma pessoa entre na tua vida íntima é correr um risco […] Quando nos aproximamos profundamente a outro ser humano, abrimos a porta a mal-entendidos e à dor […] Aceitar a intimidade é aceitar a possibilidade de que outra pessoa não nos entenda e nos fira.”

“Dificilmente pode existir uma relação profunda, sincera e livre sem algum tipo de conflito ou discrepância. A dor faz parte do amor. Bem assumida, fá-lo crescer. Essa é a natureza da intimidade: contém vulnerabilidade, implica a possibilidade de que apareça a dor.”

“Pode-se desejar ser rico ou ter muito dinheiro. Mas alcançar algo material não é interessante: não te diz nada de ti mesmo e não implica nenhum tipo de aprendizagem. Ao passo que aspirar a ser amado e conseguir sê-lo é interessante por acabas por aprender muito sobre ti mesmo e sobre a outra pessoa.”

“Iniciar uma relação é abrir a porta a mudanças e a transformações […] Conhecer profundamente uma pessoa é um dos maiores reptos da vida porque passamos. Exige muito esforço chegar a conhecer a e conhecer-se a fundo e costume envolver dor. O principal trabalho é olhar o outro a partir de outro ponto de vista, a partir de outros valores, e a não dar por certo que os nossos sejam imutáveis.”

 

 

Ao que tudo indica, no princípio, o ser humano começou por apreender a realidade vendo-a como um total indistinto. Essa forma absoluta de ver a realidade é mais tarde quebrada quando, ao entrar em contacto com outras pessoas, estabelecer uma comunidade, um horizonte pessoal e histórico, vai dar a possibilidade de a consciência se revelar nas suas dimensões estética, intelectual e ética.

Ou seja, por um lado o ser humano encontra-se imerso numa realidade de que faz parte que, só por isso, incorpora as leis do universo exterior, e por outro lado, através da consciência, transcende a variedade de estratos em que participa.

Encontra-se, assim, perante a dualidade existente entre o que chamamos o mundo dos fenómenos e o mundo do ser, mundo em que, transcendendo a multiplicidade dos objetos, vai eleger e escolher o que lhe pareça belo, verdadeiro e bom.

 

Há, portanto, como que uma dimensão intelectual da consciência que permite ordenar o fluxo da consciência a fim de descobrir a realidade (“este desejo de conhecer que se traduz pela busca da verdade, pela necessidade de compreender tudo o que nos rodeia, uma busca de sentido”) e aperceber que as primeiras manifestações que temos da consciência são as da independentização das finalidades biológicas (“verificamos que os nossos desejos nunca são só biológicos, que basicamente gostamos sempre de nos alindarmos nem que não seja para nos libertarmos da redução do imediato, da fúria do utilitarismo, podendo assim ficarmos mais livres para novos desafios”).

E uma consciência dramática surge da relação entre o eu e os outros: o momento de consciência na nossa vida moral verifica-se quando tomamos a decisão de viver como somos na comunidade que elegemos, tendo especialmente em consideração que o mais importante é como eu me comporto, não os princípios morais que possa formular.

 

Dito de outro modo, pode-se, assim, diferenciar entre um mundo dos objetos e um mundo do ser:

Os objetos que conhecemos fazem parte do mundo dos fenómenos, aquele em que a consciência coloca os objetos num mundo confiável, no qual podemos sair e entrar vezes sem conta, recordá-lo de olhos fechados, abrir os olhos porque eles ainda lá estarão: em resumo, colocados no espaço e no tempo.

Mas é no mundo do ser, que não é tão confiável, que foge à nossa frente, que temos os encontros decisivos da nossa vida: aí, medidas e comparações deixam de ser importantes. É neste mundo em que a consciência não sente nem como exterior nem como interior, que se dá o que se chama de reconhecimento.

 

O reconhecimento é uma capacidade humana derivada da sua estrutura psicofísica. Em virtude desta capacidade o homem enfrenta as realidades como tais, e não como meros estímulos, como é o caso dos demais seres vivos. O homem confronta-se com as coisas, com os outros e consigo próprio, como realidades perante as quais responde fazendo a sua vida, desenvolvendo a sua personalidade.

A estrutura psicossomática do homem não está fechada, o homem não nasce pré-determinado. Quer dizer que é o homem com a sua vida quem, instalando-se na realidade, vai encontrando as possíveis maneiras de enfrentar o real.

Por isso, a realidade humana tem um carácter aberto.

 

Sempre que nos relacionamos com outros, praticamos atos de reconhecimento. Esta relação da consciência com o outro, pode ser com outro ser humano, com um ser da natureza (a imaginação infantil com árvores ou outras forças da natureza, a relação com animais) ou com um ser divino sobrenatural.

 

Se esta intimidade faltar no nosso relacionamento com os outros, aquilo que estamos a fazer é tratá-los como objetos. Esta intimidade é talvez a melhor característica da humanidade.

 

Para melhor clarificar o que é o reconhecimento, socorro-me de excertos das lições do professor Mendo Henriques, pela sua clareza e síntese:

 

“O reconhecimento, na sua forma positiva, é o ‘dom criativo de oferecer e receber’, sendo simultaneamente um ato comunicativo na medida em que liga os sujeitos, um ato criativo na medida em que adquirimos identidade através dele, e um ato valorativo ao poder dar lugar a um apelo.

Como nunca sabemos em que momento vai ocorrer nem em que lugar, muito embora ele ocorra sempre em momentos e lugares muito concretos (´e naquela hora, naquele dia, numa celebração de passado, presente ou futuro, num lugar concreto, naquela casa, naquela ponte), o seu acontecer aparecer-nos-á como uma dupla surpresa. O inesperado do acontecimento e o espanto perante a surpresa de ser (afinal o universo não está assim tão alinhado e pré-determinado, ´e sempre possível de nos acontecer).

Claro que teremos de estar preparados, atentos, empenhados, para que essa mútua apropriação (entre o eu e o outro, seja o outro pessoa, natureza ou divino) que é o reconhecimento tenha lugar.

O reconhecimento vai envolver toda a pessoa, requisitando-a quer ao nível dos sentimentos (aqui entendidos como manifestação de um ato de reconhecimento, ou seja como sentimento provindo de uma verdadeira relação entre as pessoas e não só porque se tem sentimentos por outra pessoa) quer ao nível gestual (o gesto, todo e qualquer, é um indicador para nós e para o outro do que temos para dar e do que temos para receber, seja através de movimentos, posturas, sinais, particularmente o rosto e o olhar, que normalmente tudo dizem).

 Finalmente a linguagem é o elemento que vai permitir, através da palavra, transformar o reconhecimento em ação, palavra cada vez mais importante na medida em que nas sociedades atuais a cultura ser cada vez mais distração: é pela palavra que conseguiremos de novo habitar a Terra. Tudo isto dentro de uma comunidade, que sendo mais que uma sociedade, é o espaço de disponibilidade onde tudo isto se desenrola, onde permanentemente se dá e se oferece, se aceita e onde nos acolhemos, sem sombra de egoísmo.”

 

 

Essencialmente, trata-se de compreender a pessoa como uma realidade que permanece por constituição aberta a outras formas de realidade; contemplamos o outro como uma chamada pessoal que aguarda uma resposta nossa.

Isso só é possível com a renúncia da vontade de poder e domínio sobre os outros e com a abertura em verdadeira comunhão ao outro.

 

Reconhecer o outro não é uma luta para dele se apoderar, mas antes um encontro em comunhão não como vencedor, mas como “convencedor”, oferecendo-se e entregando-se. Assim como eu reconheço o outro, também o outro me reconhecerá a mim: trata-se de um reconhecimento mútuo, em que um é para o outro.

O reconhecimento não pode ficar pela constatação física de que o outro está ali: trata-se de um tipo de encontro totalmente diferente. Acreditar no outro é dar-lhe crédito, total confiança. E só quando esse acreditar for recíproco é que estaremos perante uma verdadeira relação de encontro entre o outro e eu.

Reconhecer o outro é, portanto, amá-lo incondicionalmente, descobrindo-o como um outro distinto de mim, e descobrindo-se mutuamente num mais além que se expressa na crença mútua e na vocação pessoal. É tornarmo-nos transparentes um ao outro, só assim sendo possível um mútuo reconhecimento que nos aproxima da pessoa do outro conforme a sua verdadeira vocação.

 

Esta é a versão cristã de reconhecimento, ideal para alguns como indicação do caminho para todos, e que de certo modo tem prevalecido na nossa sociedade.

 

 

Há, contudo, outras interpretações, a começar com a de Hegel. Para ele, a única relação interpessoal possível seria também a resultante do reconhecimento, mas sendo este entendido como luta para cada um se apropriar do outro, como condição de possibilidade para adquirir a sua própria liberdade.

O resultado dessa luta seria a instauração da relação entre o senhor e o escravo, que promoveria tanto a vontade de poder como a alienação despersonalizante.  Hegel limitou-se a constatar a chegada da contemporaneidade, onde dominam os valores empresariais.

 

 

 

 

(335) Os piores dos cegos

Tempo estimado de leitura: 6 minutos.

O subcontinente indiano foi governado indiretamente pela East Indian Company desde 1757, e diretamente pela Coroa Inglesa de 1858 a 1947, durante 89 anos, perfazendo um total de 190 anos.

 

Na Índia, a retirada forçada de hindus de territórios muçulmanos e de muçulmanos de territórios hindus, originou uma das maiores migrações da história da humanidade, com resultados catastróficos.

 

Em 1978, o Partido Democrático do Povo de Afeganistão (PDPA), aboliu o uso da burca, concedeu às mulheres o direito ao divórcio e à propriedade, e promoveu a educação das raparigas.

 

Como é que os talibans, sem força aérea e sem nenhuma superpotência a suportá-los, sem equipamentos militares sofisticados, com um povo tido por iletrado, incapaz de identificar cores, que não distingue entre uma fonte de água para beber e um urinol, preguiçoso e corrupto, conseguiram em tão pouco tempo chegar a Cabul?

 

Esta desistência, deixando-os para trás, é para eles inexplicável: mais uns vinte, quarenta ou mais anos, e talvez fosse possível instaurar em todo o país, ou região, ou local, o que lá tinham ido fazer.

 

 

 

 

 

Foi a 20 de fevereiro de 1947 que o primeiro-ministro britânico, Clement Attlee, anunciou ao parlamento que a Inglaterra abandonaria a Índia antes de 30 de junho de 1948, mediante uma partição territorial a efetuar entre os muçulmanos do Paquistão e os hindus da Índia. Anunciou também que os dois países passariam a fazer parte da Commonwealth (a liga do Bem-Estar Comum, e não da Riqueza-Comum) como domínios independentes, tendo ainda o Ceilão recebido igualmente a promessa de independência para 4 de fevereiro de 1948.

Contudo, Londres nem sequer esperou que o prazo concedido expirasse, e dez meses antes, a 15 de agosto de 1947, o último vice-rei da Índia, Lord Mountbatten, transmitiu os seus poderes.

As tropas britânicas começaram a evacuar o país, deixando muçulmanos e hindus frente a frente. Dessa guerra religiosa provocada, resultarão mais de cem mil mortos, e cerca de quinze milhões de refugiados e migrantes esfomeados, dos quais meio milhão virá a morrer.

A retirada forçada de hindus de territórios muçulmanos e de muçulmanos de território hindu, originou uma das maiores migrações da história da humanidade, com resultados catastróficos. Massacres, fogo posto, conversões forçadas, raptos, violações (cerca de 75 mil mulheres violadas, muitas das quais foram depois desfiguradas ou desmembradas).

Segundo conta Nisid Hajari, no seu Midnight’s Furies: The Deadly Legacy of India’s Partition:

 

 “Alguns soldados ingleses e jornalistas que tinham visto os campos de morte nazis, disseram que as brutalidades da Partição foram piores: mulheres grávidas a quem lhes foram cortados os peitos e retirados dos ventres os bebés; crianças assadas em espetos.”

 

O subcontinente indiano foi governado indiretamente pela East Indian Company desde 1757, e diretamente pela Coroa Inglesa de 1858 a 1947, durante 89 anos, perfazendo um total de 190 anos.

 

 

Em abril de 1978, um golpe de militares “progressistas” colocou no poder o Partido Democrático do Povo de Afeganistão (PDPA), que de imediato começou a tentar modernizar o país, nomeadamente no que diz respeito aos direitos das mulheres, abolindo o uso da burca, atribuindo o direito ao divórcio e à propriedade, e promovendo a educação das raparigas. Ao mesmo tempo iniciou a distribuição de terras pelos camponeses pobres e restringiu os poderes do clero muçulmano (mulás).

Em resposta, os mulás disseram aos camponeses que Alá enforcá-los-ia de cabeça para baixo para todo o sempre se eles permitissem que as mulheres andassem de rosto descoberto e se as raparigas fossem à escola. Estavam criados os ingredientes necessários para o que foi talvez a primeira guerra da história envolvendo direitos das mulheres.

A revolta cresceu especialmente fora das cidades, e o PDPA para sobreviver optou pelo aumento da repressão sobre os opositores, ao mesmo tempo que pedia ajuda militar à União Soviética. Com a situação a deteriorar-se, a União Soviética envia em 1979, 80.000 tropas para o Afeganistão.

Inteligentemente, os EUA exploram esta “invasão”, apelidando-a de “expansionismo global soviético”, boicotando os Jogos Olímpicos de 1980 em Moscovo, e aumentando a ajuda militar e monetária (3 biliões de dólares) aos Mujahidins, os “combatentes pela liberdade”.

No início de 1989, Gorbachev retira as tropas soviéticas do Afeganistão (razões económicas e políticas). Em 1991, a União Soviética desfaz-se. A ajuda soviética ao Afeganistão desaparece, e rapidamente o regime afegão do PDPA, apesar da resistência militar oferecida (cerco de Jalalabad) entra em colapso. Em 1992, os Mujahidins tomam Cabul.

 

Para além da anunciada retirada total de direitos às mulheres e raparigas que se lhe seguiu, a insegurança constante e permanente, as guerras tribais sucessivas, um estado de quase caos e total corrupção, levaram a que uma parte desses Mujahidins e outros afegãos que anteriormente se tinham refugiado no Paquistão, formassem um grupo de Talibans (tradução = estudantes), que em 1996 já controlavam a maior parte do país.  

Note-se que os Talibans visavam apenas garantir segurança e estabilidade às pessoas, ao acabarem com as guerras tribais. O estatuto das mulheres e demais era exatamente igual ao seguido pelos Mujahidins, que, aliás, tinham sido tão apreciados por grande parte da comunicação social internacional quando combatiam os soviéticos como sendo os “puros representantes da verdadeira cultura ancestral do povo”.

 

Durante os anos do governo do PDPA, as raparigas que frequentavam o ensino e até algumas mulheres em Cabul podiam ser vistas a andar de minissaia (o que de certa maneira também define o nosso conceito de modernidade, liberdade e civilização).  O seu brusco regresso à burca e a casa, não foi então visto, proclamado, nem chorado pela comunicação social da época.

O Los Angeles Times reconheceu a posteriori:

As mulheres nas cidades do Afeganistão gozavam, provavelmente, de mais liberdade durante o regime de Cabul apoiado pelos soviéticos entre 1979 e 1992.”

 

 

Noventa por cento dos americanos aprovaram que os EUA atacassem o Afeganistão, 65 por cento não sentiam desconforto com a possibilidade de serem mortos afegãos civis, e só 22 por cento julgavam que a guerra duraria mais de dois anos.

Segundo a Forbes e a Brown University (“Cost of War”), nestes vinte anos morreram 2.500 militares americanos, 4 mil prestadores de serviços, 69 mil polícias militares, 47 mil civis e 51 mil combatentes inimigos.

Nestes vinte anos, os EUA gastaram mais de 2 triliões de dólares, o que dá 300 milhões por dia, o que permitiria dar a cada um dos 40 milhões de habitantes do Afeganistão, 50 mil dólares. Tal como no Vietname, em que os cálculos dariam para cada vietnamita ficar com uma casa equipada com eletrodomésticos e um carro, teriam ganho a guerra.

 

Para quem se queira inteirar com mais pormenor porque é que vinte anos depois dos EUA terem corrido do poder os talibans em 2001 acabaram por assistir á sua renovada instalação no palácio presidencial em Cabul em 2021, aconselho a leitura do livro exaustivo de Craig Whitlock, The Afghanistan Papers: A Secret History of the War.

Ficar-se-á a perceber (as mentiras, as incompetências e corrupções, desilusões e negações, cobardias institucionais, etc.)  porque é que os talibans, sem força aérea e sem nenhuma superpotência a suportá-los, sem equipamentos militares sofisticados, com um povo tido por iletrado, incapaz de identificar cores, que não distingue entre uma fonte de água para beber e um urinol, preguiçoso e corrupto, utilizando apenas os mesmos argumentos que anteriormente usara, ou seja, a segurança e a estabilidade, conseguiram em tão pouco tempo chegar a Cabul.

 

 

As descolonizações (pois é disso que se trata) trazem sempre consigo estes dramas humanos quase sempre trágicos ao nível individual, em que alguns poucos acreditaram, se convenceram ou foram convencidos que eram iguais aos que os colonizavam, qual canários que postos numa gaiola chilreiam alegre e entusiasticamente julgando que estão livres.

Alguns, com sorte, talvez por terem pele clara e falarem a língua dos colonos, mais possíveis de assimilar, mas mais exatamente por serem em número pequeno, acabam colocados à frente dos outros vários milhões de deslocados que se encontram retidos nos vários campos de refugiados criados para o efeito.

 

Individualmente, cada um quer é saber do seu caso (e isso já é sinal de assimilação cultural): não presenciaram eles a entrada de tropas estrangeiras que julgavam ser apenas para dirigir o trânsito? De aviões e foguetes apenas para iluminar os céus? As mortes que eram sempre longe das cidades, escondidas, sempre de outros desconhecidos, e que provavelmente tinham como merecidas, até porque acabariam por acontecer naturalmente, pela idade ou por doença, ou porque não contavam para a contabilidade oficial.

 

Esta desistência, deixando-os para trás, é para eles inexplicável: mais uns vinte, quarenta ou mais anos, e talvez fosse possível instaurar em todo o país, ou região, ou local, o que lá tinham ido fazer. E o que tinham lá ido fazer?

Proteger os direitos das mulheres e crianças. Transformar o “Me too” no “You too”. Por o não terem feito na década de 70. Também na altura não se tinha ainda dado o “Me too” e não sabiam que os direitos das mulheres eram tão importantes. Agora que sabem, vão-se retirar de cá para invadirem outros países onde as mulheres não têm direitos. Agora é que é.

 

 

Nós temos um provérbio para estas (e outras) situações: “Não há pior cego do que aquele que não quer ver”.

Relembro um discurso do general Eanes, já Presidente da República, quando, para justificar uma sua tomada de posição que contrariava o desejado por forças de esquerda, dizia (cito de memória):

 

Se o povo português é conservador, pois há que sê-lo.”

 

Esta sintonia (evidentemente nem sempre conseguida), mais este pensamento, este cuidado com algumas maneiras de ser, por vezes aspirações, de algo que não se sabe muito bem o que é mas que permanece como inconsciente coletivo por um tempo sempre superior ao individual, e por isso tido como intemporal, em parte explicado por Marc Ferro  quando fala sobre o ressentimento na história (blog de 08 de janeiro de 2020), mas tão bem apreendido pelo poeta grego Constantino   Cavafy há 111 anos, com o seu “À espera dos bárbaros, e que aqui de novo reproduzo numa tradução de Jorge de Sena:

 

 

O que esperamos nós em multidão no Fórum?

 

Os Bárbaros, que chegam hoje.

 

Dentro do Senado, porque tanta inação?

Se não estão legislando, que fazem lá dentro os senadores?

 

É que os bárbaros chegam hoje.

Que leis haviam de fazer agora os senadores?

Os Bárbaros, quando vierem, ditarão as leis.

 

Porque é que o Imperador se levantou de manhã tão cedo?

E às portas da cidade está sentado,

no seu trono, com toda a pompa, de coroa na cabeça?

 

Porque os bárbaros chegam hoje.

E o Imperador está à espera do seu Chefe

para recebê-lo. E até já preparou

um discurso de boas-vindas, em que pôs,

dirigidos a ele, toda a casta de títulos.

 

E porque saíram os dois Cônsules, e os Pretores,

Hoje, de toga vermelha, as suas togas bordadas?

E porque levam braceletes, e tantas ametistas,

e os dedos cheios de anéis de esmeraldas magníficas?

E porque levavam hoje os preciosos bastões,

com pegas de prata e as pontas de ouro em filigrana?

 

Porque os Bárbaros chegam hoje,

e coisas dessas maravilham os Bárbaros.

 

E porque não vieram aqui, como é costume, os oradores

para discursar, para dizer o que eles sabem dizer?

 

Porque os Bárbaros é hoje que aparecem,

e aborrecem-se com eloquências e retóricas.

 

Porque, sùbitamente, começa um mal-estar,

e esta confusão? Como os rostos se tornaram sérios!

E porque se esvaziam tão depressa as ruas e as praças,

e todos voltam para casa tão apreensivos?

 

Porque a noite caíu e os Bárbaros não vieram.

E umas pessoas que chegaram da fronteira

dizem que não há lá sinal de Bárbaros.

 

E agora, que vai ser de nós sem os Bárbaros?

Essa gente era uma espécie de solução.

 

 

 

 

 

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